sábado, 31 de dezembro de 2016

SESSÃO 56: 20 DE FEVEREIRO DE 2017


SESSÃO ESPECIAL
FIM DA MASTERCLASSE SOBRE A ACTRIZ

CAMELOT (1967)

“Camelot”, filme de Joshua Logan, com música de Frederick Lowe e poemas de Alan Jay Lerner, e interpretações de Richard Harris, Vanessa Redgrave e Franco Nero, partiu de uma versão teatral de um musical homónimo estreado na Broadway a 6 de Dezembro de 1960. Em 1956, Frederick Lowe e Alan Jay Lerner haviam estreado com um sucesso retumbante “My Fair Lady”, que estaria em cena durante 2.717 representações. A dupla regressava, quatro anos depois, com a adaptação de um romance de T.H.White, “The Once and the Future King”, que recuperava os tempos dos “Cavaleiros da Távola Redonda”, e os amores de Guenevere, Artur, o rei, e Lancelot du Lac, cavaleiro. E tudo anunciava um sucesso semelhante... Na Broadway, a peça teve 873 representações. Apesar de ter sido aguardada com enorme expectativa, a crítica reagiu mal. Estreou no Majestic Theatre, de Nova Iorque, com um elenco de luxo: Richard Burton, Julie Andrews, Roberet Goulet, Robert Coote, Roddy McDowall, entre outros. A direcção esteve a cargo de Moss Hart. A coreografia era da responsabilidade de Hanya Holm e o belíssimo guarda-roupa trazia a assinatura de Adrian e Tony Duquette.


A adaptação cinematográfica de “Camelot” mantém a partitura musical de Frederick Lowe e os poemas de Alan Jay Lerner. A produção esteve a cargo de Sonny Burke, com direcção musical de Alfred Newman e direcção vocal de Ken Darby. Entre os seus números mais conhecidos e popularizados contam-se “Camelot”, “How To Handle a Woman”, “If Ever I Would Leave You” ou “C’est Moi”. Joshua Logan foi o director escolhido pela Warner para adaptar a cinema este musical. Não muito tempo antes conhecera um enorme sucesso com “Piquenique”, um fabuloso melodrama de amor, a que se seguiriam “Paragem de Autocarro”, com Marilyn Monroe, “Sayonara”, com Marlon Brando, e um desencorajante “Ao Sul do Pacífico”, que todavia conta com fiéis indiscutíveis, dada a qualidade da sua partitura. Com “Camelot” regressava ao melhor da sua inspiração.
Esta aventura lendária por terras do Rei Artur custou 15 milhões de dólares. Edward Carrere, o director artístico, criou um castelo de Camelot digno do orçamento, e dos contos de fadas, e John Truscott vestiu as personagens com um guarda-roupa sumptuoso. Joshua Logan conduziu o filme com mão mestre, valorizando devidamente os momentos musicais.
“Camelot” tem interpretações de Richard Harris, no papel de Rei Artur, a inglesa Vanessa Redgrave como Guenevere, o italiano Franco Nero como Lancelot (dobrado nas cenas cantadas por Gene Merlino), e ainda David Hemmings, como Mordred, Lionel Jeffries como Rei Pellinore e Laurence Naismith, na figura de Merlin. Entre todos, Franco Nero é o mais discutível.
Casado com Guenevere, o rei Artur quer restabelecer na sua corte a época de ouro dos “Cavaleiros da Távola Redonda”. O espírito da cavalaria instalava-se nesse reino de quimérica felicidade. Mas Lancelot, a quem o rei Artur muito queria, acaba por trair essa amizade seduzindo, ou deixando-se seduzir por Guenevere. O que leva o casal de adúlteros ao castigo e Camelot à ruína dos seus ideais.
Derradeira grande produção de Jack Warner para a Warner Bros., “Camelot” recebeu no ano de 1967 nomeações da Academia de Hollywood para melhor fotografia, melhor guarda-roupa, melhor som e melhor partitura musical. Não receberia nenhuma das estatuetas, mas ficaria ainda assim bem colocado nas preferências do público.

CAMELOT
Título original: Camelot
Realização: Joshua Logan (EUA, 1967); Argumento: Alan Jay Lerner, segundoo uma peça teatral sua ("Camelot"), a partir de uma obra de T.H. White "The Once and Future King"); Produção: Jack L. Warner, Joel Freeman; Música: Alfred Newman; Fotografia (cor): Richard H. Kline; Montagem: Folmar Blangsted; Design de produção: John Truscott, Edward Carrere; Direcção artística: Edward Carrere; Decoração: John Brown; Guarda-roupa: John Truscott; Maquilhagem: Gordon Bau, Jean Burt Reilly; Direcção de produção: Tadeo Villalba; Assistente de realização: Arthur Jacobson; Departamento de arte: Edward Carrere, John Truscott, Craig Binkley, Ward Preston; Som: M.A. Merrick, Dan Wallin; Efeitos especiais: Johnny Borgese, Robie Robinson; Companhias de produção: Warner Brothers/Seven Arts; Intérpretes: Richard Harris (Rei Arthur), Vanessa Redgrave (Guenevere), Franco Nero (Lancelot Du Lac), David Hemmings (Mordred), Lionel Jeffries (Rei Pellinore), Laurence Naismith (Merlyn), Pierre Olaf (Dap), Estelle Winwood (Lady Clarinda), Gary Marshal (Sir Lionel), Anthony Rogers (Sir Dinadan), Peter Bromilow (Sir Sagramore), Gary Marsh, Nicolas Beauvy, Fredric Abbott, Leon Greene, Michael Kilgarriff, Christopher Riordan, etc. Duração: 179 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 25 de Outubro de 1967. 


VANESSA REDGRAVE (1937 - )
Esta é uma das grandes actrizes inglesas do século XX. Tive a sorte de a ver no teatro, em Londres, em 1979, a interpretar "Ellida", na belíssima peça de Henrik Ibsen, "The Lady from the Sea". Foi uma produção da Royal Exchange no New Round House Theatre. Ela contracenava com Graham Crowden e Terence Stamp, num espectáculo magnífico que dava bem a medida do talento e da delicadeza desta mulher admirável.  
Nasceu a 30 de Janeiro de 1937, em Greenwich, Londres, Inglaterra. Filha dos actores Michael Redgrave e Rachel Kempson. Irmã de Corin Redgrave e Lynn Redgrave. Na família ainda se encontram outros membros dedicados às artes, como Jemma Redgrave (sobrinha) e Liam Neeson (genro). Casada com Tony Richardson (1962–1967) e Franco Nero (2006–até ao presente). Entre 1971 e 1986 manteve uma relação com o actor Timothy Dalton. Três filhos: Natasha Richardson (1963–2009), Joely Richardson (1965) e Carlo Gabriel Nero (1969). Laurence Olivier anunciou o nascimento de Vanessa durante uma representação de Hamlet, no Old Vic, informando o público que o seu colega de palco, Sir Michael Redgrave acabara de ter uma filha. Foi educada na Alice Ottley School e na Worcester & Queen's Gate School, de Londres, antes de se estrear no teatro. Entrou para a Central School of Speech and Drama em 1954. Estreia-se no West End em 1958. Foi, no entanto, em 1961, ao interpretar Rosalind, na peça “As  You Like It”, na Royal Shakespeare Company, que ela começou a chamar definitivamente a atenção para o seu talento, que não mais deixaria de brilhar, tanto no teatro, como no cinema e na televisão. Integrou o elenco de mais de 35 espetáculos, tanto no West End de Londres, como na Broadway de Nova Iorque, ganhando tanto o Tony como o Olivier. No cinema surgiu em mais de 80 títulos, sempre com indiscutível sucesso, sendo de referir “Blowup” (1966), “Isadora” (1968), “Mary, Queen of Scots” (1971), “The Devils” (1971), “Julia” (1977), “The Bostonians” (1984), “Howards End” (1992), “Mission: Impossible” (1996) ou “Atonement” (2007). Tanto Arthur Miller como Tennessee Williams consideraram-na “a maior actriz viva do nosso tempo”.
Até hoje é a única actriz inglesa a ganhar os prémios mais importantes de cinema, teatro e televisão: Oscar, Emmy, Tony, Olivier, Cannes, Veneza, Golden Globe e Screen Actors Guild. Conta com mais de meia centena de nomeações e mais de quarenta prémios internacionais. Cinco nomeações para Oscars nos filmes “Howards End” (1992), “The Bostonians” (1984),  “Mary, Queen of Scots” (1971), “Isadora” (1968) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966)e um Oscar ganho com “Júlia” (1977). Treze nomeações para os Globos de Ouro, de que triunfou duas vezes (“Júlia”, 1977, e “If These Walls Could Talk 2”, 2000, respectivamente em cinema e televisão). As restantes nomeações foram para “The Gathering Storm” (2002), “Bella Mafia” (1997), “A Month by the Lake” (1995), “A Man for All Seasons” (1988), “Prick Up Your Ears” (1987), “Second Serve” (1986), “The Bostonians” (1984), “Mary, Queen of Scots” (1971), “Isadora” (1968), “Camelot” (1967) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966). Ganhou dois Emmys, com “Playing for Time” (1980) e “If These Walls Could Talk 2” (2000). Foi ainda nomeada pelo trabalho em “The Gathering Storm” (2002), “Young Catherine” (1991), “Second Serve” (1986) e “Peter the Great (1986). Várias nomeações para os BAFTAS e um honorário em  2010. Ganhou o Festival de Cannes por duas vezes, com “Isadora” (1968) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966). Recebeu o David di Donatello com “Mary, Queen of Scots” (1971). Ganhou em Veneza, com “Little Odessa” (1994). A esses devem juntar-se dezenas de outros prestigiados prémios e distinções.  Vanessa Redgrave é ainda conhecida por defender causas sociais e políticas, sendo muito comentada a sua contribuição para a defensa do estado palestiniano.



Filmografia

Cinema: 1958: Behind the Mask (Por Detrás da Máscara), de Brian Desmond Hurst; 1959: A Midsummer Night's Dream (TV); 1960: BBC Sunday-Night Play (TV) -Twentieth Century Theatre: The Elder Statesman; 1963: As You Like It (TV); 1964: Armchair Theatre (TV) ; First Night (TV); 1965: Love Story (TV); 1966: A Farewell to Arms (TV); 1966: A Man for All Seasons (Um Homem para a Eternidade), de Fred Zinnemann; The Sailor from Gibraltar, de Tony Richardson; Blow-Up (Blow-Up, História de um Fotógrafo), de Michelangelo Antonioni; Morgan: A Suitable Case for Treatment (Morgan - Um Caso para Tratamento), de Karel Reisz; 1967: Camelot (Camelot), de Joshua Logan; Red and Blue, de Tony Richardson (curta-metragem); 1968: The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira), de Tony Richardson; Isadora (Isadora), de Karel Reisz; Un Tranquillo Posto di Campagna (Um Tranquilo Lugar na Província), de Elio Petri; The Seagull (A Gaivota), de Sidney Lumet; 1969: Oh What a Lovely War! (Viva a Guerra!), de Richard Attenborough; 1970: Drop Out, de Giovanni Brass; The Devils (Os Diabos), de Ken Russell; En mor med två barn väntandes sitt tredje (curta-metragem); 1971: The Trojan Women (As Trioanas),  de Michael Cacoyannis; Mary, Queen of Scots (As Duas Rainhas), de Charles Jarrott; 1972: La Vacanza, de Giovanni Brass; 1973: A Picture of Katherine Mansfield (TV); 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1975: Out of the Season (Fora de Estação), de Alan Bridges; 1976: The seven per cent solution (O Regresso de Sherlock Holmes), de Herbert Ross; 1977: Julia (Júlia), de Fred Zinnemann: 1979: Agatha (O Mistério de Agatha), de Michael Apted; Bear Island (A Ilha dos Ursos), de Don Sharp; 1980: Yanks (Yanks), de John Schlesinger; Playing for Time (TV); 1982: My Body, My Child (Meu Corpo, meu Filho), de Marvin J. Chomsky (TV): 1983: Sing Sing, de Sergio Corbucci; Wagner (TV); 1984: The Bostonians (As Mulheres de Boston), de James Ivory; Steamin, de Joseph Losey; Faerie Tale Theatre (TV)  episódio Snow White and the Seven Dwarfs, de Peter Medak; 1985: Whetherby, de David Hare; 1985: American Playhouse (TV); 1986: Comrades, de  Bill Douglas; Second Serve (TV); Peter the Great (TV); 1987: Prick Up Your Ears (Vidas em Fúria), de Stephen Frears; 1988: Consuming Passions (A Louca Doçura), de Giles Foster; A Man for All Seasons (Conflito Mortal), de Charlton Heston (TV); 1989: Pokhorony Stalina, de Evgeniy Evtushenko; 1990: Diceria dell'untore, de Beppe Cino; Romeo.Juliet, de Armondo Linus Acosta; No Calor do Sul (TV);  1991: Ballad of the Sad Café (A Balada das Paixões), de Simon Callow; What Ever Happened to Baby Jane? (TV); Young Catherine (TV); 1992: Howards End (Regresso a Howards End), de James Ivory; 1992: Indiana Jones - Crónicas da Juventude (TV); 1993: The House of the Spirits (A Casa dos Espíritos) de Bille August; Un Muro de Silencio, de Lita Stantic; Great Moments in Aviation (TV); 1993 They Eles vêem), de  John Korty (TV); 1994: Storia di una Capinera, de Franco Zeffirelli; 1995 The Wind in the Willows (TV); Down Came a Blackbird (TV); 1995: Little Odessa de James Gray (Viver e Morrer em Little Odessa), de James Gray; Mother's Boy (Assédio Fatal), de Yves Simoneau; A Month by the Lake (Amor à Beira do Lago) de John Irvin; 1996: Smilla's Sense of Snow (Smilla e o Mistério da Neve), de Bille August; 1996: Mission Impossible (Missão Impossível), de Brian De Palma; The Willows in Winter (TV); 1996 Two Mothers for Zachary (TV);  1997: Wilde (Wilde), de Brian Gilbert; Déjà Vu, de Henry Jaglom; Mrs. Dalloway, de Marleen Gorris; Bela Mafia (TV);  1998: Deep Impact (Impacto Profundo), de Mimi Leder; Lulu on the Bridge, de Paul Auster; Cradle will Rock (América - Anos 30), de Tim Robbins; Le Clandestin, de Carlos Gabriel Nero; 1999 Girl, Interrupted (Vida Interrompida), de James Mangold; Uninvited, de  Carlo Gabriel Nero; Eleonora (TV); A Rumor of Angels, de Peter O'Fallon; Mirka, de Rachid Benhadj; 2000: The 3 Kings, de Shaun Mosley; Escape to Life: The Erika and Klaus Mann Story, de  Wieland Speck, Andrea Weiss; Children's Story, Chechnia (Curta-metragem) (voz); If These Walls Could Talk 2 (Amor no Feminino) (TV); 2001: The Pledge (A Promessa), de Sean Penn; 2002: Crime and Punishment, de Menahem Golan; Jack and the Beanstalk: The Real Story (TV);  The Locket (TV); The Gathering Storm (O Homem Que Mudou o Mundo), de Richard Loncraine; 2003: Good Boy! (Um Cão do Outro Mundo), de John Hoffman; Byron (TV); 2004: The Fever, de Carlo Gabriel Nero; 2005: The Keeper: The Legend of Omar Khayyam, de Kayvan Mashayekh; Short Order, de Anthony Byrne; The White Countess (A Condessa Russa), de James Ivory; 2006: The Thief Lord, de Richard Claus; The Shell Seekers (TV);  2007: How About You..., de  Anthony Byrne; The Riddle, de Brendan Foley; Venus (Venus), de Roger Michell; Evening (Ao Anoitecer), de Lajos Koltai; Atonement (Expiação), de Joe Wright; 2008: Restraint (Ravenwood - Jogo de Sobrevivência), de  David Denneen;Ein Job (TV); Gud, lukt och henne; 2009: Identity of the Soul, de Thomas Høegh; 2004-2009: Nip/Tuck (TV);  The Day of the Triffids (TV); 2010: Lettres à Juliette (Cartas para Julieta), de Gary Winick; Konferenz der Tiere (Animais Unidos Jamais Serão Vencidos), de Reinhard Klooss, Holger Tappe; Miral, de Julian Schnabel; 2011: Anonymous (Anónimo), de Roland Emmerich; Coriolanus (Coriolano), de Ralph Fiennes; Cars 2 (Carros 2), de John Lasseter, Brad Lewis; The Whistleblower (Delatora), de Larysa Kondracki; Song for Marion, de Paul Andrew Williams; The Last Will and Testament of Rosalind Leigh, de Rodrigo Gudiño; Political Animals (TV); 2013: The Butler (O Mordomo) de Lee Daniels; 2014: Black Box (TV); The Thirteenth Tale (TV); Playhouse Presents (TV); 2012-2015: Old Roseanne McNulty (Chamem a Parteira) (TV); 2015:

SESSÃO 55: 13 DE FEVEREIRO DE 2017


DISPOSTA A TUDO (1995)

“To Die For” tem por base um argumento de Buck Henry que se baseia numa obra homónima de Joyce Maynard que, por sua vez, parte de um caso verídico. A história real é a de Pamela Smart, uma jovem nascida em 1967, em Coral Gables, na Florida, que, em 1989, casou, em New Hampshire, com Greggory Smart, enlace que durou um ano, até que, em 1990, o marido foi encontrado morto em casa, enquanto a mulher se encontrava ausente. Pamela trabalhava numa radio local, a WVFS, onde tinha um programa dedicadio à sua paixão, o heavy metal, e que se chamava obviamente, “Metal Madness", ou "Maiden of Metal". Além disso trabalhava num documentário, "Project Self-Esteem", sobre os alunos de uma escola local, a Winnacunnet High School, em Hampton, New Hampshire, o que a levou a travar conhecimento com um adolescente de 15 anos, William "Billy" Flynn, e outros jovens de quem se dizia amiga. De "Billy" Flynn tornou-se amante e, ao que se sabe através das investigações policiais e do julgamento seguinte, ela terá aliciado o jovem amante, com a colaboração de dois ou três amigos, a matar o marido, numa noite em que ela estivesse ausente de casa em trabalho, para assim possuir um bom alibi. O que aconteceu a 1 de Maio de 1990, em Derry, New Hampshire. O trabalho da polícia conduziu a revelações que a implicavam como o cérebro do crime. Um dia, um dos detectives, Daniel Pelletier, foi ao seu encontro e disse-lhe: “Tenho uma boa e uma má notícia para si. A boa é que descobrimos quem matou o seu marido. A má é que está presa por esse crime”. Nesta altura, com 49 anos, cumpre prisão perpétua na prisão de segurança máxima de Bedford Hills Correctional Facility for Women, em Westchester County, Nova Iorque. O julgamento deste caso, muito mediático por natureza, foi o primeiro transmitido em directo pela televisão. Pamela Smart, por portas travessas, conseguia o desiderato da sua vida: ser uma estrela de televisão, atingir a fama. Mas por que preço?
O caso entrou para a história da cultura pop norte-americana, muito curiosa quanto a assassinatos e criminosos. Foi tema de um episódio da serie “Law & Order” ("Renunciation"), e de outra do Discovery Channel, “Scorned: Love Kills”. A cadeia HBO lançou um documentário, “Captivated: The Trials of Pamela Smart”, realizado por Jeremiah Zagar. Uma outra série de crime, “American Justice” não esqueceu o drama: "Crime of Passion: The Pamela Smart Story." Dean J. Smart, irmão da vítima Gregg Smart, foi entrevistado em “Skylights and Screendoors” e a própria Pamela Smart apareceu no programa de Oprah, onde reclamou da sua inocência. A televisão dedicou-lhe igualmente um teledramático, “Murder in New Hampshire: The Pamela Wojas Smart Story”, com Helen Hunt no papel de Pamela. Joyce Maynard efabulou sobre o caso no livro “To Die For”, obra adaptada por Gus Van Sant em 1995. Pamela teve, e continua a ter os seus momentos de fama.


“Disposta a Tudo” não é completamente fiel ao caso de Pamela Smart, mas procura reter o essencial. A história fala de Suzanne Stone, de Little Hope, New Hampshire, jovem empreendedora que sonha com ser vedeta de televisão. “Eu sempre soube quem era e o que queria ser”, afirma. Bonita, escultural (ou não fosse Nicole Kidman a interpretar o papel), extrovertida, menina dos olhos de seus pais, com alguma formação em comunicação e um grande à vontade, está “disposta a tudo” para conseguir o que quer. Casa com Larry Maretto, que dizem ser de uma família da Mafia, e aparece na televisão local, a WNEN, em busca de um lugar. Os predicados físicos e a insistência dão-lhe um lugar de apresentadora da metereologia. Para ela “ tudo faz parte de um período de aprendizagem. Mas às vezes não damos por isso. É como estar a ver televisão muito perto, só vemos partículas. Temos de nos afastar para termos a imagem global”. Depois procura subir cada vez mais na vida que escolheu. Um documentário sobre os jovens e a droga é o projecto seguinte, o que a leva a confraternizar com Jimmy Emmett e o seu grupo de jovens mais ou menos marginalizados. Ela acha que “frente à camara é onde gosta de estar”. Aliás, pensa como muito boa gente. “Não se é ninguém se não se aparecer na televisão!”, e sabe que “nunca se deve dizer não”, com tudo o que isso pressupõe. Torna-se amante de Jimmy Emmett e idealiza uma maneira de matar o marido. Serve-se do sexo como chantagem. Na sua vida vale tudo para atingir os fins. Matar é apenas mais uma étapa. O sucesso a qualquer preço. É o sonho americano (que hoje se estendeu a quase todo o mundo): “Tenho uma boa e uma má notícia para si. A boa é que descobrimos quem matou o seu marido. A má é que está presa por esse crime”.
O filme de Gus Van Sant opta por uma construção narrativa em forma de puzzle, iniciando-se com um grande plano de Nicole Kidman, na figura de Pamela Smart, dirigindo-se aos espectadores, falando de si. De seguida, a obra assume a construção de um (falso) documentário, procurando saber quem era aquela jovem, o que ela queria da vida, o que fez para o conseguir.
Gus Van Sant, que gosta de analisar o sonho americano (“No Trilho da Droga”, “A Caminho de Idaho”, “O Bom Rebelde”, “Psico”, “Descobrir Forrester”, “Gerry”, “Elefante”, “Last Days - Últimos Dias”, “Paranoid Park”, “Milk” ou “Terra Prometida”, entre outros) e se tornou notado como um cineasta pouco ligado às grandes produtoras, assumindo-se como um independente, assina aqui uma obra nervosa, irrequieta, procurando agarrar na personagem de Pamela Smart como o símbolo de uma juventude alienada por falsos valores e por um empreendorismo que pode ser fatal. Consegue realmente um filme inquietante, excelentemente interpretado por uma Nicole Kidman brilhante, numa criação que lhe valeu um Globo de Ouro e uma nomeação para um BAFTA. Magnífica é ainda a prestação de Joaquin Phoenix, Casey Affleck ou Illeana Douglas. Note-se que em “Disposta a Tudo” aparecem ainda em curtos papéis, George Segal (um apresentador de TV), David Cronenberg (um executante da Mafia), o próprio Joyce Maynard (um advogado), ou o argumentista Buck Henry (Mr. H. Finlaysson). Não esquecer a partitura musical de Danny Elfman.

DISPOSTA A TUDO
Título original: To Die For
Realização: Gus Van Sant (EUA, Inglaterra, 1995); Argumento: Buck Henry, segundo obra de Joyce Maynard; Produção: Joseph M. Caracciolo, Sandy Isaac, Leslie Morgan, Jonathan T. Taplin, Laura Ziskin; Música: Danny Elfman; Fotografia (cor): Eric Alan Edwards; Casting: Deirdre Bowen, Howard Feuer; Design de produção: Missy; Direcção artística: Vlasta Svoboda; Decoração: Carol Lavoie; Guarda-roupa: Beatrix Aruna Pasztor; Maquilhagem: David R. Beecroft, Patricia Green, Barbara; Direcção de Produção: Steve Wakefield; Assistentes de realização: Roman Alexander Buchok, Tom Quinn, Michele Rakich, David J. Webb; Departamento de arte: Karen M. Clark, Ken Clark, Rossana DeCampo, Willi Holst, Henry Ilola; Som: Kelley Baker, Denis Bellingham, Robert Fernandez, J. Paul Huntsman, Bill Jackson, Owen Langevin, Philip Rogers, Jim Thompson; Efeitos especiais: Laird McMurray, Tim Good; Companhias de produção:Columbia Pictures Corporation, The Rank Organisation; Intérpretes: Nicole Kidman (Suzanne Stone Maretto), Matt Dillon (Larry Maretto), Joaquin Phoenix (Jimmy Emmett), Casey Affleck (Russel Hines), Illeana Douglas (Janice Maretto), Alison Folland (Lydia Mertz), Dan Hedaya (Joe Maretto), Wayne Knight (Ed Grant), Kurtwood Smith (Earl Stone), Holland Taylor (Carol Stone), Susan Traylor (Faye Stone), Maria Tucci (Angela Maretto), Tim Hopper (Mike Warden), Michael Rispoli (Ben DeLuca), Buck Henry (Mr. H. Finlaysson), Gerry Quigley, Tom Forrester, Alan Edward Lewis, Nadine MacKinnon, Conrad Coates, Ron Gabriel, Ian Heath, Graeme Millington, Sean Ryan, Nicholas Pasco, Joyce Maynard, David Collins, Eve Crawford, Janet Lo, David Cronenberg, Tom Quinn, Peter Glen, Amber-Lee Campbell, Colleen Williams, Simon Richards, Philip Williams, Susan Backs, Kyra Harper, Adam Roth, Andrew Scott, Tamara Gorski, Katie Griffin, Carla Renee, Melissa Cooper, Tom Peterson, Chris Phillips, Rain Phoenix, George Segal, Isabella Simone, etc. Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal: New Age (DVD); Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 10 de Novembro de 1995.


NICOLE KIDMAN (1967 - )
Nicole Mary Kidman nasceu a 20 de Junho de 1967, em Honolulu, Havai, tendo dupla nacionalidade: inicialmente australiana, depois também norte-americana. Os primeiros anos de vida são muito viajados. Nasce pois no Havai, onde a família morava e onde lhe chamavam Hokulani, um nome que significa “estrela celestial”. Filha de australianos, Janelle Ann, enfermeira, e Antony David Kidman, psicólogo e bioquímico, mudou-se pouco depois com os pais para Washington, mas, quando Nicole tinha apenas três anos, viajaram todos para Sydney, onde ela cresceu e começou a trabalhar como actriz nos anos de 80. A sua propensão inicial era a dança, mas rapidamente se deixou apaixonar pela representação. Cedo aparecia em festas de escola, onde interpretava diversos papéis. Passou pelo Philip Street Theater, onde foi acarinhada por Jane Campion, então estudante, e estreia-se no cinema em filmes como “Memórias de um Natal” ou Bandidos das BMX (ambos de 1983) e na televisão em séries como “Skin Deep” ou “Chase Through the Night”. Mas a sua primeira aparição na tela foi aos 15 anos, num vídeo musical de Pat Wilson para a música "Bop Girl". Tudo, portanto, na Austrália, onde se tornaria particularmente notada na série televisiva “Vietnam” (1987) e no thriller “Calma de Morte” (1989). A mudança para os EUA e para Hollywood marca um momento decisivo na sua carreira, facilmente verificável em obras que a tornam uma actriz de primeira grandeza, internacionalmente: “Days of Thunder”, “To Die For”, “Malice”, “The Peacemaker”, “Eyes Wide Shut”, “Moulin Rouge” ou “The Others”, “Cold Mountain”, “The Interpreter”, “Austrália” ou “The Hours”, no qual, no papel de Virginia Woolf, arrebata o Oscar de Melhor Actriz em 2003. Casada primeiramente com Tom Cruise (1990 - 2001) e depois com o cantor e compositor Keith Urban (2006 -), Kidman foi homenageada com uma estrela no Wall of Fame de Hollywood, perto do nº 6801 de Hollywood Boulevard. O seu palmarés de prémios é longo. Para lá do Oscar, conta ainda com três Globos de Ouro (The Hours, To Die For ou Moulin Rouge!), um BAFTA (The Hours), um prémio de Melhor Actriz no Festival de Berlim (The Hours) e ainda galardões diversos concedidos pelo American Film Institute, Satellite Awa, Prémio Saturno (The Others), etc.


Filmografia      
Como actriz: 1983: Skin Deep (TV); Chase Through the Night (TV); 1983: Bush Christmas (Memórias dum Natal), de Henri Safran; BMX Bandits (Os Bandidos das BMX), de Brian Trenchard-Smith; 1984: Matthew and Son (TV); A Country Practice (TV); 1985: Wills & Burke, de Bob Weis; Archer’s Adventure (TV); Five Mile Creek (TV); Winners (TV); 1986: Windrider (A Loucura do Surf), de Vincent Monton; 1987: Un’ Australiana a Roma (TV); Room to Move (TV); Vietnam (TV); Watch the Shadows Dance (A Dança das Sombras), de Mark Joffe; 1987: The Bit Part (Papel Secundário), de Brendan Maher; 1987: Room to Move, de John Duigan; 1988: Emerald City (Cidade Esmeralda), de Michael Jenkins; 1989: Dead Calm (Calma de Morte), de Phillip Noyce; Bangkok Hilton (Regresso a Banguecoque) (TV); 1990: Days of Thunder (Dias de Tempestade), de Tony Scott; 1991: Flirting (A Idade das Emoções), de John Duigan; Billy Bathgate, de Robert Benton; 1992: Far and Away (Horizonte Longínquo), de Ron Howard; 1993: Malice (Má Fé), de Harold Becker; My Life (Uma Vida), de Bruce Joel Rubin; 1995: Batman Forever (Batman para Sempre), de Joel Schumacher; To Die For (Disposta a Tudo), de Gus Van Sant; 1996: The Leading Man (O Protagonista), de John Duigan; The Portrait of a Lady (Retrato de Uma Senhora), de Jane Campion; 1997: The Peacemaker (O Pacificador), de Mimi Leder; 1998: Stevie Nicks & Sheryl Crow: If You Ever Did Believe (curta-metragem); Practical Magic (Magia e Sedução), de Griffin Dunne;1999: Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados), de Stanley Kubrick; 2001: Birthday Girl (Da Rússia com Amor), de Jez Butterworth; 2001: The Others (Os Outros), de Alejandro Amenábar; 2001: Moulin Rouge! (Moulin Rouge!), de Baz Luhrmann; 2002: The Hours (As Horas), de Stephen Daldry; Panic Room (Sala de Pânico), de David Fincher; 2003: Dogville (Dogville), de Lars von Trier; The Human Stain (Culpa Humana), de Robert Benton; Cold Mountain (Cold Mountain), de Anthony Minghella; 2004: Birth (Birth - O Mistério), de Jonathan Glazer; The Stepford Wive (Mulheres Perfeitas), de Frank Oz; Chanel N°5: The Film (curta-metragem); 2005: Bewitched (Casei com uma Feiticeira), de Nora Ephron; Interpreter (A Intérprete), de Sydney Pollack; 2006: Happy Feet (Happy Feet), de George Miller (voz); 2006: An Fur: Imaginary Portrait of Diane Arbus (Fur - Um Retrato Imaginário de Diane Arbus), de Steven Shainberg; Bienvenido a casa, de David Trueba; 2007: Margot at the Wedding (Margot e o Casamento), de Noah Baumbach; The Golden Compass (A Bússola Dourada), de Chris Weitz; The Invasion (A Invasão), de Oliver Hirschbiegel; 2008: Australia (Austrália), de Baz Luhrmann; 2009: Nine (Nove), de Rob Marshall; 2010: Rabbit Hole (O Outro Lado do Coração), de John Cameron Mitchell; 2011: Just Go with It (Engana-me Que Eu Gosto), de Dennis Dugan; Trespass (Transgressão), de Joel Schumacher; 2012: Hemingway & Gellhorn, de Philip Kaufman; The Paperboy (The Paperboy - Um Rapaz do Sul), de Lee Daniels; 2013: Stoker, de Park Chan-wook; The Railway Man (The Railway Man - Uma Longa Viagem), de Jonathan Teplitzky; 2014: Before I Go to Sleep (Antes de Adormecer), de Rowan Joffe; Grace of Monaco (Grace de Mónaco), de Olivier Dahan; Paddington (Paddington), de Paul King; Queen of the Desert, de Werner Herzog; Hello Ladies: The Movie, de Stephen Merchant (TV); 2015: Strangerland (Em Terra Estranha), de Kim Farrant; Genius, de Michael Grandage; The Family Fang, de Jason Bateman; Secret in Their Eyes (O Segredo dos Seus Olhos), de Billy Ray; 2016 Lion, de Garth Davis (em preparação); Big Little Lies (TV) (em preparação); How to Talk to Girls at Parties, de John Cameron Mitchell (em preparação).  

SESSÃO 54: 6 DE FEVEREIRO DE 2017


INSTINTO FATAL (1992)

“Basic Instinct” é um thriller onde abunda o sexo e a violência, de construção inteligente, dirigido com segurança e eficácia narrativa pelo holandês Paul Verhoeven, realizador reconhecido ainda na Holanda, por “Delícias Turcas” (1973) e depois, já nos EUA, por “Robocop” (1987), “Total Recall” (1990) ou “Showgirls” (1995), tendo regressado à terra natal para rodar o excelente “Livro Negro” (2006). Partindo de um argumento de Joe Eszterhas (autor deMusic Box” ou “Jagged Edge”, entre outros), “Instinto Fatal” tem tudo para ser um bom policial, tecnicamente impecável e muito bem interpretado. Mas ficará na história do cinema por uma razão bem diferente: nele, a protagonista descruza despudoramente as pernas, durante uma sessão de interrogatório policial, revelando não possuir por baixo qualquer tipo de roupa interior. A protagonista é Sharon Stone, que é uma excelente actriz e que, depois desta sua ousadia, se tornaria num dos símbolos sexuais do cinema norte-americano do final do século XX. Sharon Stone afirmou que, “pelo menos, comprovei que era loura natural”, mas a sua sorte mudou muito. Para rodar “Instinto Fatal”, em 1992, ganhou 500.000 dólares. Depois, para rodar a continuação, “Instinto Fatal 2”, em 2006, cobraria 13.600.000 dólares. Pode dizer-se que foi um deslumbrante descruzar de pernas com repercursões que foram muito além da intriga do filme em questão.
Falemos então de “Instinto Fatal”, que começa com um assassinato muito perturbante e particularmente sádico: Johnny Boz, antiga vedeta de rock, proprietário de um clube noturno em São Francisco, é encontrado morto na sua cama em circunstâncias que não deixam indiferentes nem os mais calejados polícias: várias vezes perfurado por um picador de gelo. A namorada de Johnny é a principal suspeita. Catherine Tramell (Sharon Stone), escultural e atraente escritora de romances policiais que partem sempre da realidade vivida pela autora, não perde a compostura e desafia os investigadores. O caso é entregue ao detective Nick Curran (Michael Douglas), com alcoolismo e drogas no seu passado, vícios a que procura furtar-se. Beth Gardner (Jeanne Tripplehorn), uma psiquiatra da polícia, que em tempos fora namorada de Nick, descobre que o crime que vitimou Boz foi directamente decalcado de um dos romances de Catherine. Nick não consegue escapar ao fascínio de Catherine, sendo atraído por ela, como uma borboleta pela luz (ou o fogo). Um dos aspectos mais interessantes desta intriga é precisamente o jogo de espelhos que se estabelece entre o detective e a suspeita, ambos demasiado iguais para não se compreenderem mutuamente. Um e outra têm as mesmas propensões, são habitados pelos mesmos fantasmas, consumidos pelas mesmas obsessões e fantasias. Catherine afirma a certa altura que Nick Curran será a personagem inspiradora do novo romance que anda a escrever. E o mistério adensa-se, e o perigo espreita, o suspense é irrespirável. Os cartazes da estreia eram claros: "Flesh seduces. Passion kills" ou "A brutal murder, a brilliant killer, a cop who can't resist the danger". Na verdade, nem o polícia resiste ao perigo, nem o perigo se deixa intimidar pela presença da autoridade.


Poderá acusar-se o filme de roçar o soft-porn, de ser excessivo nalguns aspectos, polémico em demasia, o que se consubstanciou rapidamente nas cruzadas lançadas por ligas de decência e movimentos feministas e gays, que logo se manifestaram. Mas a verdade é que visto hoje em dia “Instinto Fatal” mantém um forte impacto deixando cair toda essa ganga polémica que o agitou na altura da estreia. Continua violento e sexy, mas o contexto suavizou-se, e o que ressalta é a qualidade narrativa, eficaz e vigorosa, a ambiência que rodeia as personagens, numa cidade de São Francisco muito bem fotografada, a notória influência de Hitchcock, sobretudo no esboço da protagonista, que alguns aproximam da mulher fatal de “Vertigo”, e uma interpretação globalmente cuidada, onde é, obviamente de destacar o trabalho de Sharon Stone. As acusações de misoginia ou de homofobia parecem-me deslocadas. Será que não pode haver suspeitos de crimes nestes grupos, tal como em qualquer outro? 
A verdade é que “Instinto Fatal” foi um sucesso de bilheteira, e não correu nada mal junto da grande maioria da crítica internacional. Em estreia fez mais de 120 milhões de dólares e lançou Sharon Stone para a mitologia de Hollywood. Alguns anos depois, 2006, surgiria a sequela, “Basic Instinct 2”, dirigida por Michael Caton-Jones, com Sharon Stone a viver em Londres, mas ainda atraída por picadores de gelo. Desta feita é um psiquiatra que a acompanha (David Morrissey), que se deixa enredar no jogo da sedução. Mas o êxito não foi o mesmo. Um picador de gelo não deve voltar ao local onde fora feliz.

INSTINTO FATAL
Título original: Basic Instinct
Realização: Paul Verhoeven (EUA, França, 1992); Argumento: Joe Eszterhas; Produção: William S. Beasley, Louis D'Esposito, Mario Kassar, Alan Marshall; Música: Jerry Goldsmith; Fotografia (cor): Jan de Bom; Montagem: Frank J. Urioste; Casting: Howard Feuer; Design de produção: Terence Marsh; Decoração: Anne Kuljian; Guarda-roupa: Nino Cerruti, Ellen Mirojnick; Maquilhagem: Audrey L. Anzures, Rob Bottin, Catherine Childers, Laura De'Atley, David Forrest, Virginia G. Hadfield, Paul LeBlanc, Vincent Prentice; Direcção de Produção: William S. Beasley, Cliff T.E. Roseman, Michael R. Sloan; Assistentes de realização: Louis D'Esposito, James Arnett, Joel Chernoff, Eric Jewett, Nina Kostroff-Noble, Charlie Picerni, Annie Spiegelman, Michael Viglietta; Departamento de arte: Dick Anderson, Stephen Myles Berger, Mark Billerman, Richard W. Clot, Daniel Kelly, Anne Kuljian, Barbara Mesney, Joseph Musso, Gary E. Roloff; Som: David A. Arnold, Ron Bartlett, Scott Hecker, Zeke Richardson, Fred Runner, Michael R. Sloan, Nelson Stoll, Marvin Walowitz, etc.; Efeitos especiais: John Frazier; Efeitos visuais: Rob Bottin, Al Magliochetti; Companhias de produção:Carolco Pictures, Canal+; Intérpretes: Michael Douglas (Detective Nick Curran), Sharon Stone (Catherine Tramell), George Dzundza (Gus), Jeanne (Dr. Beth Garner), Denis Arndt (Tenente Walker), Leilani Sarelle (Roxy), Bruce A. Young (Andrews), Chelcie Ross (Capitão Talcott), Dorothy Malone (Hazel Dobkins), Wayne Knight (John Correli), Daniel von Bargen (Tenente Nilsen), Stephen Tobolowsky (Dr. Lamott), Benjamin Mouton, Jack McGee, Bill Cable, Stephen Rowe, Mitch Pileggi, Mary Pat Gleason, Freda Foh Shen, William Duff-Griffin, James Rebhorn, David Wells, Bradford English, Mary Ann Rodgers, Adilah Barnes, Irene Olga López, Juanita Jennings, Craig C. Lewis, Michael David Lally, Peter Appel, Michael Halton, Keith McDaniel, Eric Poppick, Ron Cacas, Kayla Blake, Julie Bond,etc. Duração: 128 minutos; Distribuição em Portugal: Studio Canal (DVD); Classificação etária: M/ 18 anos; Data de estreia em Portugal: 7 de Agosto de 1992.


SHARON STONE (1958 -)
A carreira de Sharon Stone teria sido diferente certamente se não tivesse aceitado interpretar “Instinto Fatal” e demonstrar que era “loura natural” ao descruzar as pernas num interrogatório policial, suspeita de ser a assassina de um ex-cantor de rock morto selvaticamente com um picador de gelo, durante uma tórrida cena de sexo. Mas foi ela que protagonizou o mais quente e provocador gesto visto no cinema norte-americano no início da década de 90 do século passado. Por isso ficou na história. 
Sharon Yvonne Stone nasceu a 10 de Março de 1958, em Meadville, Pennsylvania, EUA, filha Dorothy e Joseph William Stone II, um operário industrial. Até aos 15 anos estudou na Saegertown High School, na Pennsylvania e, pouco depois, na Edinboro State University of Pennsylvania, tirando o curso de escrita criativa e artes. Pensava seguir Direito, mas os filmes ocupavam-lhe os tempos livres, sobretudo os de Fred Astaire e Ginger Rogers. Aos 17 anos, increveu-se no concurso de beleza Miss Crawford County e ganhou. Foi empregada na cadeia McDonald, modelo na Eileen Ford Model Agency, entrou em anúncios publicitário, e em 1980, estreou-se no cinema, numa pequena aprição no filme de Woody Allen, “Recordações”. No seguinte, “A Bênção do Anjo Negro”, de Wes Craven já tinha umas linhas de texto. Iniciou assim uma carreira de actriz, em filmes medíocres, com uma ou outra exepção. Em 1984, casou com Michael Greenburg, produtor de “MacGyver”, mas divorciou-se dois anos depois. Em 1990, ao lado de Arnold Schwarzenegger, fez-se notar em “Desafio Total”. Uma sessão de nus na revista “Playboy” deu-lhe passaporte para o papel de Catherine Tramell, em “Instinto Fatal” (1992). Foi o sucesso imediato. Nomeada para o Globo de Ouro pela primeira vez, haveria de ganhar em 1996, com “Casino”. Seria ainda nomeada por “Os Poderosos” e “A Musa”. Para o Oscar, seria nomeada igualmente pelo seu trabalho em “Casino”. Não deixou de aparecer em filmes medíocres, mas começou a surgir em obras de um outro fôlego, onde deu bem a medida do seu talento: The Quick and the Dead (Rápida e Mortal), de Sam Raimi; Casino (Casino), de Martin Scorsese; Roseanne (TV); Diabolique (Diabólica), de Jeremiah S. Chechik; Last Dance (A Última Dança), de Bruce Beresford; The Mighty (Os Poderosos), de Peter Chelsom; The Muse (A Musa), de Albert Brooks; Gloria (Gloria), de Sidney Lumet; Cold Creek Manor (A Casa de Campo), de Mike Figgis; Broken Flowers (Broken Flowers - Flores Partidas), de Jim Jarmusch; Bobby (Bobby), de Emilio Estevez; Alpha Dog, de Nick Cassavetes, entre outros. Entretanto, casou e divorciou-se novamente (1998 - 2004), desta feita com o jornalista Phil Bronstein, editor do jornal “San Francisco Examiner”. No inquérito da revista “Empire” sobre as "100 Sexiest Stars in Film History", apreceu em 49 lugar. Já no “Playboy Magazine”, em idêntica auscultação sobre as "100 Sexiest Stars of the Century", surgiu em 24 lugar. No “People Magazine” surge entre as "50 Most Beautiful People" e as "25 Most Intriguing People".


Filmografia

Como actriz: 1980: Stardust Memories (Recordações), de Woody Allen; 1981: Les uns et les autres (Uns e Outros), de Claude Lelouch; Les uns et les autres (Uns e Outros), de Claude Lelouch (TV); 1981: Deadly Blessing (A Benção do Anjo Negro), de Wes Craven; 1982: Silver Spoons (TV); Not Just Another Affair (TV); 1983: Remington Steele (Quase Modelo, Quase Detective) (TV); Bay City Blues (TV); 1984: Irreconcilable Differences (Divórcio em Hollywood), de Charles Shyer; Magnum, P.I. (TV); Mike Hammer (TV); 1985: T.J. Hooker (TV); Calendar Girl Murders (Assassino das Raparigas do Calendário), de William A. Graham; King Solomon’s Mines (As Minas de Salomão), de J. Lee Thompson; 1986: Mr. and Mrs. Ryan (TV); 1987: Allan Quatermain and the Lost City of Gold (As Minas de Salomão II), de Gary Nelson; Police Academy 4: Citizens on Patrol (Academia de Polícia 4: A Patrulha do Cidadão), de Jim Drake; Cold Steel (Arma Branca), de Dorothy Ann Puzo; 1988: Nico (Nico - À Margem da Lei), de Andrew Davis; Badlands 2005 (TV); Action Jackson (Action Jackson - Homem de Acção), de Craig R. Baxley; 1988–1989: War and Remembrance (TV); Tears in the Rain (Romance Impossível) (TV); 1989: Beyond the Stars (Dois Amigos, Dois Destinos), de David Saperstein; 1990: Blood & Sand (Sangue e Arena), de Javier Elorrieta; Total Recall (Desafio Total), de Paul Verhoeven; 1991: He Said, She Said (A Guerra dos Sexos), de Ken Kwapis, Marisa Silver; Year of the Gun (Brigadas Vermelhas), de John Frankenheimer; Scissors (Violada e Perseguida), de Frank De Felitta; Diary of a Hitman (Contratado para Matar), de Roy London; 1992: Basic Instinct (Instinto Fatal), de Paul Verhoeven; Where Sleeping Dogs Lie (Cães Adormecidos), de Charles Finch; 1993: Sliver (Violação de Privacidade), de Phillip Noyce; Last Action Hero (O Último Grande Herói), de John McTiernan; 1994: The Specialist (O Especialista), de Luis Llosa; Intersection (Encruzilhada), de Mark Rydell; The Larry Sanders Show (TV); 1995: The Quick and the Dead (Rápida e Mortal), de Sam Raimi; Casino (Casino), de Martin Scorsese; Roseanne (TV); 1996: Diabolique (Diabólica), de Jeremiah S. Chechik; Last Dance (A Última Dança), de Bruce Beresford; 1998: Sphere (A Esfera), de Barry Levinson; The Mighty (Os Poderosos), de Peter Chelsom; Antz (Formiga Z), de Eric Darnell, Tim Johnson (voz); 1999: The Muse (A Musa), de Albert Brooks; Gloria (Gloria), de Sidney Lumet; Simpatico (Puro Sangue), de Matthew Warchus; The Sissy Duckling (TV);  Happily Ever After: Fairy Tales for Every Child (TV); 2000: Women Love Women ou If These Walls Could Talk 2 (Amor no Feminino) (TV); Beautiful Joe (Hush - Um Sonho de Mulher), de Stephen Metcalfe; Picking Up the Pieces (Uma Mão Cheia De Surpresas), de Alfonso Arau; 2001-2002: Harold and the Purple Crayon (TV); 2003: Cold Creek Manor (A Casa de Campo), de Mike Figgis; The Practice (Causa Justa (TV); 2004: Catwoman (Catwoman), de Pitof; A Different Loyalty (Lealdade Traída), de Marek Kanievska; 2005: Broken Flowers (Broken Flowers - Flores Partidas), de Jim Jarmusch; Kurtlar Vadisi (TV); Higglytown Heroes (TV); Will & Grace (TV); 2006: Basic Instinct 2 (Instinto Fatal 2), de Michael Caton-Jones; 2006: Bobby (Bobby), de Emilio Estevez; Alpha Dog, de Nick Cassavetes; Huff (TV); 2007: Democrazy (curta-metragem); If I Had Known I Was a Genius (Se Eu Soubesse Que Era Um Génio), de Dominique Wirtschafter; When a Man Falls in the Forest, de Ryan Eslinger; 2008: The Year of Getting to Know Us (O Ano em Que nos Conhecemos), de Patrick Sisam; $5 a Day (A Culpa Não Foi Minha!), de Nigel Cole; 2009: Streets of Blood (Ruas de Sangue), de Charles Winkler (Vídeo); 2010: Law & Order: Special Victims Unit (Lei & Ordem: Unidade Especial) (TV); 2011: Largo Winch II (Largo Winch 2 - Conspiração na Birmânia), de Jérôme Salle; 2012: The Mule (Tráfico na Fronteira), de Gabriela Tagliavini; 2013: Lovelace (Lovelace), de Rob Epstein, Jeffrey Friedman; Gods Behaving Badly, de Marc Turtletaub; 2014: Fading Gigolo (Quase Gigolo), de John Turturro; Un ragazzo d'oro, de Pupi Avati; Lyubov v bolshom gorode 3, de Marius Balchunas e David Dodson; 2015: I Life on the Line, de David Hackl; Savva. Serdtse voina, de Maksim Fadeev (voz); Agent X (TV); 2016: What About Love, de Klaus Menzel; Mothers Day, de Paul Duddridge, Nigel Levy; Running Wild, de Alex Ranarivelo; The 11th, de Xavier Nemo;

SESSÃO 53: 30 DE JANEIRO DE 2017


OS FABULOSOS IRMÃOS BAKER (1989)

Steve Kloves, o realizador de “The Fabulous Baker Boys”, é sobretudo conhecido como argumentista. Antes, porém, de se ter notabilizado como argumentista da série “Harry Potter”, que acompanhou de 2001, com “Harry Potter e a Pedra Filosofal” até 2011, com “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2”, ele escreveu dois filmes que dirigiu (além de “Os Fabulosos Irmãos Baker”, sua estreia na realização, contabiliza ainda “Unha com Carne”, 1993), e outros dois, de realizadores diferentes, “Adeus Inocência”, de Richard Benjamin, e Wonder Boys – Prodígios, de Curtis Hanson. Já em 2012 escreve “O Fantástico Homem-Aranha”, de Marc Webb. Trata-se, portanto, de um sólido e reputado argumentista, que, no entanto, tem em “Os Fabulosos Irmãos Baker” a sua coroa de glória até ao presente. Certamente que Harry Potter lhe terá rendido mais lucros para a sua conta bancária, mas a sua estreia na realização marcava o início de uma carreira que se poderia antever grandiosa. Não o quis até agora, mas esta história de dois irmãos que andam de bar em bar e de salão de hotel em salão de hotel tocando as suas pianadas para públicos não muito exigentes é um filme cheio de encanto e fascínio, tocado pela nostalgia e o desencanto de tempos passados e de guerrilhas internas entre irmãos. Jack Baker (Jeff Bridges) é o irmão artista e solteiro que gosta de jazz, tem desapego ao dinheiro, a sua felicidade é tocar num clube de negros onde é estimado e devidamente apreciado, enquanto Frank Baker (Beau Bridges) é o cérebro financeiro que faz contas, organiza contratos e percebe que o futuro, a continuar o duo a solo, não será radioso. Tem família e o sentido das responsabilidades, como soe dizer-se. Por isso resolvem contratar uma voz feminina, e depois de delirantes audições, escolhem Susie Diamond (Michelle Pfeiffer), que rejuvenesce o trabalho dos Bakers e reabastece a conta, mas acaba por aprofundar a crise, quando Jack se apaixona pela recém-chegada de bela voz e escultural presença.


O filme passa-se em Seattle (apesar de algumas cenas terem sido rodadas noutros locais, como por exemplo no Ambassador Hotel, em Wilshire Boulevard, Los Angeles), e está banhado por uma dupla emoção quanto a ambientes e personagens. Por um lado, há os locais sofisticados onde, na mó de cima, tocam; por outro, abundam as espeluncas onde são forçados a ganhar uns cobres para sobreviverem. Com a companhia de Susie Diamond tudo se modifica e percebe-se facilmente porquê. Michelle Pfeiffer é a magia feita pessoa, a sedução em estado puro e quando se alonga por cima de um piano, a cantar “Makin' Whoopee!”, compreende-se perfeitamente o que quer dizer sedução. Deve referir-se ainda, porque de toda a justiça, que Michelle Pfeiffer canta com a sua própria voz e que tanto Jeff Bridges como Beau Bridges tocam realmente piano, depois de terem acompanhado Dave Grusin, o autor da excelente partitura, e que funcionou como professor dos irmãos Bridges.
O filme pode obedecer até a uma fórmula que já teve vários cultores ao longo da história do cinema, mas a verdade é que a sensibilidade e delicadeza da câmara de Steve Kloves são fascinantes, e o trabalho dos actores admirável. Em diferentes registos, os irmãos Bridges são uns excelentes Baker Brothers e Michelle Pfeiffer é simplesmente divina desde a sua aparição até ausentar-se, para desdita nossa. Este será seguramente um dos seus melhores filmes, ela que tem uma carreira bem recheada de bons filmes e de interpretações memoráveis. A certa altura do filme pergunta-se “Does anyone really want to hear ‘Feelings' again?” Claro que só se pode assegurar que sim.  

OS FABULOSOS IRMÃOS BAKER
Título original: The Fabulous Baker Boys
Realização: Steve Kloves (EUA, 1989); Argumento: Steve Kloves; Produção: Sydney Pollack, Julie Bergman Sender, Bill Finnegan, Robin Forman Howard, Mark Rosenberg, Paula Weinstein, Courtney Silberberg; Música: Dave Grusin; Fotografia (cor): Michael Ballhaus; Montagem: William Steinkamp; Casting: Wallis; Design de produção: Jeffrey Townsend; Decoração: Anne H. Ahrens; Guarda-roupa: Lisa Jensen; Maquilhagem: Ronnie Specter, Jeanne Van Phue; Direcção de Produção: Bill Finnegan; Assistentes de realização: Cherylanne Martin, Charles Myers, Tracy Rosenthal-Newsom; Departamento de arte: Bruce Bellamy, Ed Dupra, Amy Feldman, Don Gibbin Jr., Charles T. Gray, Clay A. Griffith, Ross Harpold, Michael Muhlfriedel, Walter Wall, etc.; Som: Gary Alexander, John Haeny, J. Paul Huntsman, Stephan von Hase, Ian Wright, Brad Sherman; Efeitos especiais: Robert E. Worthington; Companhias de produção: Gladden Entertainment, Mirage, Tobis; Intérpretes: Jeff Bridges (Jack Baker), Michelle Pfeiffer (Susie Diamond), Beau Bridges (Frank Baker), Ellie Raab (Nina), Xander Berkeley (Lloyd), Jennifer Tilly (Monica Moran), Dakin Matthews (Charlie), Ken Lerner (Ray), Albert Hall (Henry), Terri Treas, Gregory Itzin, Bradford English, David Coburn, Todd Jeffries, Gregory James, Nancy Fish, Beege Barkette, Del Zamora, Howard Matthew Johnson, Stuart Nisbet, Robert Henry, Drake, Martina Finch, Winifred Freedman, Wendy Goldman, Karen Hartman, D.D. Howard, Lisa Raggio, Vickilyn Reynolds, Krisie Spear, Carole Ita White, Kirsten Ashley, Helen Kelly, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 2 de Março de 1990.
  

MICHELLE PFEIFFER (1958 - )
Michelle Marie Pfeiffer nasceu a 29 de Abril de 1958, em Santa Ana, California, EUA. Filha de Donna Jean e de Richard Pfeiffer, este último a trabalhar na indústria do ar condicionado. Pfeiffer estudou na Fountain Valley High School até 1976, depois no Golden West College, tentando ser reporter, enquanto trabalhava num supermercado. Conta-se que o seu primeiro papael como artista terá sido o de Alice, na “Main Street Electrical Parade, na Disneyland”, em meados dos anos 1970. Entretanto casa com o actor e realizador Peter Horton em 1981, divorciando-se pouco depois. Tem uma relação de três anos com o actor Fisher Stevens. Em 1993, adopta uma menina, Claudia Rose. Em November casa com o davogado, escritor e produtor David E. Kelley, criador de “Picket Fences” (1992), ”Chicago Hope” (1994), “Causa Justa” (1997), ou “Boston Public” (2000). Em 1994, tiveram um filho, John Henry.
A actriz inicia-se na televisão, em 1978, na série “Fantasy Island” e noutras, estreando-se no cinema em 1980, com um pequeno papel “The Hollywood Knights”. Posteriormente, ganha protagonismo em “Grease 2”, mas só em 1983, no filme de Brian De Palma, “Scarface”, ao lado de Al Pacino e F. Murray Abraham, ela se impõe. Passa por filmes interessantes, como “Sweet Liberty”, “The Witches of Eastwick”, “Married to the Mob” e “Tequila Sunrise”, até surgir em “Dangerous Liaisons”, de Stephen Frea, e “The Fabulous Baker Boys”, de Steven Kloves, onde se impõe definitivamente como uma grande actriz. Surgem indicações a Oscar, a Globos de Ouro (ganha um com “Love Field”, de Jonathan Kaplan), e passa por Portugal para filmar “The Russia House”, de Fred Schepisi. É a Mulher-Gato, em “Batman Returns”, de Tim Burton, e surge em grande no filme de Martin Scorsese, “The Age of Innocence”. Continua a trabalhar mas com menos regularidade, afirmando que se quer dedicar mais à família. Em Agosto de 2007, é-lhe atribuída uma Estrela no Wall of Fame de Hollywood. Surge em 39º lugar a lista-inquérito da revista Empire, "The Top 100 Movie Stars of All Time" (Outubro de 1997). Noutro inquérito da mesma revista, sobre as 100 Sexiest Stars aparece em terceiro lugar. Foi considerada a actriz que melhor veste em Hollywood.

Filmografia

Como actriz: 1978-1981: Fantasy Island (TV); 1979: CHiPs (TV); The Solitary Man (TV); Delta House (TV); 1980: The Hollywood Knights, de Floyd Mutrux; Falling in Love Again (Começar de Novo), de Steven Paul; Enos (TV); B.A.D. Cats (TV); 1981: Charlie Chan and the Curse of the Dragon Queen (Charlie Chan e a Maldição da Rainha), de Clive Donner; Filhos do Desespero (TV); Splendor in the Grass (TV); Callie & Son (TV); 1982: Grease 2 (Grease 2), de Patricia Birch; 1983: Scarface (Scarface - A Força do Poder), de Brian De Palma; 1985: Into the Night (Pela Noite Dentro), de John Landis; Ladyhawke (A Mulher Falcão), de Richard Donner; ABC Afterschool Specials (TV); 1986: Sweet Liberty (Doce Liberdade), de Alan Alda; 1987: Amazon Women on the Moon (As Amazonas na Lua), de John Landis (episódio "Hospital"); The Witches of Eastwick (As Bruxas de Eastwick), de George Miller; Great Performances: Tales from the Hollywood Hills (TV); 1988: Married to the Mob (Viúva... Mas Não Muito), de Jonathan Demme; Tequila Sunrise (Intriga ao Amanhecer), de Robert Towne; Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas), de Stephen Frears; 1989: The Fabulous Baker Boys (Os Fabulosos Irmãos Baker), de Steven Kloves; 1990: The Russia House (A Casa da Rússia), de Fred Schepisi; 1991: Frankie and Johnny (Frankie e Johnny), de Garry Marshall; 1992: Batman Returns (Batman Regressa), de Tim Burton; Love Field (Contra Tudo), de Jonathan Kaplan; 1993: Age of Innocence (A Idade da Inocência), de Martin Scorsese; Os Simpsons (TV); 1994: Wolf (Lobo), de Mike Nichols; 1995: Dangerous Minds (Mentes Perigosas), de John N. Smith; Picket Fences (TV); 1996: Up Close and Personal (Íntimo & Pessoal), de Jon Avnet; To Gillian On Her 37th Birthday (A Magia de Gillian), de Michael Pressman; One Fine Day (Um Dia em Grande), de Michael Hoffman; 1997: A Thousand Acres (Amigas e Rivais), de Jocelyn Moorhouse; 1998: The Prince of Egypt (O Príncipe do Egipto), de Brenda Chapman, Steve Hickner e Simon Wells (voz); 1999: Deep End of the Ocean (Profundo Como o Mar), de Ulu Grosbard; A Midsummer Night's Dream (Sonho de Uma Noite de Verão), de Michael Hoffman; The Story of Us (Vida a Dois), de Rob Reiner; 2000: What Lies Beneath (A Verdade Escondida), de Robert Zemeckis; 2001: I am Sam (I Am Sam - A Força do Amor), de Jessie Nelson; 2002: White Oleander (A Flor do Mal), de Peter Kosminsky; 2003: Sinbad: Legend of the Seven Seas (Sinbad - A Lenda dos Sete Mares), de Tim Johnson e Patrick Gilmore (voz); 2007: I Could Never Be Your Woman (Nem Contigo... Nem Sem Ti!), de Amy Heckerling; 2007: Hairspray (Hairspray), de Adam Shankman; 2007: Stardust (Stardust - O Mistério da Estrela Cadente), de Matthew Vaughn; 2009: Chéri (Chéri), de Stephen Frears; 2009: Personal Effects (Por Amor...), de David Hollander; 2011: New Year's Eve (Ano Novo, Vida Nova!), de Garry Marshall; 2012: Dark Shadows (Sombras da escuridão), de Tim Burton; People Like Us (Bem-vindo à Vida), de Alex Kurtzman; 2013: Malavita (Malavita), de Luc Besson.

SESSÃO 52: 23 DE JANEIRO DE 2017



GINGER E FRED (1986)


 “Ginger e Fred” estava destinado inicialmente a ser um episódio de uma série televisiva de que fariam parte, entre outros realizadores, Michelangelo Antonioni e Franco Zeffirelli. O projecto televisivo gorou-se, mas Fellini, mercê de contactos internacionais, conseguiu levar o seu filme avante, e o resultado, na sua simplicidade e linearidade de processos, parece-nos ser uma obra admirável, de grande sentido crítico e poético, retrato impiedoso do nosso tempo, dominado pela televisão, pelo terrorismo internacional, pela instabilidade (de que é exemplo, esse “monstruoso” programa de televisão, onde se exploram - e se especula - velhas glórias do passado, agora reduzidas a ruínas). Mas o olhar de Fellini transcende o grotesco, a sua ternura invade tudo e todos, localizando-se preferencialmente nessa galeria de vítimas da engrenagem televisiva, actores e convidados de um “show” onde os “freaks” não se encontram afinal onde a uma primeira vista parecem estar, mas, muito pelo contrário, por detrás das câmaras, movimentando os cordelinhos do desencanto e da humilhação. Em 1986, Fellini intuía no que se poderia transformar a televisão, mas não conseguia, apesar de tudo, ir tão longe na sua premonição quanto a própria televisão o faria na realidade, anos mais tarde. Na época da estreia, escrevi sobre o filme que, “muito embora algumas situações excessivas (e que se sentem sobretudo na primeira parte)”, gostava muito da obra. Inocente que eu era, quando referia os excessos dessa televisão medonha e omnipresente. Afinal Fellini pecava, se pecava, por defeito, não por excesso. 


Amelia Bonetti (Giulietta Masina) e Pippo Botticella (Marcello Mastroianni) constituíram uma parelha de bailarinos italianos que tiveram alguma glória nos anos 40, na sua juventude, apresentando-se a imitar Ginger Rogers e Fred Astaire, num número de certo sucesso chamado precisamente "Ginger e Fred". Trinta anos depois de se terem separado, regressam, por entre dúvidas e angústias, para recordarem esses tempos frente aos telespectadores, depois de uma estação de televisão de Roma os convidar para voltarem a apresentar o seu número num programa de fim de ano. Entre as reminiscências do passado e os problemas das suas vidas particulares, a dupla ainda tenta apresentar o seu número como nos velhos tempos, mas vêem esta intenção frustrada ao confrontarem-se com o universo frio e mecânico dos bastidores da TV. Tudo mudou, nada é como dantes. Isso percebe Amélia logo que é recebida na estação de caminho-de-ferro por uma assistente de produção que recolhe aqui e ali os corpos dos participantes do grande show de Natal para os transportar para um hotel de terceira, onde irão esperar pelo dia e a hora de prestarem provas, de tentarem recuperar o tempo perdido ou de assegurar a raridade do seu projecto, quer sejam velhos bailarinos, músicos anões, transexuais, gloriosos almirantes, imitadores de profissão. Para o pessoal da televisão, bem assim como para todos os que fazem o programa, cada um desses destroços da vida nada mais é do que uma nova concepção de carne para canhão, palhaços baratos para ocuparem tempo e ganhar audiência com exotismos de feira. Um novo circo dos horrores, uma nova parada de “freaks” se anuncia. Cada um deles irá apresentar o seu número e regressar a suas casas mais despojados de si do que nunca, depois dos seus 5 minutos de efémera glória num estúdio de televisão. No caso de “Ginger e Fred”, a falta de luz durante a exibição permite-lhes um momento de hesitação, com Pippo Botticella a propor uma retirada estratégica e Amelia Bonetti a procurar levar o revivalismo até ao fim. O que acontece. Será na estação de caminhos-de-ferro que ambos de despedem, provavelmente para sempre. Definitivamente para sempre de “Ginger e Fred”.
Dir-se-ia que Fellini afinal, para criticar a televisão (sobretudo a televisão privada, que já por essa altura enxameava a Itália, alargando depois a sua influência a toda a Europa e todo o mundo), explora, ele também, o mesmo universo. Mas a verdade é que, para explorados e ofendidos, só existe no olhar do cineasta um profundo calor, uma enorme ternura, a compreensão, o amor, enquanto as câmaras de TV avançam para as suas personagens como ameaçadoras silhuetas de tanques. Fellini reencontra aqui o seu universo mais querido e mais pessoal: o mundo do espectáculo, com as suas luzes e as suas sombras, a memória, as vítimas indefesas de uma sociedade hostil e arrogante para com os mais fracos. Estas são as novas “Luci dei Varietá”.

GINGER E FRED
Título original: Ginger & Fred
Realização: Federico Fellini (Itália, França, RFA, 1986); Argumento: Federico Fellini, Tonino Guerra, Tullio Pinelli; Música: José Padilla, Nicola Piovani, e ainda Irving Berlin (canção "Let's Face the Music and Dance"); Fotografia (cor): Tonino Delli Colli, Ennio Guarnieri; Montagem: Nino Baragli, Ugo De Rossi, Ruggero Mastroianni; Casting: Gianni Arduini; Design de produção: Dante Ferretti; Direcção artística: Nazzareno Piana; Decoração: Gianfranco Fumagalli, Angelo Santucci; Guarda-roupa:  Danilo Donati; Maquilhagem: Adriano Carboni, Rino Carboni, Adonella De Rossi, Massimo De Rossi, Renato Francola, Alfredo Tiberi; Direcção de produção: Franco Coduti, Raymond Leplont, Tullio Lullo, Roberto Mannoni, Franco Marino, Walter Massi, Fernando Rossi, Viero Spadoni; Assistentes de realização: Gianni Arduini, Daniela Barbiani, Eugenio Cappuccio; Departamento de Arte: Giuliano Geleng, Rinaldo Geleng, Luigi Sergianni, Italo Tomassi; Som: Fabio Ancillai, Fausto Ancillai, Mark Headley, Sergio Marcotulli, Tommaso Quattrini; Efeitos especiais: Adriano Pischiutta; Produção: Heinz Bibo, Alberto Grimaldi; Intérpretes: Giulietta Masina (Amelia Bonetti - Ginger); Marcello Mastroianni (Pippo Botticella - Fred), Franco Fabrizi (Apresentador de Show), Frederick Ledebur (Almirante Aulenti), Augusto Poderosi (Travesti), Martin Maria Blau (Assistente de realizador), Jacques Henri Lartigue (Padre Gerolamo), Totò Mignone (Totò), Ezio Marano (Intelectual), Antoine Saint-John, Friedrich von Thun, Antonio Iuorio, Barbara Scoppa, Elisabetta Flumeri, Salvatore Billa, Ginestra Spinola, Stefania Marini, Francesco Casale, Gianfranco Alpestre, Filippo Ascione, Elena Cantarone, Cosima Chiusoli, Claudio Ciocca, Sergio Ciulli, Roberto De Sandro, Vittorio De Bisogno, Fabrizio Fontana, Laurentina Guidotti, Giorgio Iovine, Danika La Loggia, Isabelle Therese La Porte, Luigi Leoni, Luciano Lombardo, Mariele Loreley, Elena Magoia, Franco Marino, Mauro Misul, Jurgen Morhofer, Pippo Negri, Antonietta Patriarca, Nando Pucci Negri, Luigi Rossi, Franco Trevisi, Patti Vailati, Narciso Vicario, Hermann Weisskopf, Daniele Aldrovandi, Ennio Antonelli, Claudio Botosso, Eolo Capritti, Mario Conocchia, Gabriella Di Luzio, Barbara Montanari, Federica Paccosi, Alessandro Partexano, Leonardo Petrillo, Moana Pozzi, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais/VHS; Classificação etária: M/ 12 anos.


GIULIETTA MASINA (1920-1994)
Giulia Anna Masina nasceu a 22 de Fevereiro de 1920, em San Giorgio di Piano, na província de Bolonha, Itália, e viria a falecer em Roma, a 23 de Março de 1994, com 74 anos. Filha de Gaetano Masina, violinista e professor de música, e de Angela Flavia Pasqualin, professora, passou boa parte de sua adolescência em Roma com uma tia viúva. Estudou Letras e Filosofia na Universidade de Roma, mas durante os estudos a sua paixão era já o teatro e a arte de representar. Entre 1941 e 1942, participou em vários espetáculos de prosa, dança e música no teatro universitário. Trabalha na rádio, onde encontra Fellini, que escreve os textos. Em 30 de Outubro de 1943, casa-se com Federico Fellini, com quem trabalha intensamente durante alguns anos. No cinema, estreia-se em 1946 com um pequeno papel na obra de Roberto Rossellini “Paisà”. Dois anos mais tarde, obtém o primeiro papel importante no filme “Senza pietà”, de Alberto Lattuada. Mas alcança o sucesso internacional com a figura de Gelsomina, em “La Strada” (1954), e depois com o de Cabiria, em “Le notti di Cabiria” (1957), este último que lhe traria o prémio de Melhor Actriz no Festival de Cannes. Ambos dirigidos por Fellini que considerava Giulietta Masina a sua “musa” e a sua “inspiração”. Criou personagens entre o drama e a comédia, na linha do herói de Chaplin, que a tornaram incomparável.
Fellini morreu a 31 de Outubro de 1993, com 73anos, Giulietta Masina sobrevive-lhe apenas alguns meses. Morre de cancro de pulmão, a 23 de Março de 1994, com 74 anos. No funeral, o trompetista Mauro Maur tocou, a seu pedido, o tema de “La Strada”, de Nino Rota. Ela e Fellini tiveram momentos bons e maus, mas foi uma história de amor imortal.

Filmografia:

Como actriz: 1946: Paisà (Libertação) de Roberto Rossellini; 1948: Senza pietà (Sem Piedade) de Alberto Lattuada; 1950: Luci del varietà, de Federico Fellini; 1951: Sette ore di guai (Sete Horas de Sarilhos), de Vittorio Metz e Marcello Marchesia; Cameriera bella presenza offresi... (Criada, Oferece-se...), de Giorgio Pàstina; Persiane chiuse (Persianas Corridas), de Luigi Comencini; 1952: Wanda la peccatrice (Wanda, a Pecadora), de Duilio Coletti; Il romanzo della mia vita, de Lionello De Felice; Lo sceicco bianco (O Sheik Branco), de Federico Fellini; Europe ‘51 (Europa 51), de Roberto Rossellini; 1953: Ai margini della metropoli (À Margem da Metrópole) de Carlo Lizzani; Via Padova 46 (A Minha Aventura de Amor), de Giorgio Bianchi; 1954: Donne proibite (Vidas Proibidas), de Giuseppe Amato; Cento anni d'amore (Cem Anos de Amor), filme em episódios de Lionello de Felice, episódio “Purification”; La Strada (A Estrada), de Federico Fellini; 1955: Buonanotte... avvocato! (Não Venhas Tarde), de Giorgio Bianchi; 1955: Il bidone (O Conto do Vigário), de Federico Fellini; 1957: Le notti di Cabiria (As Noites de Cabíria), de Federico Fellini; 1958: Fortunella, de Eduardo De Filippo; 1958: Nella città dell'inferno (As Grades do Inferno) de Renato Castellani;1959: Jons und Erdme, de Victor Vicas; 1960: Das Kunstseidene Mädchen, de Julien Duvivier;1965: Giulietta degli spiriti (Julieta dos Espíritos), de Federico Fellini; 1966: Scusi, lei è favorevole o contrario? (Como casar a nossa filha?), de Alberto Sordi; 1967: Non stuzzicate la zanzara (Não Provoquem a Rita), de Lina Wertmüller; 1969: The Madwoman of Chaillot (A louca de Chaillot), de Bryan Forbes; 1973: Eleonora (TV); 1976: Camilla (TV); 1985: Ginger e Fred (Ginger e Fred), de Federico Fellini; 1985: Sogni e bisogni, de Sergio Citti (TV); Perinbaba, de Juraj Jakubisko; 1986: Frau Holle, de Juraj Jakubisko; 1991: Aujourd'hui peut-être..., de Jean-Louis Bertuccelli.

SESSÃO 51: 16 DE JANEIRO DE 2017


ÁFRICA MINHA (1985)

Karen Blixen, ou Karen Christence, baronesa de Blixen-Finecke, mais conhecida pelo pseudónimo de Isak Dinesen, era dinamarquesa, nascida em final do século XIX e falecida em 1962, e veio a notabilizar-se como escritora, “contadora de histórias”, como ela gostava de se chamar, autora de alguns volumes de grande sucesso, como “Seven Gothic Tales”, “Out of Africa” (1937), “Winter's Tales” ou “Shadows on the Grass”. Passou grande parte da sua vida em África, precisamente no Quénia, onde teve uma fazenda, “no sopé das montanhas Ngongo”. Fugindo de um desgosto de amor, foi em África que se refugiou, casando com o barão Bror Blixen, irmão do seu antigo amante. O casamento é, obviamente, uma combinação por conveniência de ambas as partes: enquanto o barão encontra o capital necessário para montar uma plantação de café e poder continuar a viver em safaris de animais e de fortunas, Karen ganha um título nobilitário e uma pausa de reflexão em relação à sua vida na Dinamarca.
Em África, Karen Blixen descobrirá um continente fascinante, envolto numa estranha magia, que a apaixona para todo o sempre, marcando, daí para a frente, toda a sua vida e produção literária. Quando, em 1931, regressa à Dinamarca, depois de mais de 15 anos no continente africano, um dos seus trabalhos literários de maior repercussão será precisamente “Out of Africa”, um volume de pequenas histórias, recordações, episódios vividos ou imaginados, obra que está na origem do filme de Sydney Pollack. Este, no entanto, não se contenta em adaptar “Out of Africa”, mas conjuga-a com outros textos da mesma escritora; e ainda com obras biográficas como “Isak Dinesen: The Life of a Storyteller”, de Judith Thurman, ou “Silence Will Speak: A Study of the Life of Denys Finch Hatton and His Relationship With Karen Blixen”, de Errol Trzebinski. O resultado final será uma amálgama de referências que permitem reconstituir aspectos da vida desta mulher que atravessou o continente africano numa época particularmente reveladora (entre 1914 e 1931), mas esboçar, igualmente, um quadro impressionista e romanesco (pode mesmo ir-se mais longe e falar-se de romantismo) da sua paisagem geográfica e humana. É evidente, porém, que a África nunca funciona de forma autónoma, mas como cenário condicionante de uma vida. Cenário, todavia, trabalhado com o necessário rigor histórico, político e sociológico, que se pressente por detrás do tema central de Pollack. A protagonista é Karen e é através dela que tudo o mais surge, é através dos seus olhos que tudo é visto. Donde a justificação da “voz off”, que funciona como elemento unificado e descritivo conferindo a toda a toada da obra um tom memorialista.


Donde também essa sensação de “perda” de que todo o filme está imbuído, como contraponto a uma figura de obstinada pertinácia, de combate, de luta, de conquista. Mas tudo o que Karen toca parece esboroar-se e perder-se. Todo o filme se organiza, aliás, em função das sequências iniciais, passadas na Dinamarca, nas quais Karen confessa a perda da virgindade, ofertada a um amante que agora a ignora. Daí em diante, Karen vai procurar “conquistar”, um pouco como consequência lógica dessa “perda” original que a marca: ela compra um título, um marido, uma plantação, uma fábrica; ela quer um filho, um amante, de novo um marido; ela procura domesticar África, calçando luvas brancas nos empregados negros, desviando o curso dos rios, curando os nativos feridos, europeizando-lhe as roupas. Mas em tudo falha. O resultado é sempre uma perda (o filho que não pode ter; o marido de quem se divorcia; um outro que rejeita o casamento como acto de posse de um sobre outro; a fábrica que arde num incêndio; a África que não consegue dominar). Karen vai perdendo tudo, mas ganhando intimamente, enriquecendo-se em experiência e sabedoria. Retira as luvas brancas aos criados negros, e deixa o rio circular livremente no seu leito natural. Irá mesmo lutar por uma terra para os nativos que são desalojados das suas propriedades. Denys, o homem que ela não conseguiu conquistar, acabará por ser aquele que para sempre a marcará, precisamente porque foi o único que não a conseguiu compreender na sua complexidade (isto é, o único que se furtou ao seu enquadramento mental). Enquanto figura de mulher, Karen aproxima-se bastante da personagem de Scarlet O'Hara, de “E Tudo o Vento Levou”, e este paralelismo vale igualmente para o próprio tom romanesco da obra, que se aproxima da película de Victor Fleming, da mesma forma que se cruza com “Viagem para a Índia”, de David Lean. Em todas elas existe esse jogo de poder expresso a vários níveis, tecido em relações de forte acento sexual. Aliás, “África Minha” faz-nos comparticipar desse intenso clima erótico, sensual. Admiravelmente desenhado pela narrativa suave, discreta, mas vigorosa, intimista, quase mágica que Sydney Pollack imprime a toda a película numa evidente manifestação de mestria, de estilo dominado e austero, de rigor, de serenidade expositiva. Uma última palavra para a excelência da representação, acentuando-se não só o brilhantismo de Meryl Streep mas igualmente de Robert Redford e Klaus Maria Brandauer. Referência ainda à fotografia de David Watkin e à música de John Barry. Todos eles muito bem representados nos diversos Oscars e nomeações que a obra justificou. Estatuetas foram para Melhor Filme, Melhor Realizador (Sydney Pollack), Melhor Argumento Adaptado (Kurt Luedtke), Melhor Fotografia (David Watkin), Melhor Direcção Artística (Stephen B. Grimes, Josie MacAvin), Melhor Som (Chris Jenkins, Gary Alexander, Larry Stensvold, Peter Handford) e ainda Melhor Musica Original (John Barry). Meryl Streep ficou-se pela nomeação, bem como Klaus Maria Brandauer, nomeações que ainda sublinharam o trabalho de guarda-roupa e montagem. De resto, o filme anda ganhou dezenas e dezenas de outras distinções e muitos outros prémios.


ÁFRICA MINHA
Título original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1985); Argumento: Kurt Luedtke, segundo Karen Blixen ("Out of Africa" e outros escritos), Judith Thurman ("Isak Dinesen: The Life of a Story Teller") e Errol Trzebinski ("Silence Will Speak"); Produção: Anna Cataldi, Terence A. Clegg, Kim Jorgensen, Sydney Pollack, Judith Thurman; Música: John Barry; Fotografia (cor): David Watk; Montagem: Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp, William Steinkamp; Casting: Mary Selway; Design de produção: Stephen B. Grimes; Direcção artística: Colin Grimes, Cliff Robinson, Herbert Westbrook; Maquilhagem: J. Roy Helland, J. Roy Helland, Norma Hill, Mary Hillman, Joyce James, Gary Liddiard, Vera Mitchell; Direcção de Produção: Robin Forman Howard, Gerry Levy; Assistentes de realização: Roy Button, Jack Couffer, Patrick Kinney, George Menoe, Meja Mwangi, Tom Mwangi, David Tomblin, Simon Trevor, Lee Cleary, Michael Zimbrich; Departamento de arte: Bert Hearn, Geoff Langley, Frank Billington-Marks; Som: Gary Alexander, Peter Handford, Chris Jenkins, William L. Manger, Tom McCarthy Jr., Larry Stensvold, John Stevenson; Efeitos especiais: David Harris; Efeitos visuais: Syd Dutton, Mark Freund, Steve Gawley, Michael Gleason, Jay Riddle; Companhias de produção: A Mirage Enterprises Production / A Sydney Pollack Film; Universal Pictures Limited; Intérpretes: Meryl Streep (Karen), Robert Redford (Denys), Klaus Maria Brandauer (Bror), Michael Kitchen (Berkeley), Malick Bowens (Farah), Joseph Thiaka (Kamante), Stephen Kinyanjui (Kinanjui), Michael Gough (Delamere), Suzanna Hamilton (Felicity), Rachel Kempson (Lady Belfield), Graham (Lord Belfield), Leslie Phillips (Sir Joseph), Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda, Mohammed Umar, Donal McCann, Kenneth Mason, Tristram Jellinek, Stephen B. Grimes, Annabel Maule, Benny Young, Sbish Trzebinski, Allaudin Qureshi, Niven Boyd, Peter Strong, Abdulla Sunado, Amanda Parkin, Muriel Gross, Ann Palme, Keith Pearson, etc. Duração: 161 minutos; Distribuição em Portugal: Universal (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Fevereiro de 1986.


MERYL STREEP (1949 - )
Há muita gente que a considera a maior actriz viva. A Academia de Hollywood parece dar-lhes razão. Já a nomeou por 19 vezes para o Oscar de Melhor Actriz, tendo vencido por três vezes. Um “case study”, como é agora moda dizer-se. As nomeações: “The Deer Hunter” (1978), “Kramer vs. Kramer” (1979, ganhou, como actriz secundária), “The French Lieutenant's Woman” (1981), “Sophie's Choice” (1982, ganhou), “Silkwood” (1983), “Out of Africa” (1985), “Ironweed” (1987), “Evil Angels” (1988), “Postcards from the Edge” (1990), “The Bridges of Madison County” (1995), “One True Thing” (1998), “Music of the Heart” (1999), “Adaptation” (2002), “The Devil Wears Prada” (2006), “Doubt” (2008), “Julie & Julia” (2009), “The Iron Lady” (2011, ganhou), “August: Osage County” (2013) e “Into the Woods” (2014). Mas não são só os Oscars. Ela é seguramente das actrizes mais premiadas de sempre. 29 nomeações para os Globos de Ouro, que venceu por oito vezes, também novo recorde. Recebeu igualmente dois Emmys, dois Screen Actors Guild Awards, o prémio de melhor actriz no Festival de Cannes e no Festival de Berlim, cinco prémios do New York Film Critics Circle, dois BAFTA, dois Australian Film Institute Award, quatro indicações ao Grammy Award e uma indicação ao Tony Award, deixando de lado dezenas e dezenas de outros trofeus e distinções.
Mary Louise Streep nasceu a 22 de Junho de 1949, em Bernardsville, Summit, New Jersey, EUA. Os pais foram Harry William Streep, Jr., ligado à indústria farmacêutica, com ascendência alemã e suíça, e Mary Wolf, uma artista com ancestros de raízes inglesas, irlandesas e alemães.
Estudou no Bernards High School e depois no Vassar College, onde chegou a ser aluna da actriz Jean Arthur. Foi estudante do Dartmouth College e fez mestrado em Artes Dramáticas na Universidade de Yale, curso durante o qual participou de várias montagens teatrais, como “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare. Participou em diversos elencos em Nova Iorque e New Jersey, em peças como “Henry V”, “The Taming of the Shrew” ou “Measure for Measure”. Conheceu John Cazale, com quem viveu até à morte deste, três anos depois. Na Broadway lançou-se no musical “Happy End”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. No cinema, desponta em “Julia” (1977), e no ano seguinte, em “The Deer Hunter”, sendo particularmente notada e recebendo a sua primera nomeação para o Oscar. Nesse mesmo ano, surge na minissérie “Holocausto”, que lhe trouxe reputação nacional e internacional. Ganhou o Emmy para Melhor Actriz. Este foi o início fulgurante de uma carreira imparável. Em “Out of Africa” (1985) Meryl Streep interpretou a escritora dinamarquesa Karen Blixen. Sydney Pollack, o realizador, de início não a considerava a actriz ideal, por não a achar suficientemente sexy para a personagem. Ele pensava em Audrey Hepburn. Meryl não desarmou, apresentou-se no encontro com Pollack com sutiã com generoso postiço e bem decotado. Ganhou o papel. Em 1995, Streep contracenou com Clint Eastwood em “The Bridges of Madison County”, outro enorme sucesso. Mas o seu maior êxito comercial apareceria em 2008, com o musical “Mamma Mia!”, uma adaptação do musical da Broadway com canções do grupo sueco ABBA, que arrecadou 602,6 milhões de dólares, a maior receita entre os musicais de todos os tempos.
Recebeu o prémio honorário do American Film Institute em 2004 e o Kennedy Center Honor em 2011, ambos pela sua contribuição para a cultura dos Estados Unidos através das artes performativas, sendo a mais jovem artista da história a receber tal distinção. Foi condecorada por duas vezes pelo presidente Barack Obama, em 2010 e 2014, com a Medalha Nacional das Artes e a Medalha Presidencial da Liberdade, mais alta condecoração civil dos Estados Unidos.
Entre 1984 e 1990, ganhou seis People's Choice Awards para a melhor atriz cinematográfica, e em 1990 foi indicada como a "Melhor do Mundo". Em Setembro de 1998 recebeu uma estrela no Hall of Fame de Hollywood, localizada no número 7020 da Hollywood Boulevard. Quatro anos antes, em 1994, deixara a marca dos pés e mãos, além da assinatura frente ao Grauman's Chinese Theatre. Em 2007, juntamente com Bruce Springsteen e Frank Sinatra, foi inscrita no New Jersey Hall of Fame, onde se homenageiam personalidades de diversas áreas, do desporto à política, nascidos naquele estado e que contribuíram de maneira expressiva para a cultura mundial.
Meryl Streep viveu com o actor John Cazale durante os últimos três anos da vida deste, que morreria com um cancro nos ossos. Nas últimas semanas de vida de Cazale, a actriz mudou-se para o hospital onde diariamente lia o jornal para o companheiro, com a sonoridade de um comentador desportivo. Em Setembro de 1978, casou com o escultor Don Gummer. Em 2013, no agradecimento ao Oscar, Meryl dedicou o prémio ao marido. Disse: “Em primeiro lugar gostaria de agradecer a Don, porque quando se agradece ao marido no final do discurso, eles aumentam o volume da música e deixa de se ouvir e eu faço questão de que ele saiba que tudo que eu valorizo nas nossas vidas foi ele que me deu". Tiveram quatro filhos: Henry Wolfe Gummer, nascido em 1979; Mamie Gummer, nascida em 1983; Grace Gummer, nascida em 1986; e Louisa Jacobson Gummer, nascida em 1991. Tanto Mamie como Grace são actrizes, enquanto Henry é músico e actor.


Filmografia

Como actriz: 1975: Everybody Rides the Carousel, de John Hubley; 1977: Julia (Julia), de Fred Zinnemann; The Deadliest Season (TV); 1977-1979: Great Performances (TV); 1978: The Deer Hunter (O Caçador), de Michael Cimino; Holocaust (Holocausto), de Marvin J. Chomsky (TV); 1979: Manhattan (Manhattan), de Woody Allen; The Seduction of Joe Tynan (A Sedução de Joe Tynan), de Jerry Schatzberg; Kramer vs. Kramer (Kramer Contra Kramer), de Robert Benton; Uncommon Women... and Others de Merrily Rossman e Steven Robman (TV);1981: The French Lieutenant's Woman (A Amante do Tenente Francês), de Karel Reisz; 1982: Still of the Night (Na Calada da Noite), de Robert Bento; Sophie's Choice (A Escolha de Sofia), de Alan J. Pakula; Alice at the Palace (TV); 1983: Silkwood (Reacção em Cadeia), de Mike Nichols; 1984: Falling in Love (Encontro com o Amor), de Ulu Grosbard; Little Ears: The Velveteen Rabbit de Mark Sottnick (curta-metragem, narradora); In Our Hands (documentário); 1985: Plenty (Plenty, Uma História de Mulher), de Fred Schepisi; Out of Africa (África Minha) de Sydney Pollack; 1986: Heartburn (A Difícil Arte de Amar), de Mike Nichols; Rabbit Ears: The Tale of Mr. Jeremy Fisher (curta-metragem, narradora, vídeo); Rabbit Ears: The Tale of Peter Rabbit (curta-metragem, vídeo, narradora); 1987: Ironweed (Estranhos na Mesma Cidade), de Hector Babenco; The Tailor of Gloucester (curta-metragem, narradora, vídeo); 1988: A Cry in the Dark (Um Grito de Coragem), de Fred Schepisi; 1989: She-Devil (Demónio de Saias), de Susan Seidelman; Rabbit Ears: The Fisherman and His Wife (curta-metragem, narradora, vídeo); 1990: Postcards from the Edge (Recordações de Hollywood) de Mike Nichols; 1991: Defending Your Life (Em Defesa da Vida), de Albert Brooks; 1992: Death Becomes Her (A Morte Fica-vos Tão Bem), de Robert Zemeckis; 1993: The House of the Spirits (A Casa dos Espíritos), de Bille August; 1994: The River Wild (Rio Selvagem), de Curtis Hanson; Os Simpsons (TV); A Century of Cinema, de Caroline Thomas (documentário); 1995: The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison County) de Clint Eastwood; 1996: Before and After (Antes e Depois), de Barbet Schroeder; Marvin's Room (Duas Irmãs) de Jerry Zaks; 1997: Juramento do Amor (TV); First Do No Harm, de Jim Abraham; 1998: Dancing at Lughnasa (Dançando em Lughnasa), de Pat O'Connor; One True Thing (Podia-te Acontecer), de Carl Franklin;1999: Music of the Heart (Melodia do Coração), de Wes Craven; King of the Hill (TV) - A Beer Can Named Desire; Ginevra's Story: Solving the Mysteries of Leonardo da Vinci's First Known Portrait (narração); Chrysanthemum (curta-metragem. Narração); 2001: Artificial Intelligence: AI (A.I. Inteligência Artificial) de Steven Spielberg; 2002: Adaptation. (Inadaptado), de Spike Jonze; The Hours (As Horas), de Stephen Daldry: 2003: Stuck on You (Agarrado a Ti), de Peter e Bobby Farrelly; Freedom: A History of Us (TV documentário); Angels in America (Anjos na América), de Mike Nichols (TV); 2004: The Manchurian Candidate (O Candidato da Verdade) de Jonathan Demme; Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events (Lemony Snicket's: Uma Série de Desgraças), de Brad Silberling; 2005: Prime (Terapia do Amor), de Ben Younger; 2006: The Music of Regret, de Laurie Simmons (curta-metragem); 2006: The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada), de David Frankel; A Prairie Home Companion (A Praire Home Companion - Bastidores da Rádio) de Robert Altman; Ant Bully (O Rapaz Formiga) de John A. Davis (voz); Hurricane on the Bayou, de Greg McGillivray (narradora) (documentário); 2007: Lions for Lambs (Peões em Jogo) de Robert Redford; 2008: The Magic 7 de Roger Holzberg; Rendition (Detenção Secreta), de Gavin Hood; Evening (Ao Anoitecer) de Lajos Koltai; Dark Matter (Matéria Negra), de Shi-Zheng Chen; Mamma Mia! (Mamma Mia!), de Phyllida Lloyd; Doubt (Dúvida), de John Patrick Shanley; Ribbon of Sand, de John Grabowska (documentário); Theater of War, de John W. Walter (documentário); 2009: Julie & Julia (Julie & Julia), de Nora Ephron; It's Complicated (Amar... é Complicado!), de Nancy Meyers; Fantastic Mr. Fox (O Fantástico Senhor Raposo), de Wes Anderson: (voz); 2010: Web Therapy (TV);2010 – 2012: Web Therapy (TV); 2011: The Iron Lady (A Dama de Ferro), de Phyllida Lloyd; 2012: Hope Springs (Terapia a Dois), de David Frankel; 2013: August: Osage County (Um Quente Agosto), de John Wells; 2014: The Homesman (The Homesman - Uma Dívida de Honra), de Tommy Lee Jones; Into the Woods (Caminhos da Floresta), de Rob Marshall; The Giver (The Giver - O Dador de Memórias), de Phillip Noyce; 2015: Suffragette (As Sufragistas), de Sarah Gavron; Ricki and the Flash (Ricki e os Flash), de Jonathan Demme; 2016: Florence Foster Jenkins, de Stephen Frears;