sábado, 11 de junho de 2016

SESSÃO 26: 11 DE JULHO DE 2016


A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS (1954)

Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e o próprio realizador Richard Brooks escreveram o argumento, segundo um conto de F. Scott Fitzgerald, inicialmente publicado no “The Saturday Evening Post” (1931), e posteriormente integrado na antologia "Babylon Revisited". O conto é bastante mais curto e seco que o filme, que o inunda com prolongamentos por vezes um pouco melodramáticos em demasia, mas diga-se em abono da verdade que o resultado final é bastante interessante e, sobretudo, não anda muito longe do universo do autor de “O Grande Gatsby”, povoado por “Belos e Malditos” a evoluir na “Era do Jazz”, quer habitem a América do pós I Guerra Mundial, os “loucos anos 20”, ou sobrevivam durante a Grande Depressão, em Paris, por exemplo, onde decorre a acção do conto (e obviamente do filme dele retirado). Houve quem chamasse a esta a “Geração Perdida” (Lost Generation). A designação é atribuída a Gertrude Stein, mas quem a vulgarizou foi Ernest Hemingway nalgumas obras suas. O termo caracteriza uma geração de intelectuais, escritores, artistas, músicos, que viveram em Paris, mas também noutros locais da Europa, durante o lapso de tempo que mediou entre o fim da I Guerra Mundial e a eclosão da Grande Depressão (1918-1929). Muitos são os nomes que se lhe encontram associados - este foi um período fértil em criação literária e artística de vanguarda -, mas os que mais são citados, entre os norte-americanos, são Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Sherwood Anderson, Waldo Peirce, John Dos Passos e T. S. Eliot. Irlandês, James Joyce fez igualmente parte deste grupo, sendo o romance “Ulisses” considerado uma das peças fundamentais deste período. Deve, no entanto, dizer-se que os escritores que melhor encarnaram esse tempo, terão sido Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Eles foram a essência dessa era onde o jazz floresceu e marcou o ritmo.
"Babylon Revisited", o conto, fala-nos do regresso a Paris do americano Charles Wills, alguns anos depois de ter abandonado a capital francesa, onde passara uma longa temporada. Como o título denuncia, ele vem “revisitar Babilónia”. Charles volta a Paris para rever a filha, Vicki, que ali deixara em casa de uma cunhada, com a ideia de a levar consigo. Mas Marion Ellswirth, irmã da sua falecida mulher, Helen Ellswirth, não parece muito virada para satisfazer esse desejo, dada a vida anterior de Charles, um daqueles jovens entregues aos prazeres da vida, às festas sucessivas, à vida nocturna, à boémia, às drogas e ao alcoolismo. Uma vida que terá levado, de alguma forma, à morte de Helen e à atitude hostil de Marion. O conto não vai muito mais além e terá sido necessária alguma imaginação para os argumentistas do filme recriarem um longo flashbach (que ocupa quase todo filme) onde se recuperam os tempos passados em Paris por Charles e Helen, numa altura em que a cidade era essa Babilónia, onde Charles (e os amigos) eram “uma espécie de realeza quase infalível, rodeados por uma espécie de magia”. Eram tempos de ociosidade, de viver a vida perigosamente, alegremente, ou como se diz no conto, de perceber “como o vício e a dissipação se desenvolviam numa escala quase absolutamente infantil (…), reconhecendo rapidamente o significado da palavra "dissipar": dissipar-se no ar ténue, converter alguma coisa em nada”. Charles recorda ainda, no conto, como “se entregavam notas de mil francos a uma orquestra para tocar um tema, ou notas de cem francos oferecidas a um porteiro para chamar um táxi”.


O filme distende o conto, cria uma intriga anterior a este regresso de Charles Wills (Van Johnson) a Paris, desenvolve a história de amor e os conflitos com a mulher, Helen Ellswirth (Elizabeth Taylor), a má relação com a cunhada Marion Ellswirth (Donna Reed) é explicada por uma prévia paixão desta por Charles, não correspondida, estabelece uma curiosa paternidade para as irmãs, com a aparição de James Ellswirth (Walter Pidgeon), uma das figuras mais boémias, que estende a ociosidade ao jogo e à bebida, e demonstra uma “compreensão” total quanto ao estilo de vida de Helen. No filme, estas personagens mostram possuir uma lucidez invulgar, mas de acordo com as suas pretensões intelectuais. Eles sabem-se “perdidos”, náufragos de um tempo que consomem sem o perceberem, mas têm plena consciência da sua incapacidade de mudança. A certa altura, Helen afirma que talvez “seja tempo de crescer”, ao que Charles responde que “é muito tarde para crescer!” Os romances que tenta escrever continuam a ser recusados pelas editoras, no que o conto se revela muito próximo de alguns aspectos autobiográficos do próprio F. Scott Fitzgerald. Na verdade, os biógrafos do escritor associam este conto do também autor de “Este Lado do Paraíso” às reacções que manteve com a cunhada Rosalind e o marido Newman Smith, com algumas anotações relativas à sua filha "Scottie". Helen, no conto, poderá ter alguma equivalência à mulher do próprio Fitzgerald, Zelda. Rosalind nunca terá perdoado ao escritor a vida de dissolução e de irresponsabilidade frívola que, segundo ela, terá conduzido Zelda aos problemas mentais que a colocaram num hospício na Suíça. De resto, Rosalind e Newman acabaram mesmo por tomar conta de “Scottie”, julgando o pai irresponsável para a educar.
Passado entre Paris e Cannes, Mónaco e a Cote d’Azur, “A Última Vez que Vi Paris” peca um pouco por um certo melodramatismo a roçar o piegas, sobretudo para o final, mas vale como retrato de uma época e pela realização eficaz e segura de Richard Brooks (um cineasta com grande queda para adaptar grandes clássicos da literatura mundial – são dele “Os Irmãos Karamazov”, partindo de Dostoiévski, “Gata em Telhado de Zinco Quente” e “Corações na Penumbra”, ambos segundo Tennessee Williams, ou, entre outros, “Lord Jim”, adaptação de Joseph Conrad). Não deverá esquecer-se a canção que funciona como tema desta obra e que muito contribuiu igualmente para o seu sucesso internacional. Curiosamente, não é uma criação original para este filme, surgiu em 1941, no filme “Lady Be Good”, com Ann Sothern, e foi inspirada composição assinada por uma dupla que fez furor na música (e nos musicais) norte-americana, Jerome Kern e Oscar Hammerstein II. Em 1942, ganhou o Oscar para Melhor Canção e no filme de 1954 o tema foi cantado por Odette Myrtil. 
Ao nível da representação, Elizabeth Taylor e Van Johnson fazem a sua última aparição conjunta num título da MGM, mas deve dizer-se, apesar do enorme êxito que o filme conheceu junto das plateias mundiais, dando muito a ganhar à produtora (a MGM fala em quase um milhão de dólares de lucro), que não é dos melhores trabalhos de nenhum deles. Elizabeth Taylor passa por um dos seus mais deslumbrantes momentos, quanto a beleza e elegância, mas em muitos outros filmes ela terá feito explodir de forma mais convincente o seu talento. Walter Pidgeon terá a composição mais divertida, enquanto Donna Reed, Eva Gabor, Kurt Kasznar, George Dolenz ou Sandy Descher cumprem. Curiosa a estreia de Roger Moore em Hollywood, como galã sedutor irresistível. 

A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS
Título original: The Last Time I Saw Paris
Realização: Richard Brooks (EUA, 1954); Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Richard Brooks, segundo conto de F. Scott Fitzgerald ("Babylon Revisited"); Produção: Jack Cummings; Música: Conrad Salinger; Fotografia (cor): Joseph Ruttenberg;  Montagem: John D. Dunning; Direcção artística: Randall Duell, Cedric Gibbons; Decoração: Jack D. Moore, Edwin B. Willis; Guarda-roupa: Helen Rose; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, William Tuttle; Direcção de Produção: William Kaplan; Assistente de realização: William Shanks; Som: Wesley C. Miller, Conrad Kahn, Alexander Kelly Jr., Kendrick Kinney, Finn Ulback; Efeitos especiais: A. Arnold Gillespie; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Elizabeth Taylor (Helen Ellswirth), Van Johnson (Charles Wills), Walter Pidgeon (James Ellswirth), Donna Reed (Marion Ellswirth), Eva Gabor (Lorraine Quarl), Kurt Kasznar (Maurice), George Dolenz (Claude Matine), Roger Moore (Paul), Sandy Descher (Vicki), Celia Lovsky (Mama), Peter Leeds, John Doucette, Odette Myrtil, Jacqueline Allen, Max Barwyn, Peter Bourne, Tim Cagney, Ann Codee, Harry Cody, Louise Colombet, Gene Coogan, Albert D'Arno, John Damler, Marcel De la Brosse, Josette Deegan, Jean Del Val, Paul Dubov, Arthur Dulac, Norman Dupont, Richard Emory, John Charles Farrow, Gilda Fontana, Mary Ann Hawkins, Jean Heremans, Louis Mercier, Matt Moore, Leonidas Ossetynski, Manuel París, Danik Patisson, Tao Porchon,Paul Power, Fay Roope, Joe Rubino, Loulette Sablon, Dick Simmons, Angela Stevens, Lomax Study, Luis Urbina, Maya Van Horn, Bruno VeSota, Steve Wayne, etc. Duração: 116 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): CineDigital; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 10 de Janeiro de 1956.


ELIZABETH TAYLOR (1932 - 2011)
Elizabeth Rosemond Taylor nasceu a 27 de Fevereiro de 1932, em Hampstead, Londres, Inglaterra, e viria a falecer a 23 de Março de 2011, em Los Angeles, Califórnia, EUA, vítima de problemas cardíacos. Os pais eram americanos, Francis Leen Taylor e Sara Viola Rosemond Warmbrodt, oriundos de St. Louis, Missouri, e foram para Londres abrir uma galeria de arte. A mãe era actriz, actividade que abandonou depois de casada, e Elizabeth viveu em Londres até aos 7 anos, quando a família regressou aos EUA, a Los Angeles, para fugir à guerra. Um amigo, ao descobrir a beleza da jovem, aconselhou-a a fazer um teste na Universal Pictures, onde foi logo contratada e se estreou aos 10 anos, em “O Rei das Vitaminas” (1942). Pouco depois, passou para a MGM, lançando-se numa carreira que fez dela uma das maiores vedetas de sempre do cinema mundial. Depois de várias obras onde se apresentava como adolescente (entre elas, algumas ao lado da inseparável Lassie), filmes como “Rapsódia” (1954), “O Belo Brummell” (1954), “A Última Vez Que Vi Paris” (1954) ou “A Senda dos Elefantes” (1954) prepararam a escalada. Com 20 anos, era considerada uma das mais fulgurantes belezas de Hollywood, como o demonstrou numa obra-prima de George Stevens, “Um Lugar ao Sol” (1951). Depois interpretou “O Gigante” (1956), ao lado de Rock Hudson e de James Dean, prosseguindo num crescendo de sucessos, como “A Árvore da Vida” (1957), “Gata em Telhado de Zinco Quente” (1958), “Bruscamente no Verão Passado” (1959), “O Número do Amor” (1960), “Cleópatra” (1963), “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1966), entre muitos outros. Foi Oscar da Academia para Melhor Actriz em 1961, por “Butterfield 8” e em 1967, por “Who's Afraid of Virginia Woolf?”. Conquistou inúmeros prémios e condecorações. Possui uma estrela no “Walk of Fame”, em 6336, Hollywood Boulevard. Vida sentimental tumultuosa, com sete casamentos, um deles bisado: Conrad Hilton Jr. (1950 - 1951), Michael Wilding (1952 - 1957), Michael Todd (1957 - 1958), Eddie Fisher (1959 - 1964), Richard Burton (1964 - 1974), Richard Burton (1975 - 1976) John Warner (1976 - 1982) Larry Fortensky (1991 - 1996).


Filmografia:

1942: There’s One Born Every Minute (O Rei das Vitaminas), de Harold Young; 1943: Lassie Come Home (O Regresso), de Fred M. Wilcox; 1944: Jane Eyre (A Paixão de Jane Eyre), de Robert Stevenson; The White Cliffs of Dover (As Rochas Brancas de Dover), de Clarence Brown; National Velvet (A Nobreza Corre nas Veias), de Clarence Brown; 1946: Courage of Lassie ou Blue Sierra (A Coragem de Lassie), de Fred M. Wilcox; 1947: Life with Father (A Culpa é do Papá), de Michael Curtiz; Cynthia: The Rich, Full Life ou The Rich Full Life (Cynthia, Feliz Amanhecer), de Robert Z. Leonard; 1948: A Day with Judy (Travessuras de Júlia), de Richard Thorpe; Julia Misbehaves (A Professora de Rumba), de Jack Conway; 1949: Little Women (Mulherzinhas), de Mervyn LeRoy; Conspirator (Traidor), de Victor Saville; 1950: The Big Hangover (A Verdade não se Diz), de Norman Krasna; Father of the Bride (O Pai da Noiva), de Vincente Minnelli; 1951: Father’s Little Dividend (O Pai é Avô), de Vincente Minnelli; A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol), de George Stevens; Quo Vadis (Quo Vadis), de Mervyn LeRoy; Calaway Went Thataway (Esperto Contra Esperto), de Norman Panama e Melvin Frank (não creditada); 1952: Love Is Better Than Ever ou The Light Fantastic (O Melhor é Casar), de Stanley Donen; Ivanhoe ou Sir Walter Scott’s Ivanhoe (Ivanhoe, o Vingador do Rei), de Richard Thorpe; 1953: The Girl Who Had Everything (Paixão Perigosa), de Richard Thorpe; 1954: Rhapsody (Rapsódia), de Charles Vidor; 1954: Elephant Walk (A Senda dos Elefantes), de William Dieterle; Beau Brummell (O Belo Brummell), de Curtis Bernhardt; 1954: The Last Time I Saw Paris (A Última Vez que Vi Paris), de Richard Brooks; 1956: Giant (O Gigante), de George Stevens; 1957: Raintree County (A Árvore da Vida), de Edward Dmytryk; 1958: Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Telhado de Zinco Quente), de Richard Brooks; 1959: Suddenly, Last Summer (Bruscamente no Verão Passado), de Joseph L. Mankiewicz; 1960: Butterfield 8 (O Número do Amor), de Daniel Mann; 1963: Cleopatra (Cleopatra), de Joseph L. Mankiewicz; 1963: The V.I.P.s ou International Hotel (Hotel Internacional)), de Anthony Asquith; 1964: The Night of Iguana (A Noite de Iguana), de John Huston; 1965: The Sandpiper (Adeus Ilusões), de Vincente Minnelli; 1966: Who’s Afraid of Virginia Woolf? (Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), de Mike Nichols; 1967: The Taming of the Shrew (A Fera Amansada), de Franco Zeffirelli; Doctor Faustus (Doctor Fausto), de Richard Burton e Neville Coghill; Reflections in a Golden Eye (Reflexos num Olho Dourado), de John Huston; The Comedians (Os Comediantes), de Peter Glenville; 1968: Boom! (Choque), de Joseph Losey; Secret Ceremony (Cerimónia Secreta), de Joseph Losey; 1969: Anne of the Thousand Days ou Anne of a Thousand Days), de Charles Jarrott; 1970: The Only Game in Town (Quando o Jogo É o Amor), de George Stevens; 1972: X, Y & Zee and Co. (X, Y e Z), de Brian G. Hutton ; Under Milk Wood, de Andrew Sinclair; Hammersmith Is Out (A Engrenagem), de Peter Ustinov; 1973: Divorce His, Divorce Hers (Divórcio), de Waris Huss\ein (telefilme); Night Watch (A Noite dos Mil Olhos), de Brian G. Hutton; Ash Wednesday (Porque Morre o Nosso Amor?), de Larry Peerce; 1974: The Driver’s Seat ou Psychotic (O Outono da Vida), de Giuseppe Patroni Griffi; That Entertainment (Isto é Espectáculo)), de Jack Haley Jr.; 1976: The Blue Bird (O Pássaro Azul), de George Cukor; Victory at Entebbe (Vitória em Entebbe), de Marvin Chomsky (telefilme); 1977: A Little Night Music (Música Numa Noite de Verão), de Harold Prince; 1978: Return Engagement, de Harold Prince (telefilme); 1979: Winter Kills (Pela Mira da Espingarda), de William Richert; 1980: The Mirror Crack’d (Espelho Quebrado), de Guy Hamilton; 1981: General Hospital (série de TV); 1983: Between Friends ou Nobody Makes Me Cry, de Deborah Shapiro (telefilme); 1984: All My Children (série de TV); Hotel (série de TV); 1985: Malice in Wonderland ou The Rumor Mill Louella Parsons (telefilme); 1985: North and South (Norte e Sul) (série de TV); 1986: There Must Be a Pony, de Marguerite Sydney (telefilme); 1987: Poker Alice, de Alice Moffit (telefilme); 1988: Il Giovane Toscanini (A Vida do Jovem Toscanini), de Franco Zeffirelli; 1989: Sweet Bird of Youth, de Alexandra Del Lago (telefilme); 1992: Captain Planet and the Planeteers Épisode A Formula for Hate) (série de TV); The Simpsons (Os Simpsons) (série de TV); 1994: The Flinstones (Os Flintstones) (série de TV); 1996: The Nanny, de Fran Drescher; 2001: These Old Broads, de Beryl Mason; 2003: God, the Devil and Bob (série de TV). 

SESSÃO 25: 4 DE JULHO DE 2016


A RODA DA FORTUNA (1953)

Vincente Minnelli é um cineasta de um bom gosto, de uma sensibilidade plástica, de uma inteligência, de um sentido do espectáculo raros. Tocou vários géneros, e quase sempre bem, mas nas décadas de 30 a 60 do século XX demonstrou um àvontade e um vigor notáveis no musical, onde foi um inovador destacado, autor de várias obras que para sempre ficaram na História do cinema. Basta citar “Meet Me in St. Louis” (1944), “Ziegfeld Follies” (1945), “Yolanda and the Thief” (1945, “The Pirate” (1948), “An American in Paris” (1951), “The Band Wagon” (1953), “Brigadoon” (1954) “Gigi” (1958) “Bells Are Ringing” (1960) ou mesmo “On a Clear Day You Can See Forever” (1970) para se ter a medida do seu talento e da sua importância na imposição de um género e na sua constante renovação. 
“The Band Wagon” (A Roda da Fortuna) é uma produção da MGM e do carismático produtor Arthur Freed, um dos nomes que mais decisivo se mostrou na definição do género, para o que contou muitas vezes com o génio de Vincent Minelli, e, neste caso, com a colaboração de uma elenco brilhante, com Fred Astaire e Cyd Charisse como chefes de quadro, mas muito bem coadjuvados por Oscar Levant, Nanette Fabray, Jack Buchanan e muitos outros, num argumento bem arquitectado por Betty Comden e Adolph Green. Bem arquitectado, mas muito simples. Muito simples, mas nada simplista. Afinal por ali passa muito pensamento sobre o que é o teatro e a arte. Mas fundamentalmente esta é uma estrutura óssea que permite a inclusão torrencial de números de bailado, razão principal do filme. As próprias personagens o explicam.
Quem gosta de musicais não precisa de mais explicações para se deixar levar na onda da música e do canto, sonhando esvoaçar no palco com Cyd Charisse nos braços ou tentando imitar o sapateado de Astaire. Mas o restante público, e há muito espectador que não gosta de musicais, que não tolera estes diálogos cantados, este aparente faz que anda mas não anda dos bailados, esses talvez se tornem permeáveis à beleza destes filmes se lhes acrescentarmos mais algumas palavras. Neste caso, acredito que se gosta ou não se gosta e pouco haverá a fazer. Mas é sempre bom tentar.


“A Roda da Fortuna” não é um filme excepcional pelo argumento, apesar deste ultrapassar em muito a sua aparente frivolidade. Mas parece-se a algumas dezenas de outros, com a característica deste ser infinitamente mais inteligente que muitos outros. Tony Hunter (Fred Astaire), bailarino, cantor, actor, regressa a Nova Iorque e, na estação de caminhos-de-ferro (onde encontra Ava Gardner!), tem à sua espera um casal de amigos e argumentistas, Lester e Lily Marton (Oscar Levant e Nanette Fabray), que têm na mão o guião do que eles afirmam ser um novo sucesso da Broadway. Contam com o apoio de um encenador e actor nessa altura de grande prestígio, Jeffrey Cordova (Jack Buchanan), e a colaboração de uma bailarina clássica, disposta a lançar-se nos palcos da Rua 42, a bela Gabrielle Gerard (Cyd Charisse). Mas nem tudo é fácil neste mundo do “entertainment”, aparecem sempre encenadores megalómanos, actores invejosos, outros inseguros, ensaios e mais ensaios, esperanças e desilusões, triunfos e fracassos, até se chegar à noite de estreia em Nova Iorque (na América normalmente antecedida por uma tournée por algumas das principais cidades do país, para rodar a companhia).
É disso tudo que trata “A Roda da Fortuna”, com a excelente “agravante” de nos ir proporcionando magníficos “números” que ficam na memória de todos. Por mim, retenho “clássicos” como “That's Entertainment” (um must dos musicais), “By Myself”, “You and the Night and the Music”, “Triplets”, “Something to Remember You By”, “Dancing in the Dark” (um dos mais belos números de dança de Fred Astaire, aqui ao lado da soberba Cid Charisse), “The Girl Hunt” (paródia ao mundo do filme policial e em especial ao universo do escritor Mickey Spillane) e um pouco conhecido mas delicioso “Shine on My Shoes”, que se integra numa delirante viagem pela rua 42, outrora o reino do musical da Broadway e agora transformada numa espécie de feira popular (lamenta Tony Hunter, enquanto vai experimentando cada uma das atracções).


Por tudo isto, “The Band Wagon” é um dos mais fabulosos musicais da época de Ouro de Hollywood (ao lado de obras-primas como “Serenata à Chuva”, com o qual mantém curiosas afinidades, sendo-lhe posterior um ano, ou “Um Americano em Paris”). A esta obra se chamou "backstage musical" (um musical de bastidores) e assim é, relatando alguns aspectos da forma como se ergue um espectáculo num dos teatros da Broadway. A visão é obviamente romântica, mas tem algo a ver com o recente “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, do mexicano Alejandro González Iñárritu que, numa perspectiva muito mais sombria, e sem falar de musicais, mas de teatro moderno, nos permite o mesmo olhar através dos corredores por detrás do palco, com os seus dramas e frustrações.
O filme adapta um musical da Broadway, estreado em 1931, com Fred Astaire e sua irmã Adele Astaire. Foi nomeado para três Oscars; Melhor Argumento, Betty Comden e Adolph Green; Melhor Guarda-roupa, Mary Ann Nyberg, e Melhor Música, Adolph Deutsch. Entretanto será de referir a qualidade das canções, muitas delas da dupla Howard Dietz e Arthur Schwartz, e salientar ainda que esta obra é uma das preservadas pelo National Film Registry, ocupando a 17ª posição na lista dos 25 maiores musicais americanos de todos os tempos, lista organizada pelo American Film Institute (AFI, 2006).

A RODA DA FORTUNA
Título original: The Band Wagon
Realização: Vincente Minnelli (EUA, 1953); Argumento: Betty Comden, Adolph Green, e ainda (não creditados) Norman Corwin, Alan Jay Lerner; Produção: Roger Edens, Arthur Freed, Bill Ryan; Música: Alexander Courage, Adolph Deutsch, Conrad Salinger; Fotografia (cor):  Harry Jackson, George J. Folsey; Montagem: Albert Akst, George White; Direcção artística: E. Preston Ames, Cedric Gibbons;  Decoração: F. Keogh Gleason, Edwin B. Willis;  Guarda-roupa:  Mary Ann Nyberg; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, William Tuttle; Direcção de Produção:  Hugh Boswell; Assistentes de realização: Jerry Thorpe, Al Alt, Jack Greenwood;  Departamento de arte: Oliver Smith, Robert Cormack, Frank Wesselhoff; Som: Douglas Shearer, James Brock, Ben Price; Efeitos especiais: Warren Newcombe; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Fred Astaire (Tony Hunter), Cyd Charisse (Gabrielle Gerard), Oscar Levant (Lester Marton), Nanette Fabray (Lily Marton), Jack Buchanan (Jeffrey Cordova), James Mitchell (Paul Byrd), Robert Gist (Hal), Fred Aldrich, Richard Alexander, Ernest Anderson, Barbara Bailey, Patsy Bangs, Lysa Baugher, Ralph Beaumont, Don Beddoe, Madge Blake, Herman Boden, Paul Bradley, Joe Brockman, Robert Burton, James Conaty, Henry Corden, Oliver Cross, Lillian Culver, Fred Datig Jr., Dulcie Day, Helen Dickson, Roy Engel, Estelle Etterre, Betty Farrington, Al Ferguson, Bess Flowers, Steve Forrest, Bill Foster, Douglas Fowley, Wymer Gard, Ava Gardner (ela própria), Jack Gargan, Herschel Graham, Marion Gray, Thurston Hall, Sam Hearn, Al Hill, Stuart Holmes, Colin Kenny, Donald Kerr, John Lupton, Judy Matson, Matt Mattox, Bert May, Frank McClure, Owen McGiveney, Harold Miller, Lawrence Montaigne, Julie Newmar, Loulie Jean Norman, Emory Parnell, Manuel París, Paul Power, Phil Rhodes, Barbara Ruick, Frank J. Scannell, George Sherwood, Robert Spencer, Harry Stanton, Bob Stebbins, Lotte Stein, Bert Stevens, Norman Stevens, Jack Stoney, Brick Sullivan, Hal Taggart, Jack Tesler, Jimmy Thompson, Dee Turnell, Glen Walters, Bobby Watson, Smoki Whitfield, Stuart Wilson, Gloria Wood, etc. Duração: 112 minutos; Distribuição em Portugal: MGM; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Abril de 1954.


CYD CHARISSE (1921-2008)
Quando nasceu chamaram-lhe Tula Ellice Finklea, mas também foi conhecida por Lily Norwood, Celia Siderova, Maria Istromena, além de Cyd Charisse, nome com que passou à história. Foi actriz e bailarina, das mais elegantes e sedutoras que o cinema americano conheceu. Tinha umas das mais belas pernas da História do cinema. Era conhecida mesmo por “The Legs”, o que não fazia jus a outras qualidades suas. Essas belíssimas pernas de pouco valeriam se não tivessem por detrás uma personalidade que as comandasse na direcção certas. Mas eram realmente valiosas para os estúdios, que as asseguraram em 5 milhões de dólares.
Nasceu a 8 de Março de 1921, em Amarillo, Texas, EUA, e faleceu a 17 de Junho de 2008, com 87 anos, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Estudou ballet em Los Angeles com Adolph Bolm e Bronislava Nijinska e começou a dançar nos Ballets Russes, com os pseudónimos de "Celia Siderova" e "Maria Istromena". Com o eclodir da II Guerra Mundial, a companhia dissolveu-se e, em Los Angeles, David Lichine oferece-lhe um papel de dançarina em “Something to Shout About” (1943). O coreógrafo Robert Alton, que também descobriu Gene Kelly, levou-a até ao produtor Arthur Freed, da MGM, que a contratou para o seu ballet residente. A sua carreira ficaria para sempre ligada a “números” de bailado, ao lado de Fred Astaire e Gene Kelly. Ziegfeld Follies (1946) marca a sua primeira aparição ao lado de Fred Astaire, conquistando logo a seguir o papel principal em “The Band Wagon” (1953), onde, novamente ao lado de Astaire, celebrizou coreografias de "Dancing in the Dark" e "Girl Hunt Ballet". Ainda com Astaire aparece em “Silk Stockings” (1957), um remake musical de “Ninotchka”, com Charisse no papel que foi de Greta Garbo. Com Gene Kelly, aparece na obra-prima do musical, “Singing in the Rain” (1952), voltando a trabalhar com Kelly em “Brigadoon” e “It's Always Fair Weather” (1956). Com o declínio do género musical no final dos anos 50, Charisse retirou-se da dança, mas continuou a realizar pequenas participações em filmes e produções de TV até os anos 90.
Casada com o bailarino Nico Charisse (1939–1947) e, posteriormente, com o cantor e actor Tony Martin (1948–2008). A 9 de Novembro de 2006, Laura Bush e George W. Bush entregaram-lhe a National Medal of Arts. Morreu de ataque cardíaco, no Centro Médico Cedars-Sinai, de Los Angeles, no dia 17 de Junho de 2008 e o enterro efectuou-se no Hillside Memorial Park, em Culver City, EUA.


Filmografia

Como actriz: 1941: The Gay Parisian (curta-metragem); Escort Girl, de Edward E. Kaye (não creditada); 1943: Something to Shout About (Saúde, Dinheiro e Amor), de Gregory Ratoff; Mission to Moscow, de Michael Curtiz; Thousands Cheer (A Festa dos Ídolos), de George Sidney; 1944: In Our Time (Nos Nossos Dias), de Vicent Sherman (não creditada); This Love of Mine (curta-metragem); 1945: Ziegfeld Follies (As Mil Apoteoses de Ziegfeld), de Roy Del Ruth, Vincente Minnelli, George Sidney, Lemuel Ayers, Roy Del Ruth, Robert Lewis, Merrill Pye, Charles Walters; 1946: The Harvey Girls (A Batalha do Pó de Arroz), de George Sidney; Three Wise Fools (Éramos 3 Companheiros), de Edward Buzzell; Till the Clouds Roll By (Até as Nuvens Passarem), de Richard Whorf; 1947: Fiesta (Fiesta), de Richard Thorpe; The Unfinished Dance (A Dança Incompleta), de Henry Koster; 1948: On an Island with You (Numa Ilha com Ela), de Richard Thorpe; The Kissing Bandit, de László Benedek; 1948: Words and Music (Os Reis do Espectáculo), de Norman Taurog; 1949: Tension, de John Berry; East Side, West Side (Mundos Opostos), de Mervyn LeRoy; 1951: Mark of the Renegade (A Marca do Renegado), de Hugo Fregonese; 1952: The Wild North (Loucura Branca), de Andrew Marton; Singin' in the Rain (Serenata à Chuva), de Stanley Donen; 1953: Sombrero (Sombrero), de Norman Foster; The Band Wagon (A Roda da Fortuna), de Vincente Minnelli; Easy to Love (Fácil de Amar), de Charles Walters; 1954: Brigadoon (Brigadoon: A Lenda dos Beijos Perdidos), de Vincente Minnelli; Deep in my Heart (Bem no Meu Coração), de Stanley Donen; 1955: It's Always Fair Weather (Dançando nas Nuvens), de Stanley Donen e Gene Kelly; 1956: Viva Las Vegas (Viva Las Vegas), de Roy Rowland; 1957: Silk Stockings (Meias de Seda), de Rouben Mamoulian; 1958: Twilight for the Gods (Crepúsculo no Oceano), de Joseph Pevney; Party Girl (A Rapariga Daquela Noite), de Nicholas Ray; 1960: Checkmate, episódio “Dance of Death”, de Terence Young (TV); 1961: Five Golden Hours (O Cangalheiro e as Viúvas), de Mario Zampi; 1962: Something's Got to Give, de George Cukor (filme nunca terminado); Two Weeks in Another Town (Duas Semanas Noutra Cidade), de Vincente Minnelli; 1-2-3-4 ou Les Collants Noirs (Um, Dois, Três, Quatro), de Terence Young; 1965: Il Segreto del Vestito Rosso (O Segredo de Bil North), de Silvio Amadio; 1966: The Silencers (Matt Helm, Agente Muito Secreto), de Phil Karlson; 1967: Maroc 7, de Gerry O'Hara; 1972: Fol-de-Rol (TV); 1975: Medical Center (TV); 1976: Won Ton Ton, the Dog Who Saved Hollywood (Won Ton Ton, O Cão que Salvou Hollywood), de Michael Winner; 1978: Warlords of Atlantis (Os Guerreiros da Atântida), de Kevin Connor; 1978: Hawaii Five-O (TV); 1978-1983: Fantasy Island (TV); 1979: O Barco do Amor (TV); 1980: Portrait of an Escort (TV); 1984: The Fall Guy (TV); Glitter (TV); 1985: Crime, disse ela (TV); 1986: Crazy Like a Fox (TV); 1989: Swimsuit (TV); 1995: A Lei de Burke (TV); 1995: Frasier, O Psiquiatra da Rádio (TV); 2008: Meurtres à l'Empire State Building (TV).

SESSÃO 24: 27 DE JUNHO DE 2016


ATÉ À ETERNIDADE (1953)

“From Here to Eternity” começou por ser um romance de James Jones, lançado em 1951 e que desde logo alcançou um grande sucesso. O título foi arrancado de um poema de Rudyard Kipling, "Gentlemen Rankers", onde se falava de "damned from here to eternity". James Jones falava da sua experiência pessoal numa guarnição militar norte-americana pacificamente instalada no início da década de 40 no Havai, perto de Honolulu, e paredes meias com Pearl Harbor. Estamos no verão de 1941, e os problemas são os inerentes a uma qualquer colónia humana, com homens em exercícios militares e algumas mulheres de oficiais a passearem a sua ociosidade e desejos mal satisfeitos. A instrução é violenta, nalguns casos ultrapassa a tortura, como no caso do soldado Robert E. Lee Prewitt (Montgomery Clift), que é tomado de ponta pelo capitão da sua companhia, Dana Holmes (Philip Ober), que, sabendo dos seus dotes de pugilista, o quer integrado na sua equipa, com vista a uma promoção pessoal. Mas Prewitt recusa sistematicamente incorporar-se no grupo de boxe, traumatizado que está por experiências passadas. Esta rejeição leva-o a sujeitar-se às mais sistemáticas humilhações psicológicas e torturas físicas. O mesmo acontece com o seu amigo Angelo Maggio (Frank Sinatra), que o guarda da prisão mortifica de forma desapiedada, quando o apanha atrás das grades, à sua mercê. O sargento Milton Warden (Burt Lancaster) é um dos homens mais equilibrados do quartel, impondo com disciplina as ordens superiores, mas atenuando a sua aspereza e arbitrariedade com algum humanismo. Aproveitando para, nos intervalos, saciar a solidão de Karen Holmes (Deborah Kerr), a mulher do capitão. Entre as principais personagens falta ainda referir Lorene, para os clientes do bar de alterne, onde recebe os soldados em folga, Alma para os amigos e para Robert E. Lee Prewitt, que por ela se apaixona (Donna Reed). A II Guerra Mundial acontece na Europa e ali os choques são os normais num tempo de paz que anuncia tormenta. O que acontece com o ataque dos japoneses a Pearl Harbor e que, por tabela, irá atingir também aquela unidade dos EUA.
Conflitos e paixões à solta num huis-clos que antecede a tragédia e a entrada dos americanos na II Guerra Mundial, “From Here to Eternity”, o livro, que não conheço, parece ser muito mais intenso e duro do que o filme que dele foi retirado dois anos depois (1953), com argumento de Daniel Taradash e realização de Fred Zinnemann, que, no ano anterior, tinha estreado com enorme êxito “O Comboio Apitou Três Vezes” (o célebre “High Noon”). Quando se falou na hipótese da Columbia estar interessada em adaptar o romance, a censura caiu em cima do estúdio e do produtor Harry Cohn que, por isso, ganhou uma alcunha apropriada, "Cohn's Folly", ou seja, mais ou menos, “a loucura de Cohn”. Na verdade, a obra literária era de um realismo vigoroso, quer quanto à vida numa instituição militar, à violência de certas arbitrariedades que roçam o mais extremado sadismo, à corrupção, ao jogo e ao álcool, quer quanto ao clima sensual, onde há um pouco de tudo, de prostituição a adultérios, passando inclusive por homossexualismo. Tudo temas mais que proscritos pelo Código Hays. Por isso o argumentista Daniel Taradash teve de “adaptar” muito (e com muito tacto) esta história para que a mesma conseguisse passar pelo crivo do olhar dos censores. Atenuando aqui e anulando ali, insinuando um pouco, e mostrando alguma coisa, lá conseguiu chegar a bom porto, de tal forma que foi um dos 13 nomeados para os Oscars do Ano, e haveria de ser mesmo um dos oito contemplados finais com a desejada estatueta. Mas as sugestões homossexuais (quase) desapareceram, a brutalidade do sargento 'Fatso' Judson passam de banais a excepcionais, fruto de uma mente patológica, e o capitão Holmes, em lugar de ser promovido, é castigado pela hierarquia.
Este filme foi um dos grandes sucessos do ano em todo o mundo, tendo ganho ainda mais sete Oscars: Melhor Filme, Melhor Realizador (William Wyler), Melhor Actor Secundário (Frank Sinatra),Melhor Actriz Secundária (Donna Reed), Melhor Fotografia (preto e branco) (Burnett Guffey), Melhor Som e Melhor Montagem. Tinha sido ainda nomeado para Melhor Actor (2 nomeações, Montgomery Clift e Burt Lancaster), Melhor Actriz (Deborah Kerr), Melhor Música e Melhor Guarda-Roupa (a preto e branco). O seu triunfo de crítica foi acompanhado pelo de bilheteira, tendo ficando apenas atrás de “A Túnica” (The Rope), que viveu sobretudo do facto de ser o primeiro filme em Cinemascope.  


A realização de Fred Zinnemann tem alguns momentos magníficos. Refira-se a abrir a nunca por demais citada cena de amor na praia, com Burt Lancaster e Deborah Kerr enrolados pelas ondas que agitam o areal, ou uma fabulosa sequência de ajuste de contas entre Montgomery Clift e Ernest Borgnine, quase toda ela elidida, sugerindo muito mais do que mostrando, ou o ataque nipónico ao quartel. A verdade é que a qualidade da realização se socorre muito do trabalho de um elenco de eleição (julgo que Montgomery Clift e Burt Lancaster ultrapassam todos os outros), onde existem deliberadamente castings aparentemente despropositados que todavia resultam brilhantemente. Quem imaginaria antes Montgomery Clift boxeur e um duro de antes quebrar que torcer? Quem colocaria a elegante e senhoril Deborah Kerr no papel de uma mulher adúltera? Quem inventaria um papel de prostituta para a noiva de James Stewart em “Do Céu Caiu uma Estrela”? Já as más-línguas dizem que quem inventou o papel de Frank Sinatra (afastando Eli Wallach, que havia sido o escolhido previamente) terá sido a Mafia, que o impôs para relançar a carreira do cantor-actor, então num momento desastroso da sua trajectória, ainda por cima em crise conjugal com a sua adorada Ava Gardner. Imposto ou não, o certo é que o seu Oscar haveria de o recolocar na senda do êxito.
Não deixa de ser curioso saber-se que inicialmente os actores previstos eram Aldo Ray, Edmond O'Brien, Joan Crawford, Julie Harris e Eli Wallach para os papéis finalmente atribuídos a Clift, Lancaster, Kerr, Reed e Sinatra.
Rodado parcialmente em estúdio e durante três semanas nas instalações militares de Schofield Barracks, no Hawai, esta obra contaria com várias outras versões, dado o seu sucesso. Em 1978, o canal ABC-TV criou uma mini-série, “Pearl”, com Angie Dickinson e Dennis Weaver. No ano seguinte, surgiu um teledramático de duas horas, “From Here to Eternity”, com um vasto elenco (William Devane, Natalie Wood, Steve Railsback, Joe Pantolino, Peter Boyle e Kim Basinger), com realização de Buzz Kulik. Em 1980, daria uma mini-série. Michael Bay, por seu turno, em 2001, rodaria “Pearl Harbor”, uma superprodução adocicada por um lado e truculenta por outro, que não despertou grande entusiasmo a não ser pelas suas cenas de pirotecnia. 
Em Outubro de 2012, o Shaftesbury Theatre anunciava para Setembro do ano seguinte a estreia de “From Here to Eternity - the Musical”, baseado num argumento de Bill Oakes com encenação de Tamara Harvey, coreografia de Javier De Frutos, orquestração de David White, cenários e guarda-roupa de Soutra Gilmour, com música original de Stuart Brayson e poemas de Tim Rice. Foram sete meses e meio de representações com um elenco composto por Darius Campbell (Warden), Robert Lonsdale (Prewitt), Ryan Sampson (Maggio), Siubhan Harrison (Lorene) e Rebecca Thornhill (Karen). Estreou realmente a 30 de Setembro de 2013, e terminou a carreira a 29 de Março de 2014.


ATÉ À ETERNIDADE
Título original: From Here to Eternity
Realização: Fred Zinnemann (EUA, 1953); Argumento: Daniel Taradash, segundo romance de James Jones; Produção: Buddy Adler; Música: George Duning; Fotografia (p/b):  Burnett Guffey, Floyd Crosby (este último não creditado); Montagem: William A. Lyon; Casting: Maxwell Arnow; Direcção artística: Cary Odell; Decoração: Frank Tuttle; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistente de realização: Earl Bellamy; Som: Lodge Cunningham, John P. Livadary; Companhia de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Burt Lancaster (Sgt. Milton Warden), Montgomery Clift  (Robert E. Lee Prewitt), Deborah Kerr (Karen Holmes), Donna Reed (Alma / Lorene), Frank Sinatra (Angelo Maggio), Philip Ober (Capt. Dana Holmes), Mickey Shaughnessy (Sgt. Leva), Harry Bellaver (Mazzioli), Ernest Borgnine (Sgt. 'Fatso' Judson), Jack Warden (Corp. Buckley), John Dennis (Sgt. Ike Galovitch), Merle Travis (Sal Anderson), Tim Ryan (Sgt. Pete Karelsen), Arthur Keegan, Barbara Morrison, Claude Akins, Vicki Bakken, Margaret Barstow, Henry Beau, Willis Bouchey, John Bryant, Mary Carver, John L. Cason, Mack Chandler, John Davis, Don Dubbins, Elaine DuPont, Moana Gleason, Robert Healy, Douglas Henderson, June Horne, James Jones, Robert Karnes, Manny Klein, Edward Laguna, Carey Leverette, Weaver Levy, William Lundmark, Freeman Lusk, Tyler McVey, Kristine Miller, Patrick Miller, Robert Pike, Allen Pinson, George Reeves, Joe Roach, Fay Roope, Delia Salvi, Louise Saraydar, Alvin Sargent, Joseph Sargent, Joan Shawlee, Al Silvani, Angela Stevens, Brick Sullivan, John Veitch, Guy Way, Norman Wayne, Robert J. Wilke, Jean Willes, Norman Wright, Carleton Young, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal / Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Novembro de 1954.


DEBORAH KERR (1921-2007)
Deborah Jane Kerr-Trimmer nasceu a 30 de Setembro de 1921, em Helensburgh, Glasgow, na Escócia, e viria a falecer a 16 de Outubro de 2007, aos 86 anos, em Botesdale, Suffolk, Inglaterra, atormentada pela doença de Parkinson. Deixou viúvo o escritor Peter Viertel, com quem esteve casada mais de 47 anos. Antes havia sido casada com Anthony Bartley, piloto da força aérea (1945–1959). Foi coleccionando prémios e honrarias ao longo da sua extensa carreira como actriz, tendo sido nomeada por seis vezes para o Oscar de Melhor Actriz, que nunca ganhou, mas foi-lhe atribuído um Oscar honorário, por ter sido “uma artista de impecável graça e beleza, uma dedicada actriz cuja carreira se pautou sempre pela exigência de perfeição, disciplina e elegância”.
Filha de Kathleen Rose e Arthur Charles Kerr-Trimmer, um capitão veterano que perdeu uma perna durante a I Guerra Mundial, e se dedicaria depois à engenharia civil. Kerr estudou na Northumberland House School, em Henleaze, Bristol, e na Rossholme School, Weston-super-Mare. A sua orientação inicial terá sido o bailado, tendo mesmo aparecido enquanto tal, em 1938, num palco de Sadler's Wells. Mas rapidamente o teatro e o cinema a conquistariam. Teve como primeiro professor de arte dramática um tio, Phyllis Smale, professor na Hicks-Smale Drama School, em Bristol. Surgiu em várias produções teatrais, em muitas encenações de Shakespeare para o Open-Air Theatre, ou o Oxford Playhouse. Em Londres, no West End, no início da década de 40. 
Surge no cinema em obras da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger (numa das suas obras autobiográficas, Powell confessa que ele e Deborah Kerr foram amantes nessa época), e interpretou dezenas e dezenas de filmes, sempre deixando marca da sua beleza, elegância e talento. Nalguns poderia parecer fria e distante, mas noutros deixou vir ao de cima a sua arrojada sensualidade. Alguns actores que com ela contracenaram, como Stewart Granger ou Burt Lancaster, contam como foram seduzidos por esta mulher “The Life and Death of Colonel Blimp”, “Black Narcissus”, “Separate Tables”, “Quo Vadis”, “The Innocents”, “Heaven Knows, Mr. Allison”, “Julius Caesar”, “The King and I”, “An Affair to Remember”, “Tea and Sympathy” ou “From Here to Eternity” são apenas alguns exemplos onde ficou registado o fascínio da sua presença.


Filmografia

Como actriz: 1940: Contraband, de Michael Powell (cena retirada da montagem final); 1941: Major Barbara, de Gabriel Pascal; Love on the Dole, de John Baxter; 1942: Penn of Pennsylvania (Penn, o Fundador da Pensilvânia), de Lance Comfort; Hatter's Castle (O Castelo do Homem sem Alma), de Lance Comfort; The Day Will Dawn, de Harold French; A Battle for a Bottle (curta, de animação); 1943: The Life and Death of Colonel Blimp (A Vida do Coronel Blimp), de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1945: Perfect Strangers (Férias de Casamento); 1946: I See a Dark Stranger (A Espia da Irlanda), de Jack Conway; 1947: Black Narcissus (Quando os Sinos Dobram), de Michael Powell e Emeric Pressburger; The Hucksters (Traficante de Ilusões), de Jack Conway; If Winter Comes (Intriga), de Victor Saville; 1949: Edward, My Son (Meu Filho Eduardo), de George Cukor; 1950: Please Believe Me, de Norman Taurog; King Solomon's Mines (As Minas de Salomão), de Compton Bennett; 1951: Quo Vadis (Quo Vadis), de Mervyn LeRoy; 1952: The Prisoner of Zenda (O Prisioneiro de Zenda), de Richard Thorpe; Thunder in the East (Tempestade no Oriente), de Charles Vidor; 1953: Young Bess (Amor de Rainha), de George Sidney; Julius Caesar (Júlio César), de Joseph L. Mankiewicz; Dream Wife (A Esposa Ideal), de Sidney Sheldon; From Here to Eternity (Até à Eternidade), de Fred Zinnemann; 1955: The End of the Affair (O Fim da Aventura), de Edward Dmytryk; 1956: The Proud and Profane (Ela Amou Um Bruto), de George Seaton; The King and I (O Rei e Eu), de Walter Lang (dobrada nas canções por Marni Nixon); Tea and Sympathy (Chá e Simpatia), de Vincente Minnelli; 1957: Heaven Knows, Mr. Allison (O Espírito e a Carne), de John Huston; An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida), de Leo McCarey; Kiss Them for Me (Quatro Dias de Loucura) (dobrada nalgumas cenas por Suzy Parker); 1958: Bonjour Tristesse (Bom Dia, Tristeza), de Otto Preminger; Separate Tables (Vidas Separadas), de Delbert Mann; 1959: The Journey (Crepúsculo Vermelho), de Anatole Litvak; Count Your Blessings, de Jean Negulesco; Beloved Infidel, de Henry King; 1960: The Sundowners (Três Vidas Errantes), de Fred Zinnemann; The Grass Is Greener (Ele, Ela e o Marido), de Stanley Donen; 1961: The Naked Edge, de Michael Anderson; The Innocents (Os Inocentes), de Jack Clayton; 1963: ITV Play of the Week (episódio Three Roads to Rome); 1964: On the Trail of the Iguana; The Chalk Garden, de Ronald Neame; The Night of the Iguana (A Noite de Iguana), de John Huston; 1965: Marriage on the Rocks (Divórcio à Americana), de Jack Donohue; 1966: Eye of the Devil, de J. Lee Thompson; 1967: Casino Royale (Casino Royale), de Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath e Robert Parrish; 1968: Prudence and the Pill, de Fielder Cook; 1969: The Gypsy Moths (Os Paraquedistas), de John Frankenheimer; The Arrangement (O Compromisso), de Elia Kazan; 1982: BBC2 Playhouse (episódio "A Song at Twilight"); Witness for the Prosecution (telefilme); 1984: A Woman of Substance,  de Don Sharp (mini-série de TV); 1985: The Assam Garden, de Mary McMurray; Reunion at Farnborough, de Herbert Wise (telefilme); A Woman of Substance (mini-série de TV); 1986: Hold the Dream, de Don Sharp (telefilme).

SESSÃO 22: 13 DE JUNHO DE 2016


QUANDO O CORAÇÃO CANTA (1952)

“With a Song in My Heart” é a história de parte da vida de Ellen Jane Froman, uma célebre cantora e actriz norte-americana que encantou o seu público entre meados da década de 30 e fins da de 50 do século XX. Nascida em 1907, em University City, no Missouri, viria a falecer em 1980, com a idade de 72 anos e uma vida rica em peripécias. Depois de passar por Columbia, onde estudou no Columbia College (Missouri), a mãe e ela instalaram-se em Cincinnati, onde frequentou o Cincinnati Conservatory of Music.  Começou a interpretar canções de George e Ira Gershwin, Cole Porter, e Irving Berlin, conhecendo então o cantor Don Ross que a lançou, transformando-se no seu manager oficial. Foi ele que a convenceu a viajar até Chicago, onde trabalhou na NBC radio. Em 1933, já em Nova Iorque, ingressou no programa de rádio Chesterfield's "Music that Satisfies", ao lado de Bing Crosby. Casada com Don Ross, juntou-se às Ziegfeld Follies, onde foi amiga de Fannie Brice. Em 1934, com 27 anos, era a coqueluche das "girl singers", de tal forma que quando perguntaram a Billy Rose, um importante produtor quais as 10 melhores cantoras, ele respondeu "Jane Froman e mais nove". Foi popularíssima na rádio, no teatro, no cinema e também na televisão.


No cinema surgiu apenas em três filmes, “Kissing Time” (1933), “Stars Over Broadway” (1935) e “Radio City Revels” (1938). Entre 1952 e 1955, teve o seu próprio show de TV, “The Jane Froman Show”, no canal CBS. Mas Jane Froman tornou-se ainda mais popular em virtude de um acidente de aviação que sofreu, em 1943, ao chegar a Lisboa. A aeronave onde viajava, um Boeing 314 de nome Yankee Clipper, com cerca de 40 pessoas a bordo,  caiu no rio Tejo, provocando mortes e feridos. Jane Froman ficou muito ferida, com várias fracturas, recuperou, juntamente com o co-piloto, John Curtis Burn, com quem haveria de casar em 1948, depois do seu divórcio de Don Ross. Froman sofreu 39 operações, mas, mesmo assim, regressou à Europa para cantar, ao longo de 95 shows, para as tropas norte-americanas, durante a II Guerra Mundial. Em 1952, Walter Lang, sobre argumento de Lamar Trotti, realiza “With a Song in My Heart”, baseado na sua vida, sobretudo na sua carreira pós acidente. A própria cantora serviu de conselheira durante a produção, tendo papel relevante em vários aspectos. Foi ela que escolheu Susan Hayward para a encarnar no cinema, e foi ela que deu a sua voz nos números cantados. Um papel que valeu a Susan Hayward mais uma nomeação para o Oscar de Melhor Actriz (teve quatro nomeações e um Oscar por “Quero Viver!”).
O filme é um musical biográfico, como alguns mais que se realizaram na época (relembra, em muitos aspectos, “White Christmas”, de Michael Curtiz, rodado em 1954, sobretudo na sequência final), sendo uma obra abertamente patriótica, sublinhando o esforço americano durante a II Guerra Mundial, e tentando galvanizar o espectador com um magnífico conjunto de canções de alguns dos maiores compositores e letristas desta época. A realização é apenas eficaz, sóbria, servindo os propósitos, sem procurar desnecessariamente chamar a atenção. Na sua simplicidade de meios, merecem destaque os números musicais, a qualidade do guarda-roupa, a boa fotografia num colorido bem trabalhado. Nos Oscars do ano mereceu cinco nomeações, Melhor Actriz, Melhor Actriz Secundária (a excelente Thelma Ritter), Melhor Guarda-roupa a cores (Charles Le Maire), Melhor Som (Thomas T. Moulton) e ainda Melhor Partitura Musical (Alfred Newman, que merecidamente recebeu o Oscar). Nos Globos de Ouro, venceria na categoria de Melhor Filme (Musical ou Comédia) e Melhor Actriz (Musical ou Comédia). Susan Hayward foi igualmente muito justamente consagrada neste seu trabalho, onde se misturam emoções díspares, sempre com rigor e uma cativante simpatia.
Já o mesmo não se poderá dizer das sequências onde surge Lisboa. Nenhuma delas é filmada no nosso país, mas sim em estúdios americanos (20th Century Fox), e os actores que passam por portugueses falam numa algaraviada, que mistura espanhol e brasileiro, que assusta. Algo que era muito comum nesta época em filmes norte-americanos – uma total falta de rigor na pesquisa e nas soluções encontradas.

Por curiosidade, aqui se referem os temas musicais incluídos em “Quando o Coração Canta”, alguns dos quais, os derradeiros, aparecem no medley com que termina a pelicula:
WITH A SONG IN MY HEART, de Richard Rodgers e Lorenz Hart (1929); HOE THAT CORN, de Max Showalter e Jack Woodford; THAT OLD FEELING, de Sammy Fain e Lew Brown; JIM'S TOASTY PEANUTS, de Ken Darby; I'M THRU WITH LOVE, de Fud Livingston, Matty Malneck e Gus Kahn (1931); GET HAPPY, de Harold Arlen e Ted Koehler (1930); BLUE MOON, de Richard Rodgers e Lorenz Hart (1930); ON THE GAY WHITE WAY, de Ralph Rainger e Leo Robin (1942); THE RIGHT KIND, de Alfred Newman, Don George e Charles Henderson (1948); HOME ON THE RANGE, possivelmente de Daniel E. Kelley (1904) e Brewster M. Higley (1873); MONTPARNASSE, de Alfred Newman e Eliot Daniel; EMBRACEABLE YOU, de George Gershwin e Ira Gershwin (1930); TEA FOR TWO, de Vincent Youmans e Irving Caesar (1925); IT'S A GOOD DAY, de Peggy Lee e Dave Barbour (1947); THEY'RE EITHER TOO YOUNG OR TOO OLD, de Arthur Schwartz e Frank Loesser (1943); I'LL WALK ALONE, de Jule Styne e Sammy Cahn (1944); AMERICA THE BEAUTIFUL, de Samuel A. Ward e Katharine Lee Bates; WONDERFUL HOME SWEET HOME, de Ken Darby; GIVE MY REGARDS TO BROADWAY, de George M. Cohan (1904); CHICAGO, de Fred Fisher (1922); CALIFORNIA, HERE I COME, de Joseph Meyer, Al Jolson e Buddy G. DeSylva (1924); CARRY ME BACK TO OLD VIRGINNY, de James Allen Bland (1878); STEIN SONG, de E.A. Fenstad (1901) e Lincoln Colcord (1910); INDIANA, de James F. Hanley e Ballard MacDonald (1917); ALABAMY BOUND, de Ray Henderson, Bud Green e Buddy G. DeSylva (1925); DEEP IN THE HEART OF TEXAS, de Don Swander e June Hershey (1941); DIXIE, de Daniel Decatur Emmett (1859).

QUANDO O CORAÇÃO CANTA
Título original: With a Song in My Heart
Realização: Walter Lang (EUA, 1952); Argumento: Lamar Trotti; Produção: Lamar Trotti, Darryl F. Zanuck; Música original: Alfred Newman; Fotografia (cor):  Leon Shamroy; Montagem: J. Watson Webb Jr.; Direcção artística: Lyle R. Wheeler, Joseph C. Wright; Decoração: Thomas Little, Walter M. Scott; Guarda-roupa:  Charles Le Maire, Sam Benson; Maquilhagem: Ben Nye; Assistentes de realização: Hal Klein; Som: Roger Heman Sr., Arthur von Kirbach; Efeitos especiais: Fred Sersen; Efeitos visuais: Ray Kellogg; Companhia de produção: Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Susan Hayward (Jane Froman), Rory Calhoun (John Burn), David Wayne (Don Ross), Thelma Ritter (Clancy), Robert Wagner (Soldado), Helen Westcott (Jennifer March),Una Merkel          (Irmã Marie), Richard Allan (bailarino / tenor), Max Showalter (Harry Guild), Bill Baldwin, Ralph Brooks, Charles Calvert, James Conaty, Robert Easton, Leif Erickson, Douglas Evans, Eddie Firestone, The Four Girl Friends, Ed Haskett, Art Howard, Stanley Logan, Adele Longmire, The Modernaires, Carlos Molina, Rosa Maria Monteiro, Ernest Newton, Mary Newton, George Offerman Jr., Mario Pacheco Jr., Nestor Paiva, Fabio Ramos, Jack Richardson, Dick Ryan, Carol Savage, George Sawaya, Hal Schaefer, The Skylarks, Bill Slack, Bud Stark, The Starlighters, Bert Stevens, Frank Sully, Lyle Talbot, Albano Valerio, Emmett Vogan, Maude Wallace, Dick Winslow, etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 12 de Janeiro de 1953. 

SUSAN HAYWARD (1917 – 1975)
Edythe Marrenner, mais tarde conhecida por Susan Hayward, nasceu a 30 de Junho de 1917, em Brooklyn, Nova Iorque, EUA, e viria a falecer a 14 de Março de 1975, em Hollywood, Los Angeles, Califórnia, EUA, vítima de cancro no cérebro. Pensa-se que terá sido por ter estado exposta a material radioactivo, durante as filmagens de “O Conquistador” (1956), em Utah. Outros actores deste filme, John Wayne, Agnes Moorehead, John Hoyt, Pedro Armendáriz, e o realizador Dick Powell faleceram vítimas de cancro. O caso permanece um escândalo.
De origens modestas, filha de operário, teve uma infância normal, estudou numa escola pública em Brooklyn, e pensava seguir uma carreira de secretariado, quando começou a fazer fotografia de moda, sendo então notada numa capa de revista pelo realizador George Cukor, que procurava uma cara nova para interpretar Scarlett O'Hara, em “E Tudo o Vento Levou” (1939), adaptação do romance de Margaret Mitchell, então em pré produção na MGM. Vivien Leigh seria a escolhida, mas Susan Hayward ficaria ligada à MGM e, em 1937, estrear-se-ia em “Hollywood Hotel”. Sucederam-se os pequenos papéis até que, em 1939, é particularmente notada em “Beau Geste”. A beleza natural, a determinação e a força interior, a destreza para a dança e a boa voz para a canção, aliadas a uma natural propensão para a aventura e o drama fizeram dela uma actriz que foi acumulando sucessos: “Ódio que Vive” (1941), “O Vento Selvagem” (1942), “Clarão no Horizonte” (1942), “A Vida de Jack London” (1943), “O Amanhã é Nosso” (1944), “Um de Nós é Criminoso” (1946), “História de Uma Mulher” (1947, primeira nomeação para o Oscar), “Meu Louco Coração” (1949, segunda nomeação para o Oscar), “Quando o Coração Canta” (1952, terceira nomeação para o Oscar), “A Dama Marcada” (1953), “Uma Mulher no Inferno” (1955, quarta nomeação para o Oscar) e, finalmente, “Quero Viver!” (1958, quinta nomeação para o Oscar de Melhor Actriz, que venceu). Em três das suas nomeações interpretou personagens alcoolizadas. E a sua carreira continuou com regularidade até ser interrompida pela doença e a morte em 1975. Casada com Jess Barker (1944 - 1954) e Floyd Eaton Chalkley (1957-1966). Sepultada na “Our Lady of Perpetual Help Catholic Church”, em Carrollton, Georgia, EUA. 


ilmografia

Como actriz: 1938: Hollywood Hotel (Hollywood Hotel), de Busby Berkeley (não creditada); The Amazing Dr. Clitterhouse (O Génio do Crime), de Anatole Litvak; Campus Cinderella, de Noel M. Smith (curta-metragem); The Sisters (As Irmãs), de Anatole Litvak; Girls on Probation, de William C. McGann; Comet Over Broadway (Promessa Cumprida), de Busby Berkeley; 1939: Beau Geste (Beau Geste), de William A. Wellman; Our Leading Citizen, de Alfred Santell; $1000 a Touchdown, de James Patrick Hogan; 1941: Adam Had Four Sons (Os Quatro Filhos de Adão), de Gregory Ratoff; Sis Hopkins (Serenata da Broadway), de Joseph Santley; Among the Living (Ódio que Vive), de Stuart Heisler; 1942: Reap the Wild Wind (O Vento Selvagem), de Cecil B. DeMille; The Forest Rangers (Clarão no Horizonte), de George Marshall; I Married a Witch (Casei com Uma Feiticeira), de René Clair; 1942: Star Spangled Rhythm (Cocktail de Estrelas), de George Marshall; Paramount Victory Short No. T2-1: A Letter from Bataan (curta-metragem); 1943: Young and Willing, de Edward H. Griffith; Hit Parade of 1943 (Melodias Fantásticas), de Albert S. Rogell; Jack London (A Vida de Jack London), de Alfred Santell; 1944: The Fighting Seabees (O Batalhão Suicida), de Howard Lydeeker e Edward Ludwig; Skirmish on the Home Front (curta-metragem); The Hairy Ape (Macaco Peludo), de Alfred Santell; And Now Tomorrow (O Amanhã é Nosso), de Irving Pichel; 1946: Deadline at Dawn (Um de Nós é Criminoso), de Harold Clurman; Canyon Passage (Amor Selvagem), de Jacques Tourneur; 1947: Smash-Up, the Story of a Woman (História de Uma Mulher), de Stuart Heisler; They Won't Believe Me (Não Me Condenem), de Irving Pichel; The Lost Moment (Recordações), de Martin Gabel; 1948: Taps Roots (Raízes Fortes), de George Marshall; The Saxon Charm (O Vencido), de Claude Binyon; 1949: Tulsa (Tulsa - Ouro Negro), de Stuart Heisler; House of the Stangers (Sangue do Meu Sangue), de Joseph L. Mankiewicz; My Foolish Heart (Meu Louco Coração), de Mark Robson; 1951: I'd Climb the Highest Mountain (A História de Uma Alma), de Henry King; Rawhide (O Correio do Inferno), de Henry Hathaway; I Can Get It for You Wholesale (Ambição de Mulher), de Michael Gordon; David and Bathsheba (David e Betsabé), de Henry King; With a Song in My Heart (Quando o Coração Canta), de Walter Lang; The Snows of Kilimanjaro (As Neves do Kilimanjaro), de Henry King; The Lusty Men (Idílio Selvagem), de Nicholas Ray; 1953: The president's Lady (A Dama Marcada), de Henry Levin; White witch doctor (A Feiticeira Branca), de Henry Hathaway; 1954: Demitrius and the gladiateur (Demétrio, o Gladiador), de Delmer Daves; Garden of devil (O Jardim do Diabo), de Henry Hathaway; 1955: Untamed (Enquanto Dura a Tormenta), de Henry King; Soldier of fortune (O Aventureiro de Hong Kong), de Edward Dmytryk; I'll Cry Tomorrow (Uma Mulher no Inferno), de Daniel Mann; 1956: The Conqueror (O Conquistador), de Dick Powell; 1957: Top Secret Affair (Escândalo na Primeira Página), de Henry C. Potter; 1958: I Want to Live ! (Quero Viver!), de Robert Wise; 1959: Thunder in the Sun (Tormenta ao Sol), de Russell Rouse; Woman Obsessed (Meu Coração Tem Dois Amores), de Henry Hathaway; 1961: The Marriage-Go-Round (O Marido, a Mulher e o Problema), de Walter Lang; Ada (Ada), de Daniel Mann; Back street (A História de um Grande Amor), de David Miller; 1962: I Thank a Fool (O Grito da Alma), de Robert Stevens; 1963: Stolen Hours (Horas Roubadas), de Daniel Petrie; 1964: Where love as gone (Para onde Foi o Amor), de Edward Dmytryk; 1967: The Honey Pot (O Preço do Dinheiro), de Joseph L. Mankiewicz; Valley of the Dolls (O Vale das Bonecas), de Mark Robson; 1967: Think Twentieth (curta-metragem); 1972: Say Goodbye, Maggie Cole, de Jud Taylor (telefilme); The Revengers (Os Justiceiros), de Daniel Mann; Heat of Anger, de Don Taylor (telefilme); 1981: Sixty Years of Seduction (documentário TV); 2001: Cleopatra: The Film That Changed Hollywood (documentário TV). 

domingo, 29 de maio de 2016

SESSÃO 21: 6 DE JUNHO DE 2016



PANDORA (1951)

Albert Lewin, norte-americano, é um realizador não muito conhecido, autor de poucos filmes, que antes de se iniciar na realização foi crítico, argumentista e colaborador de produtores como Samuel Goldwyn, e sobretudo Irving Thalberg. Nesse período inicial da sua carreira ficou ligado a alguns grandes filmes, mas foi como realizador que se tornou verdadeiramente importante na história do cinema, com obras denunciadoras de grande cultura e um sofisticado gosto plástico que o aproximou muito dos surrealistas (era amigo de Man Ray e Max Ernst, por exemplo, e coleccionador de arte surrealista). Em 1942 estreou-se com "The Moon and Sixpence" (Mesmo Assim Elas Amavam-no), uma adaptação de um romance de W. Somerset Maugham, que abordava aspectos da vida do pintor Gaugin, com George Sanders como protagonista. A seguir inicia a rodagem de “Madame Curie”, mas seria despedido e substituído por Mervyn LeRoy. “O Retrato de Dorian Gray”, segundo Oscar Wilde, data de 1945, e “Bel Ami”, partindo de Guy de Maupassant, é de 1947. O seu grande filme é de 1951, “Pandora and the Flying Dutchman”(Pandora) e coloca-o definitivamente entre os autores raros da História do Cinema. Seguem-se dois títulos menos interessantes, “Saadia” e “The Living Idol”, após o que se retira, antes de morrer de ataque cardíaco, em 1968, com 73 anos.
"Pandora and the Flying Dutchman” é um filme estranho, que parte de uma lenda com origens diversas, uns falam do Egipto, outros da Grécia, passando a fazer parte ainda da mitologia germânica (sobretudo depois da ópera de Wagner), sobre um holandês voador.
O filme é uma obra de paixão sobre o amor e a morte. Rodado em grande parte em Espanha (exteriores em Barcelona, Costa Brava, Sitges, Girona, Palamós, Tossa de Mar…) e nos estúdios ingleses de Shepperton (interiores), ambientado na década de 30 do século passado, poder-se-ia dizer que fala “de uma mulher que é incapaz de amar e de um homem que é incapaz de morrer”. Até que o destino de ambos se cruza a bordo de um veleiro.
Esperanza é o nome (fictício) da aldeia piscatória onde decorre grande parte da acção. A obra inicia-se com a descoberta de um naufrágio e de dois corpos de um casal abraçados na morte, estendidos na areia da praia, com um livro a reunir-lhes as mãos. São poemas de amor de Omar Khayyam, retirados do seu livro de quadras, “Rubaiyat”, uma das quais irá ditar o destino das personagens: “O dedo móvel escreve e, depois de escrever, continua: nem a vossa piedade, nem o vosso espirito poderão mudar uma linha, nem as vossas lágrimas apagar uma palavra”.


Realmente a poesia invade todo o universo de “Pandora”, essa de que falam as lendas como sendo a “amada dos deuses”, “a que guarda uma caixa que ninguém deverá abrir”, aquela cujos poderes “não podem ser menosprezados”. Mas a Pandora de Ava Gardner desconhece se será a reincarnação dessa mítica Pandora: “Eu sou Pandora Reynolds, de Indianápolis”.
É essa mulher misteriosa e profundamente sensual que vamos encontrar no porto de Esperanza a ser disputada pelos homens. Homens que põem em risco a sua vida, como Geoffrey Fielding (Harold Warrender), corredor de automóveis, que tem um carro de corrida com o qual tenta bater records de velocidade e a que deu o nome de “Pandora”, Juan Montalvo (Mario Cabré), matador de touros de profissão, que não hesita em por à prova a sua coragem frente a Pandora, ou o tímido Reggie Demarest (Marius Goring) que, sabendo que a mulher que ama o rejeita, não tem a mais pequena dúvida em logo ali se imolar ao amor não correspondido. Pandora é também conhecida por destruir corações, ser fria nas suas palavras, não perdoar quem a corteja.
Um dos amigos mais próximos de Pandora um dia cita alguém (“quem disse isto?”) que teria afirmado que “a medida do amor está naquilo que se aceita sacrificar-lhe”. É aqui que entra o veleiro com um único tripulante que ancora na baía de Esperanza. Quem nele viaja é Hendrik van der Zee (James Mason), holandês, que se perceberá que viaja no tempo a bordo de uma maldição. Ele que no século XVII matara a mulher por ciúmes infundados, fora condenado a penar pelos séculos, podendo aportar a terra e conviver com os mortais de sete em sete anos, até encontrar a mulher fiel que o ame de tal forma que aceite por ele perder a vida.
Pandora, que numa noite numa caseta local canta uma fabulosa canção onde pergunta “como saber o que é o amor e qual o caminho para ele”, desconhece o amor até sentir o apelo que lhe vem desse veleiro fundeado na baía, para onde parte nadando nua e disponível. “compreender uma alma humana é como esvaziar o oceano com um dedal”, diz-se no filme.
Esta é uma história “fora do tempo, sem limites”, penetrando nos mistérios das lendas e da vastidão da alma humana. O espantoso do filme é conseguir transmitir essa sensação de destino que se cumpre, esse abismo amoroso, essa viagem para a perdição e para a libertação. A qualidade plástica da obra é invulgar, para o que terá contribuído a sólida formação cultural e artística de Albert Lewin, mas igualmente a de muitos dos seus colaboradores. Desde logo do director de fotografia Jack Cardiff, que num prodigioso Tecnicolor reconstitui quadros de uma beleza impressionante, onde, como já aqui se referiu, a influência dos surrealistas é manifesta. Não é por acaso que Hendrik van der Zee pinta no interior do seu veleiro um quadro que representa uma mulher que Pandora acha, numa coincidência espantosa, muito parecida consigo. Hendrik van der Zee sabe que não há coincidências e a verdade é que o retrato é uma criação de Man Ray (que aliás colabora igualmente na definição de certos ambientes). Ado Kyrou, talvez o mais proeminente crítico francês de cinema da escola surrealista, considerou a Pandora de Ava Gardner, juntamente com Lya Lys (a actriz de Luis Buñuel e Salvador Dali em “L’Age d’Or”), "a única mulher autenticamente surrealista de todo o cinema”. O que nos leva directamente a falar desse animal a que Cocteau chamou “o mais belo de todos”. Ava Gardner é absolutamente deslumbrante neste filme que a colocou num pedestal donde jamais será apeada. Ela é definitivamente “a deusa que todo o homem deseja” e uma mulher que reúne em si o inacessível mistério do amor e a fulgurante imagem do desejo. A seu lado, espanta-nos como James Mason consegue sobreviver, mas o seu talento faz milagres. Este é um dos casais míticos da sétima arte que um milagre juntou para felicidade dos cinéfilos de todos os tempos.


PANDORA
Título original: Pandora and the Flying Dutchman
Realização: Albert Lewin (Inglaterra, 1951); Argumento: Albert Lewin; Produção: Joe Kaufmann,  Albert Lewin, John Woolf; Música: Alan Rawsthorne; Fotografia (cor):  Jack Cardiff; Montagem: Ralph Kemplen, Clive Donner; Design de produção: John Bryan; Guarda-roupa: Julia Squire, Beatrice Dawson; Maquilhagem: Nina Broe; Assistentes de realização: Jeanie Sims; Departamento de arte: John Hawkesworth, T. Hopewell Ash, Peter Mullins; Som: Alan Allen, Harry Miller; Efeitos especiais: W. Percy Day; Companhias de produção: Dorkay Productions, Romulus Films; Intérpretes: James Mason (Hendrik van der Zee), Ava Gardner (Pandora Reynolds), Nigel Patrick (Stephen Cameron), Sheila Sim (Janet), Harold Warrender (Geoffrey Fielding), Mario Cabré (Juan Montalvo), Marius Goring (Reggie Demarest), John Laurie (Angus), Pamela Mason (Jenny), Patricia Raine (Peggy), Margarita D'Alvarez (Senora Montalvo), La Pillina, Abraham Sofaer, Francisco Igual, Guillermo Beltrán, Lilli Molnar, Phoebe Hodgson, Gabriel Carmona, Antonio Martín, Lolita Allergria, John Carew, Helen Cleverley, Pepe de la Isla, Christiana Forbes, Eddie Leslie, Ricardo Valle, Gerald Welsh, etc. Duração: 122 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): inexistente; Distribuição internacional (DVD): Editions Momtparnasse (França); (Blu-ray): Layons (Espanha); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 7 de Março de 1952.


AVA GARDNER (1922-1990)
Foi chamada “o mais belo animal do mundo” (Cocteau). Cecil B. DeMille disse-a "a mulher mais linda do mundo". Verdade ou não, estará seguramente entre os mais belos “animais”. Num inquérito realizado pelo American Film Institute ficou entre as 50 maiores lendas da história do cinema. Ava Lavinia Gardner era o seu nome de baptismo. Nascida a 24 de Dezembro de 1922, em Smithfield, Carolina do Norte, EUA, viria a falecer a 25 de Janeiro de 1990, com 67 anos, em Londres, Inglaterra. Foi a sétima criança de Mary (Molly) Elizabeth Gardner e Jonas Gardner. Quando tinha 16 anos, Larry Tarr, um cunhado fotógrafo em Nova Iorque, colocou nas vitrinas da sua loja um conjunto de fotos de Ava que chamaram a a atenção de um funcionário da Metro Goldwyn Mayer, Barney Duhan, que aconselhou Larry Tarr a mandar as fotografias para o estúdio. O realizador George Sidney apreciou devidamente a encomenda e convidou a jovem a visitar Hollywood, onde chegou a 23 de Agosto de 1941, conseguindo um teste e logo a seguir um contrato com a produtora: 50 dólares por semana, nada de muito especial, apenas figuração e pouco mais, o que inicia logo ainda em 1941. Entretanto, começou igualmente a trabalhar como modelo, com a agência de John Powers, estudou dicção, e foi coleccionando títulos de filmes onde aparecia sem ser creditada. Entretanto, a sua vida pessoal também conhecia alterações. Mickey Rooney, então vedeta número um da Metro, interpretava um musical chamado "Babes On Broadway", onde imitava Carmen Miranda. Ava Gardner foi-lhe apresentada nesse dia e casaram-se em 10 de Janeiro de 1942, divorciando-se um ano depois, por incompatibilidade de feitios. Depois de Mickey Rooney (1942-1943), casou com o compositor Artie Shaw (1945-1946) e o cantor Frank Sinatra (1951-1957).Foi ainda muito falada uma ligação sua com o toureiro Luis Miguel Dominguin que se prolongou por alguns anos. Também o playboy milionário e aviador Howard Hughes manteve uma relação com Ava Gardner. Para lá de muitos outros nomes que lhe aparecem associados (Robert Taylor, por exemplo), com verdade ou pura invenção. Outro toureiro, Mario Cabré, dedicou-lhe um diário poético, muito apaixonado, depois de com ela contracenar em “Pandora”.
Entre 1941 e 1945, apareceu em dezenas de títulos, sem nunca ter hipótese de brilhar senão através da sua beleza e físico. Mas Ava Gardner tinha talento e alguns cineastas conseguiram extrair dela excelentes interpretações: “The Killers” (Assassinos), de Robert Siodmak, “Pandora and the Flying Dutchman” (Pandora), de Albert Lewin, “Mogambo”, de John Ford (onde foi nomeada para um Oscar), “The Barefoot Contessa” (A Condessa Descalça), de Joseph L. Mankiewicz, “Bhowani Junction” (Encruzilhada de Destinos), de George Cukor, são apenas alguns exemplos. A partir dos anos 60 surgiu em diversas superproduções, fazendo número em elencos faustosos: “55 Days at Peking” (55 Dias em Pequim), de Nicholas Ray, “Seven Days in May” (Sete Dias em Maio), de John Frankenheimer, “The Night of the Iguana” (A Noite de Iguana), de John Huston, “The Bible: In the Beginning…” (A Bíblia), de John Huston, “Mayerling” (Mayerling), de Terence Young, “Earthquake” (Terramoto), de Mark Robson, “The Cassandra Crossing” (Cassandra Crossing), de George P. Cosmatos ou “City on Fire” (Cidade em Chamas), de Alvin Rakoff.
A passagem por Espanha em 1950 iria modificar a sua vida. Espanha apaixonou-a e mudou-se para este país em 1955, onde continuou a trabalhar. Em 1968 transfere-se para Londres, onde vive até 1990, data da sua morte, causada por uma broncopneumonia. Viveu os últimos tempos menorizada por doenças, bebida e cigarros. Carmen Vargas foi a sua empregada durante esses anos e foi ela que levou o corpo para a sua cidade natal, onde ficou sepultada, no Sunset Memorial Park, em Smithfield, Carolina do Norte, EUA, ao lado dos irmãos e dos pais. No centro de Smithfield existe hoje um “Ava Gardner Museum”. Frank Sinatra, que confessou abertamente a sua paixão por Ava, pagou todas as despesas médicas após o acidente vascular cerebral que Ava sofreu em 1989, e que a deixou parcialmente paralisada e acamada. Sinatra retribuía assim a amizade de Ava Gardner quando, durante os primeiros dois anos de seu casamento, ele se encontrou no ponto mais baixo da sua carreira, e ela o aguentou dignamente, suportando despesas. Conta-se que, em 1951, Sinatra estava tão completamente falido que foi Ava a pagar-lhe o bilhete de avião para que ele pudesse acompanhá-la a África, onde ela filmava “Mogambo”. Situação que mudaria por completo, quando “a voz” ganhou o Oscar de Melhor Actor Secundário pelo seu trabalho em “From Here to Eternity” (1953).
Foi considerada, num inquérito promovido pelo American Film Institute, como uma das Maiores Lendas Femininas do Cinema (em 25º lugar). Tem uma estrela no “Hollywood Walk of Fame” junto ao nº 1560 de Vine Street, em Hollywood. Conta-se, ela própria o fez na sua biografia, que um dia Louis B. Mayer, depois de um teste, disse dela: “She can't talk, she can't act, she's terrific” (Não sabe falar, não sabe interpretar, é fantástica!”

Filmografia

Como Actriz: 1941: Fancy Answers, de Basil Wrangell; Shadow of the Thin Man (A Sombra do Homem Sombra), de W.S. Van Dyke; H.M. Pulham, Esq. (Sol de Outono), de King Vidor; Babes on Broadway (Primavera da Vida), de Busby Berkeley; Strange Testament (curta-metragem); 1942: We Were Dancing (A Valsa Irresistível), de Robert Z. Leonard; We Do It Because, de Basil Wrangell (curta-metragem); Joe Smith, American, de Richard Thorpe; This Time for Keeps, de Charles Reisner; Kid Glove Killer, de Fred Zinnemann; Sunday Punch, de David Miller; Calling Dr. Gillespie, de Harold S. Bucquet; Mighty Lak a Goat, de Herbert Glazer; Reunion in France (Encontro em França), de Jules Dassin; 1943: Du Barry Was a Lady (Du Barry Era uma Senhora), de Roy Del Ruth; Hitler's Madman (O Carrasco de Hitler), de Douglas Sirk; Ghosts on the Loose (Fantasmas à Solta), de William Beaudine; Young Ideas, de Jules Dassin; Swing Fever (Sempre em Festa), de Tim Whelan; Lost Angel (Que Mal Fiz Eu?), de Roy Rowland; 1944: Two Girls and a Sailor (Um Marinheiro para Duas), de Richard Thorpe; Three Men in White (Heróis de Branco), de Willis Goldbeck; Maisie Goes to Reno, de Harry Beaumont; Blonde Fever, de Richard Whorf; 1945: She Went to the Races, de Willis Goldbeck; I'm a Civilian Here Myself (curta-metragem); 1946: Whistle Stop (O Que Matou Por amor), de Léonide Moguy; The Killers (Assassinos), de Robert Siodmak; 1947: Singapore (Singapura), de John Brahm; 1947: The Hucksters (Traficante de Ilusões), de Jack Conway; 1948: One Touch of Venus (A Deusa do Amor), de William A. Seiter; 1949: The Bribe (Veneno dos Trópicos), de Robert Z. Leonard; The Great Sinner (O Grande Pecador), de Robert Siodmak; East Side, West Side (Mundos Opostos), de Mervyn LeRoy; 1951: Pandora and the Flying Dutchman (Pandora), de Albert Lewin; 1951: My Forbidden Past (Duas Rivais), de Robert Stevenson; Show Boat (O Barco das Ilusões), de George Sidney; 1952: Lone Star (Estrela do Destino), de Vincent Sherman; The Snows of Kilimanjaro (As Neves do Kilimanjaro), de Henry King; 1953: Ride, Vaquero! (A Bela e o Renegado), de John Farrow; Mogambo (Mogambo), de John Ford; Knights of the Round Table (Os Cavaleiros da Távola Redonda), de Richard Thorpe; 1954: The Barefoot Contessa (A Condessa Descalça), de Joseph L. Mankiewicz 1956: Bhowani Junction (Encruzilhada de Destinos), de George Cukor; 1957: The Little Hut (Dois amores e uma cabana), de Mark Robson; The Sun Also Rises (... E o Sol Também Brilha), de Henry King; 1958: The Naked Maja (O Grande Amor de Goya), de Henry Koster; 1959: On the Beach (A Hora Final), de Stanley Kramer; 1960: The Angel Wore Red (O Anjo Vermelho), de Nunnally Johnson; 1963: 55 Days at Peking (55 Dias em Pequim), de Nicholas Ray; 1964: Seven Days in May (Sete Dias em Maio), de John Frankenheimer; The Night of the Iguana (A Noite de Iguana), de John Huston; 1966: The Bible: In the Beginning… (A Bíblia), de John Huston; 1968: Mayerling (Mayerling), de Terence Young; 1970: The Ballad of Tam Lin, de Roddy McDowall; 1972: The Life and Times of Judge Roy Bean (O Juiz Roy Bean), de John Huston; 1974: Earthquake (Terramoto), de Mark Robson; 1975: Permission to Kill (Um Agente na Sombra), de Cyril Frankel; 1976: The Blue Bird (O Pássaro Azul), de George Cukor; The Cassandra Crossing (Cassandra Crossing), de George P. Cosmatos;1977: The Sentinel (A Sentinela), de Michael Winner; 1979: City on Fire (Cidade em Chamas), de Alvin Rakoff; 1980: The Kidnapping of the President (O Rapto do Presidente), de George Mendeluk; 1981: Priest of Love (Sacerdote do Amor), de Christopher Miles; 1982: Regina Roma, de Jean-Yves Prate; 1985: A.D., de Stuart Cooper (TV); Knots Landing David Jacobs (TV); The Long Hot Summer (O Verão Mais Longo), de Stuart Cooper (TV); 1986: Harem, de William Hale (TV); Maggie (TV).