domingo, 14 de agosto de 2016

SESSÃO 32: 22 DE AGOSTO DE 2016


O ACOSSADO (1960)

“À Bout de Souffle”, de Jean-Luc Godard, é um dos filmes iniciais do movimento “Nouvelle Vague” surgido em França, entre o final da década de 50 e o início da seguinte, tendo como base a equipa de jovens críticos e teóricos que escreviam na revista “Cahiers du Cinema” e que tinham como patrono André Bazin. Juntamente com “Le Beau Serge”, de Claude Chabrol, e “Les Quatre Cents Coups”, de François Truffaut, estes foram os tiros que anunciaram a arrancada de um movimento que marcou sobremaneira a História do Cinema mundial. Outros autores houve anteriormente, como Roger Vadim, com “Deus Criou a Mulher”, que contribuíram para o sucesso deste movimento, mas terá sido entre 1959 e 1960 que o surto conheceu o seu maior ímpeto. Além de Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut, os “Cahiers” contavam ainda com muitos outros nomes que se associaram à Nouvelle Vague”, como Jacques Rivette, Eric Rohmer ou Jacques Doniol-Valcroze, além de outros que se lhe juntaram como Agnès Varda ou Alain Resnais.
A intenção primeira deste grupo era lutar contra o cinema predominante em França por essa altura, durante a V República Degauleana, saída do pós-guerra, combatendo o por eles chamado “Cinema de Papa”, onde pontificavam nomes como os dos realizadores Jean Delannoy, Christian-Jacque, Jean-Paul Le Chanois ou Gilles Grangier, ou dos argumentistas Aurenche e Bost, que eram tidos como académicos e entediantes. Do passado, os jovens turcos dos “Cahiers” retinham Jean Renoir, Robert Bresson, Jacques Tati, Jean Vigo e pouco mais. Retinham realmente o muito bom, mas por vezes foram algo injustos com a geração antecedente, onde é possível ressalvar obras muito interessantes. Mas para impor o seu conceito de um novo cinema, era necessário arrasar o campo e miná-lo. Foi o que fizeram com algum sucesso. Tempos depois, alguns deles estavam completamente esquecidos, mas o reduto forte impôs-se internacionalmente.
“O Acossado” mantém-se como uma das referências maiores deste movimento e Jean-Luc Godard um dos seus arautos. Partindo de uma ideia de François Truffaut, rodado em menos de quatro semanas em Paris, grande parte em exteriores, num preto e branco de quase reportagem, ostenta um elenco onde sobressai apenas uma actriz com nome já feito, a norte-americana Jean Seberg, ao lado de jovens como Jean-Paul Belmondo, e de personalidades não-actores como Daniel Boulanger, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Van Doude, Claude Mansard, Richard Balducci, Roger Hanin, o próprio Jean-Luc Godard (no papel de um denunciante), Liliane Robin, Liliane Davi, Michel Fabre, André S. Labarthe, François Moreuil, Gérard Brach, Philippe de Broca, José Bénazéraf, Jean Domarchi, Jean Douchet, Raymond Huntley, Louiguy, Michel Mourlet, Guido Orlando, Madame Paul, Raymond Ravanbaz, Jean-Louis Richard, Jacques Serguine, Jacques Siclier, Virginie Ullmann, Emile Villion, etc. Jornalista, críticos de cinema, futuros realizadores, escritores, enfim, um elenco de amigos e cúmplices.
Em 1968, Godard revelava: “Quando filmei “O Acossado”, pensava que fazia algo de muito preciso. Eu realizava um thriller, um filme de gangsters. Quando o vi pela primeira vez, compreendi que havia feito algo totalmente diferente. Eu pensava que filmava o filho de Scarface ou o retorno de Scarface, e compreendi que havia feito “Alice no País das Maravilhas”, mais ou menos”.


Na verdade, “O Acusado” procura funcionar como um filme negro, um género de que os franceses dos “Chaiers” muito apreciavam, sobretudo os série B norte-americanas. Esses filmes ofereciam um curioso retrato da sociedade e apareciam nimbados por um clima de poética tragédia que fazia (e faz ainda) a delícia de muitos cinéfilos. Esta é a história de um criminoso, Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) que se apaixona por Patricia Franchini (Jean Seberg), uma jovem estudante norte-americana aspirante a jornalista. Michel chega a Paris depois de ter roubado um carro a um militar americano em Marselha, na fuga mata um polícia e na cidade luz encontra Patricia, que já conhecia anteriormente e que vende o “New York Herald Tribune” nos Champs-Élysées. Michel quer receber algum dinheiro que lhe devem e partir para Roma, levando consigo Patricia. Mas os jornais começam a trazer a sua fotografia nas primeiras páginas, procurado como sendo o assassino do polícia, e um denunciante (Jean-Luc Godard) entrega-o às autoridades, que o perseguem e abatem, no cruzamento da Rue Campagne-Première e do Boulevard Raspail, numa cena que hoje funciona como um dos ícones da Nouvelle Vague.
A narrativa é solta, sincopada, não respeita as regras tradicionais do cinema convencional na época, a liberdade de escrita é total (contam que Godard escrevia à noite as cenas do dia seguinte e só as apresentava aos actores no momento em que as iam rodar, para manter a frescura e a espontaneidade), e o resultado foi uma verdadeira revolução que para sempre ia alterar as regras mais académicas da linguagem. A câmara surge solta, com filmagens à mão, o que não era vulgar nessa altura, com enquadramentos estranhos, movimentos súbitos, não respeitando muitas vezes as chamadas “ligações” harmoniosas do “raccord”, a fotografia (de Raoul Coutard, que depois se iria revelar um dos maiores directores de fotografia franceses) apresenta igualmente as irregularidades e o grão de um certo improviso, e a interpretação vive de uma sinceridade e espontaneidade que surpreendem. Estamos nos domínios do “cinema novo”, que irá explodir um pouco por todo o mundo, provocando “novas ondas” na Europa Ocidental e de Leste, na América Latina, na Ásia, em África…
“À Bout de Souffle” iria ganhar o Urso de Prata do Festival de Berlim para “melhor realizador”. Algumas décadas depois (1983), nos EUA, Jim McBride realiza um remake da obra de Godard, “O Último Fôlego (“Breathless", no original), com Richard Gere e Valérie Kaprisky, no romântico par protagonista.

O ACOSSADO
Título original: À Bout de Souffle
Realização: Jean-Luc Godard (França, 1960); Argumento: François Truffaut e Jean-Luc Godard; Consultor: Claude Chabrol; Produção: Georges de Beauregard; Música: Martial Solal; Fotografia (p/b): Raoul Coutard; Montagem: Cécile Decugis; Maquilhagem: Phuong Maittret; Assistentes de realização: Pierre Rissient; Departamento de arte: Clément Hurel; Som: Jacques Maumont; Companhias de produção: Les Films Impéria, Les Productions Georges de Beauregard, Société Nouvelle de Cinématographie (SNC); Intérpretes: Jean Seberg (Patricia Franchini), Jean-Paul Belmondo (Michel Poiccard / Laszlo Kovacs), Daniel Boulanger (Inspector Vital), Henri-Jacques Huet (Antonio Berrutti), Roger Hanin (Carl Zubart), Van Doude (o próprio), Claude Mansard (Claudius Mansard), Liliane Dreyfus (Liliane / Minouche), Michel Fabre (Inspector), Jean-Pierre Melville (Parvulesco, o escritor), Jean-Luc Godard (o denunciante), Richard Balducci (Tolmatchoff), André S. Labarthe (Jornalista), François Moreuil (Jornalista), Liliane Robin (Minouche), Gérard Brach (fotógrafo), Philippe de Broca (Jornalista), José Bénazéraf (homem de casaco branco), Jean Domarchi (bêbado), Jean Douchet (Jornalista), Raymond Huntley (Jornalista), Louiguy, Michel Mourlet, Guido Orlando, Madame Paul, Raymond Ravanbaz, Jean-Louis Richard (Jornalista), Jacques Serguine, Jacques Siclier, Virginie Ullmann, Emile Villion, etc. Duração: 90 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 23 de Abril de 1970. 


JEAN SEBERG (1938-1979)
Jean Seberg foi uma das imagens da rebeldia juvenil (e particularmente feminina) no cinema dos anos 60, particularmente nos EUA e França. Depois de ter sido Joana d’Arc assumiu a silhueta de jovem de cabelos curtos, miudinha de estatura, inquieta de olhar, fogosa de atitude, inquieta e revoltada, ela foi heroína de Sagan, de Godard, e a inesquecível “Lilith” roçando a esquizofrenia.   
Nascida a 13 de Novembro de 1938, em Marshalltown, EUA, Jean Dorothy Seberg viria a falecer, muito jovem, com 40 anos de idade, a 30 de Agosto de 1979, em Paris, França. Filha de uma professora, Dorothy Benson, e de um farmacêutico, Edwards Seberg, desde nova que se interessou pela representação, sobretudo por causa de Marlon Brando, que viu em “O Desesperado” (1950). Frequentou a universidade de Iowa, e, em 1957, fez teste para o filme de Otto Preminger, “Santa Joana”. Foi a escolhida para protagonista entre 18 000 candidatas.Com o mesmo realizador roda “Bonjour tristesse”, segundo romance de Françoise Sagan, e o sucesso é imediato. É capa dos “Cahiers du cinema” e torna-se um rosto da nova geração de actores e de um tipo de actor com uma intervenção política invulgar, aparecendo muito associada ao movimento dos “Black Panthers”. Aos 14 anos, adere ao NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) e, anos depois, estabelece uma relação com um dos mais cotados militantes dos Black Panthers e presidente da Organização de Unidade Afro-Americana, Hakim Abdullah Jamal, que abandona a família para a seguir para Paris. O FBI começa a controlar os seus movimentos, começando igualmente a desacreditá-la com base em boatos. Entretanto, Jean Seberg divide-se entre os EUA e a França, onde roda “À Bout de Souffle”, que ajuda a consolidar uma carreira invulgar, tornando-se um dos símbolos da “Nouvelle Vague”. Outro dos grandes sucessos desta actriz foi “Lilith”, de Robert Rossen, uma obra-prima sobre uma mulher psicologicamente atormentada. A crítica disse na altura que Jean Seberg “não interpretava Lilith, ela era Lilith”.
Com uma vida sentimental muito tumultuosa, foi casada várias vezes: com o actor, realizador e produtor François Moreuil (1958 - 1960), como o escritor Romain Gary (1962 - 1970), com o realizador Dennis Berry (1972 - 1978), finalmente com Ahmed Hasni, argelino, que se apresentava como seu agente, mas que era igualmente traficante de droga (1979 - 1979). Conhecem-se ainda algumas outras relações extramatrimoniais, como a que Romain Gary suspeitou ter havido com Clint Eastwood, durante a rodagem de “Paint your Wagon” e que levou o escritor a deslocar-se aos EUA para desafiar o actor para um duelo, o que este recusou.
A instabilidade emocional de Jean Seberg era manifesta nos últimos anos de vida. François Truffaut escolhera-a para o papel de Julie, em “La Nuit Américaine”, mas ela nunca respondeu e o papel foi parar a Jacqueline Bisset. Em 30 de Agosto de 1979, desapareceu. O seu companheiro de então, Ahmed Hasni, declarou que ela saíra de casa nua, apenas com um casaco, com uma garrafa de água. O corpo foi encontrado a 8 de Setembro, envolto num casaco, no interior do seu Renault branco, estacionado perto da sua casa. Na mão tinha uma mensagem para o filho, Diego. A autópsia indica que foi vítima de uma dose excessiva de barbitúricos, mas também de álcool. O inquérito policial indicou suicídio, mas o mistério manteve-se e as dúvidas acumularam-se até hoje. Foi enterrada no cemitério de Montparnasse. Pouco depois da morte de Seberg, o seu segundo marido, Romain Gary, pai de Alexandre Diego, suicidou-se, deixando uma mensagem afirmando que “o mesmo não ter qualquer relação como a morte da actriz”.


Filmografia
Como actriz: 1957: Saint Joan(Santa Joana), de Otto Preminger; 1958: Bonjour tristesse (Bom dia, Tristea), de Otto Preminger; 1959: The Mouse That Roared (O Rato Que Ruge), de Jack Arnold; 1960: Let no man write my epitaph (Em Busca do Amanhã), de Philip Leacock; La Récréation, de François Moreuil e Fabien Collin; À bout de souffle (O Acossado), de Jean-Luc Godard; 1961: Les Grandes Personnes (Uma História de Amor), de Jean Valère; L'Amant de cinq jours, de Philippe de Broca; Congo vivo, de Giuseppe Bennati; 1963: In the french style (Uma Americana em Paris), de Robert Parrish; 1964: Lilith (Lilith e o Destino), de Robert Rossen; Les Plus Belles Escroqueries du monde (As Mais Belas Vigarices do Mundo), sketch “Le Grand Escroc”, de Jean-Luc Godard; Échappement libre (Escape livre), de Jean Becker; 1965: Moment to moment (Momento a Momento) de Mervyn Le Roy; Un milliard dans un billard (Bettina), de Nicolas Gessner; 1966: L'Homme à la tête fêlée (A Malandro Encantador), de Irvin Kershner; 1966: La Ligne de démarcation (A Linha de Demarcação), de Claude Chabrol; 1967: Estouffade à la Caraïbe (Alta Tensão nas Caraíbas), de Jacques Besnard; La Route de Corinthe (A Estrada de Corinto), de Claude Chabrol; 1968: Les oiseaux vont mourir au Pérou, de Romain Gary; 1969: Pendulum (Pêndulo), de George Schaefer; Paint Your Wagon (Os Maridos de Elizabeth), de Joshua Logan; 1970: Airport (Aeroporto), de George Seaton; Ondata di calore) de Nelo Risi; Macho Callahan (Macho Callahan), de Bernard Kowalski; 1971: Questa specie d'amore, de Alberto Bevilacqua; 1972: Police Magnum (Kill - Para quem não pode haver piedade), de Romain Gary; 1972: L'Attentat (O Atentado), de Yves Boisset; 1972: Camorra (Camorra), de Pasquale Squitieri; 1973: La corrupcion de Chris Miller (A Casa que Pingava Sangue), de Juan-Antonio Bardem; 1974: Cat and Mouse (O Gato e o Rato), de Daniel Petrie (TV); Les Hautes Solitudes, de Philippe Garrel; Ballad for Billy the Kid, curta-metragem, de Jean Seberg; Bianchi cavalli d'agosto, de Raimondo Del Balzo; 1975: Le Grand Délire (O grande delírio), de Denis Berry; 1976: Die wildente, de Hans W. Geißendörfer; 1978: Le Bleu des origines, de Philippe Garrel; 1979: La légion saute sur Kolwezi. de Raoul Coutard (cena cortada na montagem final). 
Como realizadora: 1974: Ballad for Billy the Kid. 

SESSÃO 31: 15 DE AGOSTO DE 2016


NOSSA SENHORA DE PARIS (1956)

“Nossa Senhora de Paris” é um dos romances mais célebres de Victor Hugo. Por isso mesmo o cinema e a televisão se terão interessado tantas vezes por esta obra. Entre as várias adaptações, há algumas a merecerem ser recordadas: uma ainda muda, de 1923, dirigida por Wallace Worsley, com Lon Chaney e Patsy Ruth Miller, interessante; uma outra, de fim da década de 30 (1939), de William Dieterle, com a extraordinária interpretação de Charles Laughton, e uma boa presença de Maureen O'Hara; esta de que nos ocupamos agora, de 1956, assinada por Jean Delannoy, com Anthony Quinn e Gina Lollobrigida; um telefilme (que desconhecemos) de Peter Medak, com Mandy Patinkin, Richard Harris, Salma Hayek (1997); e ainda uma versão em animação, proveniente dos estúdios Disney, de 1996, realizada por Gary Trousdale e Kirk Wise, com vozes de Demi Moore, Jason Alexander, Tom Hulce, entre outros. Infelizmente não há uma obra-prima a sobressair, e a melhor versão, apesar de muito suavizada por se destinar a um público jovem, é a animação Disney. Há, todavia, um registo vídeo de um espectáculo teatral, um musical francês, que é bastante bom. “Notre-Dame de Paris” (1999) tem libreto de Luc Plamondon, música de Riccardo Cocciante, direcção de Gilles Amado e um elenco comandado por Hélène Ségara, Daniel Lavoie e Bruno Pelletier. Par quem gosta de musicais recomenda-se.
Infelizmente, o livro de Victor Hugo não tem sido muito respeitado, por várias razões. Uma delas porque tentam alterar o seu final, acabando quase sempre num happy end que não existe na obra literária, outra porque no romance surgem personagens nada simpáticas ligadas à igreja, e que normalmente são destorcidas para não ferir susceptibilidades. Depois, esta história da bela e do monstro, na sua versão de Esmeralda, a cigana, e Quasímodo, o corcunda de Notre-Dame, deixava (será que ainda deixa?) muitos amargos de boca. Quase todas as versões suavizaram a intriga e as personagens, e esta de Jean Delannoy ainda terá sido aquela que mais escrúpulos terá tido na sua adaptação.
Mas Jean Delannoy também não fez jus ao original donde partiu, sobretudo pela forma académica como colocou em imagens as palavras do mestre francês.  Delannoy assinou alguns títulos interessantes, nos anos 40 e 50. “Regresso Eterno” (1943), “Sinfonia Pastoral” (1946), “O Segredo de Mayerling” (1949) e “Deus Precisa dos Homens” (1950) são alguns dos seus filmes mais interessantes, até chegar a “Maria Antonieta” e “Nossa Senhora de Paris” (ambos de 1956). Depois haverá sobretudo a sublinhar duas adaptações de Simenon, com o grande Jean Gabin como inspector Maigret, “O Inspector Maigret” (1959) e “O Senhor Barão” (1960). Mas Jean Delannoy, como Jean Paul Le Chanois (que nos anos 50 também nos ofereceu uma muito académica versão de “Os Miseráveis”) são os bombos da festa da “nouvelle vague” que vê neste cinema esclerosado os símbolos do “cinema de Papa” que eles tanto odeiam, com alguma razão, e com maior veemência para se tornarem notados enquanto chefes de fila de uma nova corrente, que têm de destruir o que para trás fica para construir uma nova ordem sobre as ruínas da anterior.


Voltando a “Nossa Senhora de Paris”, não se poderá dizer que seja um grande filme, apesar de se notar a vontade de adaptar escrupulosamente o romance, com as devidas reduções que um caso destes sempre impõe. Mas os cenários são demasiados visíveis, a encenação estridente, o artificialismo da reconstrução histórica evidente. Há demasiado estúdio, mesmo quando é a verdadeira Notre-Dame que está presente. O argumento, que tem a garantia de dois nomes, Jean Aurenche e Jacques Prévert, sobretudo o deste último, funciona relativamente, mas necessitava de uma outra amplitude de concepção. Os intérpretes são bons, Anthony Quinn compõe um Quasimodo que se encaixa como uma luva no seu físico e na sua fisionomia, Gina Lollobrigida é a mais bonita Esmeralda da história, Alain Cuny é uma presença misteriosa e maléfica que peca talvez por uma certa monotonia de composição, é há a curiosidade de se verem aparições curtas de poetas e escritores como Robert Hirsch ou Boris Vian.
No seu cômputo geral, “Notre-Dame de Paris” vê-se sobretudo pela obra donde parte e pela interpretação do duo protagonista. De resto, uma superprodução muito em moda nesta altura (meados dos anos 50), pomposa e pouco convincente.

NOSSA SENHORA DE PARIS
Título original: Notre-Dame de Paris
Realização: Jean Delannoy (França, Itália, 1956); Argumento: Jean Aurenche, Jacques Prévert, (Ben Hecht, não creditado), segundo romance de Victor Hugo; Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim; Música: Georges Auric; Fotografia (cor):  Michel Kelber; Montagem: Henri Taverna; Design de produção: René Renoux; Guarda-roupa: Georges K. Benda; Maquilhagem: Louis Bonnemaison, Georges Klein, Huguette LaLaurette, Jean Lalaurette; Coreografia: Léonide Massine; Direcção de Produção: Ludmilla Goulian, Paul Laffargue; Assistentes de realização: Joseph Drimal, Alain Kaminker, Pierre Zimmer; Departamento de arte: Maurice Barnathan; Som: Jacques Carrère; Efeitos especiais: Gérard Cogan; Companhias de produção: Panitalia, Paris Film Productions; Intérpretes: Gina Lollobrigida (Esmeralda), Anthony Quinn (Quasimodo), Jean Danet (Phoebus de Chateaupers), Alain Cuny (Claude Frollo), Robert Hirsch (Pierre Gringoire), Danielle Dumont (Fleur de Lys), Philippe Clay (Clopin Trouillefou), Maurice Sarfati (Jehan Frollo), Jean Tissier (Louis XI), Valentine Tessier (Aloyse de Gondelaurier), Jacques Hilling (Mestre Charmolue), Jacques Dufilho (Guillaume Rousseau), Roger Blin (Mathias Hungadi), Marianne Oswald, Roland Bailly, Piéral, Camille Guérini, Damia, Robert Lombard, Albert Rémy, Hubert de Lapparent, Boris Vian (O Cardela),  Georges Douking, Paul Bonifas, Madeleine Barbulée, Albert Michel, Daniel Emilfork, Doudou Babet, Raymond Bailly, Edmond Beauchamp, Robert Blome, Philippe Chauveau, Arielle Coigney, Yvonne Constant, Christine Darvel, José Davilla, Hugues de Bagratide, Germaine Delbat, Jenny Doria, Van Doude, Jean-Pierre Dréan, Pierre Duverger, Pierre Fresnay (narrador), Claude Ivry, Dominique Marcas, Jean Martin, Franck Maurice, Robert Rietty, María Riquelme, Louisette Rousseau, Nadine Tallier, Jean Thielment, Françoise Vallery; Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Estevez; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 19 de Abril de 1957.


GINA LOLLOBRIGIDA (1927 - ?)
Luigina Lollobrigida nasceu em Subiaco, Itália, a 4 de Julho de 1927, contando presentemente 87 anos de idade. Filha de um fabricante de móveis, com três irmãs (Giuliana, Maria e Fernanda), Luigina Lollobrigida passou a juventude na aldeia natal. Durante a II Guerra Mundial, o negócio da família foi destruído durante um bombardeamento e resolveram todos mudar-se para Roma, onde a jovem Lollo (como passaria a ser conhecida depois de famosa) estudou arte, pintura e escultura, a sua primeira vocação. Por essa altura começou igualmente a fazer-se notar como modelo, figurante de filmes e participante em concursos de beleza. Em 1947, ficou em terceiro lugar no concurso de Miss Itália. Nesse ano, Lucia Bosé ganhou, Gianna Maria Canale ficou em segundo lugar, Eleonora Rossi Drago foi desqualificada por ser casada e mãe, e Lollobrigida teve um forte impulso na sua carreira com esta participação. Consta que o célebre milionário norte-americano Howard Hughes a viu e voou de Hollywood para Itália, querendo levá-la para os EUA, mas sem resultados. Permaneceu no seu país e em 1949 casou com um médico esloveno, Milko Škofič, de quem viria a ter um filho, Andrea Milko, acabando por se divorciar em 1971.
Howard Hughes não desarmou e levou-a mesmo a Hollywood, em 1950, instalando-a no Town House de Wilshire Boulevard, mas a experiência não vingou, pois Lollobrigida na altura falava mal o inglês, além de se “sentir continuamente vigiada” pelo milionário. Em Itália, de novo, trabalhou com realizadores como Luigi Zampa e Alberto Lattuada e chamou definitivamente a atenção mundial em grandes sucessos de bilheteira, como “Pan, Amor y Fantasía”, de Luigi Comencini, ao lado de Vittorio de Sica, ou “Fanfan la Tulipe”, de Christian-Jacque, tedo como parceiro Gerard Philipe. Hollywood haveria de chegar e de forma fulgurante, em “Beat the Devil”, de John Huston, num elenco com Humphrey Bogart e Jennifer Jones (1953). Passou a ser considerada “a mulher mais bela do mundo” (que era também título de um filme, com que ganhou o primeiro David de Donatello, instituído nesse ano pela Academia de Cinema Italiana). É o seu período de ouro no cinema internacional, com interpretações em obras de grande projecção junto das plateias mundiais: “Trapézio” (1956), “Nossa Senhora de Paris”, “Salomão e a Rainha do Sabá”, Never So Few, “A Lei”, Cuando llegue septiembre (com o qual ganhou um Globo de Ouro), Strange Bedfellows “Vénus Imperial” (novo David de Donatello), “Mulher de Palha”, “Hotel Paradiso”, “Cervantes”, “Boa Noite, Senhora Campbell” (terceiro David de Donatello). Em 1972, participou na série televisiva As Aventuras de Pinocho, de Luigi Comencini, mas a sua aura começou a diminuir. Afastou-se tanto do cinema como da televisão, e dedicou-se à fotografia e à escultura. Realizou dois documentários de curta-metragem, “Le Filippine” e “Ritratto di Fidel”, este último com base em entrevistas pessoais com Fidel Castro. Fotografou, entre outras personalidades, Paul Newman, Audrey Hepburn, Salvador Dalí e a selecção de futebol da RFA. Em 1973, publicou um álbum, “Italia Mia”. Ainda regressou à televisão, em 1984, em excelente forma física, dançando a tarantela, em “Falcon Crest”, com que foi nomeada para um Globo de Ouro. Em 1996, foi-lhe atribuído um David de Donatello pela sua carreira dedicada ao cinema. Dez anos depois, voltaria a ser distinguida. Em Outubro de 1999, Gina Lollobrigida foi nomeada Embaixadora de Boa Vontade da ONU para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Nos últimos anos, tem sido notícia, por um roubo de jóias, uma tentativa falhada de casamento com um empresário espanhol que a procurou aldrabar, e por algumas entrevistas explosivas (“toda a minha vida tive demasiados amantes”).


Filmografia
Como actriz / cinema: 1946: Aquila Nera (Águia Negra), de Riccardo Freda; Lucia di Lammermoor, de Piero Ballerini; 1947: L'Elisir d'Amore (O Elixir do Amor), de Mario Costa; Il Delitto di Giovanni Episcopo (A História do Meu Crime), de Alberto Lattuada; Il Segreto di Don Giovanni (O Segredo de D. João), de Camillo Mastrocinque; A Man About the House (A Casa da Cobiça), de Leslie Arliss; 1948: Follie per l'Opera (Folias na Ópera), de Mario Costa; Pagliacci (Os Palhaços), de Mario Costa; 1949: Campane a Martelo (Toque a Rebate), de Luigi Zampa; La Sposa non può Attendere (A Minha Noiva Não Pode Esperar), de Gianni Franciolini; 1950: Miss Italia (Miss Itália), de Duilio Coletti; Cuori senza fronteire (A Linha Branca), de Luigi Zampa; Alina (Alina, uma Mulher Contrabandista), de Giorgio Pàstina; Vita da Cani (Vida de Cão), de Mario Monicelli e Steno; 1951: La Città si Difende (A Cidade Defende-se), de Pietro Germi; Enrico Caruso (Enrico Caruso), de Giacomo Gentilomo; A Tale of Five Cities, de Romolo Marcellini (Rome, com Lollobrigida), Emil E. Reinert (Paris), Wolfgang Staudte (Berlin), Montgomery Tully (London), Géza von Cziffra (Vienna) e Irma von Cube; Achtung! Banditi!, de Carlo Lizzani; Amor non ho... però... però (Amor de Gina), de Giorgio Bianchi; 1952: Moglie per una Notte, de Mario Camerin; Fanfan la Tulipe, de Christian-Jaque;Altri tempi - Zibaldone n. 1 (Outros Tempos), de Alessandro Blasetti; Les Belles de Nuit ou Le belle della notte (O Vagabundo dos Sonhos), de René Clair; 1953: Le Infedeli (Paineis da Vida), de Mario Monicelli e Steno; La Provinciale (A Provinciana), de Mario Soldati; Pane, Amore e Fantasia (Pão Amor e Fantasia), de Luigi Comencini; Beat the Devil (O Tesouro de África), de John Huston; 1954: Le Grand Jeu (A Grande Ilusão), de Robert Siodmak; Il maestro di Don Giovanni A Espada e a Mulher), de Milton Krims; La Romana (A Bela Romana), de Luigi Zampa; Pane, amore e gelosia (Pão, Amor e Ciúmes), de Luigi Comencini; 1955: La Donna più Bella del Mondo Amais Bela do Mundo), de Robert Z. Leonard; 1956: Trapeze (Trapézio), de Carol Reed; 1957: Notre Dame de Paris (Nossa Senhora de Paris), de Jean Delannoy; 1958: Anna di Brooklyn (Ana de Brooklin), de Vittorio De Sica e Carlo Lastricati; 1959: La Legge (A Lei), de Jules Dassin; Solomon and Sheba (Salomão e a Rainha do Sabá), de King Vidor; Never So Few (Quando Explodem as Paixões), de John Sturges; 1961: Go Naked in the World (Perdida pelo Mundo), de Ranald MacDougall; Come September (Idílio em Setembro), de Robert Mulligan; 1962: La Bellezza di Ippolita, de Giancarlo Zagni; Venere Imperiale (Vénus Imperial), de Jean Delannoy; 1963: Mare Matto, de Renato Castellani; 1964: Woman of Straw (Mulher de Palha), de Basil Dearden; 1965: Le Bambole (Quatro Casos de Amor), de Mauro Bolognini ("Monsignor Cupido", com Lollobrigida), Luigi Comencini ("Il Trattato di Eugenetica"), Dino Risi ("La Telefonata"), Franco Rossi ("La Minestra"); Strange Bedfellows (Quarto Para Dois), de Melvin Frank; 1966: Io, io, io... e Gli Altri (Eu, Eu, Eu …e os Outros), de Alessandro Blasetti; Hotel Paradiso (Hotel Paraíso), de Peter Glenville; Les Sultans, de Jean Delannoy; Le Piacevoli Notti Notti (Noites de Outro Tempos), de Armando Crispino e Luciano Lucignani; 1967: Cervantes, de Vincent Sherman; La Morte ha Fatto l'Uovo, de Giulio Questi; 1968: The Private Navy of Sgt. O'Farrell (Cerveja para Todos), de Frank Tashlin; Stuntman (Os Duplos do Crime), de Marcello Baldi; Un Bellissimo Novembre (Um Belíssimo Novembro, de Mauro Bolognini; 1968: Buona Sera, Mrs. Campbell (Boa Noite Senhora Campbell), de Melvin Frank; 1971: Bad Man's River (Vamos Ter Sarilho), de Eugenio Martín; 1972: King, Queen, Knave, de Jerzy Skolimowski; 1973: No Encontré Rosas para mi Madre (Rosas Vermelhas), de Rovira-Beleta; 1995: Les Cent et une Nuits de Simon Cinéma, de Agnès Varda; 1997: XXL, de Ariel Zeitoun.
Televisão: 1972: Le avventure di Pinocchio, de Luigi Comencini; 1984: Falcon Crest; 1985: Deceptions, de Robert Chenault e Melville Shavelson; 1986: The Love Boat; 1988: La Romana, de Giuseppe Patroni Griffi; 1996: Una donna in fuga, de Roberto Rocco.

Como realizadora: 1972: Le Filippine e Ritratto di Fidel (curtas metragens documentais).

SESSÃO 30: 8 DE AGOSTO DE 2016


PIQUENIQUE (1955)

Hal Carter (William Holden) viaja à boleia numa carruagem de um comboio de carga e desce numa pequena cidade do Kansas, para visitar um amigo dos tempos da faculdade, Alan Benson (Cliff Robertson). Ambos foram amigos nesse tempo, mas um seguiu os conselhos da família e tornou-se num herdeiro abastado, enquanto o outro anda à deriva em busca da aventura. A cidadezinha é pequena, daquelas onde todos se conhecem, e que prefiguram um microcosmo social que dá para perceber as características da condição humana. Parece ser essa a ideia da peça teatral de William Inge que Daniel Taradash adapta a argumento de cinema e Joshua Logan realiza. Hal Carter começa por ser bem recebido pelas famílias da região. Uma velhota aceita o seu trabalho, e, na casa do lado, Flo Owens (Betty Field) e as duas filhas, a mais velha, Madge Owens (Kim Novak), e a mais nova, Millie Owens (Susan Strasberg), não ficam indiferentes à presença deste estranho. Aliás o tema do “estranho (ou estranha) na cidade” que vem desencadear um conjunto de reacções e precipitar acontecimentos, pondo a descoberto traumas e frustrações recalcadas, é um assunto bastante glosado em literatura, teatro e cinema. No dia seguinte à chegada de Hal, comemora-se o dia do trabalhador, à americana, com piquenique e festança, baile e animação pela noite dentro. Madge Owens, que vai ser eleita a rainha das festividades, está prometida a Alan Benson, mas tudo parece um arranjo de ocasião sem amor de permeio. Já Miss Rosemary Sydney (Rosalind Russell), uma tia solteirona desesperadamente à procura de marido, não despega do tímido e perplexo Howard Bevans (Arthur O'Connell), que ela jurou levar ao altar. As desilusões e o desejo não satisfeito levam Rosemary Sydney ao desespero e a tomar atitudes menos convenientes, numa noite de muito álcool e pouco discernimento. O que acarreta um conjunto de situações que destroem a aparente calma da cidadezinha.


O filme foi rodado em Halstead, no Kansas, bem no centro dos EUA, e Tulsa, no Oklahoma, é um destino de liberdade. O comboio atravessa a cidade e tem Tulsa como meta. Haverá quem parta com esse destino, sem saber o que lhe reserva o futuro, mas com o desejo de precipitar a aventura? Na própria família Owens há um pouco de tudo, a cautelosa mãe, que quer assegurar o futuro da filha mais velha com o casamento com Alan Benson, a filha mais jovem, rebelde e relegada para segundo plano pela beleza da irmã, e Maggie, o centro das atenções, que oscila entre o casamento seguro e a aventura sem garantia alguma. O filme parece jogar nesta última opção, apostando numa paragem de autocarro que pode trazer a felicidade… ou a desilusão. Mas a certeza de não ter perdido a oportunidade.
William Holden é o herói romântico desta história de um dia do trabalhador, e Kim Novak a rainha do cortejo ao longo do rio. Ambos se entendem às mil maravilhas e a cena de baile, numa plataforma erguida sobre as águas do rio, com os balões da festa a iluminar-lhes os olhos, é seguramente das mais belas sequências de sedução da história do cinema. Os olhares, os gestos, as mãos que se agarram, os braços que deslizam, a música que embala, o álcool que enlouquece, a volúpia do ambiente que se torna cada vez mais escaldante, fazem deste momento um instante cinematográfico inesquecível. Joshua Logan foi aqui tocado pela magia e os actores ajudam e de que maneira. Mas se esta dupla é brilhante, não será menos de destacar o casal Rosalind Russell e Arthur O'Connell, que são notáveis, sem a sensualidade dos verdes anos, mas com as agruras do tempo a deixar marcas, mas a permitir o persistir da esperança.
O filme teve seis nomeações para os Oscars de 1956: Melhor Filme (produtor Fred Kohlmar), Melhor Realizador (Joshua Logan), Melhor Actor Secundário (O’Connell), Melhor Montagem (Charles Nelson, William A. Lyon), Melhor Direcção Artística (William Flannery, Jo Mielziner, Robert Priestley) e Melhor Música (George Duning). Ganhou dois: Melhor Montagem e Direcção Artística.

PIQUENIQUE
Título original: Picnic
Realização: Joshua Logan (EUA, 1955); Argumento: Daniel Taradash, segundo peça teatral de William Inge; Produção: Fred Kohlmar; Música: George Duning; Fotografia (cor): James Wong Howe; Montagem: William A. Lyon, Charles Nelson; Design de produção: Jo Mielziner; Direcção artística: William Flannery; Decoração: Robert Priestley; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistentes de realização: Carter De Haven Jr.; Som: George Cooper, John P. Livadary; Coreografia: Miriam Nelson; Companhia de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: William Holden (Hal Carter), Kim Novak (Madge Owens), Betty Field (Flo Owens), Susan Strasberg (Millie Owens), Cliff Robertson (Alan Benson), Arthur O'Connell (Howard Bevans), Verna Felton  (Helen Potts), Reta Shaw (Irma Kronkite), Rosalind Russell (Miss Rosemary Sydney), Nick Adams, Raymond Bailey, Elizabeth Wilson, Warren Frederick Adams, Carle E. Baker, George E. Bemis, Steve Benton, Harold A. Beyer, Paul R. Cochran, Adlai Zeph Fisher, Don C. Harvey, Flomanita Jackson, Shirley Knight, Phyllis Newman, Henry Pagueo, Harry Sherman Schall, Floyd Steinbeck, Wayne R. Sullivan, Henry P. Watson, Abraham Weinlood, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Abril de 1956.


KIM NOVAK (1933- )
Kim Novak não tem uma filmografia extensa, afirma que apareceu no cinema por acaso, mas deixa o seu lugar bem marcado na história da sétima arte. Desde logo por ser uma das musas louras de Htchcock, que a dirige naquele que hoje é considerado por alguns o melhor filme de sempre, “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo). É dela igualmente uma das cenas românticas mais sensuais do cinema, uma noite de baile em “Piquenique”. Mas há muito mais a recordar desta actriz lindíssima que foi igualmente uma das preferidas de Richard Quine (com quem chegou a viver, nos anos 60, e com quem rodou “Tentação Loira”, “Sortilégio de Amor”, “Um Estranho na Minha Vida, ou “Notável Senhoria”). 
Marilyn Pauline Novak, mais conhecida por Kim Novak, nasceu em Chicago, Illinois, EUA, no dia 13 de Fevereiro de 1933, contando agora 82 anos. De origem checa, os pais tinham sido professores, mas ela nunca foi uma boa estudante. Por isso, quando acabou os estudos secundários, passou por vários ofícios, desde ascensorista a empregada de loja e ajudante de dentista, mas foi como modelo de moda jovem que melhor se sentiu. Ingressa mesmo numa escola de modelos, após o que viaja para Los Angeles, onde lhe oferecem pequenos papéis na RKO e depois na Columbia. Como se chamava Marilyn, mudou o nome para se distanciar de Marilyn Monroe, mas manteve Novak. Em 1954, aparece em “Pushover”, ao lado de Fred MacMurray, num curto papel que chamou a atenção. Tornou-se muito popular e começaram a surgir grandes trabalhos, como “Picnic”, fazendo par com William Holden, sob as ordens de Joshua Logan. Conhece um triunfo em toda a linha. Frank Sinatra é o seu parceiro em “Pal Joey” e “The Man with the Golden Arm”, e James Stewart, em “Vertigo”, de Hitch. Roda “The Amorous Adventures of Moll Flanders”, em 1965, e decide afastar-se uns tempos do cinema. Novak já vivia desiludida com os papéis que então lhe atribuíam. Regressa três anos depois com “The Legend of Lylah Clare”, que foi um fracasso. Os filmes seguintes não lhe agradam e, em 1991, depois de “Liebestraum”, de Mike Figgis, retira-se, dedica-se à pintura e cria cavalos nas herdades no Oregon e na Califórnia. Em 1957, fez greve em protesto contra o salário que recebia na época e mantém fama de rebelde e de difícil ao longo de toda a sua carreira.
Foi casada com o actor Richard Johnson durante um ano (1965-1966) e depois com o médico veterinário Robert Malloy (1976-até ao presente). Foi muito notada uma relação com o actor Michael Brandon (1973-1974), para lá de algumas outras mais (Frank Sinatra, Aly Khan, Ramfis Trujillo, Sammy Davis, Jr….). Possui uma estrela na “Walk of Fame”, localizada perto do nº 6336, em Hollywood Boulevard. Recebeu um Globo de Ouro, como actriz revelação feminina, por “Piquenique” e um BAFTA, para “melhor actriz estrangeira” pelo mesmo filme. Recolheu ainda um Urso de Ouro honorário pela sua contribuição para a 7ª arte no 47º Festival de Cinema de Berlim.


Filmografia
Como Actriz: 1953: The French Line (A Moda Vem de Paris), de Lloyd Bacon; 1954: Pushover (Tentação Loira), de Richard Quine; 1954: Phffft! (Pffft... é o Amor Que Se Evapora), de Mark Robson; 1955: Son of Sinbad (O Filho de Sinbad) de Ted Tetzlaff; 5 Against the House (4 Homens e Uma Mulher), de Phil Karlson; Picnic (Piquenique), de Joshua Logan; The Man with the Golden Arm (O Homem do Braço de Ouro), de Otto Preminger; 1956: The Eddy Duchin Story (Melodia Fascinante), de George Sidney; 1957: Jeanne Eagels (Um Só Amor), de George Sidney; Pal Joey (O Querido Joey), de George Sidney; 1958: Vertigo (A Mulher Que Viveu Duas Vezes), de Alfred Hitchcock; Bell Book and Candle (Sortilégio de Amor),de Richard Quine; 1959: Middle of the Night (A Meio da Noite), de Delbert Mann; 1960: Strangers When We Meet (Um Estranho na Minha Vida), de Richard Quine; Pepe (Pepe), de George Sidney; 1962: The Notorious Landlady (Notável Senhoria) de Richard Quine; Boys' Night Out (Não Brinque com os Maridos), de Michael Gordon; 1964: Of Human Bondage (Servidão Humana), de Bryan Forbes; Kiss Me Stupid (Beija-me, Idiota), de Billy Wilder; 1965: The Amorous Adventures of Moll Flanders (A Vida Amorosa de Moll Flanders), de Terence Young; 1968: The Legend of Lylah Clare (A Lenda de uma Estrela), de Robert Aldrich; 1969: The Great Bank Robbery (Olhos Verdes, Loira e Perigosa), de Hy Averback; 1973: Tales That Witness Madness,  episódio "Luau" (TV); 1973: The Third Girl from the Left, de Peter Medak (TV); 1975: Satan's Triangle, de Sutton Roley (TV); 1977: The White Buffalo (A Carga do Búfalo Branco), de Jack Lee Thompson; 1979: Schöner Gigolo, armer Gigolo (História de um Gigolo), de David Hemmings; 1980: The Mirror Crack'd (Espelho Quebrado), de Guy Hamilton; 1983: Malibu (TV); 1985: Alfred Hitchcock Presents; episódio “Man from the South”; 1987: Es hat mich sehr gefreut, de Mara Mattuschka (curta-metragem); 1986-1987: Falcon Crest (TV); 1987: Es hat mich sehr gefreut (curta-metragem); 1990: The Children, de Tony Palmer; 1991: Liebestraum, de Mike Figgis.

Documentários: 1959: Premier Khrushchev in the USA; 1963: Showman. 

domingo, 19 de junho de 2016

SESSÃO 23: 20 DE JUNHO DE 2016


ENTRE DUAS LÁGRIMAS (1952)

“Carrie” (Entre Duas Lágrimas) parte de um romance de Theodore Dreiser ("Sister Carrie"), um dos mais importantes escritores norte-americanos do início do século XX. Theodore Herman Albert Dreiser (1871—1945) pertenceu ao naturalismo social, de tendência socialista e mesmo comunista (filiou-se no partido comunista norte-americano alguns meses antes de morrer), sendo “Sister Carrie” (1900) o seu primeiro romance, a que se seguiram outros que tiveram igualmente adaptações cinematográficas, como “An American Tragedy”, de Josef von Sternberg (1931), mais tarde outra vez adaptado, em 1951, com o título “A Place in the Sun”, por George Stevens.
"Sister Carrie", passado ao cinema por Ruth Goetz e Augustus Goetz, sofreu várias alterações, desde logo no título que, no cinema, perdeu o “Sister” para não ser tomado como obra religiosa. Mas o férreo código Hays exerceu ainda forte censura durante a adaptação que inicialmente foi proibida. Mas, de concessão em concessão, lá se conseguiu um argumento que passou, surgindo sobretudo muitos acertos na figura de Carrie, que foi muito nuanceada na descrição da sua personalidade. Carrie Meeber (Jennifer Jones) é uma jovem que vive numa pequena cidade da província e parte para Chicago para melhorar a sua vida. Instala-se em casa de uma irmã, mas rapidamente se deixa seduzir por um pequeno industrial, Charles Drouet (Eddie Albert), que a põe por conta e a leva a jantar a um restaurante sofisticado, dirigido por George Hurstwood (Laurence Olivier), homem muito mais velho que ela, casado com Julie Hurstwood (Miriam Hopkins) e pai de filhos, que se apaixona e deixa a família para vir viver com ela. O desenrolar da trama funciona como um melodrama de paixões intensas, com trajectos de vida desencontrados, enquanto Carrie sobe na vida como artista de music-hall, George afunda-se na mais completa indigência moral e física. A história, sem a grandeza “épica” de um “O Anjo Azul”, aproxima-se deste, com a figura feminina a ostentar um comportamento de compaixão muito diferente. Mas a grandeza da obra está na forma como descreve o ambiente social do século XIX nos EUA, como acompanha a evolução das personagens, mas também na hábil realização de William Wyler e dos seus colaboradores, desde o director de fotografia, Victor Milner, magnífico na fotografia a preto e branco, ao compositor David Raksin, aos directores artísticos Roland Anderson e Hal Pereira, aos figurinos da eterna Edith Head. Todos concorrem para uma obra de grande qualidade plástica, que se pressente, aqui e ali, quase totalmente rodada em estúdio (Paramount Studios - 5555 Melrose Avenue, Hollywood, Los Angeles), mas que mantém uma plausibilidade evidente.
Curiosamente, e apesar do rigor da censura, “Entre Duas Lágrimas” ainda deixa passar muitos sintomas de uma sociedade hipócrita e de falsa moral, onde a chantagem económica prevalece e arruína estatutos sociais, onde a mulher é vista como elemento a valorizar em função do seu físico, onde a vida familiar vive da aparência, onde a miséria se instala em todos os estratos sociais, da miséria económica à miséria moral.
William Wyler é um cineasta dos mais interessantes neste período (dos anos 40 a 60), com uma filmografia que fez frente a John Ford, causando até certa polémica nos meios da crítica internacional, que opunha um ao outro, como o mestre incontestável do cinema norte-americano. Na verdade, a sua obra é impressionante de qualidade e vigor, de sensibilidade e de interesse humano e social, denotando mesmo um certo estilo muito próprio, pela delicadeza dos movimentos de câmara, a justeza dos planos-sequência, e sobretudo a discreta mas perturbante direcção de actores. Tudo o que se pode admirar nesta obra de uma envolvência emocional extrema, galopando serenamente para o melodrama, sem nunca retirar os pés de uma sólida crítica social. Atente-se na sequência que assinala o encontro de Carrie e George no interior do restaurante, com a câmara a acompanhar o movimento de ambos, divididos por uma parede de vidro que os separa (e os une). Veja-se o excelente desempenho de todo o elenco, com particular destaque para Jennifer Jones, Laurence Olivier e Eddie Albert, todos eles em momentos altos das suas carreiras.
Como curiosidade, diga-se que Laurence Olivier aceitou interpretar o papel de George Hurstwood para poder estar em Hollywood ao mesmo tempo que a mulher, Vivien Leigh, que nessa altura criava a fabulosa personagem de Blanche, em “Um Eléctrico Chamado Desejo” (1951). Conhecido o clima de turbulência sentimental que o casal atravessava e as crises de instabilidade de Vivien Leigh, esta terá sido uma boa opção de Olivier que, todavia, não evitou o divórcio, tempos depois.

ENTRE DUAS LÁGRIMAS
Título original: Carrie
Realização: William Wyler (EUA, 1952); Argumento: Ruth Goetz, Augustus Goetz, segundo romance de Theodore Dreiser ("Sister Carrie"); Produção: Lester Koenig, William Wyler; Música: David Raksin;  Fotografia (p/b): Victor Milner; Montagem: Robert Swink; Direcção artística: Roland Anderson, Hal Pereira; Decoração: Emile Kuri; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Larry Germain, Wally Westmore; Som: Leon Becker, John Cope, Hugo Grenzbach; Efeitos visuais: Farciot Edouart; Companhia de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Laurence Olivier (George Hurstwood), Jennifer Jones (Carrie Meeber), Miriam Hopkins (Julie Hurstwood), Eddie Albert (Charles Drouet), Basil Ruysdael (Mr. Fitzgerald), Ray Teal (Allen), Barry Kelley (Slawson), Sara Berner (Mrs. Oransky), William Reynolds (George Hurstwood, Jr.), Mary Murphy (Jessica Hurstwood), Harry Hayden (O'Brien), Charles Halton, Walter Baldwin, Dorothy Adams, Jacqueline deWit, Harlan Briggs, Melinda Plowman, Donald Kerr, Don Beddoe, John Alvin, Charles Smith, Frank Wilcox, etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Paramount / Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 29 de Abril de 1953.


JENNIFER JONES (1919-2009)
Poucas actrizes se podem gabar de terem sido nomeadas quatro anos sucessivos para o Oscar de Melhor Actriz. Poucas se podem gabar igualmente de ganhar a estatueta logo na sua primeira interpretação como protagonista. Jennifer Jones ganhou o Oscar de Melhor Actriz em 1944, com “A Canção de Bernardette”, e recebeu mais quatro nomeações para o mesmo troféu: 1945, “Desde Que Tu Partiste”; 1946: “Cartas de Amor”; 1947: “Duelo ao Sol”; e 1956: “A Colina da Saudade”. Ganhou ainda o Globo de Ouro de Melhor Actriz num filme dramático, ainda em 1944, para “A Canção de Bernardette”.
Jennifer Jones nasceu com o nome de Phylis Lee Isley, em Tulsa, Oklahoma, EUA, a 2 de Março de 1919, tendo falecido em Malibu, EUA, a 17 de Dezembro de 2009. Os pais, Flora Mae e Phillip Ross Isley, viajaram pelo interior do país com uma barraca de espectáculos que dirigiam. Jennifer Jones estudou na Faculdade Monte Cassino Junior, em Tulsa, e na Universidade Northwestern, em Illinois, onde foi membro da irmandade Kappa Alpha Theta, antes de se transferir para a Academia Americana de Artes Dramáticas de Nova Iorque, em 1938. Foi aqui que conheceu Robert Walker, com quem se casou a 2 de Janeiro de 1939. Ainda como Phylis Isley, e já em Hollywood, conseguiu dois papéis pequenos, primeiro no western de 1939 “New Frontier”, e no serial “Dick Tracy's G-Men”, antes de ser recusada pela Paramount Pictures. Em Nova Iorque foi modelo de chapéus, da agência de John Robert Powers, quando percebeu que o produtor David O. Selznick fazia testes para encontrar a protagonista de “Claudia”, peça teatral de Rose Franken, de grande êxito. Ela apreceu, mas sentiu-se tão mal no teste que fugiu, em lágrimas. Selznick, entretanto, ficou de tal forma impressionado que a mandou regressar, assinando um contrato de sete anos com ela (mais tarde assinaria um de vida intera, casando com a actriz, provocando o divórcio de Robert Walker, que irá falecer pouco depois, vítima de álcool e drogas). Foi Henry King quem a contratou, já sob o nome de Jennifer Jones, para o seu novo filme, “A Canção de Bernardette”, entregado-lhe o papel de Bernadette Soubirous, o que a leva ao Oscar de Melhor Actriz, alcançado no dia em que completava 25 anos. A concorrer com ela estava Ingrid Bergman (em “For Whom the Bell Tolls”), a quem pediu desculpa por lhe “roubar” a estatueta. Mas Bergman respondeu-lhe: "Não, Jennifer, sua Bernadette foi melhor do que a minha María". No ano seguinte, com as duas novamente nomeadas, Ingrid Bergman receberia o Oscar por “Gaslight” das mãos da amiga. Foi o início de uma carreira carregada de sucessos, sempre orientada pela visão de Selznick. Em “Duel in the Sun”, escrito e produzido por Selznick para glória de Jennifer, esta brilha a grande altura, num registo completamente diferente de Bernardette, fogosa e sensual. “Since You Went Away” (1944), “Love Letters” (1945), “Cluny Brown” (1946), “Portrait of Jennie” (1948), “Madame Bovary” (1949), “Carrie” (1952), “Ruby Gentry” (1952), “Beat the Devil” (1953), “Good Morning Miss Dove” (1955), “Love is a Many-Splendored Thing” (1955), “The Man in the Gray Flannel Suit” (1956) ou “A Farewell to Arms” (1957) são momentos altos na sua filmografia. O seu derradeiro papel no cinema surge no filme catástrofe “The Towering Inferno” (1974), retirando-se depois, após o seu terceiro casamento, com o industrial multimilionário e coleccionador de arte Norton Simon. O casal sobreviveu a várias mortes violentas: um filho de Jennifer e de Robert Walker suicidou-se. Robert Walker, como já vimos, não sobreviveu muito tempo ao divórcio de Jennifer. A filha resultante do seu segundo casamento, Mary Jennifer Selznick, suicidou-se, em 1976, lançando-se da janela do vigésimo andar de um prédio. Um filho de Norton Simon, de um anterior casamento, suicidou-se igualmente. Em Novembro de 1967, ela própria tentou suicidar-se, num hotel de Malibu. Preocupada com as doenças mentais e dada à psicologia, em 1980 doou um milhão de dólares para criar a “Jennifer Jones Simon Foundation for Mental Health and Education”. Jennifer e Norton casaram em 1971, depois de se terem conhecido numa festa-leilão em que era posto à venda o quadro de Jennifer Jones que aparece em “Portrait of Jennie”. Norton Simon morreu em Junho de 1993, e a mulher passou a presidente e administradora emérita do Museu Norton Simon, em Pasadena. Viveu os últimos anos no Sul da Califórnia, depois de ultrapassar um cancro de mama, recusando-se a dar entrevistas e raramente aparecendo em público. Morreu de causas naturais, a 17 de Dezembro de 2009, aos 90 anos de idade. Encontra-se sepultada no Forest Lawn Memorial Park (Glendale), Glendale, Los Angeles, EUA. Casada com Robert Walker (1939 - 1945), David O. Selznick (1949 - 1965) e Norton Simon (1971 - 1993).



Filmografia:

Como actriz: 1939: New Frontier, de George Sherman; The Streets of New York (TV); Dick Tracy's G-Men (O Espião Assassino), de William Witney e John English; 1943: The Song of Bernadette (A Canção de Bernadette), de Henry King; 1944: Since You Went Away (Desde Que Tu Partiste), de John Cromwell; The Fighting Generation (curta-metragem); 1945: Love Letters (Cartas de Amor), de William Dieterle; 1946: Duel in the Sun (Duelo ao Sol) de King Vidor; Cluny Brown (O Pecado de Cluny Brown), de Ernst Lubitsch; 1948: Portrait of Jennie (O Retrato de Jennie), de William Dieterle; 1949: We Were Strangers (Os Insurrectos), de John Huston; Madame Bovary (Madame Bovary), de Vincente Minnelli; 1950: Gone to Earth (A Raposa) de Michael Powell e Emeric Pressburger; The Wild Heart (nova versão de A Raposa, imposta por Selznick), de Michael Powell, Emeric Pressburger e Rouben Mamoulian (para a versão americana); 1952: Carrie (Entre Duas Lágrimas), de William Wyler; Ruby Gentry (A Fúria do Desejo), de King Vidor; 1953: Stazione Termini (Estação Terminus), de Vittorio De Sica; Beat the Devil (O Tesouro de África) de John Huston; 1955: Love Is a Many-Splendored Thing (A Colina da Saudade), de Henry King; Bonjour Miss Dove (Bons Dias, Miss Dove), de Henry Koster; 1956: The Man in the Gray Flannel Suit (O Homem de Fato Cinzento), de Nunnally Johnson; 1957: The Barretts of Wimpole Street (Miss Bá), de Sidney Franklin; A Farewell to Arms (O Adeus às Armas), de Charles Vidor; 1962: Tender is the Night (Terna é a Noite), de Henry King; 1966: The Idol (O Ídolo Quebrado), de Daniel Petrie; 1969: Angel, Angel, Down We Go de Robert Thom; 1974: The Towering Inferno (A Torre do Inferno), de John Guillermin; 1989: The American Film Institute Salute to Gregory Peck (TV), de Louis J. Horvitz.

sábado, 11 de junho de 2016

SESSÃO 29: 1 DE AGOSTO DE 2016





O PECADO MORA AO LADO (1955)

“The Seven Year Itch” tem argumento de Billy Wilder e George Axelrod, partindo de uma peça de George Axelrod, que se baseia num tema muito trabalhado no campo do espectáculo, sobretudo na comédia: a crise dos sete anos num matrimónio. Segundo consta das estatísticas dos psicólogos, as relações no interior de um casamento sofrem períodos de forte quebra de estabilidade, a cada série de sete anos. Chamam-lhe os americanos qualquer coisa como “o desejo intenso dos sete anos”, desejo de novidade, de transgressão. Com esta base, Billy Wilder constrói uma comédia deliciosamente perversa, como só ele sabe fazer.
Abre com um prólogo “histórico” no qual se recordam os costumes que existiam na ilha de Manhattan quando, há 500 anos, esta era habitada por índios que tinham o costume de mandar as mulheres para locais mais frescos, quando o calor ali apertava a partir do início do verão. Elas iam, nem todas, claro, e eles ficavam a trabalhar, isto é, caçar, lançar armadilhas, pescar. Tudo ideias que podem conter um duplo sentido, e que, neste caso, tinham. 500 anos depois, numa estação de caminhos de ferro, os hábitos mantêm-se.
Richard Sherman (Tom Ewell) trabalha numa editora de livros de bolso, onde tem de tornar “atractivos” os clássicos. Colocando, por exemplo, grandes decotes nas capas das “Mulherzinhas”. Para lá disso, está casado há sete anos, com Helen (Evelyn Keyes). Nesse verão tórrido, ela parte para férias com o filho, Ricky, e deixa o marido só, na grande metrópole, entregue ao trabalho (e à tão falada crise dos sete anos). Para cúmulo, quando chega a casa Richard descobre que o andar de cima foi subalugado a um modelo de televisão, que no filme será conhecida apenas por “The Girl”, mas que todos reconhecem ser Marilyn Monroe num dos seus trabalhos míticos, aquele em que ela aparece com uma belíssima saia rodada sobre um dos ventiladores do metropolitano de Nova Iorque, flutuando a saia ao sabor da ventania e do desejo dos observadores (neste caso, o atarantado Richard, e nós, espectadores do filme). A cena foi filmada primeiramente num cruzamento da rua 54 com a Maddison Avenue, ao longo de várias horas, sempre com para cima de cinco mil mirones a rodear o exterior (entre os quais o então marido de Marilyn, Joe Di Maggio, que não suportava os ciúmes e com esta missão acrescentava mais achas à fogueira do próximo divórcio). Tornou-se impossível rodar a cena, que teve de ser repetida em interiores, no estúdio da Fox. Diz-se que todos as americanos esperavam ansiosamente este filme desde que as fotografias desta cena apareceram nos jornais, publicitando a obra. Philip Strassberg, crítico do “New Iork Daily Mirror”, terminava dizendo: “A paciência foi recompensada.”


Voltando ao filme, para agravar as coisas e pôr à prova a pouca resistência do patético Richard, a rapariga perde a chave da porta da rua, deixa cair uma planta (um tomateiro!) no terraço deste, procura desculpar-se, é convidada para um “drink” (diz que desce já, é “só ir buscar o vestido que está a refrescar no congelador”!), e vai ficando para aproveitar a frescura, agora do frigorífico do vizinho (que é sempre melhor que a nossa), desencadeando as mais loucas fantasias em Richard.
O que levanta uma questão muito curiosa: a peça de George Axelrod é um longo monólogo de Richard imaginando fantasias com uma inexistente rapariga, depois de rememorar várias cenas onde se sente o homem mais sexy do planeta que tenta afastar sempre as tentativas violentamente apaixonadas de algumas mulheres por si seduzidas (o que o leva a inventar mesmo uma réplica da célebre cena da praia de “Até à Eternidade”). No filme de Billy Wilder, porém, a presença de Marilyn Monroe é tão obsidiante que se torna o centro de atenção do filme, tornando Richard um espectador apenas. Truffaut vai mais longe e compara esta bela comédia de Billy Wilder a um documentário sobre Marilyn. Marilyn, o objecto do desejo.

O PECADO MORA AO LADO
Título original: The Seven Year Itch
Realização: Billy Wilder (EUA, 1955); Argumento: Billy Wilder & George Axelrod, segundo peça de George Axelrod ("The Seven Year Itch"); Produção: Charles K. Feldman, Doane Harrison, Billy Wilder; Música: Alfred Newman, Sergei Rachmaninov ("Second Piano Concerto"); Fotografia (cor): Milton R. Krasner; Montagem: Hugh S. Fowler; Direcção artística: George W. Davis, Lyle R. Wheeler; Decoração: Stuart A. Reiss, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Travilla; Maquilhagem: Ben Nye, Helen Turpin, Allan Snyder; Direcção de produção: A.F. Erickson, Saul Wurtzel; Assistentes de realização: Joseph E. Rickards; Som: Harry M. Leonard, E. Clayton Ward; Efeitos Especiais: Ray Kellogg; Genérico: Saul Bass; Companhias de produção: Charles K. Feldman Group, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Marilyn Monroe (a rapariga), Tom Ewell (Richard Sherman), Evelyn Keyes (Helen Sherman), Sonny Tufts (Tom MacKenzie), Robert Strauss (Mr. Kruhulik), Oskar Homolka (Dr. Brubaker), Marguerite Chapman (Miss Morris), Victor Moore, Roxanne (Dolores Rosedale), Donald MacBride, Carolyn Jones, Butch Bernard, Dorothy Ford, Kathleen Freeman, Ralph Littlefield, Doro Merande, Ron Nyman, Ralph Sanford, Mary Young, etc. ; Duração: 105 minutos; Distribuição em Portugal: Distribuição em Portugal: Fox Filmes.; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Fevereiro de 1956.


MARILYN MONROE (1926-1962)
Falar de Marilyn Monroe é tarefa quase impossível no que diz respeito à sua biografia. Se a sua morte está ainda hoje envolta num manto de opaca dúvida (seria suicídio ou assassinato?), tudo o mais se rege pelos mesmos princípios. Nada é certo na sua vida e quase apetece perguntar se Marilyn existiu realmente. Há os seus filmes, uma das poucas realidades palpáveis e definitivas, mas, quanto ao resto, cada biografia aponta num sentido, refuta as outras, acrescenta um ponto. Uma afirma que foi o marido da melhor amiga da mãe que a viola aos nove anos, outra que foi aos catorze um Zé-ninguém, o primeiro marido garante que casou com ela virgem. Mas há quem diga que tudo principiou aos seis anos. E que aos dois a tentaram matar, asfixiando-a com um travesseiro. Uns afirmam que o primeiro contrato com a Fox foi celebrado em Junho, um outro em Agosto, e há também quem garanta que foi em Setembro, coincidindo todos no ano, 1946, mas divergindo nas importâncias: um contrato que valia para uns 125 dólares, para outros 75… Há quem diga que foi o agente Hyde que a lançou, outros afiançam que ele nada teve a ver com o facto. Enfim, restam os filmes, as fotos, e a lenda. A lenda que por vezes é mais forte que a verdade, como dizia o director do jornal do filme de John Ford, “O Homem que Matou Liberty Valance”: “Quando a lenda é mais forte que a História, imprime-se a lenda!”
No controverso plano da biografia de Marilyn Monroe, a ideia não foi optar pela lenda, mas tentar tecer um conjunto de factos plausíveis, retirados de várias biografias manuseadas. A maioria delas não possui qualquer credibilidade. E mesmo as mais credíveis, assinadas por nomes como Norman Mailer ou Arthur Miller, são textos com muito de subjectivo e, nalguns casos, obviamente tendenciosos. Resta-nos tentar uma aproximação possível da vida de Marilyn, com todas as inexactidões e erros prováveis, e falar sobretudo do mais importante, o que permanece para lá da morte, a lenda, o mito, e os filmes.
De nome de baptismo chamava-se Norma Jean Mortensen, mas começou por ser conhecida por Norma Jean Baker. Nasceu a 1 de Junho de 1926, no Los Angeles General Hospital, em Los Angeles, Califórnia, EUA, e teve uma infância difícil. A mãe, Gladys Baker Monroe, chegou a trabalhar no cinema, como montadora de negativo, teve problemas psiquiátricos, esteve presa várias vezes e vivia permanentemente em condições de quase penúria extrema. Morreu num asilo psiquiátrico, com o diagnóstico de esquizofrénica-paranóica, e há quem diga que matara com uma facada, a melhor amiga, Grace McKee. A mesma cujo marido terá abusado sexualmente de Norma Jean, quando esta tinha apenas nove anos. As recordações de infância não poderiam, no entanto, ser mais dramáticas.
Já a avó materna fora internada num hospício depois de ter tentado sufocar a neta com um travesseiro. Do pai, Norma Jean pouco soube e nenhuma certeza teve. Há quem fale num tal Edward Mortensen, que garantem ter sido padeiro e que morrera vítima de um acidente de viação, antes de Marilyn nascer. Mas um outro biógrafo afirma que este mesmo Mortensen morreu aos 81 anos, em Riverside, de um ataque de coração. Há quem afirme, todavia, que o pai era um amigo desse Edward, colega da mãe na Consolidated Film Industries, e que se chamava Charles Stanley Gifford. Quando o tentou encontrar, ainda no início da sua carreira, este mandou dizer pelo telefone que se tinha alguma reclamação a apresentar se dirigisse ao seu advogado. Mais tarde, no auge da sua fama, Gifford tentou a aproximação, mas Norma Jean recordou-lhe então esta conversa.
Atendendo à instabilidade emocional da mãe, e ao facto de esta ser mãe solteira, Norma Jeane foi para casa de uma família adoptiva, a do muito religioso (fundamentalista!) casal Albert e Ida Bolender. Foi aqui que viveu os primeiros sete anos da sua vida: “Eram terrivelmente severos… não era por mal… era a sua religião. Educaram-me com muita severidade.” Mas à severidade de uns correspondia a depravação de outros. Em Outubro de 1933, com as finanças mais equilibradas, Gladys passa a viver por algum tempo com a filha Norma Jean. Em Setembro de 1935, com nove anos de idade, depois de ter sido (novamente?) violada (fala-se de um enigmático Mr. Kimmell, que poderia ter sido o actor inglês Murray Kinnell), foi para um orfanato, o Los Angeles Orphan’s Home, onde permaneceu até Junho de 1937, em condições, relatadas por ela, dignas de um romance de Dickens. Jura que teve de lavar quantidades enormes de louça e se banhava em água suja, apanhava surras com escovas de cabelo e vivia infeliz: “Nessa altura, o mundo à minha volta era deprimente. Tive de aprender a fingir para… não sei… afastar a tristeza. O mundo todo parecia que me estava fechado… (Sentia-me) de fora de tudo e a única coisa que eu podia fazer era sonhar uma espécie de mundo de faz-de-conta.”
Em Setembro de 1941, Norma Jean, depois de várias outras peripécias, estava a viver com Grace McKee que a encorajou a casar com o jovem Jim Dougherty, cinco anos mais velho do que ela. Casaram no dia 19 de Junho de 1942: “Grace McKee arranjou-me o casamento, eu não tive alternativa. Não há muito a dizer acerca disso. Eles não me podiam sustentar e tinham que arranjar qualquer coisa. E foi assim que me casei”. Compreende-se que, com apenas 16 anos, Norma Jean se case com Jimmy Dougherty, um jovem de 21 anos que conheceu quando trabalhava na Rádio Plane, em Van Nuys, Califórnia, uma fábrica de construção de aeronaves. O casamento funcionou como uma forma de libertação, um escape. De pouca duração. Dougherty alistou-se na Marinha em 1943 e, no ano seguinte, foi enviado para a frente da batalha. Ela ficou. Divorciaram-se em Junho (ou Setembro?) de 1946. Antes, em 1944, Marilyn foi fotografada na fábrica de material militar por David Conover um repórter fotográfico. O Exército encomendara as fotos com o intuito de divulgar o papel e a contribuição das mulheres durante a guerra. O fotógrafo, que havia sido enviado nessa missão pelo capitão Ronald Reagen, pediu permissão para fazer mais fotos e Marilyn dava início à sua carreira de modelo. Emmeline Snively, directora do “Blue Book Modeling Agency” ficou entusiasmada com o que viu e contratou-a como modelo. Cinco dólares por hora. A primeira capa foi a de “Family Circle”, aparecida a 26 de Abril de 1946. No ano seguinte, a beleza de Norma Jean tornou-se imensamente popular, sendo capa de 33 das revistas mais famosas. Entretanto, deixara o trabalho na fábrica e assume a tempo inteiro uma carreira de modelo. O seu fito é, no entanto, chegar ao cinema.


O sucesso como modelo fotográfico leva a 20th Century-Fox a contratá-la no dia 26 de Agosto de 1946 (admitamos como certa esta data!). Foi Howard Hughes quem a notou antes e lhe propôs uns testes. Zanuck, o patrão da Fox, não estava muito inclinado sequer para o teste, mas quando o viu ficou entusiasmado e Marilyn assina um contrato de 75 dólares por semana (admitamos como certa esta importância!). Billy Wilder, mais tarde, diria que Zanuck ficou particularmente tentado pelo “impacto sensual”, e acrescentou: “Há raparigas que têm uma pele que parece viver na fotografia. Temos a impressão de que as podemos tocar.” Norma Jean era uma delas. Pouco depois, e por sugestão da Fox (dizem que por sugestão de Bent Lyon), Norma Jean começou a assinar o nome Marilyn Monroe. Monroe vem da sua mãe e Marilyn da actriz Marilyn Miller. A primeira aparição de Marilyn foi numa pequena cena, em 1947, no filme "The Shocking Miss Pilgrim". Seguiu-se-lhe “Scudda Hoo! Scudda Hay!” onde a sua contribuição a nível de diálogo se resumia a um “Hi!”, ainda assim cortado na montagem definitiva. “Dangerous Years” mostra-a num grande plano, o que não foi suficiente para a Fox manter o contrato. Dispensada, foi para a Columbia, em cujo primeiro filme, “Ladies of the Chorus”, interpreta a personagem secundaríssima da “strip-teaseuse” Peggy Martin, que canta a famosa canção “Every Baby Needs a Da-Da-Daddy”. Mas também a Columbia não ficou entusiasmada com o concurso de Marilyn, e foi de novo dispensada, depois de algumas outras curtas aparições. Voltou a trabalhar como modelo, até que respondeu a um anúncio para um papel num filme que seria o último dos Irmãos Marx: “Love Happy”. Ela recorda o episódio: “Éramos três e Groucho pedia a cada uma para dar alguns passos à sua frente. Eu fui a única que ele pediu para recomeçar, segredando-me antes ao ouvido: “Tu tens o mais belo rabo da profissão!” Era um cumprimento, não uma grosseria.” Uma cena de minuto e meio, e foi tudo. Continuou a representar pequenos papéis, mas surge então (1949) uma personagem que irá ter algum significado na vida de Marilyn, Johnny Hyde, agente da William Morris Agency e rapidamente seu amante, que encontra numa recepção em Palm Springs e que se mostra entusiasmado com o futuro da prometedora actriz. Hyde está profundamente apaixonado por Marilyn, propõe-lhe casamento. Ela recusa, apesar da fortuna que poderia herdar rapidamente. Hyde estava gravemente doente do coração, explica-lhe que terá pouco tempo de vida, mas Marilyn confessa-lhe que “tem muita afeição por ele, que o acha um homem delicado, meigo, brilhante, um amigo querido, mas que não está apaixonada.” A família do defunto pede-lhe para não ir ao enterro. Mas ela vai. É ainda em 1949 que Marilyn aceita posar nua para um calendário, facto que mais tarde irá acarretar inúmeras críticas e contestação, quando a actriz era já uma vedeta, o que lhe valeu uma réplica célebre: “Hollywood é um lugar onde te pagam mil dólares por um beijo e cinquenta cêntimos pela tua alma.” Na verdade, a foto de Tom Kelley deu-lhe 50 dólares a ganhar e conseguiu um lucro de mais de 750.000.
Foi Johnny Hyde quem, em 1950, chamou a atenção do realizador John Huston para Marilyn. Ele viu uma das suas “aparições” no ecrã e resolve dar-lhe uma oportunidade de maior relevo em "Asphalt Jungle", depois de um teste lendário: Marilyn aparece com os peitos reforçados por “kleenexs” para causar melhor impressão, John Huston, ele próprio, alivia-a desses apêndices e diz-lhe para ela “passar o texto”. Marilyn pede para se deitar no chão, pois a cena seria passada numa cama, e não se cansa de repetir a “deixa”. Será Huston a mandá-la calar, dizendo “Basta, o papel é teu. Aparece segunda-feira no estúdio às nove horas.” Será a “sobrinha” de Louis Calhern, um advogado corrupto num grupo de “gansgters”, que ela atraiçoa, neste “filme negro” que se tornou um clássico do género.
Esta obra abre-lhe as portas para novas oportunidades, cada vez mais influentes. O seu desempenho em "All About Eve", também em 1950, gerou alguma notoriedade, e ficou a dever-se ao facto de Joseph L. Mankiewicz a ter visto em “Quando a Cidade Dorme”. Nesta obra-prima que aborda o universo do cinema, Marilyn é uma jovem estudante de arte dramática e aparece ao lado de nomes consagrados como os de Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Gary Merrill ou Celeste Holm. Quem a viu nos primeiros dias de filmagens percebeu o terror em que a mesma vivia. Chegava com horas de atraso ao estúdio, não conseguia fixar uma linha de texto, obrigava cada plano a ser filmado para cima de vinte vezes. Seria o início de um longo calvário (que se iria prolongar nos mesmos termos até ao fim da sua carreira) para os realizadores, produtores e colegas actores que consigo contracenavam, mas seria igualmente um pesadelo para a própria Marilyn, vítima da insegurança e da fragilidade psicológica de uma Norma Jean nunca amada, nunca desejada como pessoa, apenas cobiçada como corpo erótico para satisfação de sonhos de homens (e mulheres) que viam nela apenas um objecto sexual facilmente descartável depois de utilizado.


Toda a vida de Marilyn parece evoluir entre duas realidades psicológicas contraditórias: por um lado a necessidade de ser desejada a todo o preço, de se sentir cortejada, adulada, nem que para tal se tenha de converter num mero “sex symbol” de uma geração (ou de várias); por outro lado a imperiosa exigência de romper com esse estatuto de mulher-brinquedo, loura e desmiolada, apenas desejada pelo seu busto, o seu andar, a generosidade da sua sensualidade explosiva. Neste caso, Marilyn pretendia acima de tudo ser olhada como mulher, como actriz, como alguém que pensa e sente, que lê bons livros e é capaz de ser amada por um dos mais prestigiados escritores norte-americanos do seu tempo (Arthur Miller, vítima de perseguições durante o “machartismo”, e a quem Marilyn soube apoiar nos momentos de crise), ou pelos presidenciáveis Kennedys. Esta duplicidade de desejo nunca resolvida, este esboço de esquizofrenia latente, ficou marcada no seu corpo pelas mãos dos mais importantes homens da América, desde presidentes a escritores, de produtores a cantores, de actores a realizadores, de agentes a multimilionários.
Marilyn queria ser a um tempo “maravilhosa” e/ou “apenas uma mulher” e uma “boa actriz”. O espantoso, porém, e talvez seja essa a razão maior da criação de um mito que nada irá apagar nunca, é a permanência de uma inocência inatacável no seu olhar, a fragilidade doce e etéreo de um corpo que todos desejam e ninguém parece macular. Para lá de todas as feridas que os anos vão acumulando, a sua pele continua “a apetecer ser tocada”, tal como uma deusa misteriosa de desígnios insondáveis. O mito nasce.
"Clash By Night", de Fritz Lang, em 1952, merece igualmente boas referências da crítica. Marilyn conhece Joe DiMaggio no início de 1952, ela tem 25 anos, ele 37. DiMaggio tinha-se retirado do basebol norte-americano, concluindo uma carreira de astro. Há tempos que manifestara o desejo de conhecer a sua actriz preferida e em Fevereiro desse ano o romance explode nas páginas das revistas. “Fiquei surpreendida por me apaixonar de tal maneira por Joe, disse Marilyn. Esperava que ele fosse do género do desportista flamejante de Nova Iorque, e em vez disso deparei com um tipo reservado que não se atirou a mim logo imediatamente. Joe é um homem muito decente que faz as outras pessoas sentirem-se decentes também.” 1952 marca ainda pontos na carreira cinematográfica de Marilyn, que filma "Niagara", de Henry Hathaway, com Joseph Cotten, uma obra que ajuda a consolidar o seu estatuto de vedeta. "Gentlemen Prefer Blondes", de Howard Hawks, é o título seguinte, que a reúne a Jane Russell. Ambas irão assinar e deixar as marcas de mãos e pés no cimento que fica no passeio frente ao Chinese Theatre, em Hollywood Boulevard. Este tinha sido o local que Marilyn havia visitado quando criança, acompanhada pela mãe e pela amiga Grace. Tinha sido ali que havia jurado a si própria: “Quero ser uma grande estrela para lá de tudo o resto!" Conseguira-o. Em 14 de Janeiro de 1954, Marilyn casa-se pela segunda vez, desta feita com Joe DiMaggio. Apenas nove meses depois, a 27 de Outubro de 1954, divorciaram-se. O advogado de Marilyn explicou, em conferência de imprensa, que o motivo da separação foi “um conflito entre de carreiras”. Ou apenas mais um equivoco.
A celebridade da actriz é total e isso mesmo fica demonstrado na visita que Marilyn Monroe faz às tropas americanas deslocadas na Coreia. São 60.000 mil militares em estado de completa euforia que a recebem em apoteose. Após participar em vários filmes como apenas mais um belo rosto de Hollywood, Marilyn Monroe estava pronta para transformar a sua imagem através de uma séria actuação profissional. Queria deixar os papéis de tontinha e interpretar Dostoievski. Em 1956, Marilyn parte para Nova Iorque e dá início aos seus estudos sob a direcção de Lee Strasberg, no Actors Studio, uma casa que formara Marlon Brando, James Dean ou Paul Newman, entre tantos outros. Nesse mesmo ano, junto com o fotógrafo Milton Greene, Marilyn lançou a “Marilyn Monroe Productions”, uma produtora que irá intervir na concretização de alguns projectos futuros, como "Bus Stop", de Joshua Logan, (1956) e "The Prince and the Showgirl", de Laurence Olivier (1957). Em ambos os filmes ficam documentados os progressos da actriz em importantes papéis que exigem mais do que um rosto bonito e um corpo escultural. Em Londres, com Laurence Olivier como actor e realizador, Marilyn protagoniza um dos episódios mais desequilibrados da sua carreira, chegando sempre ao estúdio fora de horas e provocando a ira de Olivier. Tudo indica que será a partir desta época que a sua instabilidade psicológica se agrava.No dia 29 de Junho de 1956, depois de vários casos sentimentais, amplamente testemunhados pela imprensa de coração de todo o mundo, Marilyn Monroe casa com o dramaturgo Arthur Miller.
Entretanto, Billy Wilder, outro dos grandes cineastas norte-americanos, ainda que de origem europeia (austríaco), o que lhe confere um tipo de humor diferente, mais adulto e cínico, dirige Marilyn em duas das suas melhores comédias, “The Seven Year Itch” (1955) e, sobretudo, “Some Like it Hot” (1959). Em 1960, outro mestre americano, George Cukor realiza “Let’s Make Love”, onde Marilyn contracena com Yves Montand e nova situação explosiva se insinua durante a rodagem. A proximidade de Montand e Monroe não deixa ninguém indiferente, a começar pelos próprios. Durante as filmagens, Arthur Miller parte subitamente para o Nevada, deixando o par de actores entregue ao seu romance. Explosivo. Yves Montand, acabado o filme, regressa a Paris e à sua mulher, a actriz Simone Signoret. Marilyn sofre novo abalo.
O filme "The Misfits", último trabalho terminado da actriz, é escrito propositadamente por Miller para Marilyn, colocando-a ao lado de Clark Gable, que desde a infância, era o seu actor preferido e o homem que ela gostaria de ter tido como pai, ou algo mais. Tudo indica que Marilyn teria um problema edipiano mal resolvido, e toda a sua vida emocional e sexual parece ser uma longa procura do pai que nunca teve. Não será necessário ser um psiquiatra muito atento para inferir desta vida consumida em excessos uma conclusão destas. Um conjunto invulgar de episódios trágicos marca “Os Inadaptados”, que mantinha constantemente em estúdio, durante as filmagens, médicos para acompanharem quer Marilyn Monroe quer Montgomery Clift. Em Agosto de 1960, Marilyn é hospitalizada e as filmagens suspensas. Retomadas pouco depois, são concluídas em 4 de Novembro. A 11 do mesmo mês anuncia-se a separação de Marilyn e Miller e, a 16, Clark Gable morre vítima de um ataque cardíaco. Marilyn é acusada por Kay Gable, mulher do actor, de ter sido a causa da sua morte. O casamento entre Miller e Marilyn teve fim com o divórcio de 20 de Janeiro de 1961. Em Fevereiro, Marilyn tenta suicidar-se atirando-se de uma janela, mas fracassa nos seus intentos, sendo internada novamente numa clínica psiquiátrica de Nova Iorque. A dependência de drogas e do álcool acentua-se dramaticamente.
Em 1962, Marilyn foi considerada a estrela mais popular do mundo ("World's Most Popular Star"), demostrando a sua fama e o reconhecimento internacional. No dia 5 de Agosto do mesmo ano, com apenas 36 anos de idade, Marilyn Monroe morreu enquanto dormia, na sua casa de Brentwood, Califórnia. Tinha o telefone a seu lado. Uma dose excessiva de barbitúricos foi a causa apontada na autópsia. Mas a sua morte continua envolta em mistério. Fala-se em assassinato. O seu romance com os Kennedys vem à baila. O envolvimento com John F. Kennedy iniciara-se em finais de 1961. Na gala da celebração do aniversário do Presidente, no Madison Square Garden, a 6 de Maio de 1962, Marilyn canta o famoso "Happy Birthday To Mr. Presidente.” Também Bobby Kennedy ficou ligado a Marilyn com a suspeita de um “affair” numa data já muito próxima da sua morte. Por tudo isto, há quem fale de um silenciamento para impedir a revelação de algo comprometedor para alguém envolvido emocional e sexualmente com a actriz. O seu corpo foi sepultado no Westwood Memorial Park, em Los Angeles, Corridor of Memories, 24. Deixou atrás de si trinta filmes, entre os quais um, inacabado, "Something's Got to Give". “Sei que pertenço ao público e ao mundo, não porque seja especialmente talentosa e bela, mas porque nunca pertenci a nada ou ninguém mais.”



Filmografia:

Como actriz: 1947: The Shocking Miss Pilgrim (Sua Alteza a Secretária), de George Seaton; Dangerous Years, de Arthur Pierson; 1948: Scudda Hoo! Scudda Hay! ou Summer Lightning (Encanto da Mocidade), de F. Hugh Herbert; Ladies of the Chorus, de Phil Karlson; 1950: Love Happy ou Kleptomaniacs (Loucos por Mulheres), de David Miller, Leo McCarey (não creditado); A Ticket to Tomahawk, de Richard Sale; The Asphalt Jungle (Quando a Cidade Dorme), de John Huston; All About Eve (Eva), de Joseph L. Mankiewicz; The Fireball ou The Challenge, de Tay Garnett; Right Cross (Por um Amor), de John Sturges; 1951: Home Town Story, de Arthur Pierson; As Young as You Feel (Tão Jovem Quanto Possível), de Harmon Jones (TV); Love Nest (Um Ninho de Amor), de Joseph M. Newman (TV); Let's Make It Legal (Reconciliação), de Richard Sale (TV); 1952: Clash by Night (Conflito Nocturno), de Fritz Lang; We're Not Married! (Não Estamos Casados), de Edmund Goulding; Don't Bother to Knock (Os Meus Lábios Queimam), de Roy Ward Baker; Monkey Business (A Culpa Foi do Macaco), de Howard Hawks; O. Henry's Full House (Páginas da Vida), de Henry Hathaway, Howard Hawks, Henry King, Jean Negulesco e Henry Koster (episódio "The Cop and the Anthem", com Marilyn Monroe); 1953: Niagara (Niagara), de Henry Hathaway; Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Loiras), de Howard Hawks; How to Marry a Millionaire (Como se Conquista um Milionário), de Jean Negulesco; 1954: River of No Return (Rio sem Regresso), de Otto Preminger e Jean Negulesco (este não creditado); There's No Business Like Show Business (Parada de Estrelas), de Walter Lang; 1955: The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado), de Billy Wilder; 1956: Bus Stop (Paragem de Autocarros), de Joshua Logan; 1957: The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista), de Laurence Olivier; 1959: Some Like It Hot (Quanto Mais Quente, Melhor), de Billy Wilder; 1960: Let's Make Love ou The Millionaire (Vamo-nos Amar), de George Cukor; 1961: The Misfits (Os Inadaptados), de John Huston; 1962: Something's Got to Give, de George Cukor (inacabado).