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domingo, 1 de maio de 2016

SESSÃO 18: 16 DE MAIO DE 2016


O DESTINO BATE À PORTA (1946)

James M. Cain, em meados dos anos 40 era seguramente um escritor de romances negros muito popular. Com apenas dois anos de intervalo viu serem adaptadas ao cinema norte-americano três obras suas: “Pagos a Dobrar”, de Billy Wilder (1944),  “Alma em Suplício”, de Michael Curtiz (1945) e “O Destino Bate à Porta”, de Tay Garnett (1946). Mas há mais: em 1943, Luchino Visconti adapta, em Itália, "The Postman Always Rings Twice", com o título de “Obsessão”, na que seria uma das primeiras obras do neo-realismo. E já que falamos de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, devemos acrescentar que, para lá das versões de Tay Garnett e de Visconti, ainda irá surgir, décadas depois, em 1981, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, desta feita dirigido por Bob Rafelson, com um outro elenco de luxo, e uma ambiência erótica explosiva: Jack Nicholson, Jessica Lange e John Colicos.
Sobre a versão de 1946, há a dizer que Tay Garnett, o realizador, não era homem para grandes voos. Esta será talvez a sua coroa de glória, o filme que lhe terá trazido maior destaque, ainda que a sua carreira se tenha caracterizado por eficácia narrativa, competência técnica e uma generalizada boa vontade a assumir encomendas de vários géneros. Fez um pouco de tudo, quase sempre bem, mas raras vezes espantou o seu público. Em “The Postman Always Rings Twice” entrou a matar, com uma cena que ficou para sempre a história do cinema como uma das melhores apresentações que se conhece de uma personagem. Falamos do aparecimento de Lana Turner pela primeira vez no filme. Convém precisar:  Frank Chambers (John Garfield), que anda à boleia pelas estradas dos EUA, e tem um problema de pés (“nunca conseguem estar muito tempo no mesmo lugar”), apeia-se numa estação de gasolina à beira da estrada, onde se lê um letreiro equívoco: “Man Wanted”. O dono da estação, Nick Smith (Cecil Kellaway), oferece-lhe boas condições para se instalar como empregado. E quando Frank se encontra pronto a comer um hambúrguer, e discute as condições em que Nick “precisa de um homem” para o seu negócio, eis que rola pelo chão um batom que a câmara de filmar acompanha, subindo depois ao longo de umas esculturais pernas, até se deter no belíssimo rosto de uma loura irresistível. “Man Wanted” também se aplica a Cora Smith(Lana Turner),  esta mulher absolutamente deslocada naquele cenário de poeira e desolação, casada com um atarantado marido, muito mais velho do que ela? Pois é precisamente essa a questão, e Frank Chambers percebe-o desde logo.


Esta é a história de um casal de amantes que resolve livrar-se do marido da mulher, para melhor usufruir da sua paixão. As peripécias são várias, até se chegar a um final onde surge a moralidade do assunto, dando razão ao título, “o carteiro toca sempre duas vezes”. É mais uma incursão de James M. Cain pelos meandros do “romance negro” transferido para o “filme negro”, deixando bem à vista algumas das características do género, sobretudo essa insalubre atmosfera de vício e crime, onde a polícia, ou o detective privado quase não têm papel a desempenhar, rodando tudo à volta de ambições pecaminosas, com personagens algo mórbidas nas suas paixões desenfreadas, reservando-se o papel de “femme fatal” à protagonista que idealiza o crime e instiga o parceiro a cometê-lo com a sua cumplicidade. Nesse aspecto, Lana Turner é perfeita na composição dessa mulher que desperta os mais irresistíveis desejos e que os torna palpáveis e obsessivos, mesmo perante o olhar atento do Código Hays, que deixava passar pouca coisa, mas se via na inevitabilidade de admitir o que era apenas sugerido por um olhar, um gesto, uma palavra aparentemente inócua. A realização de Tay Garnett claro que não é isenta neste adensar de impulsos libidinais, mas é sobretudo a interpretação de John Garfield e Lana Turner que torna irrespirável de sensualidade esta obra particularmente significativa de um género e de uma época. Cecil Kellaway, Hume Cronyn e Leon Ames acompanham este tórrido romance com composições à altura. Refiram-se ainda a música de George Bassman e a fotografia de Sidney Wagner, na definição de ambientes e na criação desse clima de um erotismo ardente. Um beijo de Lana Turner e John Garfield vale bem por mil palavras e tornava inoperante qualquer tentativa de actividade censória – afinal não se trata mais do que de um beijo, cronometricamente controlado segundo os ditames do código. Tudo segundo as regras, com excepção da intensidade colocada pelos actores.

O DESTINO BATE À PORTA
Título original: The Postman Always Rings Twice
Realização: Tay Garnett (EUA, 1946); Argumento: Harry Ruskin, Niven Busch, segundo romance de James M. Cain (The Postman Always Rings Twice); Produção: Carey Wilson; Música: George Bassman; Fotografia (p/b): Sidney Wagner; Montagem: George White; Direcção artística: Randall Duell, Cedric Gibbons; Decoração: Edwin B. Willis; Maquilhagem: Jack Dawn; Guarda-roupa:  Irene, Marion Herwood Keyes, Eugene Joseff, Helen Scovil Roup; Direcção de Produção:  Harry Poppe;  Assistente de realização: Bill Lewis; Departamento de arte: Frank Wesselhoff; Som: Douglas Shearer; Efeitos visuais: Mark Davis, A. Arnold Gillespie, Warren Newcombe; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Lana Turner (Cora Smith), John Garfield (Frank Chambers), Cecil Kellaway (Nick Smith), Hume Cronyn (Arthur Keats), Leon Ames (Kyle Sackett), Audrey Totter (Madge Gorland), Alan Reed (Ezra Liam Kennedy), Jeff York (Blair), Philip Ahlm, John Alban, Don Anderson, Morris Ankrum, King Baggot, Betty Blythe, Paul Bradley, Wally Cassell, Jack Chefe, Dick Crockett, Oliver Cross, James Darrell, Tom Dillon, Edward Earle, Jim Farley, Joel Friedkin, A. Cameron Grant, William Halligan, Bud Harrison, Frank Mayo, Harold Miller, Howard M. Mitchell, Edgar Sherrod, Reginald Simpson, Brick Sullivan, John M. Sullivan, Charles Williams, etc. Duração:113 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Julho de 1947.


LANA TURNER (1921 - 1995)
Lana Turner integra-se perfeitamente na mitologia de Hollywood, sendo um dos seus casos mais célebres. Foi, durante 20 anos, uma das actrizes de maior sucesso da MGM e a sua vida foi um contínuo escândalo. Casou oito vezes, com sete maridos, a saber: o músico Artie Shaw (1940–1942), o escritor Stephen Crane (1942–1943, 1943–1944), o milionário Henry J. Topping (1948–1952), o actor Lex Barker (1953–1957), Fred May (1960–1962), o produtor Robert Eaton (1965–1969) e o hipnotizador Ronald Dante (1969–1972). Mas manteve histórias escaldantes com muitos outros: Victor Mature, Howard Hughes, Gene Krupa, Robert Stack, Tony Martin, Clark Gable, Fernando Lamas, Peter Lawford e Rex Harrison, entre outros. Ao que consta, o grande amor da sua vida foi Tyrone Power, com quem nunca casou.
Julia Jean Mildred Frances Turner, conhecida por Lana Turner, nasceu a 8 de Fevereiro de 1921, em Wallace, Idaho, EUA, e faleceu, aos 74 anos, em Century City, Los Angeles, EUA, a 29 de Junho de 1995. Filha de Mildred Frances Cowan e John Virgil Turner, quando tinha apenas 10 anos o pai foi assassinado numa rua de San Francisco. Lana foi colocada numa instituição religiosa, depois voltou para junto da mãe, em Los Angeles. Diz a lenda que um jornalista do “Hollywood Reporter”, Billy Wilkerson, a descobriu em 1935, a comer um gelado, no "Top Rat Café", frente à Hollywood Highschool, onde cursava dactilografia. Sugeriu-lhe que fizesse um teste para os agentes de Zeppo Marx. Começou como figurante, mas com a ajuda do realizador Mervyn LeRoy, célebre por descobrir talentos, torna-se rapidamente conhecida e uma vedeta, sobretudo entre os adolescentes que adoravam os seus “pullovers”, justíssimos, que lhe modelavam as formas. Continuou ligada a Mervyn LeRoy, trocando a Warner Bros pela Metro-Goldwyn-Mayer, para acompanhar o mestre. Cursou dicção, arte dramática e dança na Little Red School House, escola da MGM, juntamente com Judy Garland e Mickey Rooney, com quem filma uma das aventuras de Andy Hardy, em 1938. Louis B. Mayer percebe que ela vai ter de substituir o sex symbol da companhia, Jean Harlow. “Folies Ziegfeld”, de Robert Z. Leonard, é o seu primeiro grande sucesso, logo seguido por tantos outros: “Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, de Victor Fleming, “Johnny Eager”, de Mervyn LeRoy, “Weekend at the Waldorf”, de Robert Z. Leonard, “The Postman Always Rings Twice”, de Tay Garnett, “The Three Musketeers”, de George Sidney, “The Bad and the Beautiful”, de Vincente Minnelli, “The Merry Widow”, de Curtis Bernhardt, “Flame and the Flesh”, de Richard Brooks, “The Rains of Ranchipur”, de Jean Negulesco, “Peyton Place”, de Mark Robson, “Imitation of Life”, de Douglas Sirk, ou “Madame X”, de David Lowell Rich. Na televisão, apareceu em “Falcon Crest” e “The Love Boat”.
Mas a sua vida não foram só sucessos: em Abril de 1958, a sua filha Cheryl Crane, de 14 anos, assiste a uma violenta discussão da mãe com o amante dessa altura, o gangster Johnny Stompanato, e, para defender a mãe, apunhala o agressor. O caso torna-se escândalo nas revistas rosa e todos pensam que a carreira de Lana Turner pode estar arruinada para sempre. Mais uma vez renasce, num melodrama belíssimo de Douglas Sirk, “Imitation of Life”. Morre em 1995, vítima de cancro na laringe.


Filmografia:
1937: A Star is Born (Nasceu uma Estrela), de William A. Wellman (figurante); They Won't Forget (Esquecer, Nunca!), de Mervyn LeRoy (não creditado); Topper (O Par Invisível), de Norman Z. McLeod; The Great Garrick (O Grande Garrick), de James Whale; 1938: Love Finds Andy Hardy (Andy Hardy Apaixona-se), de Mervyn LeRoy; The Chaser, de Edwin L. Marin (cenas cortadas); Dramatic School (Ânsia de Vencer), de Robert B. Sinclair; The Adventures of Marco Polo (As Aventuras de Marco Polo), de Archie Mayo; Four's a Crowd (Quatro São Demais), de Michael Curtiz (não creditado); Rich Man, Poor Girl, de Reinhold Schunzel ; 1939: Calling Dr Kildare (Chamam o Dr. Kildare), de Robert Z. Leonard; These Glamour Girls (Meninas da Alta Roda), de S. Sylvan Simon; Dancing Co-Ed (Abc da Folia), de S. Sylvan Simon; 1940: Two Girls on Broadway (Curvas Perigosas), de Mervyn LeRoy; We Who Are Young (A Força dos Novos), de Harold S. Bucquet; 1941: Honky Tonk (Honky Tonk, a Cidade em Delírio), de Jack Conway; Ziegfeld Girl (Sonho de Estrela), de Robert Z. Leonard; Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming; 1942: Somewhere til find you (Tempestade no Pacífico), de Wesley Ruggles; Johnny Eager (Vidas Queimadas), de Mervyn LeRoy; 1943: Slightly dangerous (Ligeiramente Perigosa), de Wesley Ruggles; Du Barry was a Lady (Du Barry Era uma Senhora), de Roy Del Ruth; The Youngest Profession (Na Pista das Estrelas), de Edward Buzzell; 1944: Marriage is a Private Affair (O Amor Vem Depois), de Robert Z. Leonard; 1945: Keep Your Powder Dry (Éramos Três Camaradas), de Edward Buzzell; Weekend at the Waldorf (Fim-de-Semana no Waldorf), de Robert Z. Leonard; 1946: The Postman Always Rings Twice (O Destino Bate à Porta), de Tay Garnett; 1947: Cass Timberlane (As Duas Idades do Amor), de George Sidney; Green Dolphin Street (A Rua do Delfim Verde), de Victor Saville; 1948: The Three Musketeers (Os Três Mosqueteiros), de George Sidney; Homecoming (A Rival), de Mervyn LeRoy; 1950: A Life of Her Own (Seguirei o Meu Destino), de George Cukor; 1951: Mr. Imperium (É Proibido Amar), de Don Hartman; 1952: The Bad and the Beautiful (Cativos do Mal), de Vincente Minnelli; The Merry Widow (A Viúva Alegre), de Curtis Bernhardt; 1953: Latin Lovers (Meu Amor Brasileiro), de Mervyn LeRoy; 1954: Betrayed (Atraiçoada), de Gottfried Reinhardt; Flame and the Flesh (Conflito de Paixões), de Richard Brooks; 1955: The Rains of Ranchipur (As Chuvas de Ranchipur), de Jean Negulesco; The Sea Chase (A Raposa dos Mares), de John Farrow; 1955: The Prodigal (O Filho Pródigo), de Richard Thorpe; 1956: Diane (Diana de França), de David Miller; 1957: Peyton Place (Amar Não é Pecado), de Mark Robson; 1958: The Lady Takes a Flyer (Amor nas Nuvens), de Jack Arnold; Another Time, Another Place (O Amor Que Roubei), de Lewis Allen; 1959: Imitation of Life (Imitação da Vida), de Douglas Sirk; 1960: Portrait in Black (Moldura Negra), de Michael Gordon; 1961: Bachelor in Paradise (Um Solteirão no Paraíso), de Jack Arnold; By Love Possessed (A Posse do Amor), de John Sturges; 1962: Who's Got the Action? (As Loucuras do Meu Marido), de Daniel Mann; 1965: Love has Many Faces (O Amor Tem Muitas Faces), de Alexander Singer; 1966: Madame X (Madame X), de David Lowell Rich; 1969: The Big Cube, de Tito Davison; 1969-70: The Survivors (série de TV); 1971: The Last of the Powerseekers (TV); 1974: Persecution, de Don Chaffey, The Graveyard, de Don Chaffey; 1976: Bittersweet Love, de David Miller; 1980: Witches Brew, de Richard Shorr; 1982: Dead Men Don't Wear Plaid (Cliente Morto Não Paga a Conta), de Carl Reiner; 1982-83: Falcon Crest (série de TV); 1985: The Love Boat (série de TV); 1991: Thwarted, de Jeremy Hummer.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

SESSÃO 1 - 4 DE JANEIRO DE 2016


À BEIRA DO ABISMO (1946)

"The Big Sleep" parte de um romance de Raymond Chandler e tem o argumento assinado por William Faulkner, além de Jules Furthman e Leigh Brackett. O realizador é Howard Hawks, que o dirigiu em 1946, dois anos depois de ter reunido pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall em “Ter ou não Ter”. Reunião explosiva que haveria de levar os dois actores a um casamento que duraria até à morte de Bogey, em 1957. Raymond Chandler, juntamente com Dashiell Hammett, são os maiores escritores de policiais deste período. Criando, entre outras personagens, dois detectives privados inesquecíveis, que Bogart interpretou de forma magistral: Philip Marlowe e Sam Spade. Ambos podem ser considerados os principais cultores do romance negro norte-americano, abastecendo abundantemente o cinema com obras que se tornariam clássicos deste género. No caso de Dashiell Hammett, “Relíquia Macabra” ou “The Thin Man” são dois bons exemplos. Quanto a Philip Marlowe, “À Beira do Abismo” e “A Dama do Lago” bastam para assegurar uma posição notória.
Howard Hawks não foi um realizador para se manter fiel a um género, preferindo vogar livremente ao sabor da inspiração e das encomendas de ocasião. Tinha o condão de transformar em obras de autor todos (ou quase todos) os filmes que dirigia. Comédias, policiais, westerns, ficção científica, dramas, filmes históricos contam-se na sua filmografia. “Ter ou não Ter” e “À Beira do Abismo” bastaram para lhe criar um lugar essencial na história do filme negro, ainda que não respeitasse integralmente as regras do género, coisa que aliás nunca respeitou em nenhum outro. Uma das suas características será mesmo essa indisponibilidade para respeitar regras. Raros são os seus filmes onde as relações humanas são convencionais. Casais bem casados quase não existem. Mas relações de amizade e camaradagem podem ver-se amiúde, ainda que sempre observadas por um prisma de certa originalidade. Mas violência, traições, hipocrisia, cinismo, um olhar distanciado sobre a realidade, dado através de uma ironia fina e uma crítica mordaz são constantes. As suas personagens gostam de acção, movimento, diálogos curtos, poucas explicações, entrechos complexos, por vezes confusos, dando a impressão de que o cineasta prefere aprofundar mais as figuras que as situações.

“À Beira do Abismo” é um excelente exemplo desta prática. A intriga é particularmente intrincada e, mesmo depois de duas ou três visões, o espectador ficará com dúvidas sobre o que aconteceu. Numa entrevista dada alguns anos depois da conclusão de “The Big Sleep”, Howard Hawks confessava que ainda não sabia quem teria assassinado um dos sete indivíduos transformados em cadáveres que aparecem ao longo da obra. Julgamos que se referia a um motorista que é dado como morto e de quem pouco mais se sabe. Não interessa, também. O que importa neste filme, que quase ninguém hesita em classificar como uma obra-prima, são realmente as personagens, entre elas a estranha relação que se estabelece entre Philip Marlowe (Humphrey Bogart) e Vivian Rutledge (Lauren Bacall), os diálogos, tensos, nervosos, irónicos, cínicos, o clima denso, pesado, soturno que rodeia esta história viciosa e violenta, bem como a arte da narração e a fotografia enevoada e cinzenta. De resto, a ambiguidade é a certeza com que nos defrontamos ao longo da projecção. Nunca se sabe bem quem é quem, o que o move, qual o passo seguinte. 
Philip Marlowe, detective privado, ex-polícia aposentado por não se dar bem com as regras do sistema, é convocado pelo velho general Sternwood (Charles Waldron) para o visitar na sua mansão em Los Angeles. Sternwood recebe-o numa estufa, com um calor sufocante, por entre orquídeas e cobertores que o envolvem na sua cadeira de rodas. Sternwood está doente, oferece uma bebida ao visitante, e bebe-a ele próprio com os olhos. Ele vive através dos outros. O encontro é para contratar Marlowe para este tentar resolver um caso de chantagem que tem como alvo a filha mais jovem do general, Carmen Sternwood (Martha Vickers), uma (pouco mais que adolescente) ninfomaníaca destrambelhada, perdida no jogo e na droga. Quando se apresta a deixar a mansão, Marlowe é interpelado pela outra filha de Sternwood, Vivian, que quer saber o que o pai tem em mente. Depois há um pouco de tudo, bibliotecas e livrarias que o são, e outras que o são apenas na aparência, casinos e jogo, ciladas e traições, casas isoladas onde acontecem estranhas sessões fotográficas e ocorrem assassinatos, com o defunto a aparecer e desaparecer, cenas de sedução e outras de violência verbal, Marlowe preso, Marlowe solto, Marlowe à frente dos acontecimentos, Marlowe perseguindo os acontecimentos e, sobretudo, Marlowe e Vivian a começar por se insultarem insolentemente e acabarem nos braços um do, outro (para o que os argumentistas e Howard Haws tiveram de alterar substancialmente o desfecho do romance de Raymond Chandler).


De resto, o filme tem situações magníficas de humor e invenção. Arthur Geiger, um dos suspeitos, possui uma livraria que Marlowe vista. É recebido por Agnes Louzier (Sonia Darrin), a quem pergunta por uma terceira edição de "Ben Hur", de 1860, com a errata na página 116, o que a empregada de Geiger desconhece, pois a livraria não é mais do que máscara para negócios ilícitos. E vão surgindo o desaparecido Sean Regan, o violento Joe Brody, o bem-apessoado Eddie Mars, que dirige o casino, e alguns cadáveres a entremearem as situações.
Howard Hawks serve-se de um estilo nervoso, sincopado, elíptico, numa narrativa enxuta, planos fixos, raros movimentos de câmara, apenas os necessários para acompanhar personagens, que todavia conferem uma ambiência sólida e inquietante, misteriosa e exaltante.
Curiosamente, Lauren Bacall não assina o retrato de uma mulher fatal habitual, mas de alguém de uma sensualidade furtiva, que se adivinha mais do que mostra (todo o contrário da oferecida irmã, que se atira literalmente para o colo de quem está mais próximo). Esta personagem, perante o distante e cínico Marlowe acaba por vivenciar momentos de alta voltagem erótica, o que não será de estranhar dado que o casal Bacall-Bogart vivia na vida real uma lua-de-mel de contagiante felicidade
Curiosidade: em 1978 surgiu uma nova versão de "The Big Sleep" (O Sono Derradeiro, em português), dirigida por Michael Winner, com Robert Mitchum, Sarah Miles, Richard Boone, entre outros. Uma desilusão.


À BEIRA DO ABISMO
Título original: The Big Sleep
Realização: Howard Hawks (EUA, 1946); Argumento: William Faulkner, Leigh Brackett, Jules Furthman, segundo romance de Raymond Chandler ("The Big Sleep"); Produção: Jack L. Warner, Howard Hawks; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Sidney Hickox; Montagem: Christian Nyby; Direcção artística: Carl Jules Weyl,Max Parker; Decoração: Fred M. MacLean; Maquilhagem: Perc Westmore; Direcção de Produção: Eric Stacey; Assistentes de realização: Chuck Hansen, Robert Vreeland; Som: Robert B. Lee;  Efeitos especiais: Roy Davidson, Warren Lynch; Efeitos visuais: Paul Detlefsen; Companhia de produção: Warner Bros.-First National Pictures Inc.; Intérpretes: Humphrey Bogart (Philip Marlowe), Lauren Bacall (Vivian Rutledge), John Ridgely (Eddie Mars), Martha Vickers (Carmen Sternwood), Dorothy Malone (empregada de livraria), Peggy Knudsen (Mona Mars), Regis Toomey ( Inspector Bernie Ohls), Charles Waldron (Gen. Sternwood), Charles D. Brown (Norris), Bob Steele (Lash Canino), Elisha Cook Jr. (Harry Jones), Louis Jean Heydt (Joe Brody), Trevor Bardette, Joy Barlow, Max Barwyn, Deannie Best, Tanis Chandler, Jack Chefe, Joseph Crehan, Oliver Cross, Sonia Darrin, Carole Douglas, Jay Eaton, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros.; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal:14 de Janeiro de 1948.


LAUREN BACALL (1924 - 2014)
Lauren Bacall, de seu nome verdadeiro Betty Joan Perske, nasceu a 16 de Setembro de 1924, na cidade de Nova Iorque, EUA. Oriunda de uma família de judeus, o pai, William Perske, nascido na Polónia, a mãe, Natalie Weinstein Bacal, na Roménia, a jovem Betty teve uma infância discreta, nos bairros de Nova Iorque, onde o pai era vendedor e a mãe secretária. Com seis anos de idade o divórcio do casal leva-a a ficar com a mãe. Estudou dança, foi modelo, chegou a ter aulas na Academia Americana de Artes Dramáticas e iniciou-se no teatro, na Broadway, em 1942, como o nome de Betty Bacall, na peça “Johnny Two By Four”. Uma foto sua, aparecida no “Harper's Bazaar”, interessou Slim Keith, mulher de Howard Hawks, que a mostrou ao cineasta, na altura em que este procurava actriz para o seu novo projecto, “Ter ou Não Ter”. Este convidou-a a fazer um teste em Hollywood, quando ela contava apenas 17 anos. Foi aceite, passou a usar Lauren como nome próprio, e foi baptizada por Hawks com o diminutivo de "Slim", que a torna célebre no seu filme de estreia. Hawks ensinou-a ainda a tirar partido do seu rosto e cabelo, o que permitiu criar o chamado “look” de Bacall que não mais a deixaria. Bogart, então casado com Mayo Methot, não resistiu ao pedido de lume de Bacall e pouco depois assobiava-lhe para sempre. Casaram. Formaram um dos casais mais sedutores de Hollywood. Depois do seu brilhante trabalho em “To Have and Have Not” (1944), surgiram ambos em “The Big Sleep” (1946), “Dark Passage” (1947) e “Key Largo” (1948), outros sucessos retumbantes. Iniciava-se assim uma carreira notável, no cinema, no teatro e na televisão. Os prémios e honrarias multiplicaram-se: em 1970, “Tony” para Melhor Actriz em “Applause”, e, em 1981, para “Woman of the Year”. Em 1997, em “The Mirror Has Two Faces”, de Barbra Streisand, ganhou um Globo de Ouro e um SAG e foi ainda nomeada para o Oscar de Melhor Actriz. Em 1993, conquistou um Globo de Ouro honorífico, pelo conjunto da sua obra, bem como um Oscar, em 2009. Escreveu “By Myself” (1978), Prémio Nacional para o Melhor Livro de Não-Ficção, “Now” (1994) e “By Myself and Then Some” (2004).


Filmografia

1944: To Have and Have Not (Ter ou não Ter), de Howard Hawks; 1945: Confidential Agent, de Herman Shumlin; 1946: The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Howard Hawks; 1947: Dark Passage (O Prisioneiro do Passado), de Delmer Daves; 1948: Key Largo (Paixões em Fúria), de John Huston; 1950: Young Man with a Horn (Duas Mulheres e Dois Destinos), de Michael Curtiz; Bright Leaf (Fumos da Ambição), de Michael Curtiz; 1953: How to Marry a Millionaire (Como Se Conquista Um Milionário), de Jean Negulesco; 1954: Woman's World (O Mundo é das Mulheres), de Jean Negulesco; 1955: The Cobweb (Paixões Sem Freio), de Vincente Minnelli; Blood Alley (Aldeia em Fuga), de William A. Wellman; Producers' Showcase (série de TV) – episódio The Petrified Forest; 1956: Patterns (Os Gigantes Dominam), de Fielder Cook; Written on the Wind (Escrito no Vento), de Douglas Sirk; Blithe Spirit (teledramático); Ford Star Jubilee (série de TV) – episódio Blithe Spirit; 1957: Designing Woman (A Mulher Modelo), de Vincente Minnelli; 1958: The Gift of Love, de Jean Negulesco; 1959: North West Frontier (Sangue Sobre a Índia), de J. Lee Thompson; 1963: The DuPont Show of the Week (série de TV) – episódio A Dozen Deadly Roses; Dr. Kildare (série de TV) – episódio The Oracle; 1964: Shock Treatment, de Denis Sanders; Sex and the Single Girl (A Solteira e o Atrevido), de Richard Quine; Mr. Broadway (série de TV) – episódios Something to Sing About e Take a Walk Through a Cemetery; 1965: Bob Hope Presents the Chrysler Theatre (série de TV) – episódio Double Jeopardy; 1966: Harper (Harper, Detective Privado), de Jack Smight; 1973: Applause (teledramático); 1974: Murder on the Orient-Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1976: The Shootist (O Atirador), de Don Siegel; 1978: Perfect Gentlemen (teledramático); 1979: The Rockford Files (série de TV) – episódios Lions, Tigers, Monkeys and Dogs: 1 e 2; 1980: Health, de Robert Altman; 1981: The Fan (O Admirador), de Ed Bianchi; 1983: Parade of Stars (teledramático); 1988: Appointment with Death (Morte Entre as Ruínas), de Michael Winner; Mr. North (Um Homem de Sonho), de Danny Huston; 1989: Tree of Hands, de Giles Foster; Dinner at Eight (teledramático); 1990: Misery (Misery - O Capítulo Final), de Rob Reiner; The Real Story of the Three Little Kittens (video curta-metragem); A Little Piece of Sunshine (teledramático); 1991: All I Want For Christmas (Aventura num Natal), de Robert Lieberman; 1993: Screen One (série de TV) A Foreign Field, de Charles Sturridge; A Star for Two, de Jim Kaufman; Great Performances (série de TV) – episódio Leonard Bernstein: The Gift of Music – narradora; The General Motors Playwrights Theater (série de TV) – episódio The Parallax Garden; The Portrait (teledramático); 1994: Prêt-à-Porter (Pronto-a-Vestir), de Robert Altman; 1995: From the Mixed-Up Files of Mrs. Basil E. Frankweiler (teledramático); 1996: The Mirror Has Two Faces (As Duas Faces do Espelho), de Barbra Streisand; My Fellow Americans (Politicamente... Incorrecto!), de Peter Segal ; 1997: Le jour et la nuit, de Bernard-Henri Lévy ; 1998: Chicago Hope (série de TV) – episódios Absent Without Leave e Risky Business; 1999: Madeline: Lost in Paris, de Marija Miletic Dail (voz); Diamonds, de John Mallory Asher; The Venice Project, de Robert Dornhelm; Too Rich: The Secret Life of Doris Duke (teledramático); Presence of Mind, de Antoni Aloy; 2000: Scene by Scene (série de TV); 2003: The Limit, de Lewin Webb; Dogville (Dogville), de Lars von Trier; 2004: Amália Traïda, de Francesco Vezzoli (curta-metragem); Hauru no ugoku shiro (O Castelo Andante), de Hayao Miyazaki (voz); Birth (Birth - O Mistério), de Jonathan Glazer; 2005: Manderlay (Manderlay), de Lars von Trier; 2006: These Foolish Thing' (À Procura de Sucesso), de Julia Taylor-Stanley; 2007: The Walker (O Acompanhante), de Paul Schrader; 2008: Eve, de Natalie Portman (curta-metragem); 2008: Scooby-Doo and the Goblin King (vídeo) (voz); 2009: Wide Blue Yonder, de Robert Young; 2012: The Forger, de Lawrence Roeck; 2012: Ernest & Célestine, de Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner (voz); 2014: Family Guy (série de TV) episódio Mom's the Word (voz).