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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SESSÃO ESPECIAL 25 DE DEZEMBRO DE 2016 / 17 HORAS

SESSÃO ESPECIAL DE NATAL
Dia 25 de Dezembro 17 horas

MARY POPPINS (1964)


“Mary Poppins” é um filme que se integra perfeitamente nas categorias do maravilhoso e da fantasia. Na verdade, Mary Poppins é uma fada e o filme um conto de fadas, onde uma delas desce à Terra, não a cavalo numa vassoura, como é tradicional das bruxas, mas a reboque de um guarda-chuva e trazendo na mão uma maleta mágica de onde, sempre que necessário, saem os mais desencontrados objetos.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS
A rodagem deste filme parece ter estado envolta num oceano de problemas, o que, curiosamente, foi recentemente contado (versão dos estúdios produtores, obviamente) num filme de John Lee Hancock (2013), “Ao Encontro de Mr. Banks” (Saving Mr. Banks). O filme estreou em Janeiro de 2014 em Portugal e, nessa altura, escrevi sobre o mesmo um texto que talvez ajude a recordar os conflitos surgidos durante os vinte anos que mediaram entre o interesse inicial de Walt Disney em adaptar as obras de Pamela Lyndon Travers, escritora que criou “Mary Poppins”, e a data da estreia do filme: “P.L. Travers assinava assim o seu trabalho literário para encobrir o facto de ser mulher. Na verdade, fora baptizada com o nome de Helen Lyndon Goff e nascera na Austrália, em Maryborough, Queensland, a 9 de Agosto de 1899, vindo a morrer em Londres, a 23 de Abril de 1996. Quando tinha sete anos, o pai faleceu, um acontecimento que para sempre marcaria a jovem. Desde muito nova que se dedicou à poesia, tornando-se escritora, jornalista e passando mesmo pelo teatro, como actriz. Andou pela Austrália e pela Nova Zelândia, em tournée, depois viajou até à Irlanda, onde conheceu vários poetas e escritores, passando a Londres, onde se instala. Publica, em 1934, “Mary Poppins”, que rapidamente se tornou um sucesso retumbante. 
Em Hollywood, as filhas de Walt Disney leem o livro e adoram. O pai promete-lhes que o vai adaptar ao cinema. Entra em contacto com a escritora, que nem quer ouvir falar em adaptações, detesta musicais e tem horror a “bonecos animados”. Durante vinte anos, trocam cartas e nem um nem outro desiste dos seus intentos. “Saving Mr. Banks” é, pois, a história de dois teimosos que se enfrentam para cumprir promessas. Ele quer adaptar a cinema o livro para cumprir o que jurara às filhas, ela não quer ceder para se manter fiel à promessa que fizera a si própria. 
A determinada altura da vida de P.L. Travers, as receitas literárias começam a diminuir e o seu agente convence-a a viajar até Los Angeles. Isso acontece em 1961. Como se calcula, a escritora começa por detestar a cidade e o encontro com Walt Disney é desastroso. A autora de “Mary Poppins” revela-se uma velhota ácida, fria, distante, agressiva, nada cooperante, mostra que está a fazer um frete insuportável. As reuniões com argumentistas, compositor, letristas, produtores, secretárias and so on, são lendárias. A má disposição e o negativismo de P.L. Travers julgar-se-iam inultrapassáveis. Se o tivessem sido, não haveria agora este filme, nem “Mary Poppins” com pinguins em desenho animado, a dançarem em redor de Dick Van Dyke. Mas, lentamente, vai cedendo aos encantos do lugar e das personagens e talvez também ao cansaço. O filme faz-se, estreia-se em 1964, é um triunfo, mas ela mantém as reservas e não permite a Walt Disney aproveitar nenhuma das quatro sequelas que, entretanto, escrevera e editara com a sua Mary Poppins como protagonista. Fim de história, que não contém nenhum suspense especial, pois é do conhecimento geral. Faz parte da História. Este é mais um filme que ficciona factos reais. 
John Lee Hancock, o realizador, é igualmente um argumentista de algum sucesso, tendo assinado, enquanto tal, algumas obras muito interessantes, como “Um Mundo Perfeito” e “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”, ambas rodadas por Clint Eastwood, tendo dirigido como realizador “The Rookie - O Treinador”, “Álamo” e “Um Sonho Possível”, antes de se entregar a este “Ao Encontro de Mr. Banks”. Nada de particularmente excitante, o mesmo acontecendo agora, ainda que neste último caso, a história tenha a sua graça, e os intérpretes sejam excelentes. Emma Thompson compõe um retrato inspirado desta insuportavelmente irritante P.L. Travers; Tom Hanks é um Walt Disney impecável, talvez demasiado “politicamente correcto” (mas que dizer, se a produção é dos seus estúdios e herdeiros?); Annie Rose Buckley é uma miudinha adorável, que as asperezas da vida transformaram na agreste escritora; Colin Farrell é o pai destemperado que morre cedo e deixa um rasto de tristeza na filha; Ruth Wilson é a sacrificada mãe; Paul Giamatti é admirável como motorista particular de Travers, e por aí fora. Só pelas interpretações merece a pena as duas horas de visionamento. Mas a produção é cuidada, os aspectos técnicos estão à altura da casa produtora e o resultado final é mais um daqueles filmes para “toda a família” a que estes estúdios nos habituaram há longas décadas. 
Para quem gosta de cinema e de espreitar os bastidores das produções de Hollywood, este é mais um aspecto a ter em conta. O que coloca algumas objecções ao produto será, por um lado, o ar muito bem-comportado de toda a gente, o que nos permite supor que os argumentistas (Kelly Marcel e Sue Smith) adocicaram muito a realidade e, por outro, uma estrutura narrativa, tipo sanduíche, com duas histórias entremeadas a decorrer em simultâneo, por um lado a juventude de P.L. Travers na Austrália, por outro lado o encontro desta com Disney em Hollywood. Obviamente que se percebe o porquê da opção: a história da juventude de P.L. Travers é a base para a compreensão do seu comportamento ao longo da vida. Mas o esquema acaba por ser um pouco enfadonho, por repetitivo. Globalmente, é um espectáculo que se vê com agrado, mas não muito mais do que isso. O que já não é pouco se lhe acrescentarmos o brilhantismo das representações.


MARY POPPINS
Resolvidos a bem ou a mal os problemas resultantes da adaptação, aí temos o filme. Walt Disney, ao contrário do que muita gente julga, só foi realizador dos filmes que surgiram com a sua chancela entre 1921 e 1935, sendo que dirigiu sobretudo curtas-metragens, aqueles “desenhos animados” que antecediam o filme principal, durante várias décadas nas sessões normais de cinema (antes da chegada das sessões contínuas que só deixam lugar ao filme principal e aos trailers das futuras estreias). À medida que a sua marca ganhou prestígio e sucesso comercial, Disney passou a ser sobretudo o produtor, mas um produtor com poder absoluto sobre os produtos saídos da sua fábrica. Foi na condição de produtor que ergueu o projecto “Mary Poppins”, estreado um ano depois da longa-metragem de animação “A Espada Era a Lei” (The Sword in the Stone). Os estúdios encontravam-se num dos seus períodos de ouro e Walt Disney entregou a realização deste filme em imagem real, mas com algumas sequências que misturam figuras humanas e desenho animado, a Robert Stevenson, um homem da casa, muito habituado aos chamados filmes para toda a família. Na Broadway, descobriu uma jovem que nunca tinha feito cinema e se encontrava nos palcos de Nova Iorque a interpretar “Camelot”. Antes tinha pensado em Bette Davis ou Angela Lansbury. Estava encontrada a fada que nos daria, em anos sucessivos, esta “Mary Poppins” e “Música no Coração”. Uma fada Midas com mãos de ouro que transformava em desmedido lucro tudo em que cantava.
“Mary Poppins” ambienta-se em Londres, 1910, centrando-se sobre uma família de classe média-alta, o pai banqueiro, a mãe sufragista, e os dois filhos deixados ao Deus dará pelos superiores interesses dos pais. As governantas não duravam uma semana nas mãos dessas crianças rebeles até ao dia em que entra uma nova ama pela porta dentro, com chapéu de chuva na mão e mala. E tudo se modifica como por magia, porque afinal de magia se trata. A ama-fada transforma rapidamente os insubordinados miúdos em ternurentos adolescentes, os pais interiorizam a suas falhas, não sem antes passarem por alguns apertos que mostraram bem como se comportam os banqueiros quando deixados a solo. Mas num filme “para toda a família” tudo tem de terminar bem, o que acaba por acontecer com a sua lição de moral bem estudada e aplicada a preceito, para o capital e para a rebeldia, para o pai banqueiro e para a mãe sufragista.
A história é importante, claro, mas o que parece sobretudo ficar depois da saída da sala escura (hoje em dia é mais depois de desligar o aparelho de tv), é o tom do filme, o que é dado sobretudo pelas canções e pelos números coreografados (1). Este é um filme que procura puxar para cima, mostrar o lado bom da vida, defender a família e abandonar os egoísmos pessoais e colectivos. Numa das canções do filme (hoje muito politicamente incorrecta, diga-se de passagem, mas que importa?), Mary Poppins explica que se tens de tomar um remédio azedo, uma colher de açúcar ajuda. Depois temos o lado tenebroso dos banqueiros, todos vestidos de negro, velhos e rançosos, enterrados numa avareza sem escrúpulos. O lado oposto à limpidez luminosa de Mary Poppins e do seu mundo. Moralismo fácil? Sim, é capaz de ser, mas com grande qualidade técnica e artística, o que o torna não só suportável, como bem-vindo.
De um ponto de vista musical, os irmãos Robert e Richard Sherman encontravam-se num momento de rara inspiração que galvanizou a restante equipa para transformar em momentos inesquecíveis alguns números: “Chim Chim Che-ree”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção do ano, abre para o fabuloso bailado nos telhados de Londres, por entre uma floresta de chaminés, onde os limpa-chaminés se apresentam como anjos da guarda dos outros frágeis humanos que lá por baixo labutam no seu dia a dia. O famoso “Supercalifragilisticexpialidocious”, que quase ninguém repete, mas que todos gostaríamos de cantar como o faz a deliciosa Julie Andrews, é outro momento magnífico, tal como “A Spoonful of Sugar”, cuja moralidade já foi referida, ou “Feed the Birds”, a nostálgica balada da velha que à porta do banco dá comida aos pombos. Claro que o filme não é só Julie Andrews e a presença, a seu lado, do multifacetado Dick Van Dyke é uma outra aposta ganha. Dick Van Dyke, na figura do limpa-chaminés Bert, canta, dança, faz de homem orquestra, pinta no chão do parque, além de, obviamente, limpar as chaminés da cidade e de praticar o bem. Ele é o chefe de bailado do espantoso número nos telhados da cidade, no tema musical “Step In Time”. Mas também será ele que vai dançar na sequência dos pinguins de animação. Memorável, apesar da rabugenta P.L. Travers não gostar de animação! Conhecerá outro grande sucesso, em 1968, como protagonista de um novo musical, “Chitty Chitty Bang Bang”, sob a direcção de Ken Hughes. Mas este “Mary Poppins” é o seu momento de suprema glória, senão atente-se no estupendo boneco extra que ele compõe como dono do banco. David Tomlinson e Glynis Johns formam o casal Banks, e os miúdos são Karen Dotrice e Matthew Garber.
A Londres de 1910 foi reconstruída em minúcia nos estúdios Disney da Califórnia, numa demonstração de virtuosismo cenográfico notável. Mas tecnicamente “Mary Poppins” é ainda hoje um prodígio que desafia o tempo e vai passando de geração em geração com o mesmo brilho. Fotografia, som, montagem, efeitos especiais tudo funciona na perfeição nesta obra que, quando Mary Poppins se eleva nos céus de Londres para partir para novo destino (novo filme não, porque a radical P.L. Travers não permitiu), não é só a família Banks que fica com saudades, mas sim (quase) todos os espectadores. Não direi todos porque há os que acham “Mary Poppins” uma aberração moralista. Pois sim, está bem, deixem-me um pouco de açúcar, apesar dos diabetes.

Principais canções e números musicais: de “Mary Poppins”: Spoonful Of Sugar, Chim Chim Cher-Ee, Perfect Nanny, Step In Time, Sister Suffragette, Supercalifragilisticexpialidocious, Fidelity Fiduciary Bank, Practically Perfect, Let's Go Fly A Kite, I Love To Laugh, Jolly Holiday, Feed The Birds, Pavement Artist, The Life I Lead, Cherry Tree Lane, The Day I Fall In Love


MARY POPPINS (1964)
Título original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson (EUA, 1964); Argumento: Bill Walsh, Don DaGradi, segundo P.L. Travers (“The "Mary Poppins"); Produção: Bill Walsh, Walt Disney; Música: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Edward Colman; Montagem: Cotton Warburton; Guarda-roupa: Gertrude Casey, Chuck Keehne, Bill Thomas, Tony Walton, Luster Bayless; Direcção artística: Carroll Clark, William H. Tuntke; Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri; Maquilhagem: La Rue Matheron, Pat McNalley; Coreografia: Marc Breaux, Dee Dee Wood;  Assistentes de realização: Paul Feiner, Joseph L. McEveety, Arthur J. Vitarelli, Tom Leetch; Departamento de arte: McLaren Stewart, Tony Walton, Will Ferrell, Al Gaynor; Som: Robert O. Cook, Dean Thomas; Efeitos especiais: Peter Ellenshaw, Eustace Lycett, Robert A. Mattey; Efeitos visuais: Bob Broughton, Art Cruickshank, Lee Dyer; Animação: Hal Ambro, Jack Boyd, Al Dempster, Don Griffith, Ollie Johnston, Milt Kahl, Ward Kimball, Eric Larson, Bill Layne, John Lounsbery, Hamilton Luske, Cliff Nordberg, Art Riley, Frank Thomas, Frank Armitage, Joe Hale, Fred Hellmich, Art Stevens, Julius Svendsen; Companhia de produção: Walt Disney Productions; Intérpretes: Julie Andrews (Mary Poppins), Dick Van Dyke (Bert / Mr. Dawes Senior, David Tomlinson (Mr. Banks), Glynis Johns (Mrs. Banks), Hermione Baddeley (empregado), Reta Shaw (empregada), Karen Dotrice (Jane Banks), Matthew Garber (Michael Banks), Elsa Lanchester (Katie Nanna), Arthur Treacher, Reginald Owen, Ed Wynn, Jane Darwell, Arthur Malet, James Logan, Don Barclay, Alma Lawton, Marjorie Eaton, Marjorie Bennett, Walter Bacon, Frank Baker, Robert Banas, Marc Breaux, Art Bucaro, Daws Butler, Cyril Delevanti, George DeNormand, Harvey Evans, Paul Frees, Betty Lou Gerson, Clive Halliday, Sam Harris, David Hillary Hughes, Bill Lee, Queenie Leonard, Doris Lloyd, Lester Matthews, Sean McClory, Mathew McCue, Dal McKennon, Hans Moebus, King Mojave, Alan Napier, Marni Nixon, J. Pat O'Malley, George Pelling, Thurl Ravenscroft, Richard M. Sherman, Bert Stevens, Hal Taggart, Larri Thomas, Ginny Tyler, etc. Duração: 139 minutos; Distribuição em Portugal (DVD e Blu-ray): Walt Disney; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Dezembro de 1965.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS 
Título original: Saving Mr. Banks 

Realização: John Lee Hancock (EUA, Inglaterra, Austrália, 2013); Argumento: Kelly Marcel, Sue Smith; Produção: Ian Collie, Mark Cooper, K.C. Hodenfield, Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Alison Owen, Philip Steuer, Paul Trijbits; Música: Thomas Newman; Fotografia (cor): John Schwartzman; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Ronna Kress; Design de produção: Michael Corenblith; Direcção artística: Lauren E. Polizzi; Decoração: Susan Benjamin; Guarda-roupa: Daniel Orlandi, Catherine Childers, Deborah La Mia Denaver, Julie Hewett, Frances Mathias; Direcção de Produção: Andrew C. Keeter, Philip Steuer, Todd London; Assistentes de realização: Paula Case, Clark Credle, K.C. Hodenfield, Jeff Okabayashi, Stuart Renfrew; Departamento de arte: Lorrie Campbell, Martin Charles, Steve Christensen, Mike Piccirillo, Terry Scott, Sally Thornton; Som: Yann Delpuech, Jon Johnson, David M. Roberts; Efeitos especiais: J.D. Schwalm; Efeitos visuais: Vincent Cirelli, Justin Johnson, Lauren Miyake, Simon Mowbray, Luma Pictures; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, Ruby Films, Essential Media & Entertainment, BBC Films, Hopscotch Features; Intérpretes: Emma Thompson (P.L. Travers), Tom Hanks (Walt Disney), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travers Goff), Ruth Wilson (Margaret Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DaGradi), B.J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Lily Bigham (Biddy), Kathy Baker (Tommie), Melanie Paxson (Dolly), Andy McPhee (Mr. Belhatchett), Rachel Griffiths (Tia Ellie), Ronan Vibert (Diarmuid Russell), Jerry Hauck, Laura Waddell, Fuschia Sumner, David Ross Paterson, Michelle Arthur, Michael Swinehart, Bob Rusch, Paul Tassone, Luke Baines, Demetrius Grosse, Steven Cabral, Kimberly D'Armond, Mia Serafino, Claire Bocking, Dendrie Taylor, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Janeiro de 2014.

domingo, 9 de outubro de 2016

SESSÃO 38: 10 DE OUTUBRO DE 2016


OS CHAPÉUS-DE-CHUVA DE CHERBOURG 
(1964)

“Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” representa uma experiência muito rara no cinema, sobretudo se nos referirmos a tudo o que fica para trás relativo a 1864. Depois, o próprio Jacques Demy terá voltado a este estilo noutros filmes. Aliás, todo o cinema de Demy, um dos cineastas franceses que acompanharam o desenvolvimento da “nouvelle vague”, no final dos anos 50, início dos de 60, é uma curiosa e inédita mescla de realidade e fantasia, com a música a desempenhar um papel aglutinador essencial em muitas das suas obras.  “Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” iniciaram esta tendência com uma fabulosa partitura musical de Michel Legrand que acompanha todo o filme, um pouco na linha da ópera que não deixa de ser citada (Geneviève Emery e Guy Foucher, o par amoroso desta obra vão mesmo à ópera assistir a uma representação de “Carmen”).
Para os que gostam de musicais, este é um filme indispensável. Para os que não gostam de musicais, o melhor será não perder este título, pois ele é um musical muito diferente, digamos que um musical europeu, prolongando de certa forma o musical anglo-saxão, mas insuflando-lhe novo folego. Uma boa oportunidade para mudar de opinião, portanto. Para os que gostam de ópera este é um teste a não perder igualmente, uma espécie de opereta dos tempos modernos (enfim, dos anos 60 do século passado). Para os adeptos de histórias de amor e de melodramas, “Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” é um excelente exemplo a explorar. Para os que gostam de filmes sociais, este é um deles, acompanhado por partitura musical (cumpre informar que Jacques Demy empreendeu, anos depois, em 1982, uma experiência limite neste campo, ao dirigir “Um Quarto na Cidade”, outro filme integralmente musicado e cantado tendo como tema greves e conflitos laborais em França).
A carreira de Jacques Demy não foi muito longa nem permitiu uma filmografia extensa. Além dos títulos já referidos, há a citar ainda a sua magnífica primeira longa-metragem, o poético e deslumbrante “Lola” (1961) e o excelente “A Grande Pecadora” (1963). Depois de “Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” volta a dirigir Catherine Deneuve, ao lado da sua irmã Françoise Dorleac, em “As Donzelas de Rochefort” (1967), que mantem o estilo musical. Seguem-se “A Princesa com Pele de Burro” (1970) e “A Flauta Mágica” (1972). Nascido a 5 de Junho de 1931, Demy viria a falaecer a 27 de Outubro de 1990, em Paris, ao que se julga vítima de SIDA. Era casado com Agnés Varda.


Geneviève Emery  (Catherine Deneuve) e Guy Foucher (Nino Castelnuovo) são jovens em 1958 e amam-se. Ela tem 17 anos e é filha de Madame Emery (Anne Vernon), dona de uma loja de chapéus-de-chuva em Cherbourg. Ele já passou os 20 anos, é operário numa oficina de automóveis, e está à espera de ser chamado para a tropa, numa altura em que a guerra da Argélia estava ao rubro. Madame Emery não vê com bons olhos este romance, e entretanto surge um outro pretendente, Roland Cassard (Marc Michel), muito mais condizente com os predicados pretendidos pelas convenções: um homem endinheirado, bem-posto e bem instado na vida no comércio das pedras preciosas, e que ama Geneviéve sem sombra de dúvida. O filme está dividido em três partes, que acompanham o percurso de Guy: Partida (1958), Ausência (1959 e Regresso (1963). A guerra da Argélia é um tema presente em todo o filme, marcado o compasso da obra. Tudo acontece como acontece porque a guerra existe. Tudo se desenrola segundo leis inflexíveis porque imperam preconceitos e porque no amor nem sempre o que deve ser é, mas sim o que pode ser. Não se vive consoante se gostaria de viver, mas como se deve viver, tendo em conta um determinado número de condicionalismos. Esta não é a ideia de Jacques Demy, mas a crítica implícita que ele formula em relação á sociedade francesa de inícios da década de 60.
O filme não é só não-realista pela presença obsessiva da música, mas também por toda a sua composição plástica, onde sobressaem os cenários, todos eles decorados de forma garrida, com uma presença de cores dominantes impressionantes. São as paredes interiores, forradas a papel com desenhos e tonalidades invulgares, são as paredes exteriores que acompanham esta forma de combinar a expressividade dos cenários com a expressividade das acções e dos diálogos, definindo a dramaticidade de cada cena ou sequência. O filme termina em pleno Natal de 1963, e a presença da neve é outro elemento que Demy aproveita em favor do clima pretendido.
Enfim, uma obra-prima, com uma banda sonora que não se esquece, e uma Catherine Deneuve, em início de carreira, deslumbrante.

OS CHAPÉUS-DE-CHUVA DE CHERBURGO
Título original: Les parapluies de Cherbourg
Realização: Jacques Demy (França, RFA, 1964); Argumento: Jacques Demy; Produção: Mag Bodard, Gilbert de Goldschmidt, Pierre Lazareff; Música: Michel Legrand; Fotografia (cor): Jean Rabier; Montagem: Anne-Marie, Monique Teisseire; Design de produção: Bernard Evein; Guarda-roupa: Jacqueline Moreau; Maquilhagem: Christine Fornelli; Direcção de Produção: Charles Chieusse, Philippe Dussart, Maurice Urbain; Assistentes de realização: André Flédérick, Klaus Müller-Laue, Jean-Paul Savignac; Departamento de arte: Maurice Bourbotte, Jean Didenot, Joseph Gerhard, Claude Pignot; Som: François Musy; Companhias de produção: Parc Film, Madeleine Films, Beta Film; Intérpretes: Catherine Deneuve (Geneviève Emery), Nino Castelnuovo (Guy Foucher), Anne Vernon (Madame Emery), Marc Michel (Roland Cassard), Ellen Farner (Madeleine), Mireille Perrey (Tia Élise), Jean Champion (Aubin), Pierre Caden (Bernard), Jean-Pierre Dorat (Jean), Bernard Fradet, Michel Benoist, Philippe Dumat, Dorothée Blanck, Jane Carat, Harald Wolff, Danielle Licari, José Bartel, Christiane Legrand, Georges Blaness, Claudine Meunier, Claire Leclerc, Patrick Bricard, Jacques Camelinat, François Charet, Jean-Pierre Chizat, Jacques Demy (um cliente), Bernard Garnier, Gisèle Grandpré, Hervé Legrand,  Michel Legrand (Jean, voz a cantar), Myriam Michelson, Paul Pavel, Roger Perrinoz, Rosalie Varda, etc. Duração: 91 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos.


CATHERINE DENEUVE (1943 - )
Catherine Fabienne Dorléac nsceu a 22 de Outubro de 1943, em Paris, França. O gosto pela representação aprendeu-o eu casa. O pai era um actot, Maurice Dorleác, e teve uma irmã, falecida muito precocemente, Françoise Dorléac, que era igualmente actriz. Chegaram a representar juntas, em “Les Demoiselles, de Rochefort”. Deneuve estreou-se no cinema aos 13 anos, em 1956, e durante a adolescência trabalhou em diversos pequenos filmes com o diretor Roger Vadim q               eu a lançou e com quem teve uma relação amorosa, de que resultou um filho, Christian Vadim. Mas foi em 1964, em Os Guarda Chuvas do Amor, de Jacques Demy, que Catherine Deneuve se afirmou definitivamente como uma das maiores actrizes francesas, reputação que foi mantendo dai até hoje. Entre 1965 e 1972, foi casada com o fotógrafo inglês David Bailey, o mesmo que haveria de inspirar Antonioni para o seu filme “Blow Up”. Conhece-se ainda uma outra relação importante, com o actor italiano Marcello Mastroianni, com quem teve uma filha, Chiara Mastroianni, em 1972. A sua carreira como interprete é uma sucessão de triunfo, derigida por grandes cineastas de todo o mundo, como Luis Buñuel, em “A Bela do Dia”, ou Roman Polanski., em “Repulsa”, ainda nos anos 60. Mas Luis Buñuel, François Truffaut, Jacques Demy, Lars von Trier, Tony Scott, Stuart Rosenberg, Marco Ferreri, Jean-Pierre Melville, Robert Aldrich, Jean-Paul Rappeneau, Claude Lelouch, Dino Risi, Raoul Ruiz, Alain Corneau ou André Téchiné, foram alguns dos mais notáveis cineastaa com quem cruzou a sua carrera. De André Téchiné tornou-se mesmo uma espécie de actriz fetichae aparecendo em diversas obras deste que é considerado um dos mais significativos cineastas da actualidade francesa. Um dia terá declarado que gostaria de trabalhar com Manoel de Oliveira e este fez-lhe a vontade por diversas ocasiões, a começar por “O Convento”.
Como símbolo de uma beleza elegante, aparentemente fria e distante, misteriosa no seu íntimo, Deneuve foi aproveitada para estar associada a grandes nomes da moda e dos perfumes. Foi um rosto do estilista Yves Saint Laurent e deu igualmente a cara pelos perfumes Chanel Nº 5, o mais vendido e famoso perfume do mundo por mais de duas décadas. Continuou ligada à publicidade, com Louis Vuitton ou os cosméticos Mac. Ganhou três Cesars para a Melhor Actriz Francesa, esteve nomeada para um Oscar por “Indochina”, que acabaria por ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua não inglesa, ganhou um BAFTA, ganhou o Festival de Cannnes e o de Veneza, e obteve um retumbante sucesso de público e critica com “8 Mulheres”, em 2002, ao lado de algumas das maiores atrizes francesas da altura, como Fanny Ardant e Emmanuelle Béart.


Filmografia:

Como actriz: 1956: Les Collégiennes, de André Hunebelle; 1960: Les portes claquent, de Jacques Poitrenaud, Michel Fermaud; L'Homme à femmes (Homens e Mulheres), de Jacques-Gérard Cornu; 1961: Les Parisiennes, de Marc Allégret (episódio “Sophie”); Ça c'est la vie, de Claude Choubier (curta-metragem); 1962: Les Petits Chats, de Jacques R. Villa; Et Satan conduit le bal, de Grisha M. Dabat; Le Vice et la Vertu, de Roger Vadim; 1963: Vacances portugaises ou Les Egarements (Os Sorrisos do Destino), de Pierre Kast; Les Plus Belles Escroqueries du monde (As Mais Belas Vigarices do Mundo), de Claude Chabrol (episódio “L'homme qui vendit la tour Eiffel”); 1964: Les Parapluies, de Cherbourg (Os Chapéus de Chuva de Cherburgo), de Jacques Demy; La Chasse à l'homme (Caça ao Homem), de Édouard Molinaro; Un monsieur de compagnie (Nasceu para seduzir), de Philippe, de Broc; La costanza della ragione, de Pasquale Festa Campanile; 1965: Le Chant du monde (Rudes Paixões), de Marcel Camus; Répulsion (Repulsa), de Roman Polanski; La Vie de château (Escândalo no Castelo), de Jean-Paul Rappeneau; Das Liebeskarussell (Engano Matrimonial), de Rolf Thiele (episódio “Angéla”); 1966: Les Créatures (Páginas Íntimas), de Agnès Varda; 1967: Les Demoiselles, de Rochefort (As Donzelas de Rochefort), de Jacques Dem; Belle de jour (A Bela de Dia), de Luis Buñuel; Benjamin ou les Mémoires de un puceau, de Michel Deville; Manon 70, de Jean Aurel; 1968: La Chamade (A Chamada), de Alain Cavalier; Mayerling (Mayerling), de Terence Young; Vienna: The years remembered, de Jay Anson (curta-metragem); La Sirène du Mississipi (A Sereia do Mississípi), de François Truffaut; 1969: April fools (Os Loucos do Amor), de Stuart Rosenberg; 1970: Tristana (Tristana, Amor Perverso), de Luis Buñuel; Peau de âne (A Princesa com Pele de Burro), de Jacques Demy; 1971: Ça n'arrive qu'aux autres (A Longa Jornada), de Nadine Trintignant; 1971: La Cagna (Liza, a Submissa), de Marco Ferreri; 1972: Un flic (Cai a Noite Sobre a Cidade), de Jean-Pierre Melville; L'Événement le plus important depuis que l'homme a marché sur la Lune (O acontecimento mais importante desde que o homem chegou à Lua), de Jacques Demy; Henri Langlois, de Elia Herson e Roberto Guerra (documentário); Le Dernier Cri des Halles, de Monique Aubert (documentário); 1973: Touche pas à la femme blanche! (Não Toques na Mulher Branca), de Marco Ferreri; 1974: Fatti di gente perbène (Histórias de Gente Bem), de Mauro Bologni; Zig-Zig, de László Szabó; La Femme aux bottes rouges, de Juan Luis Buñuel; L'Agression (A Agressão), de Gérard Pirès; 1975: Hustle (A Cidade dos Anjos), de Robert Aldrich; 1975: Le Sauvage (Meu Irresistível Selvagem), de Jean-Paul Rappen; 1976: Si c'était à refaire (Voltar a viver), de Claude Lelouch; Coup de foudre, de Robert Enrico (inacabado); 1976: Anima persa (Almas Perdidas), de Dino Risi; 1977: March or die ()A Legião Estrangeira, de Dick Richards; Casotto (Domingo na Praia), de Sergio Citti; 1978: L'Argent des autres (O Dinheiro dos Outros), de Christian, de Chalonge; 1978: Écoute voir, de Hugo Santiago; Ils sont grands, ces petits, de Joël Santoni; 1979: À nous deux (Uma Aventura para Dois), de Claude Lelouch; Courage fuyons (Coragem Fujamos), de Yves Robert; 1980: Le Dernier Métro (O Último Metro), de François Truffaut; Je vous aime (Os homens Que Eu Amei), de Claude Berri; 1981: Le Choix des armes (A Escolha das Armas), de Alain Corneau; Hôtel des Amériques (O Segredo do Amor), de André Téchiné; Reporters, de Raymond Depardon (documentário); 1982: Le Choc (Fuga para a Felicidade), de Robin Davis; 1983: L'Africain (Os Largos Horizontes da Aventura), de Philippe, de Broca; The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott; 1984: Le Bon Plaisir, de Francis Girod; Fort Saganne (Forte Saganne - O Herói do Deserto), de Alain Corneau; Paroles et musique (Letra e Música), de Élie Chouraqui; 1985: Speriamo che sia femmina (Oxalá Seja Menina!), de Mario Monicelli; 1986: Le Lieu du crime (O Local do Crime), de André Téchiné; Norma Jean, dite Marilyn Monroe57, de André Romus e Marcia Lerner (Documentário, Comentário); 1987: Agent trouble, de Jean-Pierre Mocky; 1987: Drôle de endroit pour une rencontre, de François Dupeyron; 1988: Fréquence meurtre (Frequência morte), de Élisabeth Rappeneau; 1989: Frames from the edge: Helmut Newton), de Adrian Maben (documentário); 1990: La Reine blanche, de Jean-Loup Hubert; 1991: Contre l'oubli (filme colectivo) (episódio “Pour Febe Elisabeth Velasquez”), de Chantal Akerman; 1992: Indochine (Indochina), de Régis Wargnier; 1993: Ma saison préférée (A Minha Estação Preferida), de André Téchiné; Les demoiselles ont eu 25 ans, de Agnès Varda (documentário); 1994: La Partie, de échecs, de Yves Hanchar; 1995: Les Cent et Une Nuits, de Simon Cinéma, de Agnès Varda; 1995: Le Couvent (O Convento), de Manoel, de Oliveira; 1995: L'Univers, de Jacques Demy, de Agnès Varda (documentário); N'oubliez jamais (en) - clip -, de Joe Cocker; 1996: Court toujours: L'Inconnu, de Ismaël Ferroukhi (curta-metragem, TV); Généalogies, de un crime (Genealogias de um Crime), de Raoul Ruiz; Les Voleurs (Os Ladrões), de André Téchiné; 1997: Pierre and Gilles: Love Stories, de Mike Aho (curta-metragem); Sans titre, de Leos Carax (curta-metragem); 1998: Place Vendôme, de Nicole Garci; 1999: Pola X (Pola X), de Leos Carax; Belle-maman, de Gabriel Aghion; Le Vent, de la nuit, de Philippe Garrel; Est-Ouest (Vida Prometida), de Régis Wargnier; Le Temps retrouvé (O Tempo Reencontrado), de Raoul Ruiz; The Book That Wrote Itself, de Liam O'Mochain; 2000: Dancer in the Dark (Dancer in the Dark), de Lars von Trie; Von Trier's: 100 ojne, de Katia Forbert (documentário); 2001: Huit femmes (8 Mulheres), de François Ozon; The Musketeer (O Mosqueteiro), de Peter Hyams; Le Petit Poucet, de Olivier Dahan; Je rentre à la maison (Vou para casa), de Manoel, de Oliveira; Absolument fabuleux, de Gabriel Aghion; Clouds: letters to my son, de Marion Hänsel (documentário, narração); 2002: Au plus près du paradis, de Tonie Marshall;  The Kids Stays in the Picture, de Nanette Burstein (documentário); Yves Saint-Laurent, 5 avenue Marceau 75116 Paris, de David Téboul (documentário); 2003: Un film parlé (Um filme falado), de Manoel, de Oliveira; Princesse Marie, de Benoît Jacquot (TV); Les Liaisons dangereuses, de Josée Dayan (TV); Le Génie français, de Josée Dayan e David Jankoswski (TV); 2004: Les Temps qui changent (Os Tempos que Mudam), de André Téchiné; Rois et Reine (Reis e Rainha), de Arnaud Desplechin; 2005: Palais Royal! (Dondoca à Força), de Valérie Lemercier; 2006: Le Concile de pierre (O Concílio de Pedra), de Guillaume Nicloux; Le Héros, de la famille, de Thierry Klifa; Nip/Tuck, de Charles Haid (TV); 2007: Après lui, de Gaël Morel; Persepolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi (voz); Frühstrück mit einer Unbekannten, de Maria Von Heland (TV); 2008: Un conte, de Noël (Um Conto de Natal), de Arnaud Desplechin; Mes stars et moi (As Minhas Estrelas), de Lætitia Colombani; Je veux voir (Eu Quero Ver), de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas; Figures imposées, de Julien Doré (clip); 2009: Cyprien, de David Charhon; La Fille du RER, de André Téchiné; Bancs publics (Versailles Rive-Droite), de Bruno Podalydès; Mères et filles, de Julie Lopes-Curval; Lettre à Anna, de Eric Bergkrau (documentário, narração); 2010: L'Homme qui voulait vivre sa vie (Em Busca de Uma Nova Vida), de Éric Lartigau; Potiche (Potiche - Minha Rica Mulherzinha), de François Ozon; 2011: Les Yeux, de sa mère, de Thierry Klifa; Les Bien-Aimés (Os Bem-Amados), de Christophe Honoré; 2012: Astérix et Obélix: Au service, de sa Majesté (Astérix & Obélix: Ao Serviço de Sua Majestade), de Laurent Tirard; Les Lignes, de Wellington (Linhas de Wellington), de Raoul Ruiz e Valeria Sarmiento; As Linhas de Torres Vedras, de Raoul Ruiz e Valeria Sarmiento (TV); O Theos agapaei to haviari, de Yannis Smaragdis; 2013: Elle s'en va (Ela Está de Partida), de Emmanuelle Bercot; 2014: Dans la cour, de Pierre Salvadori; L'Homme que l'on aimait trop (O Homem Demasiado Amado), de André Téchiné; Trois cœurs (3 Corações), de Benoît Jacquot; 2015: La Tête haute59, de Emmanuelle Bercot; Le Tout Nouveau Testament, de Jaco Van Dormael.