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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SESSÃO ESPECIAL 25 DE DEZEMBRO DE 2016 / 17 HORAS

SESSÃO ESPECIAL DE NATAL
Dia 25 de Dezembro 17 horas

MARY POPPINS (1964)


“Mary Poppins” é um filme que se integra perfeitamente nas categorias do maravilhoso e da fantasia. Na verdade, Mary Poppins é uma fada e o filme um conto de fadas, onde uma delas desce à Terra, não a cavalo numa vassoura, como é tradicional das bruxas, mas a reboque de um guarda-chuva e trazendo na mão uma maleta mágica de onde, sempre que necessário, saem os mais desencontrados objetos.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS
A rodagem deste filme parece ter estado envolta num oceano de problemas, o que, curiosamente, foi recentemente contado (versão dos estúdios produtores, obviamente) num filme de John Lee Hancock (2013), “Ao Encontro de Mr. Banks” (Saving Mr. Banks). O filme estreou em Janeiro de 2014 em Portugal e, nessa altura, escrevi sobre o mesmo um texto que talvez ajude a recordar os conflitos surgidos durante os vinte anos que mediaram entre o interesse inicial de Walt Disney em adaptar as obras de Pamela Lyndon Travers, escritora que criou “Mary Poppins”, e a data da estreia do filme: “P.L. Travers assinava assim o seu trabalho literário para encobrir o facto de ser mulher. Na verdade, fora baptizada com o nome de Helen Lyndon Goff e nascera na Austrália, em Maryborough, Queensland, a 9 de Agosto de 1899, vindo a morrer em Londres, a 23 de Abril de 1996. Quando tinha sete anos, o pai faleceu, um acontecimento que para sempre marcaria a jovem. Desde muito nova que se dedicou à poesia, tornando-se escritora, jornalista e passando mesmo pelo teatro, como actriz. Andou pela Austrália e pela Nova Zelândia, em tournée, depois viajou até à Irlanda, onde conheceu vários poetas e escritores, passando a Londres, onde se instala. Publica, em 1934, “Mary Poppins”, que rapidamente se tornou um sucesso retumbante. 
Em Hollywood, as filhas de Walt Disney leem o livro e adoram. O pai promete-lhes que o vai adaptar ao cinema. Entra em contacto com a escritora, que nem quer ouvir falar em adaptações, detesta musicais e tem horror a “bonecos animados”. Durante vinte anos, trocam cartas e nem um nem outro desiste dos seus intentos. “Saving Mr. Banks” é, pois, a história de dois teimosos que se enfrentam para cumprir promessas. Ele quer adaptar a cinema o livro para cumprir o que jurara às filhas, ela não quer ceder para se manter fiel à promessa que fizera a si própria. 
A determinada altura da vida de P.L. Travers, as receitas literárias começam a diminuir e o seu agente convence-a a viajar até Los Angeles. Isso acontece em 1961. Como se calcula, a escritora começa por detestar a cidade e o encontro com Walt Disney é desastroso. A autora de “Mary Poppins” revela-se uma velhota ácida, fria, distante, agressiva, nada cooperante, mostra que está a fazer um frete insuportável. As reuniões com argumentistas, compositor, letristas, produtores, secretárias and so on, são lendárias. A má disposição e o negativismo de P.L. Travers julgar-se-iam inultrapassáveis. Se o tivessem sido, não haveria agora este filme, nem “Mary Poppins” com pinguins em desenho animado, a dançarem em redor de Dick Van Dyke. Mas, lentamente, vai cedendo aos encantos do lugar e das personagens e talvez também ao cansaço. O filme faz-se, estreia-se em 1964, é um triunfo, mas ela mantém as reservas e não permite a Walt Disney aproveitar nenhuma das quatro sequelas que, entretanto, escrevera e editara com a sua Mary Poppins como protagonista. Fim de história, que não contém nenhum suspense especial, pois é do conhecimento geral. Faz parte da História. Este é mais um filme que ficciona factos reais. 
John Lee Hancock, o realizador, é igualmente um argumentista de algum sucesso, tendo assinado, enquanto tal, algumas obras muito interessantes, como “Um Mundo Perfeito” e “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”, ambas rodadas por Clint Eastwood, tendo dirigido como realizador “The Rookie - O Treinador”, “Álamo” e “Um Sonho Possível”, antes de se entregar a este “Ao Encontro de Mr. Banks”. Nada de particularmente excitante, o mesmo acontecendo agora, ainda que neste último caso, a história tenha a sua graça, e os intérpretes sejam excelentes. Emma Thompson compõe um retrato inspirado desta insuportavelmente irritante P.L. Travers; Tom Hanks é um Walt Disney impecável, talvez demasiado “politicamente correcto” (mas que dizer, se a produção é dos seus estúdios e herdeiros?); Annie Rose Buckley é uma miudinha adorável, que as asperezas da vida transformaram na agreste escritora; Colin Farrell é o pai destemperado que morre cedo e deixa um rasto de tristeza na filha; Ruth Wilson é a sacrificada mãe; Paul Giamatti é admirável como motorista particular de Travers, e por aí fora. Só pelas interpretações merece a pena as duas horas de visionamento. Mas a produção é cuidada, os aspectos técnicos estão à altura da casa produtora e o resultado final é mais um daqueles filmes para “toda a família” a que estes estúdios nos habituaram há longas décadas. 
Para quem gosta de cinema e de espreitar os bastidores das produções de Hollywood, este é mais um aspecto a ter em conta. O que coloca algumas objecções ao produto será, por um lado, o ar muito bem-comportado de toda a gente, o que nos permite supor que os argumentistas (Kelly Marcel e Sue Smith) adocicaram muito a realidade e, por outro, uma estrutura narrativa, tipo sanduíche, com duas histórias entremeadas a decorrer em simultâneo, por um lado a juventude de P.L. Travers na Austrália, por outro lado o encontro desta com Disney em Hollywood. Obviamente que se percebe o porquê da opção: a história da juventude de P.L. Travers é a base para a compreensão do seu comportamento ao longo da vida. Mas o esquema acaba por ser um pouco enfadonho, por repetitivo. Globalmente, é um espectáculo que se vê com agrado, mas não muito mais do que isso. O que já não é pouco se lhe acrescentarmos o brilhantismo das representações.


MARY POPPINS
Resolvidos a bem ou a mal os problemas resultantes da adaptação, aí temos o filme. Walt Disney, ao contrário do que muita gente julga, só foi realizador dos filmes que surgiram com a sua chancela entre 1921 e 1935, sendo que dirigiu sobretudo curtas-metragens, aqueles “desenhos animados” que antecediam o filme principal, durante várias décadas nas sessões normais de cinema (antes da chegada das sessões contínuas que só deixam lugar ao filme principal e aos trailers das futuras estreias). À medida que a sua marca ganhou prestígio e sucesso comercial, Disney passou a ser sobretudo o produtor, mas um produtor com poder absoluto sobre os produtos saídos da sua fábrica. Foi na condição de produtor que ergueu o projecto “Mary Poppins”, estreado um ano depois da longa-metragem de animação “A Espada Era a Lei” (The Sword in the Stone). Os estúdios encontravam-se num dos seus períodos de ouro e Walt Disney entregou a realização deste filme em imagem real, mas com algumas sequências que misturam figuras humanas e desenho animado, a Robert Stevenson, um homem da casa, muito habituado aos chamados filmes para toda a família. Na Broadway, descobriu uma jovem que nunca tinha feito cinema e se encontrava nos palcos de Nova Iorque a interpretar “Camelot”. Antes tinha pensado em Bette Davis ou Angela Lansbury. Estava encontrada a fada que nos daria, em anos sucessivos, esta “Mary Poppins” e “Música no Coração”. Uma fada Midas com mãos de ouro que transformava em desmedido lucro tudo em que cantava.
“Mary Poppins” ambienta-se em Londres, 1910, centrando-se sobre uma família de classe média-alta, o pai banqueiro, a mãe sufragista, e os dois filhos deixados ao Deus dará pelos superiores interesses dos pais. As governantas não duravam uma semana nas mãos dessas crianças rebeles até ao dia em que entra uma nova ama pela porta dentro, com chapéu de chuva na mão e mala. E tudo se modifica como por magia, porque afinal de magia se trata. A ama-fada transforma rapidamente os insubordinados miúdos em ternurentos adolescentes, os pais interiorizam a suas falhas, não sem antes passarem por alguns apertos que mostraram bem como se comportam os banqueiros quando deixados a solo. Mas num filme “para toda a família” tudo tem de terminar bem, o que acaba por acontecer com a sua lição de moral bem estudada e aplicada a preceito, para o capital e para a rebeldia, para o pai banqueiro e para a mãe sufragista.
A história é importante, claro, mas o que parece sobretudo ficar depois da saída da sala escura (hoje em dia é mais depois de desligar o aparelho de tv), é o tom do filme, o que é dado sobretudo pelas canções e pelos números coreografados (1). Este é um filme que procura puxar para cima, mostrar o lado bom da vida, defender a família e abandonar os egoísmos pessoais e colectivos. Numa das canções do filme (hoje muito politicamente incorrecta, diga-se de passagem, mas que importa?), Mary Poppins explica que se tens de tomar um remédio azedo, uma colher de açúcar ajuda. Depois temos o lado tenebroso dos banqueiros, todos vestidos de negro, velhos e rançosos, enterrados numa avareza sem escrúpulos. O lado oposto à limpidez luminosa de Mary Poppins e do seu mundo. Moralismo fácil? Sim, é capaz de ser, mas com grande qualidade técnica e artística, o que o torna não só suportável, como bem-vindo.
De um ponto de vista musical, os irmãos Robert e Richard Sherman encontravam-se num momento de rara inspiração que galvanizou a restante equipa para transformar em momentos inesquecíveis alguns números: “Chim Chim Che-ree”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção do ano, abre para o fabuloso bailado nos telhados de Londres, por entre uma floresta de chaminés, onde os limpa-chaminés se apresentam como anjos da guarda dos outros frágeis humanos que lá por baixo labutam no seu dia a dia. O famoso “Supercalifragilisticexpialidocious”, que quase ninguém repete, mas que todos gostaríamos de cantar como o faz a deliciosa Julie Andrews, é outro momento magnífico, tal como “A Spoonful of Sugar”, cuja moralidade já foi referida, ou “Feed the Birds”, a nostálgica balada da velha que à porta do banco dá comida aos pombos. Claro que o filme não é só Julie Andrews e a presença, a seu lado, do multifacetado Dick Van Dyke é uma outra aposta ganha. Dick Van Dyke, na figura do limpa-chaminés Bert, canta, dança, faz de homem orquestra, pinta no chão do parque, além de, obviamente, limpar as chaminés da cidade e de praticar o bem. Ele é o chefe de bailado do espantoso número nos telhados da cidade, no tema musical “Step In Time”. Mas também será ele que vai dançar na sequência dos pinguins de animação. Memorável, apesar da rabugenta P.L. Travers não gostar de animação! Conhecerá outro grande sucesso, em 1968, como protagonista de um novo musical, “Chitty Chitty Bang Bang”, sob a direcção de Ken Hughes. Mas este “Mary Poppins” é o seu momento de suprema glória, senão atente-se no estupendo boneco extra que ele compõe como dono do banco. David Tomlinson e Glynis Johns formam o casal Banks, e os miúdos são Karen Dotrice e Matthew Garber.
A Londres de 1910 foi reconstruída em minúcia nos estúdios Disney da Califórnia, numa demonstração de virtuosismo cenográfico notável. Mas tecnicamente “Mary Poppins” é ainda hoje um prodígio que desafia o tempo e vai passando de geração em geração com o mesmo brilho. Fotografia, som, montagem, efeitos especiais tudo funciona na perfeição nesta obra que, quando Mary Poppins se eleva nos céus de Londres para partir para novo destino (novo filme não, porque a radical P.L. Travers não permitiu), não é só a família Banks que fica com saudades, mas sim (quase) todos os espectadores. Não direi todos porque há os que acham “Mary Poppins” uma aberração moralista. Pois sim, está bem, deixem-me um pouco de açúcar, apesar dos diabetes.

Principais canções e números musicais: de “Mary Poppins”: Spoonful Of Sugar, Chim Chim Cher-Ee, Perfect Nanny, Step In Time, Sister Suffragette, Supercalifragilisticexpialidocious, Fidelity Fiduciary Bank, Practically Perfect, Let's Go Fly A Kite, I Love To Laugh, Jolly Holiday, Feed The Birds, Pavement Artist, The Life I Lead, Cherry Tree Lane, The Day I Fall In Love


MARY POPPINS (1964)
Título original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson (EUA, 1964); Argumento: Bill Walsh, Don DaGradi, segundo P.L. Travers (“The "Mary Poppins"); Produção: Bill Walsh, Walt Disney; Música: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Edward Colman; Montagem: Cotton Warburton; Guarda-roupa: Gertrude Casey, Chuck Keehne, Bill Thomas, Tony Walton, Luster Bayless; Direcção artística: Carroll Clark, William H. Tuntke; Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri; Maquilhagem: La Rue Matheron, Pat McNalley; Coreografia: Marc Breaux, Dee Dee Wood;  Assistentes de realização: Paul Feiner, Joseph L. McEveety, Arthur J. Vitarelli, Tom Leetch; Departamento de arte: McLaren Stewart, Tony Walton, Will Ferrell, Al Gaynor; Som: Robert O. Cook, Dean Thomas; Efeitos especiais: Peter Ellenshaw, Eustace Lycett, Robert A. Mattey; Efeitos visuais: Bob Broughton, Art Cruickshank, Lee Dyer; Animação: Hal Ambro, Jack Boyd, Al Dempster, Don Griffith, Ollie Johnston, Milt Kahl, Ward Kimball, Eric Larson, Bill Layne, John Lounsbery, Hamilton Luske, Cliff Nordberg, Art Riley, Frank Thomas, Frank Armitage, Joe Hale, Fred Hellmich, Art Stevens, Julius Svendsen; Companhia de produção: Walt Disney Productions; Intérpretes: Julie Andrews (Mary Poppins), Dick Van Dyke (Bert / Mr. Dawes Senior, David Tomlinson (Mr. Banks), Glynis Johns (Mrs. Banks), Hermione Baddeley (empregado), Reta Shaw (empregada), Karen Dotrice (Jane Banks), Matthew Garber (Michael Banks), Elsa Lanchester (Katie Nanna), Arthur Treacher, Reginald Owen, Ed Wynn, Jane Darwell, Arthur Malet, James Logan, Don Barclay, Alma Lawton, Marjorie Eaton, Marjorie Bennett, Walter Bacon, Frank Baker, Robert Banas, Marc Breaux, Art Bucaro, Daws Butler, Cyril Delevanti, George DeNormand, Harvey Evans, Paul Frees, Betty Lou Gerson, Clive Halliday, Sam Harris, David Hillary Hughes, Bill Lee, Queenie Leonard, Doris Lloyd, Lester Matthews, Sean McClory, Mathew McCue, Dal McKennon, Hans Moebus, King Mojave, Alan Napier, Marni Nixon, J. Pat O'Malley, George Pelling, Thurl Ravenscroft, Richard M. Sherman, Bert Stevens, Hal Taggart, Larri Thomas, Ginny Tyler, etc. Duração: 139 minutos; Distribuição em Portugal (DVD e Blu-ray): Walt Disney; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Dezembro de 1965.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS 
Título original: Saving Mr. Banks 

Realização: John Lee Hancock (EUA, Inglaterra, Austrália, 2013); Argumento: Kelly Marcel, Sue Smith; Produção: Ian Collie, Mark Cooper, K.C. Hodenfield, Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Alison Owen, Philip Steuer, Paul Trijbits; Música: Thomas Newman; Fotografia (cor): John Schwartzman; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Ronna Kress; Design de produção: Michael Corenblith; Direcção artística: Lauren E. Polizzi; Decoração: Susan Benjamin; Guarda-roupa: Daniel Orlandi, Catherine Childers, Deborah La Mia Denaver, Julie Hewett, Frances Mathias; Direcção de Produção: Andrew C. Keeter, Philip Steuer, Todd London; Assistentes de realização: Paula Case, Clark Credle, K.C. Hodenfield, Jeff Okabayashi, Stuart Renfrew; Departamento de arte: Lorrie Campbell, Martin Charles, Steve Christensen, Mike Piccirillo, Terry Scott, Sally Thornton; Som: Yann Delpuech, Jon Johnson, David M. Roberts; Efeitos especiais: J.D. Schwalm; Efeitos visuais: Vincent Cirelli, Justin Johnson, Lauren Miyake, Simon Mowbray, Luma Pictures; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, Ruby Films, Essential Media & Entertainment, BBC Films, Hopscotch Features; Intérpretes: Emma Thompson (P.L. Travers), Tom Hanks (Walt Disney), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travers Goff), Ruth Wilson (Margaret Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DaGradi), B.J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Lily Bigham (Biddy), Kathy Baker (Tommie), Melanie Paxson (Dolly), Andy McPhee (Mr. Belhatchett), Rachel Griffiths (Tia Ellie), Ronan Vibert (Diarmuid Russell), Jerry Hauck, Laura Waddell, Fuschia Sumner, David Ross Paterson, Michelle Arthur, Michael Swinehart, Bob Rusch, Paul Tassone, Luke Baines, Demetrius Grosse, Steven Cabral, Kimberly D'Armond, Mia Serafino, Claire Bocking, Dendrie Taylor, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Janeiro de 2014.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SESSÃO 47: 21 DE DEZEMBRO DE 2016


MÚSICA NO CORAÇÃO (1965)
(na celebração dos 50 anos da sua estreia mundial, a 2 de Março de 1965)

 Há alguns filmes sobre os quais tenho uma recordação ambígua. Este é um deles. Ao longo da vida fui gostando e desgostando. Gostando de Robert Wise (sempre!), gostando e desgostando de tudo o resto, porque a vida é feita de bons e maus humores. Quando somos mais novos, mais radicais, menos dados à sensatez, “The Sound of Music” pode ser pasto de toda a nossa verrinosa maledicência. Que dizer desta empastelada aventura sentimental da família Trapp? Pois nada melhor do que arrear-lhe em cima. Mesmo um cliente habitual e um fanático do melodrama e do “musical” (no teatro ou no cinema) como eu, nunca viu com muito bons olhos esta lamechice da freira cantante que se apaixona pelo barão viúvo com sete filhos e foge dos nazis a cantar num festival de Salzburgo. Mas a verdade é que vi várias vezes o filme, ou excertos do filme (sobretudo nas vésperas de Natal, num qualquer canal de TV). É que “Música no Coração” tem muito que se lhe diga, tanto a peça como, sobretudo, o filme.
“The Trapp Family Singers” foi a biografia escrita por Maria Augusta Trapp, publicada em 1947, quando a família já tinha terminado a sua carreira como cantores, contando as mirabolantes peripécias de uma preceptora de criancinhas que interrompe o seu estágio para freira para descobrir a verdadeira “vida” na casa dos Trapp, com todo o seu caudal de promessas de felicidade e ameaças de tragédia. Com base nesta autobiografia, surgiu na RFA, em 1956, um filme, “Die Trapp-Familie” (ou “The Trapp Family”), assinado por Lee Kresel e Wolfgang Liebeneiner, com argumento de George Hurdalek e Herbert Reinecker, que parece estar na origem do interesse dos produtores norte-americanos. Entre os intérpretes, contava-se a memorável Ruth Leuwerik (no papel de Maria), ao lado de Hans Holt (Barão von Trapp), Maria Holst, Josef Meinrad, Friedrich Domin, Hilde von Stolz, Agnes Windeck, Gretl Theimer, etc. Na estreia, a baronesa Von Trapp, sobrevivente ainda da gesta coral da família, teve uma deixa memorável: “Nada é verdadeiro, mas é tudo maravilhoso!” A música era de Franz Grothe, e a premissa do filme enquadrava-se bem no espírito da reconstrução alemão, “para todos os problemas, há uma solução”.
O realizador Wolfgang Liebeneiner era um homem experimentado neste tipo de obras, e teve um sucesso inequívoco. Há no argumento desta obra um final que deixa supor que a família Trapp fugiu da Alemanha nazi directamente para os EUA, o que não aconteceu na realidade, pois ficaram na Europa e só em 1939 iniciaram a tournée pelos Estados Unidos. Essa estadia daria origem a uma continuação, “Die Trapp-Familie in Amerika” (“The Trapp Family in America”) (1958), desta feita dirigida unicamente por Wolfgang Liebeneiner. Ruth Leuwerik regressaria no papel da Baronesa von Trapp, e Hans Holt, no de Barão von Trapp.
Foram estes filmes, e a biografia escrita, que inspiraram Oscar Hammerstein II a escrever as líricas e Richard Rodgers a compor a música para um guião de Howard Lindsay e Russell Crouse, que subiu a cena no Lunt-Fontanne Theatre (Nova Iorque), em 16 de Novembro de 1959, para iniciar uma carreira épica na história do musical norte-americano. Mary Martin e Theodore Bikel eram os protagonistas inspirados que “conquistaram os corações” de todos os espectadores na noite da estreia, com excepções de alguns críticos que colocaram ressalvas a este espectáculo. Mas, neste caso, os críticos escreveram e a caravana passou incólume. O sucesso estava na rua. Nada o detinha.


“Música no Coração” transformou-se daí em diante, seguramente, num dos mais célebres e rentáveis espectáculos de toda a história do teatro e do cinema musicais. O seu êxito triunfal em (quase) todas as temporadas teatrais e o seu apoteótico sucesso nas salas de cinema, aquando da estreia do filme assinado por Robert Wise, que esteve em Lisboa (quem não recorda?), quase dois anos consecutivos no Tivoli, com sessões esgotadas e espectadores que repetiam a sua visão vezes sem conta, não termina de surpreender tudo e todos. Ninguém se furtou, depois, por exemplo, ao fascínio de um novo lançamento em DVD (com dezenas e dezenas de extras, a explicar como foi o que foi), e ninguém pode negar a genialidade de Robert Wise a conduzir este filme, muito embora alguns possam não suportar o tom algo lamechas e o peso de um argumento que, não sendo convencional, acaba por não se furtar a todos os rodriguinhos do melodrama musical.
Acontece que gosto de melodramas (ah, o Douglas Sirk!) e adoro musicais. Logo, por que não gostar deste “dois em um” que, para mais, tem uma soberba partitura musical? Revisto agora o filme, o que sobressai é realmente a portentosa realização de um mestre, Robert Wise. A sua relação com os cenários, a forma como enquadra, como movimenta a câmara, como dirige os actores, como se serve da sumptuosa paisagem, como estabelece a relação entre as personagens no interior de um mesmo plano (como realiza a “mise-en-scène”, em suma) é realmente brilhante. Depois, a história por vezes arrasta-se nalguns convencionalismos escusados. Mas a verdade é que o filme sobrevive, e sobrevive bem. 50 anos depois, as manifestações mundiais a assinalar a efeméride dão conta desta sobrevivência.
Fui remexer em papéis antigos e descobri uma nota minha, no DN, sobre uma reposição do filme, em Julho de 1977. Não se esqueçam da data e atentem no que escrevi: “Falando do filme, o melhor será passar por cima das aventuras e desventuras da família Trapp (que todos conhecem), para reconhecer a maestria extrema deste produto de uma cinematografia virada essencialmente para o “divertimento para toda a família.” Veiculando uma filosofia da vida de base “pequeno-burguesa”, jogando com os sentimentos e as emoções a seu belo prazer, “The Sound of Music” é, por outro lado, uma verdadeira lição de técnica e de “métier”. Por alguma razão Mao Tse Tung, quando quis que os chineses aprendessem cinema, lhes comprou, entre outras cópias (poucas), uma deste “manual”.


Ora bem: com uma ou outra alteração terminológica, mantenho o que então disse, acrescentando que, trinta anos depois, os chineses demonstraram ter aprendido, e muito bem, a fazer cinema. Robert Wise foi um dos grandes cineastas de Hollywood, um homem que começou a carreira ao lado de Orson Welles (colaborador essencial em “Citizen Kane”) e construiu depois uma filmografia invejável. Sou um seu fã incondicional. Há uns anos, num festival de cinema em Óbidos, ele foi o presidente de um Júri de que eu também fazia parte. Infelizmente adoeci e não pude estar presente nos trabalhos do festival, mas fui a Óbidos conhecê-lo, com o termómetro nos 38, só para ter o prazer de o olhar nos olhos. Afinal ele assinou uma dezena de obras-primas, desde “O Túmulo Vazio” (1945), até “West Side Story” (1961), passando por “Nascido para Matar”, “Nobreza de Campeão”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Marcado pelo Ódio”, “Quero Viver”, “Homens no Escuro”, não contando com os ameaços.
Uma informação final: outro filme surgiu na continuação de “Música no Coração”. Foi “Celebrate the Sound of Music”, de 2005, uma realização de John L. Spencer, para televisão, e, tal como o próprio título sugere, trata-se de uma homenagem ao filme, com participação de cantores e personalidades que evocam a obra. Graham Norton era o apresentador, e apareciam vozes de Big Brovaz, Clare Buckfield, Fearne Cotton, Rosemarie Ford, Lesley Garrett, Carrie Grant, Jill Halfpenny, Gloria Hunniford, Bonnie Langford, Jon Lee, Robert Lindsay, Richard McCourt, Linda Robson, Denise Van Outen, entre outras.
Entretanto, surgiu a versão teatral portuguesa de “Música no Coração”, com a assinatura de Filipe La Féria, e com um elenco prestigiado, à frente do qual Lúcia Moniz e Anabela alternam no papel de “A Noviça Rebelde” (título do filme no Brasil). Com a partitura de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers, que contém só “hits” inesquecíveis, o seu bom gosto, o seu sentido do espectáculo, o seu ritmo e a sua direcção de actores desta minha embaraçosa ambiguidade ressaltaram as virtudes e atenuarem-se os lamentos. Esta montagem portuguesa de “Música no Coração” foi verdadeiramente surpreendente e um enorme passo em frente na história do musical em Portugal, mas mais ainda, na história do teatro em Portugal.


MÚSICA NO CORAÇÃO
Título original: The Sound of Music
Realização: Robert Wise (EUA, 1965); Argumento: Ernest Lehman, segundo Howard Lindsay e Russel Crouse (argumento do musical teatral), a partir de Maria von Trapp ("The Story of the Trapp Family Singers"); Produção: Saul Chaplin, Robert Wise, Peter Levathes; Richard D. Zanuck; Música original: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Ted D. McCord; Montagem: William Reynolds; Casting: Lee Wallace; Design de produção: Boris Leven; Decoração: Ruby R. Levitt, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Dorothy Jeakins; Maquilhagem: Margaret Donovan, Ben Nye, Willard Buell, Ray Forman; Direcção de produção: Saul Wurtzel; Assistentes de realização: Ridgeway Callow, Richard Lang, Maurice Zuberano; Departamento de arte: Glenn 'Skippy' Delfino, Leon Harris, Ed Jones; Som: James Corcoran, Bernard Freericks, Fred Hynes, Murray Spivack; Efeitos especiais: L.B. Abbott, Emil Kosa Jr.; Companhias de produção: Robert Wise Productions (A Robert Wise Production of Rodger and Hammerstein's), Argyle Enterprises; Intérpretes: Julie Andrews (Maria), Christopher Plummer (Capitão Von Trapp), Eleanor Parker (a baronesa), Richard Haydn (Max Detweiler), Peggy Wood (Madre superior), Charmian Carr (Liesl), Heather Menzies-Urich (Louisa), Nicholas Hammond (Friedrich), Duane Chase (Kurt), Angela Cartwright (Brigitta), Debbie Turner (Marta), Kym Karath (Gretl), Anna Lee, Portia Nelson, Ben Wright, Daniel Truhitte, Norma Varden, Gilchrist Stuart, Marni Nixon, Evadne Baker, Doris Lloyd, Gertrude Astor, Alan Callow, Sam Harris, Jeffrey Sayre, etc. Duração: 174 minutos; Classificação etária: M/ 6 anos; Distribuição em Portugal (DVD e BluRay): Twentieth Century Fox / Pris Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 10 de Janeiro de 1966. 


JULIE ANDREWS (1935 - )
Julia Elizabeth Wells nasceu a 1 de Outubro de 1935, em Walton-on-Thames, Surrey, em Inglaterra. O pai, Edward Charles "Ted" Wells, era professor de trabalhos manuais, e a mãe, Barbara Ward Wells, pianista. Com dois anos de idade, começou a estudar dança com uma tia, Joan. Aos quatro anos, os pais divorciaram-se, ela ficou com a mãe e o padrasto, Ted Andrews, um cantor e artista de vaudeville, a quem foi buscar o seu novo nome. Ted Andrews descobriu que ela possuía uma bela voz que, devidamente trabalhada, iria torná-la famosa em toda Inglaterra. Teve então aulas de canto com Madame Lilian Stiles-Allen. Muito jovem ainda, estreou-se nos teatros do West End, em Londres, na década de 40, viajando depois para os EUA, lançando-se na Broadway em 1954 com o musical "The Boyfriend". Depois de passar pela televisão e de se estrear no cinema, Julie Andrews tornou-se a única actriz a ter vencido um Oscar num filme de Walt Disney, no musical “Mary Poppins” (1964), que lhe abriu as portas do sucesso. Mas, no ano seguinte, “Musica n Coração”, um dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos, catapulta-a para a glória. Rende-lhe várias nomeações para Oscars, Globos e outros prémios, e cimenta a sua reputação como actriz, cantora, bailarina, diretora teatral e escritora.
Casada com Tony Walton (1959-1967) e, posteriormente, com o realizador Blake Edwards (1969-2010), com quem trabalhou imenso, em vários filmes: “Darling Lili”, “The Tamarind Seed”, “The Pink Panther Strikes Again”, “Ten”, “S.O.B.”, “Victor Victoria”, “Trail of the Pink Panther”,  “The Man who Loved Women” ou “That's Life!”. Mas Julie Andrews participou ainda noutros filmes particularmente interessantes: “The Americanization of Emily", "Hawaii", "Torn Curtain", “Thoroughly Modern Millie" ou "Star!".
Sobre “Mary Poppins” e “My Fair Lady” há uma história curiosa a relembrar. Quem interpretou “My Fair Lady” no teatro foi Julie Andrews. Quando a Warner projectou a adaptação a cinema, escolheu Audrey Hepburn para protagonista. Esta, inicialmente, recusou, dizendo que teria de ser Julie Andrews a repetir no cinema o seu trabalho no teatro. Mas Jack Warner não aceitou a sugestão e contra-atacou: ou Audrey Hepburn aceitava, ou seria Elizabeth Taylor a ficar com o papel. Na sessão de entrega dos Oscars, estavam as duas nomeadas, e seria Julie a receber a estatueta. Ganharia também o Globo de Ouro para Melhor Actriz em filme musical, e, ao receber este prémio, Julie Andrews “vingou-se” com muito estilo. Agradeceu a Jack Warner, “pois graças a ele ter-lhe recusado o papel principal em “My Fair Lady”, ela pode aceitar interpretar “Mary Poppins”, e assim receber aquele prémio”.
Julie Andrews foi homenageada pela Rainha Elizabeth II com a Ordem do Império Britânico em 31 de dezembro de 1999, além de também ter sido eleita, em 2002, uma das 100 maiores personalidades britânicas de todos os tempos, ocupando a 59ª posição. Além de um Oscar para melhor actriz, conquistou cinco Globos de Ouro, três Grammys e dois Emmys, entre muitos outros prémios.
Em 1997, após uma cirurgia à garganta, viu afectadas as suas cordas vocais, o que a deixou profundamente deprimida, e a fez recorrer a um acompanhamento psicológico. Interrompeu a carreira, mas voltaria depois, sobretudo ao teatro. No cinema passou sobretudo a emprestar a sua voz a personagens de filmes de animação. Andrews também escreve livros infantis, e em 2008 publicou uma autobiografia intitulada "Home: A Memoir of My Early Years".
Pela sua contribuição à indústria cinematográfica, Andrews possui uma estrela no Wall of Fame, em Hollywood Boulevard, junto ao nº 6901. Na cerimónia dos Osacres de 2015 recebeu um tributo que lhe foi entregue por Lady Gaga que interpretou um conjunto de temas de “The Sound of Music”.


Filmografia

Como actriz: 1949: La rosa di Bagdad, de Anton Gino Domenighini (voz); 1953: Television Christmas Party (TV); 1956: Ford Star Jubilee (TV); 1957: Cinderella (TV); 1959: The Gentle Flame (TV); 1964: The Americanization of Emily (Herói Precisa-se), de Arthur Hiller; Mary Poppins (Mary Poppins), de Robert Stevenson; 1965: The Sound of Music (Música no Coração), de Robert Wise; 1966: Hawaii (Hawaii), de George Roy Hill; 1966: Torn Curtain (Cortina Rasgada), de Alfred Hitchcock; 1967: Thoroughly Modern Millie (Millie, Rapariga Moderna), de George Roy Hill; 1968: Star! (A Estrela!), de Robert Wise; 1970: Darling Lili (Querida Lili), de Blake Edwards; 1974: The Tamarind Seed (A Semente de Tamarindo), de Blake Edwards; 1976 A Pantera volta a atacar (The Pink Panther Strikes Again), de Blake Edwards (voz, não creditada); 1979: Ten (10 - Uma Mulher de Sonho) de Blake Edwards; 1980: Little Miss Marker (Jogar para Ganhar), de Walter Bernstein; 1981: S.O.B. (Tudo Boa Gente), de Blake Edwards; 1982: Victor Victoria (Victor/Victoria), de Blake Edwards; Trail of the Pink Panther (Na Pista da Pantera), de Blake Edwards (voz, não creditada); 1983: The Man who Loved Women (Os meus Problemas com as Mulheres), de Blake Edwards; 1986: Duet for One (Dueto só para um), de Andreï Kontchalovski; 1986: That's Life! (A Vida É Assim), de Blake Edwards; 1991: Our Sons (Os Filhos da Sida), de de John Erman (TV); 1992: Julie (TV); Cin cin ou A Fine Romance, de Gene Saks; 1995: Victor/Victoria (TV); One Special Night (TV); 2000: Relative Values, de Eric Styles; 2001: The Princess Diaries (O Diário da Princesa), de Garry Marshall; On Golden Pond (TV); 2002: Paraíso Filmes (TV); 2003: Unconditional Love (Quem Matou o Nosso Amante?) de P. J. Hogan; Eloise at Christmastime (TV); Eloise at the Plaza (TV); 2004: Shrek 2 (Shrek 2), de Andrew Adamson (voz); The Princess Diaries 2: Royal Engagement (O Diário da Princesa: Noivado Real) de Garry Marshall; The Cat That Looked at a King (Vídeo); Great Performances (TV) Cinderella; 2007: Shrek 3 (Shrek o Terceiro), de Chris Miller (voz); Enchanted (Uma História de Encantar) de Kevin Lima (narradora); 2010: Shrek Forever After (Shrek Para Sempre) de Mike Mitchell (voz); Despicable Me (Gru - O Maldisposto) de Chris Renaud e Pierre Coffin (voz); Tooth Fairy (A Fada dos Dentes) de Michael Lembeck;