sábado, 31 de dezembro de 2016

SESSÃO 49: 2 DE JANEIRO DE 2017


ATLANTIC CITY (1979)

Louis Malle, cineasta francês que aparece inscrito no movimento da “nouvelle vague”, em fins da década de 50, inícios da seguinte, com filmes como “Ascenseur pour l'Echafaud” (57), “Os Amantes” (58), “Zazie dans le Metro” (60) “Vida Privada” (61), “Le Feu Follet” (63), confirmando-se depois com uma produção um pouco mais “internacionalizada” com “Viva Maria” (65), “O Ladrão” (66), um episódio de “Histórias Extraordinárias” (67) e outras mais pessoais, como “Calcutta” (68), “Le Soufle au Coeur” (70) ou “Lacombe Lucien” (75), emigra para os Estados Unidos onde dirige “Black Moon” 'e “Pretty Baby”, este em 1977, prometendo adoptar Hollywood como segunda pátria. Isso mesmo parece ser confirmado com “Atlantic City”, rodado em 1979, e que alcançaria o “Leão de Ouro”, do Festival de Veneza de 1980. Digamos que enquanto “Pretty Baby” era um filme europeu rodado na América, este “Atlantic City” já se aproxima muito do que se pode considerar “um filme americano realizado por um europeu”, o que não é bem a mesma coisa.    
Na verdade, Atlantic City é um filme sobre uma realidade americana, mais precisamente uma cidade em transformação, com pessoas e situações americanas, filmadas de uma forma americana. O argumento é de John Guare, e este facto terá tido a sua importância, mas no essencial foi o cinema de Louís Malle, que se adaptou a um estilo directo e linear, ao ambiente de “filme negro” e a um certo tipo de personagens que trazem uma carga simbólica que só pode entender-se inteiramente quando referenciadas à América.


O filme chama-se “Atlantic City” e cremos que a cidade é a protagonista desta história de amor e morte. Atlantic City tem uma história curiosa, que é conveniente conhecer um pouco para se compreender melhor a película de Malle. Durante os anos 20-30, foi uma estância balnear florescente, réplica americana da Côte D'Azur francesa. Mas começou igualmente por ser uma cidade conhecida, em inícios do século XX, como uma das bases do “gangsterismo” e da Mafia na Costa-Este, progredindo em associação com a venda ilegal de bebidas alcoólicas, durante o período da sua proibição. A depressão de 1929 causou um profundo abalo na sua estrutura social e grande parte da sua celebridade apagou-se com o rolar dos tempos, até fazer dela uma cidade-fantasma. Nos anos 60, a desolação era total e tudo caminhava para a ruína irremediável. A cidade deixou a humidade do Atlântico corroer-lhe as fachadas dos prédios, minar-lhe os alicerces e as suas avenidas de madeira começaram a escorregar para o esquecimento, por troca com outras cidades, então mais na moda.
Em 1978, porém, o estado de New Jersey legalizou o jogo e estabeleceu-o em Atlantic City, que ficava assim a ocupar na Costa-Este o lugar de Las Vegas na Costa-Oeste. O progresso económico, ou “uma certa forma” de progresso económico, voltaria à cidade, que renascia das cinzas, abatendo impiedosamente os velhos edifícios, símbolos de um passado que se queria enterrado e esquecido, enquanto sobre os escombros, se erguiam novas construções, modernas e arrojadas, que iriam voltar-se essencialmente para “o pequeno e o grande”, o “vermelho e o preto”, “as dúzias” e “os plenos”. Da Europa chegam os mestres croupiers, que ensinam a “arte” aos neófitos (veja-se a figura interpretada por Michel Picolli), enquanto pelos decadentes apartamentos do passado, aguardando ordem de despejo, sobrevivem velhas personagens de uma época de ouro irreversivelmente ultrapassada. É o caso de Lou (Burt Lancaster), pobre diabo envelhecido e deixado à deriva numa cidade que lhe é cada vez mais estranha, onde vive de biscates, de jogo clandestino e dos pequenos favores de uma viúva entrevada, que lhe vai pagando como pode os passeios higiénicos do seu carrocha de estimação.
O jogo foi legalizado neste ponto de New Jersey, a duas centenas de quilómetros de Nova Iorque e, com a abertura de novos e sofisticados casinos, a cidade readquiriu o movimento perdido. As velhas estruturas de um passado requintado são ainda visíveis hoje em dia por quem percorrer as suas ruas e atentar na bela arquitectura “art nouveau” que, pouco a pouco, vai sendo demolida, dando lugar a enormes blocos com as insígnias do “Play Boy”, do “Caesar Palace” ou do “Resorts”. O filme de Louis Mallle capta de tal forma essa mutação nostálgica e dramática, que nos obrigou a um desvio de duas horas e meia, de Nova Iorque a Atlantic City, numa viagem num mítico “Greyhound” que nos deixou à porta do Resorts International, só para percorrer o caminho que diariamente Burt Lancaster fizera, levando pela trela o cão de Grace. A viagem justificava-se, em grande parte, pela empatia que as imagens do filme provocavam e que demonstram como se pode instigar o desejo de pertencer a algo, dele falando. Porque “Atlantic City”, para lá de ser um filme sobre a velhice e a morte de uma cidade e de um homem, é também um filme sobre a juventude que procura um rumo e o encontra entre esses dois universos. A uma mesa de jogo. Cenário de um desejo que se transforma já em obsessão, em risco, em aposta total.


Como não podia deixar de ser, atrás dos casinos regressou a Mafia e os seus interesses, segundo regras de um jogo mais sofisticado. O lucro agora chama-se droga e nas velhas veias rejuvenescidas desta cidade ela irá desempenhar um papel relevante. Um velho “gangster” falhado será apanhado pela teia cerzida pelo dinheiro fácil da droga e, no turbilhão de uma história de amor impossível, que o faz acreditar de novo em si, acabará por cumprir na realidade o sonho que de si fizera: como herói de saga antiga tombará para sempre, nostálgico de tempos que não soube viver e desadaptado de outros, onde se não soube integrar. Um painel turístico anuncia a realidade, que tem de passar pela morte dos velhos tempos: “Atlantic City is coming back to life again. Now” (Atlantic City volta de novo à vida. Agora). É evidente que um tal tema nas mãos de Altman ou Pollack, para só nomear dois americanos que por vezes se recordam enquanto se assiste à projecção desta obra, fariam deste argumento um filme um pouco mais sugestivo. Cremos que sim. Alguns aspectos são algo esquemáticos, como por exemplo o casal de traficantes de droga que surge na cidade. Mas Louis Malle aproxima-se bastante do tom exacto e da emoção precisa em muitas sequências, e conta mesmo com uma cena de antologia: a confissão do velho Lou (já lhe ouvimos chamar “O Leopardo” de Atlantic City, e há alguma verdade na comparação) que recorda a Sally (Susan Sarandon) a forma como a espreitava pela janela e a via lavando os braços, os ombros e os seios, com sumo de um limão cortado, espremido, ao som de uma área de ópera. Voyeurismo senil, podem acusar. Melhor será pensar num desejo adormecido que a presença de Sally desperta. Estas são as amargas lágrimas de uma paixão impossível, de um desejo apenas realizável à distancia. Burt Lancaster e Susan Sarandon são aqui admiráveis e Louis Malle acrescenta um ponto precioso à sua filmografia.
Cremos que esta dolorosa confissão de amor e impotência valeria a deslocação, se algo mais não existisse. Mas existe, apesar de tudo. “Atlantic City” é um belíssimo filme, uma bela meditação sobre o crepúsculo de uma vida (de várias vidas), sobre a transformação de uma sociedade, sobre o renascer de uma cidade que “volta a estar no mapa”, depois de um longo período de lenta decadência. O que nos parece mesmo mais logrado nesta obra é precisamente esse interligar das histórias individuais com o destino de uma cidade.

ATLANTIC CITY, U.S.A.
Título original: Atlantic City
Realização: Louis Malle (EUA, 1980); Argumento: John Guare; Produção: Joseph Beaubien, Gabriel Boustiani, Denis Héroux, Justine Héroux, John Kemeny, Larry Nesis, Jean-Serge Breton; Música: Michel Legrand; Fotografia (cor): Richard Ciupka; Montagem: Suzanne Baron; Design de produção: Anne Pritchard; Decoração: Gretchen Rau; Guarda-roupa: François Barbeau; Maquilhagem: Donna Gliddon, Rita Ogden; Casting: Venetia Rickerby; Direcção de Produção: Micheline Garant, Ken Golden, Justine Héroux, Carl Zucker; Assistentes de realização: John Board, Jim Chory, John Desormeaux, Robert McCart, Patrick Burns; Departamento de arte: Jacques Chamberland, Charles Cirigliano, Wendell Dennis, Marcel Desrochers, Csaba András Kertész, Edward L. McMillan, Joe Petruccio Jr., Gretchen Rau, Raymond M. Samitz, Marie-Claude Tetrault; SoM: Jean-Claude Laureux, Jacques Maumont, Gilles Ortion; Companhias de produção: International Cinema Corporation (ICC), Selta Films, Canadian Film Development Corporation (CFDC), Cine-Neighbor, Selta Films, Famous Players Limited; Intérpretes: Burt Lancaster (Lou), Susan Sarandon (Sally), Kate Reid (Grace), Michel Piccoli (Joseph), Hollis McLaren (Chrissie), Robert Joy (Dave), Al Waxman (Alfie), Robert Goulet (Cantor); Moses Znaimer (Felix), Angus (Vinnie), Sean Sullivan (Buddy), Wallace Shawn, Harvey Atkin, Norma Dell'Agnese, Louis Del Grande, John McCurry, Eleanor Beecroft, Cec Linder, Sean McCann, Vincent Glorioso, Adèle Chatfield- Taylor, Tony Angelo, Sis Clark, Gennaro Consalvo, Lawrence McGuire, Ann Burns, Marie Burns, Jean Burns, Connie Collins, John Allmond, John J. Burns, Elias Koteas, etc. Duração: 104 minutos; Distribuição em Portugal inexistente; Cópia DVD: Spectra Nova (Brasil); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Novembro de 1981.


SUSAN SARANDON (1946 - )
Susan Sarandon é uma das actrizes norte americanas mais premiadas em todo o mundo. Na verdade, numa filmografia com mais de uma centena e meia de títulos, dispersos entre cinema e televisão, Susan consegue manter um nível de qualidade assinalável, escolhendo com critério os projectos em que embarca, muitos dos quais assinados seguramente por amigos e pertencentes, todos eles, a um pequeno círculo de personalidades ligadas ao cinema mais independente. Não quer dizer que Susan Sarandon não tenha entrado em obras abertamente comerciais e mais industrializadas, mas o seu pendor é objectivamente trabalhar com cineastas menos ligados às estruturas dos grandes estúdios, ou se o estão, senhores de um perfil que lhes permita uma certa autonomia. Susan Abigail Tomalin é o seu nome de baptismo. Nasceu em Nova Iorque a 4 de Outubro de 1946, completando presentemente 68 anos. Casada com Chris Sarandon (1968–1979) e depois com Tim Robbins (1988-2010). Foi Oscar da Academia em 1996, com “Dead Man Walking”, e obteve mais quatro nomeações, por “Atlantic City” (1980), “Thelma & Louise” (1991), “Lorenzo's Oil” (1992) e “The Client“ (1994). Oito vezes nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Actriz e só o IMDB cobre 55 prémios e mais 49 nomeações. Susan é filha de Phillip Leslie Tomalin, de ascendência irlandesa, inglesa e galesa, e de Lenora Marie Criscione, italiana da Sicília. Cresceu no interior de família católica com nove filhos. Formou-se em 1964, na Edison High School e estudou na Universidade Católica da América, em Washington DC (Artes). Foi na faculdade que conheceu Chris Sarandon, com quem se casou em setembro de 1967. Divorciaram-se em 1979, mas Susan continuou a usar o apelido. Em meados dos anos 80, manteve uma relação com o realizador italiano Franco Amurri, com quem teve uma filha, a actriz Eva Amurri, e conhecem-se ainda histórias amorosas com o actor Sean Penn e o realizador Louis Malle (com quem trabalhou em “Pretty Baby” e “Atlantic City”), além do cantor David Bowie, com quem contracenou em “The Hunger”. Desde 1988, Sarandon vive com o actor Tim Robbins, que conheceu nas filmagens de “Bull Durham”. O casal teve dois filhos: Jack Henry e Miles Guthrie. Já separados, tanto ela quanto Robbins eram personalidades ligadas a movimentos sociais e políticos. No dia 23 de Dezembro de 2009, o casal anunciou sua separação, publicada pela revista “People”.

Filmografia
Como actriz / Cinema: 1970: Joe (Joe), de John G. Avildsen; 1971: La Mortadella (Mortadela), de Mario Monicelli; Fleur bleue ou The Apprentice de Larry Kent; 1974: Lovin' Molly (Os Amores de Molly), de Sidney Lumet; The Front Page (Primeira Página), de Billy Wilder; 1975: The Great Waldo Pepper (O Grande Circo), de George Roy Hill; The Rocky Horror Picture Show (Festival Rocky de Terror) de Jim Sharman; 1976: Dragonfly (Dragonfly), de Gilbert Cates; 1977: Chechered Flag or Crash (Loucos Sobre Rodas), de Alan Gibson; 1977: The Other Side of Midnight (O Outro Lado da Meia-Noite), de Charles Jarrott; The Last of the Cowboys, de John Leone; 1978: Pretty Baby (Menina Bonita), de Louis Malle; King of the Gypsies (O Herdeiro), de Frank Pierson; 1979: Something Short of Paradise (Uma Página de Amor), de David Helpern; 1980: Atlantic City (Atlantic City), de Louis Malle; Loving Couples (Amigos e Amantes), de Jack Smight; 1982: Tempest (Tempestade), de Paul Mazursky; 1983: The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott; 1984: The Buddy System, de Glenn Jordan; 1985: Compromising Positions, de Frank Perry; 1987: The Witches of Eastwick (As Bruxas de Eastwick), de George Miller; 1988: Bull Durham (Jogo a Três Mãos), de Ron Shelton; Sweet Hearts Dance (Corações em Jogo), de Robert Greenwald; 1989: A Dry White Season (Assassinato Sob Custódia), de Euzhan Palcy; January Man (Agarrem Este Detective), de Pat O'Connor; 1990: White Palace (Loucos de Paixão), de Luis Mandoki; 1991: Thelma & Louise (Thelma e Louise), de Ridley Scott; 1992: Bob Roberts (Bob Roberts - Candidato ao Poder), de Tim Robbins; The Player (O Jogador), de Robert Altman; Lorenzo's Oil (Acto de Amor) de George Miller; Light Sleeper (Perigo Incerto), de Paul Schrader; 1994: The Client (O Cliente) de Joel Schumacher; Little Women (As Mulherzinhas), de Gillian Armstrong; Safe Passage (Diário de uma Morte Anunciada), de Robert Allan Ackerman; 1995: Dead Man Walking (A Última Caminhada), de Tim Robbins; 1996: The Celluloid Closet de Robert Epstein; James and the Giant Peach (James e o Pêssego Gigante Spider), de Henry Selick (voz); 1998: Twilight (A Hora Mágica) de Robert Benton; Stepmom (Lado a Lado) de Chris Columbus; Illuminata (Illuminata), de John Turturro; 1999: Cradle Will Rock (América - Anos 30), de Tim Robbins; Anywhere But Here (A Minha Mãe, Eu e a Minha Mãe), de Wayne Wang; Our Friend, Martin (Video); 2000: Joe Gould's Secret, de Stanley Tucci; Rugrats in Paris: The Movie - Rugrats II, de Stig Bergqvist (voz); 2001: Cats & Dogs (Como Cães E Gatos), de Lawrence Guterman (voz); Last Party 2000, de Rebecca Chaiklin, Donovan Leitch Jr. (documentário); 2002: Moonlight Mile (Sonhos Desfeitos), de Brad Silberling; The Banger Sisters (As Manas Rock), de Bob Dolman; 2002: Igby Goes Down (A Estranha Vida de Igby), de Burr Steers; Little Miss Spider (Curta-metragem, Narradora); 2004: Jiminy Glick in Lalawood, de Vadim Jean; Noel (Um Milagre de Natal), de Chazz Palminteri; Alfie (Alfie), de Charles Shyer; Shall We Dance? (Vamos Dançar?), de Peter Chelsom; 2005: Elizabethtown (Elizabethtown), de Cameron Crowe; Sonnet 22 (Curta-metragem, Narradora); 2005: Romance & Cigarettes (Romance & Cigarros), de John Turturro; 2006: Irresistible (Irresistível), de Ann Turner; Bernard and Doris, de Bob Balaban; 2007: Mr. Woodcock (Um Padrasto para Esquecer!), de Craig Gillespie; Emotional Arithmetic (Aritmética Emocional), de Paolo Barzman; Enchanted (Uma História de Encantar), de Kevin Lima; In the Valley of Elah (No Vale de Elah), de Paul Haggis; 2008: Speed Racer, de Andy e Lana Wachowski; Middle of Nowhere (Um Amor de Verão), de John Stockwell; 2009: The Greatest (Sem Ti), de Shana Feste; Leaves of Grass, de Tim Blake Nelson; Solitary Man (Eterno Solteirão), de Brian Koppelman e David Levien; The Lovely Bones (Visto do Céu), de Peter Jackson; One Million Strong (Curta-metragem) (voz); 2010: Peacock, de Michael Lander; Wall Street: Money Never Sleeps (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme), de Oliver Stone; La Mama: An American Nun's Life in a Mexican Prison (Vídeo, curta-metragem, narradora); 2011: Jeff Who Lives at Home (Jeff - O Solteirão), de Jay Duplass e Mark Duplass; Fight for Your Right Revisited (Curta-metragem); 2012: Arbitrage (Arbitrage - A Fraude), de Nicholas Jarecki; That's My Boy (Pai Infernal), de Sean Anders; Robô & Frank, de Jake Schreier; Cloud Atlas (Cloud Atlas), de Tom Tykwer e Andy e Lana Wachowski; The Company You Keep (Regra de Silêncio), de Robert Redford; 2013: The Big Wedding (O Grande Dia), de Justin Zackham; Snitch (Snitch - Infiltrado), de Ric Roman Waugh; Irwin and Fran, de Jordan Stone; Ping Pong Summer, de Michael Tully; The Last of Robin Hood, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland; Hell and Back de Tom Gianas e Ross Shuman; (voz); 2014: Tammy, de Ben Falcone;2014: The Calling (Perseguição Perigosa), de Jason Stone; 2015 Kid Witness, de Kevin Kaufman; Hell & Back, de Tom Gianas, Ross Shuman; Three Generations, de Gaby Dellal; Slipping Away (Curta-metragem);2016: The Death and Life of John F. Donovan, de Xavier Dolan; Mothers Day, de Paul


Televisão: 1951: Search for Tomorrow; 1970: A World Apa; 1971 Owen Marshall, Counselor at Law; 1972: Search for Tomorrow;1972-1974 Great Performances; 1973-1974 The Wide World of Mystery; 1973 Calucci's Department; The Satan Murders; F. Scott Fitzgerald and 'The Last of the Belles'; June Moon; The Rimers of Eldritch; The Whirlwind; 1982: Who Am I This Time; American Playhous; Faerie Tale Theatre; 1984: Oxbridge Blues; 1985: A.D.: Livilla; 1985: Mussolini and I; 1986: Women of Valor (Mulheres de Coragem); 1994: School of the Americas Assassins (Curta-metragem) Narrador; All-Star 25th Birthday: Stars and Street Forever!; 1995: Os Simpsons; 1997: The Need to Know, Narrador; 1998: For Love of Julian, Narrador; 1999 Goodnight Moon & Other Sleepytime Tales; Earthly Possessions) de James Lapine; 2000: Friends; 2001: Malcolm (A Vida é Injusta); 2003: Ice Bound: A Woman's Survival at the South Pole; Freedom: A History of Us; Children of Dune; 2005: The Exonerated; 2006: Rescue Me; 2007: Bernard and Doris; 2009: Serviço de Urgência (ER); 2009-2011 Saturday Night Live; 2010: You Don't Know Jack, de Barry Levinson; 2011: 30 Rock; The Miraculous Year; 2012: The Big C; 2013: Mike and I; Doll & Em; 2015: The Secret Life of Marilyn Monroe; 2016: Graves. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SESSÃO ESPECIAL 25 DE DEZEMBRO DE 2016 / 17 HORAS

SESSÃO ESPECIAL DE NATAL
Dia 25 de Dezembro 17 horas

MARY POPPINS (1964)


“Mary Poppins” é um filme que se integra perfeitamente nas categorias do maravilhoso e da fantasia. Na verdade, Mary Poppins é uma fada e o filme um conto de fadas, onde uma delas desce à Terra, não a cavalo numa vassoura, como é tradicional das bruxas, mas a reboque de um guarda-chuva e trazendo na mão uma maleta mágica de onde, sempre que necessário, saem os mais desencontrados objetos.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS
A rodagem deste filme parece ter estado envolta num oceano de problemas, o que, curiosamente, foi recentemente contado (versão dos estúdios produtores, obviamente) num filme de John Lee Hancock (2013), “Ao Encontro de Mr. Banks” (Saving Mr. Banks). O filme estreou em Janeiro de 2014 em Portugal e, nessa altura, escrevi sobre o mesmo um texto que talvez ajude a recordar os conflitos surgidos durante os vinte anos que mediaram entre o interesse inicial de Walt Disney em adaptar as obras de Pamela Lyndon Travers, escritora que criou “Mary Poppins”, e a data da estreia do filme: “P.L. Travers assinava assim o seu trabalho literário para encobrir o facto de ser mulher. Na verdade, fora baptizada com o nome de Helen Lyndon Goff e nascera na Austrália, em Maryborough, Queensland, a 9 de Agosto de 1899, vindo a morrer em Londres, a 23 de Abril de 1996. Quando tinha sete anos, o pai faleceu, um acontecimento que para sempre marcaria a jovem. Desde muito nova que se dedicou à poesia, tornando-se escritora, jornalista e passando mesmo pelo teatro, como actriz. Andou pela Austrália e pela Nova Zelândia, em tournée, depois viajou até à Irlanda, onde conheceu vários poetas e escritores, passando a Londres, onde se instala. Publica, em 1934, “Mary Poppins”, que rapidamente se tornou um sucesso retumbante. 
Em Hollywood, as filhas de Walt Disney leem o livro e adoram. O pai promete-lhes que o vai adaptar ao cinema. Entra em contacto com a escritora, que nem quer ouvir falar em adaptações, detesta musicais e tem horror a “bonecos animados”. Durante vinte anos, trocam cartas e nem um nem outro desiste dos seus intentos. “Saving Mr. Banks” é, pois, a história de dois teimosos que se enfrentam para cumprir promessas. Ele quer adaptar a cinema o livro para cumprir o que jurara às filhas, ela não quer ceder para se manter fiel à promessa que fizera a si própria. 
A determinada altura da vida de P.L. Travers, as receitas literárias começam a diminuir e o seu agente convence-a a viajar até Los Angeles. Isso acontece em 1961. Como se calcula, a escritora começa por detestar a cidade e o encontro com Walt Disney é desastroso. A autora de “Mary Poppins” revela-se uma velhota ácida, fria, distante, agressiva, nada cooperante, mostra que está a fazer um frete insuportável. As reuniões com argumentistas, compositor, letristas, produtores, secretárias and so on, são lendárias. A má disposição e o negativismo de P.L. Travers julgar-se-iam inultrapassáveis. Se o tivessem sido, não haveria agora este filme, nem “Mary Poppins” com pinguins em desenho animado, a dançarem em redor de Dick Van Dyke. Mas, lentamente, vai cedendo aos encantos do lugar e das personagens e talvez também ao cansaço. O filme faz-se, estreia-se em 1964, é um triunfo, mas ela mantém as reservas e não permite a Walt Disney aproveitar nenhuma das quatro sequelas que, entretanto, escrevera e editara com a sua Mary Poppins como protagonista. Fim de história, que não contém nenhum suspense especial, pois é do conhecimento geral. Faz parte da História. Este é mais um filme que ficciona factos reais. 
John Lee Hancock, o realizador, é igualmente um argumentista de algum sucesso, tendo assinado, enquanto tal, algumas obras muito interessantes, como “Um Mundo Perfeito” e “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”, ambas rodadas por Clint Eastwood, tendo dirigido como realizador “The Rookie - O Treinador”, “Álamo” e “Um Sonho Possível”, antes de se entregar a este “Ao Encontro de Mr. Banks”. Nada de particularmente excitante, o mesmo acontecendo agora, ainda que neste último caso, a história tenha a sua graça, e os intérpretes sejam excelentes. Emma Thompson compõe um retrato inspirado desta insuportavelmente irritante P.L. Travers; Tom Hanks é um Walt Disney impecável, talvez demasiado “politicamente correcto” (mas que dizer, se a produção é dos seus estúdios e herdeiros?); Annie Rose Buckley é uma miudinha adorável, que as asperezas da vida transformaram na agreste escritora; Colin Farrell é o pai destemperado que morre cedo e deixa um rasto de tristeza na filha; Ruth Wilson é a sacrificada mãe; Paul Giamatti é admirável como motorista particular de Travers, e por aí fora. Só pelas interpretações merece a pena as duas horas de visionamento. Mas a produção é cuidada, os aspectos técnicos estão à altura da casa produtora e o resultado final é mais um daqueles filmes para “toda a família” a que estes estúdios nos habituaram há longas décadas. 
Para quem gosta de cinema e de espreitar os bastidores das produções de Hollywood, este é mais um aspecto a ter em conta. O que coloca algumas objecções ao produto será, por um lado, o ar muito bem-comportado de toda a gente, o que nos permite supor que os argumentistas (Kelly Marcel e Sue Smith) adocicaram muito a realidade e, por outro, uma estrutura narrativa, tipo sanduíche, com duas histórias entremeadas a decorrer em simultâneo, por um lado a juventude de P.L. Travers na Austrália, por outro lado o encontro desta com Disney em Hollywood. Obviamente que se percebe o porquê da opção: a história da juventude de P.L. Travers é a base para a compreensão do seu comportamento ao longo da vida. Mas o esquema acaba por ser um pouco enfadonho, por repetitivo. Globalmente, é um espectáculo que se vê com agrado, mas não muito mais do que isso. O que já não é pouco se lhe acrescentarmos o brilhantismo das representações.


MARY POPPINS
Resolvidos a bem ou a mal os problemas resultantes da adaptação, aí temos o filme. Walt Disney, ao contrário do que muita gente julga, só foi realizador dos filmes que surgiram com a sua chancela entre 1921 e 1935, sendo que dirigiu sobretudo curtas-metragens, aqueles “desenhos animados” que antecediam o filme principal, durante várias décadas nas sessões normais de cinema (antes da chegada das sessões contínuas que só deixam lugar ao filme principal e aos trailers das futuras estreias). À medida que a sua marca ganhou prestígio e sucesso comercial, Disney passou a ser sobretudo o produtor, mas um produtor com poder absoluto sobre os produtos saídos da sua fábrica. Foi na condição de produtor que ergueu o projecto “Mary Poppins”, estreado um ano depois da longa-metragem de animação “A Espada Era a Lei” (The Sword in the Stone). Os estúdios encontravam-se num dos seus períodos de ouro e Walt Disney entregou a realização deste filme em imagem real, mas com algumas sequências que misturam figuras humanas e desenho animado, a Robert Stevenson, um homem da casa, muito habituado aos chamados filmes para toda a família. Na Broadway, descobriu uma jovem que nunca tinha feito cinema e se encontrava nos palcos de Nova Iorque a interpretar “Camelot”. Antes tinha pensado em Bette Davis ou Angela Lansbury. Estava encontrada a fada que nos daria, em anos sucessivos, esta “Mary Poppins” e “Música no Coração”. Uma fada Midas com mãos de ouro que transformava em desmedido lucro tudo em que cantava.
“Mary Poppins” ambienta-se em Londres, 1910, centrando-se sobre uma família de classe média-alta, o pai banqueiro, a mãe sufragista, e os dois filhos deixados ao Deus dará pelos superiores interesses dos pais. As governantas não duravam uma semana nas mãos dessas crianças rebeles até ao dia em que entra uma nova ama pela porta dentro, com chapéu de chuva na mão e mala. E tudo se modifica como por magia, porque afinal de magia se trata. A ama-fada transforma rapidamente os insubordinados miúdos em ternurentos adolescentes, os pais interiorizam a suas falhas, não sem antes passarem por alguns apertos que mostraram bem como se comportam os banqueiros quando deixados a solo. Mas num filme “para toda a família” tudo tem de terminar bem, o que acaba por acontecer com a sua lição de moral bem estudada e aplicada a preceito, para o capital e para a rebeldia, para o pai banqueiro e para a mãe sufragista.
A história é importante, claro, mas o que parece sobretudo ficar depois da saída da sala escura (hoje em dia é mais depois de desligar o aparelho de tv), é o tom do filme, o que é dado sobretudo pelas canções e pelos números coreografados (1). Este é um filme que procura puxar para cima, mostrar o lado bom da vida, defender a família e abandonar os egoísmos pessoais e colectivos. Numa das canções do filme (hoje muito politicamente incorrecta, diga-se de passagem, mas que importa?), Mary Poppins explica que se tens de tomar um remédio azedo, uma colher de açúcar ajuda. Depois temos o lado tenebroso dos banqueiros, todos vestidos de negro, velhos e rançosos, enterrados numa avareza sem escrúpulos. O lado oposto à limpidez luminosa de Mary Poppins e do seu mundo. Moralismo fácil? Sim, é capaz de ser, mas com grande qualidade técnica e artística, o que o torna não só suportável, como bem-vindo.
De um ponto de vista musical, os irmãos Robert e Richard Sherman encontravam-se num momento de rara inspiração que galvanizou a restante equipa para transformar em momentos inesquecíveis alguns números: “Chim Chim Che-ree”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção do ano, abre para o fabuloso bailado nos telhados de Londres, por entre uma floresta de chaminés, onde os limpa-chaminés se apresentam como anjos da guarda dos outros frágeis humanos que lá por baixo labutam no seu dia a dia. O famoso “Supercalifragilisticexpialidocious”, que quase ninguém repete, mas que todos gostaríamos de cantar como o faz a deliciosa Julie Andrews, é outro momento magnífico, tal como “A Spoonful of Sugar”, cuja moralidade já foi referida, ou “Feed the Birds”, a nostálgica balada da velha que à porta do banco dá comida aos pombos. Claro que o filme não é só Julie Andrews e a presença, a seu lado, do multifacetado Dick Van Dyke é uma outra aposta ganha. Dick Van Dyke, na figura do limpa-chaminés Bert, canta, dança, faz de homem orquestra, pinta no chão do parque, além de, obviamente, limpar as chaminés da cidade e de praticar o bem. Ele é o chefe de bailado do espantoso número nos telhados da cidade, no tema musical “Step In Time”. Mas também será ele que vai dançar na sequência dos pinguins de animação. Memorável, apesar da rabugenta P.L. Travers não gostar de animação! Conhecerá outro grande sucesso, em 1968, como protagonista de um novo musical, “Chitty Chitty Bang Bang”, sob a direcção de Ken Hughes. Mas este “Mary Poppins” é o seu momento de suprema glória, senão atente-se no estupendo boneco extra que ele compõe como dono do banco. David Tomlinson e Glynis Johns formam o casal Banks, e os miúdos são Karen Dotrice e Matthew Garber.
A Londres de 1910 foi reconstruída em minúcia nos estúdios Disney da Califórnia, numa demonstração de virtuosismo cenográfico notável. Mas tecnicamente “Mary Poppins” é ainda hoje um prodígio que desafia o tempo e vai passando de geração em geração com o mesmo brilho. Fotografia, som, montagem, efeitos especiais tudo funciona na perfeição nesta obra que, quando Mary Poppins se eleva nos céus de Londres para partir para novo destino (novo filme não, porque a radical P.L. Travers não permitiu), não é só a família Banks que fica com saudades, mas sim (quase) todos os espectadores. Não direi todos porque há os que acham “Mary Poppins” uma aberração moralista. Pois sim, está bem, deixem-me um pouco de açúcar, apesar dos diabetes.

Principais canções e números musicais: de “Mary Poppins”: Spoonful Of Sugar, Chim Chim Cher-Ee, Perfect Nanny, Step In Time, Sister Suffragette, Supercalifragilisticexpialidocious, Fidelity Fiduciary Bank, Practically Perfect, Let's Go Fly A Kite, I Love To Laugh, Jolly Holiday, Feed The Birds, Pavement Artist, The Life I Lead, Cherry Tree Lane, The Day I Fall In Love


MARY POPPINS (1964)
Título original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson (EUA, 1964); Argumento: Bill Walsh, Don DaGradi, segundo P.L. Travers (“The "Mary Poppins"); Produção: Bill Walsh, Walt Disney; Música: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Edward Colman; Montagem: Cotton Warburton; Guarda-roupa: Gertrude Casey, Chuck Keehne, Bill Thomas, Tony Walton, Luster Bayless; Direcção artística: Carroll Clark, William H. Tuntke; Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri; Maquilhagem: La Rue Matheron, Pat McNalley; Coreografia: Marc Breaux, Dee Dee Wood;  Assistentes de realização: Paul Feiner, Joseph L. McEveety, Arthur J. Vitarelli, Tom Leetch; Departamento de arte: McLaren Stewart, Tony Walton, Will Ferrell, Al Gaynor; Som: Robert O. Cook, Dean Thomas; Efeitos especiais: Peter Ellenshaw, Eustace Lycett, Robert A. Mattey; Efeitos visuais: Bob Broughton, Art Cruickshank, Lee Dyer; Animação: Hal Ambro, Jack Boyd, Al Dempster, Don Griffith, Ollie Johnston, Milt Kahl, Ward Kimball, Eric Larson, Bill Layne, John Lounsbery, Hamilton Luske, Cliff Nordberg, Art Riley, Frank Thomas, Frank Armitage, Joe Hale, Fred Hellmich, Art Stevens, Julius Svendsen; Companhia de produção: Walt Disney Productions; Intérpretes: Julie Andrews (Mary Poppins), Dick Van Dyke (Bert / Mr. Dawes Senior, David Tomlinson (Mr. Banks), Glynis Johns (Mrs. Banks), Hermione Baddeley (empregado), Reta Shaw (empregada), Karen Dotrice (Jane Banks), Matthew Garber (Michael Banks), Elsa Lanchester (Katie Nanna), Arthur Treacher, Reginald Owen, Ed Wynn, Jane Darwell, Arthur Malet, James Logan, Don Barclay, Alma Lawton, Marjorie Eaton, Marjorie Bennett, Walter Bacon, Frank Baker, Robert Banas, Marc Breaux, Art Bucaro, Daws Butler, Cyril Delevanti, George DeNormand, Harvey Evans, Paul Frees, Betty Lou Gerson, Clive Halliday, Sam Harris, David Hillary Hughes, Bill Lee, Queenie Leonard, Doris Lloyd, Lester Matthews, Sean McClory, Mathew McCue, Dal McKennon, Hans Moebus, King Mojave, Alan Napier, Marni Nixon, J. Pat O'Malley, George Pelling, Thurl Ravenscroft, Richard M. Sherman, Bert Stevens, Hal Taggart, Larri Thomas, Ginny Tyler, etc. Duração: 139 minutos; Distribuição em Portugal (DVD e Blu-ray): Walt Disney; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Dezembro de 1965.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS 
Título original: Saving Mr. Banks 

Realização: John Lee Hancock (EUA, Inglaterra, Austrália, 2013); Argumento: Kelly Marcel, Sue Smith; Produção: Ian Collie, Mark Cooper, K.C. Hodenfield, Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Alison Owen, Philip Steuer, Paul Trijbits; Música: Thomas Newman; Fotografia (cor): John Schwartzman; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Ronna Kress; Design de produção: Michael Corenblith; Direcção artística: Lauren E. Polizzi; Decoração: Susan Benjamin; Guarda-roupa: Daniel Orlandi, Catherine Childers, Deborah La Mia Denaver, Julie Hewett, Frances Mathias; Direcção de Produção: Andrew C. Keeter, Philip Steuer, Todd London; Assistentes de realização: Paula Case, Clark Credle, K.C. Hodenfield, Jeff Okabayashi, Stuart Renfrew; Departamento de arte: Lorrie Campbell, Martin Charles, Steve Christensen, Mike Piccirillo, Terry Scott, Sally Thornton; Som: Yann Delpuech, Jon Johnson, David M. Roberts; Efeitos especiais: J.D. Schwalm; Efeitos visuais: Vincent Cirelli, Justin Johnson, Lauren Miyake, Simon Mowbray, Luma Pictures; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, Ruby Films, Essential Media & Entertainment, BBC Films, Hopscotch Features; Intérpretes: Emma Thompson (P.L. Travers), Tom Hanks (Walt Disney), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travers Goff), Ruth Wilson (Margaret Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DaGradi), B.J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Lily Bigham (Biddy), Kathy Baker (Tommie), Melanie Paxson (Dolly), Andy McPhee (Mr. Belhatchett), Rachel Griffiths (Tia Ellie), Ronan Vibert (Diarmuid Russell), Jerry Hauck, Laura Waddell, Fuschia Sumner, David Ross Paterson, Michelle Arthur, Michael Swinehart, Bob Rusch, Paul Tassone, Luke Baines, Demetrius Grosse, Steven Cabral, Kimberly D'Armond, Mia Serafino, Claire Bocking, Dendrie Taylor, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Janeiro de 2014.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SESSÃO 47: 21 DE DEZEMBRO DE 2016


MÚSICA NO CORAÇÃO (1965)
(na celebração dos 50 anos da sua estreia mundial, a 2 de Março de 1965)

 Há alguns filmes sobre os quais tenho uma recordação ambígua. Este é um deles. Ao longo da vida fui gostando e desgostando. Gostando de Robert Wise (sempre!), gostando e desgostando de tudo o resto, porque a vida é feita de bons e maus humores. Quando somos mais novos, mais radicais, menos dados à sensatez, “The Sound of Music” pode ser pasto de toda a nossa verrinosa maledicência. Que dizer desta empastelada aventura sentimental da família Trapp? Pois nada melhor do que arrear-lhe em cima. Mesmo um cliente habitual e um fanático do melodrama e do “musical” (no teatro ou no cinema) como eu, nunca viu com muito bons olhos esta lamechice da freira cantante que se apaixona pelo barão viúvo com sete filhos e foge dos nazis a cantar num festival de Salzburgo. Mas a verdade é que vi várias vezes o filme, ou excertos do filme (sobretudo nas vésperas de Natal, num qualquer canal de TV). É que “Música no Coração” tem muito que se lhe diga, tanto a peça como, sobretudo, o filme.
“The Trapp Family Singers” foi a biografia escrita por Maria Augusta Trapp, publicada em 1947, quando a família já tinha terminado a sua carreira como cantores, contando as mirabolantes peripécias de uma preceptora de criancinhas que interrompe o seu estágio para freira para descobrir a verdadeira “vida” na casa dos Trapp, com todo o seu caudal de promessas de felicidade e ameaças de tragédia. Com base nesta autobiografia, surgiu na RFA, em 1956, um filme, “Die Trapp-Familie” (ou “The Trapp Family”), assinado por Lee Kresel e Wolfgang Liebeneiner, com argumento de George Hurdalek e Herbert Reinecker, que parece estar na origem do interesse dos produtores norte-americanos. Entre os intérpretes, contava-se a memorável Ruth Leuwerik (no papel de Maria), ao lado de Hans Holt (Barão von Trapp), Maria Holst, Josef Meinrad, Friedrich Domin, Hilde von Stolz, Agnes Windeck, Gretl Theimer, etc. Na estreia, a baronesa Von Trapp, sobrevivente ainda da gesta coral da família, teve uma deixa memorável: “Nada é verdadeiro, mas é tudo maravilhoso!” A música era de Franz Grothe, e a premissa do filme enquadrava-se bem no espírito da reconstrução alemão, “para todos os problemas, há uma solução”.
O realizador Wolfgang Liebeneiner era um homem experimentado neste tipo de obras, e teve um sucesso inequívoco. Há no argumento desta obra um final que deixa supor que a família Trapp fugiu da Alemanha nazi directamente para os EUA, o que não aconteceu na realidade, pois ficaram na Europa e só em 1939 iniciaram a tournée pelos Estados Unidos. Essa estadia daria origem a uma continuação, “Die Trapp-Familie in Amerika” (“The Trapp Family in America”) (1958), desta feita dirigida unicamente por Wolfgang Liebeneiner. Ruth Leuwerik regressaria no papel da Baronesa von Trapp, e Hans Holt, no de Barão von Trapp.
Foram estes filmes, e a biografia escrita, que inspiraram Oscar Hammerstein II a escrever as líricas e Richard Rodgers a compor a música para um guião de Howard Lindsay e Russell Crouse, que subiu a cena no Lunt-Fontanne Theatre (Nova Iorque), em 16 de Novembro de 1959, para iniciar uma carreira épica na história do musical norte-americano. Mary Martin e Theodore Bikel eram os protagonistas inspirados que “conquistaram os corações” de todos os espectadores na noite da estreia, com excepções de alguns críticos que colocaram ressalvas a este espectáculo. Mas, neste caso, os críticos escreveram e a caravana passou incólume. O sucesso estava na rua. Nada o detinha.


“Música no Coração” transformou-se daí em diante, seguramente, num dos mais célebres e rentáveis espectáculos de toda a história do teatro e do cinema musicais. O seu êxito triunfal em (quase) todas as temporadas teatrais e o seu apoteótico sucesso nas salas de cinema, aquando da estreia do filme assinado por Robert Wise, que esteve em Lisboa (quem não recorda?), quase dois anos consecutivos no Tivoli, com sessões esgotadas e espectadores que repetiam a sua visão vezes sem conta, não termina de surpreender tudo e todos. Ninguém se furtou, depois, por exemplo, ao fascínio de um novo lançamento em DVD (com dezenas e dezenas de extras, a explicar como foi o que foi), e ninguém pode negar a genialidade de Robert Wise a conduzir este filme, muito embora alguns possam não suportar o tom algo lamechas e o peso de um argumento que, não sendo convencional, acaba por não se furtar a todos os rodriguinhos do melodrama musical.
Acontece que gosto de melodramas (ah, o Douglas Sirk!) e adoro musicais. Logo, por que não gostar deste “dois em um” que, para mais, tem uma soberba partitura musical? Revisto agora o filme, o que sobressai é realmente a portentosa realização de um mestre, Robert Wise. A sua relação com os cenários, a forma como enquadra, como movimenta a câmara, como dirige os actores, como se serve da sumptuosa paisagem, como estabelece a relação entre as personagens no interior de um mesmo plano (como realiza a “mise-en-scène”, em suma) é realmente brilhante. Depois, a história por vezes arrasta-se nalguns convencionalismos escusados. Mas a verdade é que o filme sobrevive, e sobrevive bem. 50 anos depois, as manifestações mundiais a assinalar a efeméride dão conta desta sobrevivência.
Fui remexer em papéis antigos e descobri uma nota minha, no DN, sobre uma reposição do filme, em Julho de 1977. Não se esqueçam da data e atentem no que escrevi: “Falando do filme, o melhor será passar por cima das aventuras e desventuras da família Trapp (que todos conhecem), para reconhecer a maestria extrema deste produto de uma cinematografia virada essencialmente para o “divertimento para toda a família.” Veiculando uma filosofia da vida de base “pequeno-burguesa”, jogando com os sentimentos e as emoções a seu belo prazer, “The Sound of Music” é, por outro lado, uma verdadeira lição de técnica e de “métier”. Por alguma razão Mao Tse Tung, quando quis que os chineses aprendessem cinema, lhes comprou, entre outras cópias (poucas), uma deste “manual”.


Ora bem: com uma ou outra alteração terminológica, mantenho o que então disse, acrescentando que, trinta anos depois, os chineses demonstraram ter aprendido, e muito bem, a fazer cinema. Robert Wise foi um dos grandes cineastas de Hollywood, um homem que começou a carreira ao lado de Orson Welles (colaborador essencial em “Citizen Kane”) e construiu depois uma filmografia invejável. Sou um seu fã incondicional. Há uns anos, num festival de cinema em Óbidos, ele foi o presidente de um Júri de que eu também fazia parte. Infelizmente adoeci e não pude estar presente nos trabalhos do festival, mas fui a Óbidos conhecê-lo, com o termómetro nos 38, só para ter o prazer de o olhar nos olhos. Afinal ele assinou uma dezena de obras-primas, desde “O Túmulo Vazio” (1945), até “West Side Story” (1961), passando por “Nascido para Matar”, “Nobreza de Campeão”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Marcado pelo Ódio”, “Quero Viver”, “Homens no Escuro”, não contando com os ameaços.
Uma informação final: outro filme surgiu na continuação de “Música no Coração”. Foi “Celebrate the Sound of Music”, de 2005, uma realização de John L. Spencer, para televisão, e, tal como o próprio título sugere, trata-se de uma homenagem ao filme, com participação de cantores e personalidades que evocam a obra. Graham Norton era o apresentador, e apareciam vozes de Big Brovaz, Clare Buckfield, Fearne Cotton, Rosemarie Ford, Lesley Garrett, Carrie Grant, Jill Halfpenny, Gloria Hunniford, Bonnie Langford, Jon Lee, Robert Lindsay, Richard McCourt, Linda Robson, Denise Van Outen, entre outras.
Entretanto, surgiu a versão teatral portuguesa de “Música no Coração”, com a assinatura de Filipe La Féria, e com um elenco prestigiado, à frente do qual Lúcia Moniz e Anabela alternam no papel de “A Noviça Rebelde” (título do filme no Brasil). Com a partitura de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers, que contém só “hits” inesquecíveis, o seu bom gosto, o seu sentido do espectáculo, o seu ritmo e a sua direcção de actores desta minha embaraçosa ambiguidade ressaltaram as virtudes e atenuarem-se os lamentos. Esta montagem portuguesa de “Música no Coração” foi verdadeiramente surpreendente e um enorme passo em frente na história do musical em Portugal, mas mais ainda, na história do teatro em Portugal.


MÚSICA NO CORAÇÃO
Título original: The Sound of Music
Realização: Robert Wise (EUA, 1965); Argumento: Ernest Lehman, segundo Howard Lindsay e Russel Crouse (argumento do musical teatral), a partir de Maria von Trapp ("The Story of the Trapp Family Singers"); Produção: Saul Chaplin, Robert Wise, Peter Levathes; Richard D. Zanuck; Música original: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Ted D. McCord; Montagem: William Reynolds; Casting: Lee Wallace; Design de produção: Boris Leven; Decoração: Ruby R. Levitt, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Dorothy Jeakins; Maquilhagem: Margaret Donovan, Ben Nye, Willard Buell, Ray Forman; Direcção de produção: Saul Wurtzel; Assistentes de realização: Ridgeway Callow, Richard Lang, Maurice Zuberano; Departamento de arte: Glenn 'Skippy' Delfino, Leon Harris, Ed Jones; Som: James Corcoran, Bernard Freericks, Fred Hynes, Murray Spivack; Efeitos especiais: L.B. Abbott, Emil Kosa Jr.; Companhias de produção: Robert Wise Productions (A Robert Wise Production of Rodger and Hammerstein's), Argyle Enterprises; Intérpretes: Julie Andrews (Maria), Christopher Plummer (Capitão Von Trapp), Eleanor Parker (a baronesa), Richard Haydn (Max Detweiler), Peggy Wood (Madre superior), Charmian Carr (Liesl), Heather Menzies-Urich (Louisa), Nicholas Hammond (Friedrich), Duane Chase (Kurt), Angela Cartwright (Brigitta), Debbie Turner (Marta), Kym Karath (Gretl), Anna Lee, Portia Nelson, Ben Wright, Daniel Truhitte, Norma Varden, Gilchrist Stuart, Marni Nixon, Evadne Baker, Doris Lloyd, Gertrude Astor, Alan Callow, Sam Harris, Jeffrey Sayre, etc. Duração: 174 minutos; Classificação etária: M/ 6 anos; Distribuição em Portugal (DVD e BluRay): Twentieth Century Fox / Pris Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 10 de Janeiro de 1966. 


JULIE ANDREWS (1935 - )
Julia Elizabeth Wells nasceu a 1 de Outubro de 1935, em Walton-on-Thames, Surrey, em Inglaterra. O pai, Edward Charles "Ted" Wells, era professor de trabalhos manuais, e a mãe, Barbara Ward Wells, pianista. Com dois anos de idade, começou a estudar dança com uma tia, Joan. Aos quatro anos, os pais divorciaram-se, ela ficou com a mãe e o padrasto, Ted Andrews, um cantor e artista de vaudeville, a quem foi buscar o seu novo nome. Ted Andrews descobriu que ela possuía uma bela voz que, devidamente trabalhada, iria torná-la famosa em toda Inglaterra. Teve então aulas de canto com Madame Lilian Stiles-Allen. Muito jovem ainda, estreou-se nos teatros do West End, em Londres, na década de 40, viajando depois para os EUA, lançando-se na Broadway em 1954 com o musical "The Boyfriend". Depois de passar pela televisão e de se estrear no cinema, Julie Andrews tornou-se a única actriz a ter vencido um Oscar num filme de Walt Disney, no musical “Mary Poppins” (1964), que lhe abriu as portas do sucesso. Mas, no ano seguinte, “Musica n Coração”, um dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos, catapulta-a para a glória. Rende-lhe várias nomeações para Oscars, Globos e outros prémios, e cimenta a sua reputação como actriz, cantora, bailarina, diretora teatral e escritora.
Casada com Tony Walton (1959-1967) e, posteriormente, com o realizador Blake Edwards (1969-2010), com quem trabalhou imenso, em vários filmes: “Darling Lili”, “The Tamarind Seed”, “The Pink Panther Strikes Again”, “Ten”, “S.O.B.”, “Victor Victoria”, “Trail of the Pink Panther”,  “The Man who Loved Women” ou “That's Life!”. Mas Julie Andrews participou ainda noutros filmes particularmente interessantes: “The Americanization of Emily", "Hawaii", "Torn Curtain", “Thoroughly Modern Millie" ou "Star!".
Sobre “Mary Poppins” e “My Fair Lady” há uma história curiosa a relembrar. Quem interpretou “My Fair Lady” no teatro foi Julie Andrews. Quando a Warner projectou a adaptação a cinema, escolheu Audrey Hepburn para protagonista. Esta, inicialmente, recusou, dizendo que teria de ser Julie Andrews a repetir no cinema o seu trabalho no teatro. Mas Jack Warner não aceitou a sugestão e contra-atacou: ou Audrey Hepburn aceitava, ou seria Elizabeth Taylor a ficar com o papel. Na sessão de entrega dos Oscars, estavam as duas nomeadas, e seria Julie a receber a estatueta. Ganharia também o Globo de Ouro para Melhor Actriz em filme musical, e, ao receber este prémio, Julie Andrews “vingou-se” com muito estilo. Agradeceu a Jack Warner, “pois graças a ele ter-lhe recusado o papel principal em “My Fair Lady”, ela pode aceitar interpretar “Mary Poppins”, e assim receber aquele prémio”.
Julie Andrews foi homenageada pela Rainha Elizabeth II com a Ordem do Império Britânico em 31 de dezembro de 1999, além de também ter sido eleita, em 2002, uma das 100 maiores personalidades britânicas de todos os tempos, ocupando a 59ª posição. Além de um Oscar para melhor actriz, conquistou cinco Globos de Ouro, três Grammys e dois Emmys, entre muitos outros prémios.
Em 1997, após uma cirurgia à garganta, viu afectadas as suas cordas vocais, o que a deixou profundamente deprimida, e a fez recorrer a um acompanhamento psicológico. Interrompeu a carreira, mas voltaria depois, sobretudo ao teatro. No cinema passou sobretudo a emprestar a sua voz a personagens de filmes de animação. Andrews também escreve livros infantis, e em 2008 publicou uma autobiografia intitulada "Home: A Memoir of My Early Years".
Pela sua contribuição à indústria cinematográfica, Andrews possui uma estrela no Wall of Fame, em Hollywood Boulevard, junto ao nº 6901. Na cerimónia dos Osacres de 2015 recebeu um tributo que lhe foi entregue por Lady Gaga que interpretou um conjunto de temas de “The Sound of Music”.


Filmografia

Como actriz: 1949: La rosa di Bagdad, de Anton Gino Domenighini (voz); 1953: Television Christmas Party (TV); 1956: Ford Star Jubilee (TV); 1957: Cinderella (TV); 1959: The Gentle Flame (TV); 1964: The Americanization of Emily (Herói Precisa-se), de Arthur Hiller; Mary Poppins (Mary Poppins), de Robert Stevenson; 1965: The Sound of Music (Música no Coração), de Robert Wise; 1966: Hawaii (Hawaii), de George Roy Hill; 1966: Torn Curtain (Cortina Rasgada), de Alfred Hitchcock; 1967: Thoroughly Modern Millie (Millie, Rapariga Moderna), de George Roy Hill; 1968: Star! (A Estrela!), de Robert Wise; 1970: Darling Lili (Querida Lili), de Blake Edwards; 1974: The Tamarind Seed (A Semente de Tamarindo), de Blake Edwards; 1976 A Pantera volta a atacar (The Pink Panther Strikes Again), de Blake Edwards (voz, não creditada); 1979: Ten (10 - Uma Mulher de Sonho) de Blake Edwards; 1980: Little Miss Marker (Jogar para Ganhar), de Walter Bernstein; 1981: S.O.B. (Tudo Boa Gente), de Blake Edwards; 1982: Victor Victoria (Victor/Victoria), de Blake Edwards; Trail of the Pink Panther (Na Pista da Pantera), de Blake Edwards (voz, não creditada); 1983: The Man who Loved Women (Os meus Problemas com as Mulheres), de Blake Edwards; 1986: Duet for One (Dueto só para um), de Andreï Kontchalovski; 1986: That's Life! (A Vida É Assim), de Blake Edwards; 1991: Our Sons (Os Filhos da Sida), de de John Erman (TV); 1992: Julie (TV); Cin cin ou A Fine Romance, de Gene Saks; 1995: Victor/Victoria (TV); One Special Night (TV); 2000: Relative Values, de Eric Styles; 2001: The Princess Diaries (O Diário da Princesa), de Garry Marshall; On Golden Pond (TV); 2002: Paraíso Filmes (TV); 2003: Unconditional Love (Quem Matou o Nosso Amante?) de P. J. Hogan; Eloise at Christmastime (TV); Eloise at the Plaza (TV); 2004: Shrek 2 (Shrek 2), de Andrew Adamson (voz); The Princess Diaries 2: Royal Engagement (O Diário da Princesa: Noivado Real) de Garry Marshall; The Cat That Looked at a King (Vídeo); Great Performances (TV) Cinderella; 2007: Shrek 3 (Shrek o Terceiro), de Chris Miller (voz); Enchanted (Uma História de Encantar) de Kevin Lima (narradora); 2010: Shrek Forever After (Shrek Para Sempre) de Mike Mitchell (voz); Despicable Me (Gru - O Maldisposto) de Chris Renaud e Pierre Coffin (voz); Tooth Fairy (A Fada dos Dentes) de Michael Lembeck;

SESSÃO 48: 26 DE DEZEMBRO DE 2016


TESS (1979)

“Tess of the d'Ubervilles”, escrito em 1891, é um dos mais conhecidos romances de Thomas Hardy, poeta e romancista inglês (1840-1928), nascido em Higher Bockhampton, Dorset, e falecido em Max Gate, Dorchester. Thomas Hardy, oriundo de uma família de classe média rural (o pai era construtor civil e viveram sempre no campo), assinou um conjunto de obras que se destacam no panorama da literatura inglesa dos séculos XIX e XX, como “Longe da Multidão” Estulta (1874), “O Prefeito de Casterbridge: A Vida e a Morte de um Homem de Carácter” (1886), “The Woodlanders” (1887), “Wessex Tales” (1888), o já referido “Tess of the d'Ubervilles” (1891), “Judas, O Obscuro” (1895) ou a antologia de poemas “Wessex Poems and other Verses” (1898). Os estudiosos da sua obra, quando a ele se referem, salientam “o pessimismo radical que caracteriza os seus romances”. De certa forma combatente contra uma tradição romântica, Hardy procurou uma escrita de tonalidades realistas, onde o retrato psicológico de personagens, sobretudo femininas, e de situações sociais muito definidas mostrasse bem a repressão social e sexual de uma sociedade injusta e preconceituosa como era aquela em que vivia e de que deu testemunho. Foi por isso considerado o "último dos grandes vitorianos".
Muitos dos seus romances e contos têm sido adaptados ao cinema e à televisão, com particular destaque para “Tess”, com versões desde 1913, “Longe da Multidão” (a primeira adaptação data de 1915) ou “The Mayor of Casterbridge” (1921). Mas as obras mais importantes retiradas de livros seus terão sido "Far from the Madding Crowd”, na versão de 1968, realizada por John Schlesinger, com Julie Christie, Peter Finch e Alan Bates, e a de 2015, dirigida por Thomas Vinterberg, com Carey Mulligan, Matthias Schoenaerts e Michael Sheen; “Jude”, de Michael Winterbottom, com Christopher Eccleston, Kate Winslet e Liam Cunningham; e “Tess”, de Roman Polanski, rodado em 1979, interpretado por Nastassja Kinski, Peter Firth e Leigh Lawson, com argumento escrito pelo próprio Polanski, de colaboração com Gérard Brach, seu cúmplice de sempre, e John Brownjohn.
Este era um projecto antigo do realizador franco-polaco, que já acalentava o desejo de levar Thomas Hardy ao ecrã quando ainda vivia na América, casado com Sharon Tate. Por isso esta obra de 1979 é dedicada a Sharon. Polanski nasceu em Paris, mas aos 3 anos de idade viajou para a Polónia, onde, em 1939, viu a família ser apanhada pelos nazis e posteriormente levada para campos de concentração, com sorte diferente: a mãe foi assassinada, o pai sobreviveu. Ele viveu como vagabundo, escondido em aldeias e florestas, até que, no final da guerra, ingressou no cinema, primeiro como actor, depois como realizador de curtas-metragens e da longa “A Faca na Água”, com que se torna notado internacionalmente. Viajou pela Europa, rodou “Repulsa” e “Cul-De-Sac - O Beco”, entre 1965 e 1966, em Inglaterra. Com “Por Favor Não Me Mordam o Pescoço” ligou a Inglaterra aos EUA, onde se instalou a partir de 1968, rodando inicialmente o perturbante “A Semente do Diabo”. Por essa altura, era casado com Sharon Tate, assassinada barbaramente pelo gang Mason, em 1969. Em 1974, filma um dos seus filmes mais carismáticos, o policial “Chinatown”, mas, acusado de ter violado uma jovem, foge dos EUA e da ordem de prisão, refugiando-se na Europa, onde prossegue uma carreira internacional. “O Inquilino”, “Tess”,”Piratas”, “Frenético”, “Lua de Mel, Lua de Fel” ou “A Noite da Vingança” são títulos deste período que culmina com outro grande sucesso seu, “O Pianista”, obra bastante autobiográfica, que recorda os seus tempos de criança no gueto de Varsóvia. Seguem-se “Oliver Twist”, “O Escritor Fantasma”, “O Deus da Carnificina” e “Vénus de Vison”, o que demonstra bem o pendor literário deste cineasta. Pendor literário que se manifesta abertamente em “Tess”, cuja história e retrato social se aproxima muito de “Oliver Twist” e do universo de Charles Dickens, ainda que este último tenha vivido apenas em pleno século XIX (ao contrário de Thomas Hardy, que abrangeu as três décadas iniciais do século XX).


“Tess” passa-se numa região fictícia criada por Thomas Hardy, o Wessex, e que está presente em várias obras suas. Mas estamos na Inglaterra rural do século XIX, e tudo aponta que a região seja a de Dorset, onde o escritor nasceu. Acontece que Polanski teve dificuldades em filmar nesse cenário natural, pois as transformações que se produziram entre o fim do século XIX e a actualidade foram radicais. Por isso, com o diretor artístico Pierre Guffroy, Polanski reconstituiu as paisagens britânicas nas regiões francesas da Bretanha e Normandia, onde encontraram explorações agrícolas que se assemelhavam em muito às inglesas de então. Importaram terra de Dorset para cobrir as estradas, transplantaram árvores e arbustos para reproduzir fielmente a paisagem requerida. Mesmo os actores passaram semanas a aprender ofícios ligados à lavoura e à agricultura, para melhor se identificarem com os personagens. Depois de muitos meses de preparação, as filmagens duraram mais oito meses, para desta forma se conseguir restituir o ritmo das estações do ano.
Tess (Nastassja Kinski), uma jovem camponesa de rara beleza e elegância, descendente de uma enorme e pobre família rústica, os Durbeyfields, com um pai dado à bebida, descobre que afinal fazem parte de uma abastada família vizinha, os d'Urberville. Procurando tirar partido dessa associação, e fazendo-se valer da beleza e do discreto fascínio de Tess, esta é enviada a casa de um primo, Alec d'Urberville (Leigh Lawson), que se prende de amores por ela, a seduz e viola. Alec nem é afinal nenhum d'Urberville de gema, apenas teria comprado o título, mas a verdade é que a intriga se entrelaça em situações de miséria moral e material, acabando Tess por atravessar um calvário bem próprio da condição da mulher neste final de seculo XIX. Hoje custa a acreditar nesta história, mas muitas são as fontes que corroboram tais situações de extrema dependência e preconceito.
O filme é de uma beleza invulgar, jogando com cenários naturais verdadeiramente sufocantes, restituídos através de uma fotografia admirável de Ghislain Cloquet (falecido durante a rodagem) e Geoffrey Unsworth. A interpretação de Nastassja Kinski é magnífica, numa mistura de tenacidade e ingenuidade, de voluntarismo e de luta contra a adversidade. Mas, a seu lado, Peter Firth (Angel Clare), Leigh Lawson (Alec d'Urberville), John Collin (John Durbeyfield),  Rosemary Martin, Carolyn Pickles, Richard Pearson, David Markham, Pascale de Boysson, e restante elenco são notáveis.
O sucesso de “Tess” a nível internacional foi grande. Nos Oscars, congregou seis nomeações, vencendo em três categorias (melhor direção artística, melhor fotografia e melhor guarda-roupa), e ficando sem estatueta nas categorias de melhor filme, melhor realizador e melhor partitura musical original. Nos BAFTAS, ganhou a melhor fotografia (fora ainda nomeado para melhor direção artística e melhor guarda-roupa) e nos Cesars foi considerado melhor filme, melhor realizador e melhor fotografia. Tendo ainda sido nomeado para melhor atriz, melhor design de produção e melhor partitura musical. Venceu ainda os Globos de Ouro como melhor filme em língua não inglesa e nova estrela do ano em cinema (Nastassja Kinski). Foi ainda nomeado para melhor realizador (cinema) e melhor atriz de cinema (drama), Nastassja Kinski.


TESS
Título original: Tess
Realização: Roman Polanski (França, Inglaterra, 1979); Argumento: Gérard Brach, Roman Polanski, John Brownjohn, segund romance de Thomas Hardy ("Tess of the d'Urbervilles"); Produção: Claude Berri, Timothy Burrill, Pierre Grunstein, Jean-Pierre Rassam; Música: Philippe Sarde; Fotografia (cor): Ghislain Cloquet, Geoffrey Unsworth; Montagem: Alastair McIntyre, Tom Priestley; Casting: Mary Selway; Design de produção: Pierre Guffroy; Direcção artística: Jack Stephens;Guarda-roupa: Anthony Powell;Maquilhagem: Alain Bernard, Didier Lavergne, Paul Le Marinel, Ludovic Paris; Direcção de Produção: Alain Depardieu, Paul Maigret,Tadek Zietara; Assistentes de realização: Hercules Bellville, Thierry Chabert, Romain Goupil, Hugues de Laugardière; Departamento de arte: Marcel Laude, Pierre Lefait, Jean-Claude Sévenet; Som: Hervé de Luze, Maurice Gilbert, Louis Gimel, Peter Horrocks, Jean-Pierre Lelong, Jean Nény, Alex Pront, Robert Rietty, Jean-Pierre Ruh, David Watts; Efeitos visuais: Frederic Moreau; Companhias de produção: Renn Productions, Timothy Burrill Productions, Société Française de Production (SFP); Intérpretes: Nastassja Kinski (Tess), John Collin (John Durbeyfield), Tony Church (Parson Tringham), Brigid Erin Bates (rapariga), Jeanne Biras (rapariga), Peter Firth (Angel Clare), John (Felix Clare), Tom Chadbon (Cuthbert Clare), Rosemary Martin (Mrs. Durbeyfield), Geraldine Arzul, Stephanie Treille, Elodie Warnod, Ben Reeks,Jack Stephens, Leigh Lawson (Alec d'Urberville), Lesley Dunlop, Maryline Even, Jean-Jacques Daubin, Sylvia Coleridge, Jacob Weizbluth, Peter Benson, Jacques Mathou, Véronique Alain, Richard Pearson, Fred Bryant, John Barrett, Anne Tirard, Carolyn Pickles, Suzanna Hamilton, Caroline Embling, Josine Comellas, Arielle Dombasle, David Markham, Pascale de Boysson, Gordon Richardson, Patsy Smart, Dicken Ashworth, Jimmy Gardner, Reg Dent, John Gill, Forbes Collins, Keith Buckley, John Moore, Patsy Rowlands, Graham Weston, Lina Roxa, etc. Duração: 186 minutos; Distribuição em Portugal: LNK (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Outubro de 1980. 
 

NASTASSJA KINSKI (1961 - )
Nastassja Aglaia Nakszynski nasceu a 24 de Janeiro de 1961, em Berlim, na RFA. (Mas existem fontes que dão como certo o ano de 1959 para o efeito). Filha do actor Klaus Kinski e de Ruth Brigitte Tocki. Infância problemática. Em 2013, a irmã de Nastassia, Pola, denunciou agressões sexuais praticadas pelo pai e a própria Nastassja declarou que ele também a tocava e a aterrorizava. Aos 14 anos, interpreta o seu primeiro filme, “Movimento em Falso”, de Wim Wenders, com quem voltaria a trabalhar, anos mais tarde, em “Paris, Texas” e “Tão Longe, Tão Perto”. Entretanto torna-se notada como modelo, estuda arte dramática em Londres e em Nova Iorque, no Actors Studio de Lee Strasberg, tendo como padrinho Roman Polanski, com quem ela havia tido uma relação. As fotos de Nastassja, tiradas por Polanski, e aparecidas na “Vogue” do Natal de 1976, provocaram grande sucesso. Ainda nos seus tempos de adolescente, em Berlim, chegou a passar alguns dias na prisão, por andar clandestinamente nos transportes públicos e ter-se recusado a fazer trabalho cívico num hospital. Entretanto, a sua carreira arranca de forma fulgurante em finais da década de 70, com um magnífico conjunto de títulos, a começar por “Tess”, de Roman Polanski (1979), “One from the Heart”, de Francis Ford Coppola (1982), “Cat People”, de Paul Schrader (1982), “Exposed”, de James Toback; “La Lune dans le caniveau”, de Jean-Jacques Beineix; “The Hotel New Hampshire, “Maria's Lovers”, de Andreï Kontchalovski, ou “Paris, Texas”, de Wim Wenders (1984). Por esta altura, Nastassja Kinski era uma grande vedeta internacional que muitos comparavam às mais míticas, Garbo ou Marlène, Ingrid Bergman ou Marilyn. Entretanto tem uma relação como o actor italiano, Vincent Spano, de que nasce um filho, Aljosha Kinski (1984). Casa-se nesse ano com o produtor Ibrahim Moussa que adopta a criança. Ambos terão um novo filho, em 1986, desta feita uma menina, Sonia Moussa. Após o divórcio, em 1992, uma ligação com Quincy Jones resulta noutra filha, Kenya, nascida em 1993. A sua carreira sofre um pouco com os sobressaltos da vida privada e igualmente com alguns insucessos. Vira-se mais para a Europa, em filmes menos interessantes, aparece mais na televisão, e ultimamente parece ter trocado a carreira de actriz pela de mãe, vivendo em Los Angeles, na Califórnia. Foi membro dos júris de Cannes (1988) e de San Sebastian (2014). É militante convicta da Cruz Vermelha Internacional, que apoia financeiramente e com acções mediáticas. Fala correntemente alemão, inglês, francês, italiano e russo.

Filmografia
Como Actriz / Cinema: 1975: Falsche Bewegung (Movimento em Falso), de Wim Wenders; 1976: To the Devil a Daughter (O Emissário do Diabo) de Peter Sykes; For Your Love Only, de Wolfgang Petersen; 1978: Leidenschaftliche Blümchen (Colégio de Jovens), de André Farwagi; Così come sei (Francesca, um Amor Impossível), de Alberto Lattuada; 1979: Tess (Tess), de Roman Polanski; 1982: One from the Heart (Do Fundo do Coração), de Francis Ford Coppola; Cat People (A Felina) de Paul Schrader; 1983: Frühlingssinfonie (Sinfonia da Primavera), de Peter Schamoni; Exposed (Revelação), de James Toback; La Lune dans le caniveau (A Lua na Valeta), de Jean-Jacques Beineix; 1984: Unfaithfully Yours (Infielmente Tua), de Howard Zieff; The Hotel New Hampshire (Hotel New Hampshire), de Tony Richardson; Paris, Texas (Paris, Texas), de Wim Wenders; Maria's Lovers (Os Amantes de Maria), de Andreï Kontchalovski; 1985: Revolution (Revolução), de Hugh Hudson; Harem (Harém), de Arthur Joffé; 1987: Maladie d'amour de Jacques Deray; 1989: Magdalene de Monica Teuber; Torrents of Spring, de Jerzy Skolimowski; 1989: In una notte di chiaro di luna (Morte Silenciosa) de Lina Wertmüller; 1990: L'Alba, de Francesco Maselli; Il Segreto, de Francesco Maselli; Il Sole anche di notte, de Paolo Taviani & Vittorio Taviani; 1991: Unizhennye i oskorblyonnye, de Andrei Eshpaj; 1992: In camera mia, de Luciano Martino; La Bionda, de Sergio Rubini; 1993: In weiter Ferne, so nah! (Tão Longe, Tão Perto), de Wim Wenders; 1994: Crackerjack (Rápido e Mortal), de Michael Mazo; Terminal Velocity (Velocidade Terminal), de Deran Sarafian; 1996: Somebody Is Waiting (Alguém Esperará por Ti), de Martin Donovan; 1997: Fathers' Day (O Dia dos Pais), de Ivan Reitman; Little Boy Blue (Um Rapaz, um Destino), de Antonio Tibaldi; One Night Stand (Cúmplice à Noite) de Mike Figgis; 1998: Ciro norte, de Erich Breuer (curta-metragem); Savior (Savior, Mercenário Americano), de Predrag Antonijevic; Your Friends & Neighbors (Amigos e Vizinhos), de Neil LaBute; Susan's Plan (P.F. Matem o meu marido), de John Landis; 1999: Playing by Heart (Entre Estranhos e Amantes), de Willard Carroll; The Lost Son, de Chris Menges; The Intruder, de David Bailey; 2000: The Magic of Marciano, de Tony Barbieri; 2000: Red Letters (Cartas Vermelhas), de Bradley Battersby; Time Share, de Sharon von Wietersheim; The Claim, de Michael Winterbottom; 2001: Cold Heart de Dennis Dimster; Town & Country (Sedução de Morte), de Peter Chelsom; An American Rhapsody (Uma Rapsódia Americana), de Éva Gárdos; Say Nothing (Não Digas Nada!), de Allan Moyle; Diary of a Sex Addict ou Le journal d'un obsédé sexuel (Diário de Um Viciado em Sexo), de Joseph Brutsman; 2001: Beyonds the City Limits) de Gigi Gaston; 2002: .com for Murder de Nico Mastorakis; 2003: Paradise Found, de Mario Andreacchio; 2004: À ton image (À Tua Imagem), de Aruna Villiers; 2006: Inland Empire (Inland Empire), de David Lynch; 2007: More Things That Happened (Vídeo); 2012: Il turno di notte lo fanno le stelle (curta-metragem); 2013: I Sugar, de Rotimi Rainwater;

Televisão: 1977: Tatort (Reifezeugnis); Notsignale; 1996: The Ring, de Armand Mastroiani; The Great War and the Shaping of the 20th Century; 1997: Les Bella Mafia; 1999: Brigade des mineurs; 2000: Quarantine; A Storm in Summer (Um Verão diferente), de Robert Wise; 2001: Washington Police; The District; Cold Heart; The Day the World Ended, de Terence Gross; Blind Terror, de Giles Walker; 2002: All Around the Town, de Paolo Barzman; 2003: Les Liaisons dangereuses, de Josée Dayan; 2004: La Femme Musketeer (A Filha do Mosqueteiro), de Steve Boyum. 

SESSÃO 46: 12 DE DEZEMBRO DE 2016


A HISTÓRIA DE ADELE H. (1975)

"A História de Adéle H.", partindo de factos concretos e de personagens reais, nomeadamente a filha de Victor Hugo, recria uma história de "amor louco", que progride até à demência, desenvolvendo-a com a sensibilidade, o pudor e o doloroso olhar que a figura frágil e teimosa de Adele Hugo requeria, baseando-se, para tanto, numa biografia dessa mulher misteriosa e no seu diário íntimo. Os pontos de contacto com "O Menino Selvagem" do mesmo Truffaut são frequentes, não só ao nível da construção do próprio filme, que se estrutura sobre textos, como ainda no tratamento dado à figura central desta obra, que tem semelhanças indiscutíveis com "L'Entant Sauvage".
Trata-se, aliás, de dois filmes sobre personagens marginalizadas "a contre coeur", que tentam reentrar na sociedade, ainda que recusando as regras e os padrões da vida estipulados. Adéle H. persegue um amor impossível, o que ela não aceita e contraria por todas as formas ao seu alcance, num percurso de trágicas ressonâncias. Para Adéle H., o tenente Pinson funciona como ideal a atingir, como meta a alcançar. Para o conseguir, para "tocar" essa ideia que lentamente se vai fixando no seu espírito. Adéle mobiliza todo o seu ser, toda a sua vontade, todo o seu amor. O que torna esta "historia" uma aventura de limites dúbios, oscilando entre a história de amor, romântica e excessiva, e a loucura. Limites que continuamente se esbatem, reservando-se ao espectador a liberdade de uma interpretação, de um juízo que, todavia, se sabe precário e falível. O que faz o fascínio desta obra que escorrega voluptuosamente por entre os dedos, desafiando o público, propondo-lhe o conhecimento (sempre improvável) de um rosto de mulher que intransigentemente caminha para o abismo, que o reconhece e, todavia, prossegue.


De resto, "A História de Adéle H." é uma admirável viagem ao século XIX, reconstituindo com minúcia um tempo, uma ambiência, o colorido de uma época, o pulsar de uma geração, Para o que a fotografia de Nestor Almendros e a música de Maurice Jaubert se revelam auxiliares indispensáveis, bem assim como a presença absorvente de lsabelle Adjani, um olhar macerado e dorido, iluminado, porém, pela esperança nunca destruída. Um filme secreto, que nos restitui Truffaut num ponto alto da sua carreira.

A HISTÓRIA DE ADÈLE H.
Título original: L'histoire d'Adèle H.
Realização: François Truffaut (França, 1975); Argumento: François Truffaut, Jean Gruault, Suzanne Schiffman, Frances Vernor Guille, segundo “Diário”, de Adèle Hugo; Música: Maurice Jaubert, Patrice Mestral, Jacques Noureddine, François Porcile; Fotografia (cor): Néstor Almendros; Montagem: Martine Barraqué, Yann Dedet, Jean Gargonne, Michèle Neny, Muriel Zeleny; Design de produção: Jean-Pierre Kohut; Guarda-roupa: Jacqueline Guyot;  Maquilhagem: Chantal Durpoix, Thi-Loan Nguyen; Direcção de Produção: Marcel Berbert, Claude Miller, Patrick Millet, Roland Thénot; Assistentes de realização: Carl Hathwe, Suzanne Schiffman; Departamento de arte: Daniel Braunschweig; Som: Michel Laurent, Jacques Maumont, Jean-Pierre Ruh; Companhias de produção: Les Artistes Associés, Les Films du Carrosse, Les Productions Artistes Associés; Intérpretes: Isabelle Adjani (Adèle Hugo / Adèle Lewly), Bruce Robinson (Lt Albert Pinson), Sylvia Marriott (Mrs. Saunders), Joseph Blatchley (Mr. Whistler), Ivry Gitlis (Hipnotista), Louise Bourdet  (criada de Victor Hugo), Cecil De Sausmarez (Mr. Lenoir), Ruben Dorey (Mr. Saunders), Clive Gillingham (Keaton), Roger Martin  (Dr. Murdock), M. White (Coronel), Pierre Leursse, Geoffroy Crook, Chantal Durpoix, Raymond Falla, David Foote, Jacques Frejabue, Carl Hathwell, Edward J. Jackson, Aurelia Mansion, Thi-Loan Nguyen, François Truffaut (oficial), Ralph Williams, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: LNK / MGM; Classificação etária: M/ 12 anos.


ISABELLE ADJANI (1955 - )
Isabelle Adjani é seguramente uma das mais belas e talentosas actrizes francesas de sempre, e uma das mais premiadas. De uma beleza serena, mas de um temperamento tempestuoso, Adjani escolhe e é escolhida para papéis de personagens nevróticas, intensas, por vezes frágeis, por vezes perturbadas, misteriosas, sufocadas pelo peso das convenções da sociedade. Foi das actrizes francesas de mais rápida ascensão e de maior fulgor ao longo das décadas.
Isabelle Yasmine Adjani nasceu a 27 de Junho de 1955 em Paris, França, filha de Mohammed Chérif Adjani, argelino, e de Emma Augusta Schweinberger, alemã. Desde muito jovem se sentiu impelida a representar. Cresceu em Gennevilliers, estudou no colégio Paul-Lapie em Courbevoie depois no liceu Jean-Jaurès, em Reims. Aos 12 anos era actriz de teatro amador, aos 14 surge num primeiro filme, “Le Petit Bougnat”, de Bernard Toublanc-Michel. Aos 17, já a vamos encontrar na televisão francesa, mas o seu primeiro grande triunfo terá sido no teatro, no palco da Comédie Française, onde interpretou personagens criadas por Molière e Lorca. Em 1974, ganha reputação no cinema, com “La Gifle”, mas é no ano seguinte, ao interpretar o papel principal em “A História de Adele H”, de François Truffaut, onde revive a figura da filha do escritor Victor Hugo, que atinge a glória nacional e internacional. Recebeu a primeira nomeação para o Oscar de Hollywood (a segunda, anos mais tarde, seria para o seu magnífico trabalho em “Camille Claudel”). Os prémios sucedem-se: em 1981, Adjani recebe o prémio de melhor actriz do Festival de Cannes pela sua participação em “Quarteto”. No ano seguinte, recebeu o César por “Possessão”, em actuação considerada pelos críticos a melhor de sua carreira, senão a mais difícil, porque Adjani interpretava o papel de uma mulher frustrada que enlouquecia aos poucos. Em 1983, recebeu novamente o “César” por “Verão Assassino”. Em 1989, coproduziu e interpretou “Camille Claudel”, história romanceada da escultora que se relacionou com o escultor francês Auguste Rodin. O filme de Bruno Nuytten valeu-lhe um terceiro César e mais uma nomeação para o Oscar de melhor actriz, além de concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. No mesmo ano, a revista americana “People” incluiu-a entre as 50 mulheres mais bonitas do mundo. O quarto César vai surgir em 1994, com “Rainha Margot” e o quinto é-lhe atribuído em 2010, pelo filme “La Journée de la jupe”. Nunca nenhuma outra actriz conseguiu até hoje tal feito: cinco César e ainda outras nomeações. Foi considerada a melhor actriz no Festival de Cannes de 1981, e no Festival de Berlim de 1989. Ganhou o David di Donatello em 1975, o prémio do National Board of Review, de 1975 e ainda, no mesmo ano, o New York Film Critics Circle Awards. Ganhou, em 1983, o prémio de melhor actriz do Fantasporto. Adjani tem dois filhos, Barnabé, do seu casamento com Bruno Nuytten, e Gabriel-Kane, de uma tempestuosa relação com o actor britânico Daniel Day-Lewis. Teve ainda uma relação prolongada com o compositor Jean Michel Jarre.  


Filmografia
Como actriz: 1970: Le Petit Bougnat, de Bernard Toublanc-Michel; 1972: Faustine et le Bel Été (Desejo de Amar), de Nina Companéez; 1973: L'école des femmes (TV); 1974: Ariane ou Espace zéro, de Pierre-Jean de San Bartholomé; La Gifle, de Claude Pinoteau; Le secret des Flamands (TV); L'avare (TV); 1975: L'Histoire d'Adèle H. (A História de Adèle H.), de François Truffaut; Ondine (TV); 1976: Barocco (Escândalo de Primeira Página), de André Téchiné; Le Locataire (O Inquilino), de Roman Polanski; 1977: Violette et François (Violette & François), de Jacques Rouffio; 1978: Driver (O Profissional), de Walter Hill; 1979: Nosferatu, fantôme de la nuit (Nosferatu, o Fantasma da Noite), de Werner Herzog; Les Sœurs Brontë (As Irmãs Bronte), de André Téchiné; 1981: Clara et les Chics Types, de Jacques Monnet; Quartet (Os anos Loucos de Montparnasse), de James Ivory; Possession (Possessão), de Andrzej Zulawski; L'Année prochaine... si tout va bien (Um Casamento Muito Especial), de Jean-Loup Hubert; 1982: Tout feu, tout flame (A Vida É Uma Festa), de Jean-Paul Rappeneau; 1982: Antonieta, de Carlos Saura; The Last Horror Film, de David Winters (não creditada); 1983: Mortelle Randonnée, de Claude Miller; L'Été meurtrier (O Verão Assassino), de Jean Becker; 1984: Pull marine (curta-metragem); 1985: Subway (Subterrâneo), de Luc Besson; 1986: T'as de beaux escaliers, tu sais, de Agnès Varda (curta-metragem); 1987: Ishtar (Ishtar), de Elaine May; 1988: Camille Claudel (A Paixão de Camille Claudel), de Bruno Nuytten; 1989: L'Après-Octobre, de Merzak Allouache (documentário); 1990: Lung Ta: les Cavaliers du vent, de Marie-Jaoul de Poncheville (narração); 1993: Toxic Affair, de Philomène Esposito; 1994: La Reine Margot (A Raínha Margot), de Patrice Chéreau; 1996: Diabolique (Diabólica), de Jeremiah S. Chechik; 1998: Paparazzi, de Alain Berbérian; 1999: Bonne Nuit (TV); 2002: La Repentie, de Laetitia Masson; 2002: Adolphe, de Benoît Jacquot; 2003: Bon Voyage (Boa Viagem), de Jean-Paul Rappeneau; 2003: Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran, de François Dupeyron; Figaro (TV); 2009: La Journée de la jupe (O Dia da Saia), de Jean-Paul Lilienfeld (TV); 2010: Mammuth, de Benoît Delépine e Gustave de Kerver; Guibert cinéma, de Anthony Doncque (documentário - narração);Raiponce, de Nathan Greno e Byron Howard (voz); 2011: De force, de Frank Henry; Aïcha (TV); 2012: David et Madame Hansen, de Alexandre Astier; 2013: Ishkq in Paris, de Prem Son; 2014: Sous les jupes des filles, de Audrey Dana;

No teatro: Na Comédie-Française: 1973: L'École des femmes, de Molière, encenação: Jean-Paul Roussillon; L'Avare, de Molière, encenação: Jean-Paul Roussillon; Port-Royal, de Henry de Montherlant, encenação: Jean Meyer; 1974: Ondine, de Jean Giraudoux, encenação: Raymond Rouleau; La Maison de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, encenação: Robert Hossein;  (reposição no Théâtre de l'Odéon);

Fora da Comédie-Française: 1972: La Maison de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, encenação: Robert Hossein, Maison de la Culture de Reims; 1983: Mademoiselle Julie, de August Strindberg, encenação: Jean-Paul Roussillon eis Andréas Voutsinas, Théâtre Édouard VII; 2000: La Dame aux camélias, de Alexandre Dumas e René de Ceccatty, encenação: Alfredo Arias, Théâtre Marigny; 2006: La Dernière Nuit pour Marie Stuart, de Wolfgang Hildesheimer, encenação: Didier Long, Théâtre Marigny; 2014-2015: Kinship, de Carey Perloff, encenação: Dominique Borg, Théâtre de Paris.