sábado, 31 de dezembro de 2016

SESSÃO 51: 16 DE JANEIRO DE 2017


ÁFRICA MINHA (1985)

Karen Blixen, ou Karen Christence, baronesa de Blixen-Finecke, mais conhecida pelo pseudónimo de Isak Dinesen, era dinamarquesa, nascida em final do século XIX e falecida em 1962, e veio a notabilizar-se como escritora, “contadora de histórias”, como ela gostava de se chamar, autora de alguns volumes de grande sucesso, como “Seven Gothic Tales”, “Out of Africa” (1937), “Winter's Tales” ou “Shadows on the Grass”. Passou grande parte da sua vida em África, precisamente no Quénia, onde teve uma fazenda, “no sopé das montanhas Ngongo”. Fugindo de um desgosto de amor, foi em África que se refugiou, casando com o barão Bror Blixen, irmão do seu antigo amante. O casamento é, obviamente, uma combinação por conveniência de ambas as partes: enquanto o barão encontra o capital necessário para montar uma plantação de café e poder continuar a viver em safaris de animais e de fortunas, Karen ganha um título nobilitário e uma pausa de reflexão em relação à sua vida na Dinamarca.
Em África, Karen Blixen descobrirá um continente fascinante, envolto numa estranha magia, que a apaixona para todo o sempre, marcando, daí para a frente, toda a sua vida e produção literária. Quando, em 1931, regressa à Dinamarca, depois de mais de 15 anos no continente africano, um dos seus trabalhos literários de maior repercussão será precisamente “Out of Africa”, um volume de pequenas histórias, recordações, episódios vividos ou imaginados, obra que está na origem do filme de Sydney Pollack. Este, no entanto, não se contenta em adaptar “Out of Africa”, mas conjuga-a com outros textos da mesma escritora; e ainda com obras biográficas como “Isak Dinesen: The Life of a Storyteller”, de Judith Thurman, ou “Silence Will Speak: A Study of the Life of Denys Finch Hatton and His Relationship With Karen Blixen”, de Errol Trzebinski. O resultado final será uma amálgama de referências que permitem reconstituir aspectos da vida desta mulher que atravessou o continente africano numa época particularmente reveladora (entre 1914 e 1931), mas esboçar, igualmente, um quadro impressionista e romanesco (pode mesmo ir-se mais longe e falar-se de romantismo) da sua paisagem geográfica e humana. É evidente, porém, que a África nunca funciona de forma autónoma, mas como cenário condicionante de uma vida. Cenário, todavia, trabalhado com o necessário rigor histórico, político e sociológico, que se pressente por detrás do tema central de Pollack. A protagonista é Karen e é através dela que tudo o mais surge, é através dos seus olhos que tudo é visto. Donde a justificação da “voz off”, que funciona como elemento unificado e descritivo conferindo a toda a toada da obra um tom memorialista.


Donde também essa sensação de “perda” de que todo o filme está imbuído, como contraponto a uma figura de obstinada pertinácia, de combate, de luta, de conquista. Mas tudo o que Karen toca parece esboroar-se e perder-se. Todo o filme se organiza, aliás, em função das sequências iniciais, passadas na Dinamarca, nas quais Karen confessa a perda da virgindade, ofertada a um amante que agora a ignora. Daí em diante, Karen vai procurar “conquistar”, um pouco como consequência lógica dessa “perda” original que a marca: ela compra um título, um marido, uma plantação, uma fábrica; ela quer um filho, um amante, de novo um marido; ela procura domesticar África, calçando luvas brancas nos empregados negros, desviando o curso dos rios, curando os nativos feridos, europeizando-lhe as roupas. Mas em tudo falha. O resultado é sempre uma perda (o filho que não pode ter; o marido de quem se divorcia; um outro que rejeita o casamento como acto de posse de um sobre outro; a fábrica que arde num incêndio; a África que não consegue dominar). Karen vai perdendo tudo, mas ganhando intimamente, enriquecendo-se em experiência e sabedoria. Retira as luvas brancas aos criados negros, e deixa o rio circular livremente no seu leito natural. Irá mesmo lutar por uma terra para os nativos que são desalojados das suas propriedades. Denys, o homem que ela não conseguiu conquistar, acabará por ser aquele que para sempre a marcará, precisamente porque foi o único que não a conseguiu compreender na sua complexidade (isto é, o único que se furtou ao seu enquadramento mental). Enquanto figura de mulher, Karen aproxima-se bastante da personagem de Scarlet O'Hara, de “E Tudo o Vento Levou”, e este paralelismo vale igualmente para o próprio tom romanesco da obra, que se aproxima da película de Victor Fleming, da mesma forma que se cruza com “Viagem para a Índia”, de David Lean. Em todas elas existe esse jogo de poder expresso a vários níveis, tecido em relações de forte acento sexual. Aliás, “África Minha” faz-nos comparticipar desse intenso clima erótico, sensual. Admiravelmente desenhado pela narrativa suave, discreta, mas vigorosa, intimista, quase mágica que Sydney Pollack imprime a toda a película numa evidente manifestação de mestria, de estilo dominado e austero, de rigor, de serenidade expositiva. Uma última palavra para a excelência da representação, acentuando-se não só o brilhantismo de Meryl Streep mas igualmente de Robert Redford e Klaus Maria Brandauer. Referência ainda à fotografia de David Watkin e à música de John Barry. Todos eles muito bem representados nos diversos Oscars e nomeações que a obra justificou. Estatuetas foram para Melhor Filme, Melhor Realizador (Sydney Pollack), Melhor Argumento Adaptado (Kurt Luedtke), Melhor Fotografia (David Watkin), Melhor Direcção Artística (Stephen B. Grimes, Josie MacAvin), Melhor Som (Chris Jenkins, Gary Alexander, Larry Stensvold, Peter Handford) e ainda Melhor Musica Original (John Barry). Meryl Streep ficou-se pela nomeação, bem como Klaus Maria Brandauer, nomeações que ainda sublinharam o trabalho de guarda-roupa e montagem. De resto, o filme anda ganhou dezenas e dezenas de outras distinções e muitos outros prémios.


ÁFRICA MINHA
Título original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1985); Argumento: Kurt Luedtke, segundo Karen Blixen ("Out of Africa" e outros escritos), Judith Thurman ("Isak Dinesen: The Life of a Story Teller") e Errol Trzebinski ("Silence Will Speak"); Produção: Anna Cataldi, Terence A. Clegg, Kim Jorgensen, Sydney Pollack, Judith Thurman; Música: John Barry; Fotografia (cor): David Watk; Montagem: Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp, William Steinkamp; Casting: Mary Selway; Design de produção: Stephen B. Grimes; Direcção artística: Colin Grimes, Cliff Robinson, Herbert Westbrook; Maquilhagem: J. Roy Helland, J. Roy Helland, Norma Hill, Mary Hillman, Joyce James, Gary Liddiard, Vera Mitchell; Direcção de Produção: Robin Forman Howard, Gerry Levy; Assistentes de realização: Roy Button, Jack Couffer, Patrick Kinney, George Menoe, Meja Mwangi, Tom Mwangi, David Tomblin, Simon Trevor, Lee Cleary, Michael Zimbrich; Departamento de arte: Bert Hearn, Geoff Langley, Frank Billington-Marks; Som: Gary Alexander, Peter Handford, Chris Jenkins, William L. Manger, Tom McCarthy Jr., Larry Stensvold, John Stevenson; Efeitos especiais: David Harris; Efeitos visuais: Syd Dutton, Mark Freund, Steve Gawley, Michael Gleason, Jay Riddle; Companhias de produção: A Mirage Enterprises Production / A Sydney Pollack Film; Universal Pictures Limited; Intérpretes: Meryl Streep (Karen), Robert Redford (Denys), Klaus Maria Brandauer (Bror), Michael Kitchen (Berkeley), Malick Bowens (Farah), Joseph Thiaka (Kamante), Stephen Kinyanjui (Kinanjui), Michael Gough (Delamere), Suzanna Hamilton (Felicity), Rachel Kempson (Lady Belfield), Graham (Lord Belfield), Leslie Phillips (Sir Joseph), Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda, Mohammed Umar, Donal McCann, Kenneth Mason, Tristram Jellinek, Stephen B. Grimes, Annabel Maule, Benny Young, Sbish Trzebinski, Allaudin Qureshi, Niven Boyd, Peter Strong, Abdulla Sunado, Amanda Parkin, Muriel Gross, Ann Palme, Keith Pearson, etc. Duração: 161 minutos; Distribuição em Portugal: Universal (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Fevereiro de 1986.


MERYL STREEP (1949 - )
Há muita gente que a considera a maior actriz viva. A Academia de Hollywood parece dar-lhes razão. Já a nomeou por 19 vezes para o Oscar de Melhor Actriz, tendo vencido por três vezes. Um “case study”, como é agora moda dizer-se. As nomeações: “The Deer Hunter” (1978), “Kramer vs. Kramer” (1979, ganhou, como actriz secundária), “The French Lieutenant's Woman” (1981), “Sophie's Choice” (1982, ganhou), “Silkwood” (1983), “Out of Africa” (1985), “Ironweed” (1987), “Evil Angels” (1988), “Postcards from the Edge” (1990), “The Bridges of Madison County” (1995), “One True Thing” (1998), “Music of the Heart” (1999), “Adaptation” (2002), “The Devil Wears Prada” (2006), “Doubt” (2008), “Julie & Julia” (2009), “The Iron Lady” (2011, ganhou), “August: Osage County” (2013) e “Into the Woods” (2014). Mas não são só os Oscars. Ela é seguramente das actrizes mais premiadas de sempre. 29 nomeações para os Globos de Ouro, que venceu por oito vezes, também novo recorde. Recebeu igualmente dois Emmys, dois Screen Actors Guild Awards, o prémio de melhor actriz no Festival de Cannes e no Festival de Berlim, cinco prémios do New York Film Critics Circle, dois BAFTA, dois Australian Film Institute Award, quatro indicações ao Grammy Award e uma indicação ao Tony Award, deixando de lado dezenas e dezenas de outros trofeus e distinções.
Mary Louise Streep nasceu a 22 de Junho de 1949, em Bernardsville, Summit, New Jersey, EUA. Os pais foram Harry William Streep, Jr., ligado à indústria farmacêutica, com ascendência alemã e suíça, e Mary Wolf, uma artista com ancestros de raízes inglesas, irlandesas e alemães.
Estudou no Bernards High School e depois no Vassar College, onde chegou a ser aluna da actriz Jean Arthur. Foi estudante do Dartmouth College e fez mestrado em Artes Dramáticas na Universidade de Yale, curso durante o qual participou de várias montagens teatrais, como “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare. Participou em diversos elencos em Nova Iorque e New Jersey, em peças como “Henry V”, “The Taming of the Shrew” ou “Measure for Measure”. Conheceu John Cazale, com quem viveu até à morte deste, três anos depois. Na Broadway lançou-se no musical “Happy End”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. No cinema, desponta em “Julia” (1977), e no ano seguinte, em “The Deer Hunter”, sendo particularmente notada e recebendo a sua primera nomeação para o Oscar. Nesse mesmo ano, surge na minissérie “Holocausto”, que lhe trouxe reputação nacional e internacional. Ganhou o Emmy para Melhor Actriz. Este foi o início fulgurante de uma carreira imparável. Em “Out of Africa” (1985) Meryl Streep interpretou a escritora dinamarquesa Karen Blixen. Sydney Pollack, o realizador, de início não a considerava a actriz ideal, por não a achar suficientemente sexy para a personagem. Ele pensava em Audrey Hepburn. Meryl não desarmou, apresentou-se no encontro com Pollack com sutiã com generoso postiço e bem decotado. Ganhou o papel. Em 1995, Streep contracenou com Clint Eastwood em “The Bridges of Madison County”, outro enorme sucesso. Mas o seu maior êxito comercial apareceria em 2008, com o musical “Mamma Mia!”, uma adaptação do musical da Broadway com canções do grupo sueco ABBA, que arrecadou 602,6 milhões de dólares, a maior receita entre os musicais de todos os tempos.
Recebeu o prémio honorário do American Film Institute em 2004 e o Kennedy Center Honor em 2011, ambos pela sua contribuição para a cultura dos Estados Unidos através das artes performativas, sendo a mais jovem artista da história a receber tal distinção. Foi condecorada por duas vezes pelo presidente Barack Obama, em 2010 e 2014, com a Medalha Nacional das Artes e a Medalha Presidencial da Liberdade, mais alta condecoração civil dos Estados Unidos.
Entre 1984 e 1990, ganhou seis People's Choice Awards para a melhor atriz cinematográfica, e em 1990 foi indicada como a "Melhor do Mundo". Em Setembro de 1998 recebeu uma estrela no Hall of Fame de Hollywood, localizada no número 7020 da Hollywood Boulevard. Quatro anos antes, em 1994, deixara a marca dos pés e mãos, além da assinatura frente ao Grauman's Chinese Theatre. Em 2007, juntamente com Bruce Springsteen e Frank Sinatra, foi inscrita no New Jersey Hall of Fame, onde se homenageiam personalidades de diversas áreas, do desporto à política, nascidos naquele estado e que contribuíram de maneira expressiva para a cultura mundial.
Meryl Streep viveu com o actor John Cazale durante os últimos três anos da vida deste, que morreria com um cancro nos ossos. Nas últimas semanas de vida de Cazale, a actriz mudou-se para o hospital onde diariamente lia o jornal para o companheiro, com a sonoridade de um comentador desportivo. Em Setembro de 1978, casou com o escultor Don Gummer. Em 2013, no agradecimento ao Oscar, Meryl dedicou o prémio ao marido. Disse: “Em primeiro lugar gostaria de agradecer a Don, porque quando se agradece ao marido no final do discurso, eles aumentam o volume da música e deixa de se ouvir e eu faço questão de que ele saiba que tudo que eu valorizo nas nossas vidas foi ele que me deu". Tiveram quatro filhos: Henry Wolfe Gummer, nascido em 1979; Mamie Gummer, nascida em 1983; Grace Gummer, nascida em 1986; e Louisa Jacobson Gummer, nascida em 1991. Tanto Mamie como Grace são actrizes, enquanto Henry é músico e actor.


Filmografia

Como actriz: 1975: Everybody Rides the Carousel, de John Hubley; 1977: Julia (Julia), de Fred Zinnemann; The Deadliest Season (TV); 1977-1979: Great Performances (TV); 1978: The Deer Hunter (O Caçador), de Michael Cimino; Holocaust (Holocausto), de Marvin J. Chomsky (TV); 1979: Manhattan (Manhattan), de Woody Allen; The Seduction of Joe Tynan (A Sedução de Joe Tynan), de Jerry Schatzberg; Kramer vs. Kramer (Kramer Contra Kramer), de Robert Benton; Uncommon Women... and Others de Merrily Rossman e Steven Robman (TV);1981: The French Lieutenant's Woman (A Amante do Tenente Francês), de Karel Reisz; 1982: Still of the Night (Na Calada da Noite), de Robert Bento; Sophie's Choice (A Escolha de Sofia), de Alan J. Pakula; Alice at the Palace (TV); 1983: Silkwood (Reacção em Cadeia), de Mike Nichols; 1984: Falling in Love (Encontro com o Amor), de Ulu Grosbard; Little Ears: The Velveteen Rabbit de Mark Sottnick (curta-metragem, narradora); In Our Hands (documentário); 1985: Plenty (Plenty, Uma História de Mulher), de Fred Schepisi; Out of Africa (África Minha) de Sydney Pollack; 1986: Heartburn (A Difícil Arte de Amar), de Mike Nichols; Rabbit Ears: The Tale of Mr. Jeremy Fisher (curta-metragem, narradora, vídeo); Rabbit Ears: The Tale of Peter Rabbit (curta-metragem, vídeo, narradora); 1987: Ironweed (Estranhos na Mesma Cidade), de Hector Babenco; The Tailor of Gloucester (curta-metragem, narradora, vídeo); 1988: A Cry in the Dark (Um Grito de Coragem), de Fred Schepisi; 1989: She-Devil (Demónio de Saias), de Susan Seidelman; Rabbit Ears: The Fisherman and His Wife (curta-metragem, narradora, vídeo); 1990: Postcards from the Edge (Recordações de Hollywood) de Mike Nichols; 1991: Defending Your Life (Em Defesa da Vida), de Albert Brooks; 1992: Death Becomes Her (A Morte Fica-vos Tão Bem), de Robert Zemeckis; 1993: The House of the Spirits (A Casa dos Espíritos), de Bille August; 1994: The River Wild (Rio Selvagem), de Curtis Hanson; Os Simpsons (TV); A Century of Cinema, de Caroline Thomas (documentário); 1995: The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison County) de Clint Eastwood; 1996: Before and After (Antes e Depois), de Barbet Schroeder; Marvin's Room (Duas Irmãs) de Jerry Zaks; 1997: Juramento do Amor (TV); First Do No Harm, de Jim Abraham; 1998: Dancing at Lughnasa (Dançando em Lughnasa), de Pat O'Connor; One True Thing (Podia-te Acontecer), de Carl Franklin;1999: Music of the Heart (Melodia do Coração), de Wes Craven; King of the Hill (TV) - A Beer Can Named Desire; Ginevra's Story: Solving the Mysteries of Leonardo da Vinci's First Known Portrait (narração); Chrysanthemum (curta-metragem. Narração); 2001: Artificial Intelligence: AI (A.I. Inteligência Artificial) de Steven Spielberg; 2002: Adaptation. (Inadaptado), de Spike Jonze; The Hours (As Horas), de Stephen Daldry: 2003: Stuck on You (Agarrado a Ti), de Peter e Bobby Farrelly; Freedom: A History of Us (TV documentário); Angels in America (Anjos na América), de Mike Nichols (TV); 2004: The Manchurian Candidate (O Candidato da Verdade) de Jonathan Demme; Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events (Lemony Snicket's: Uma Série de Desgraças), de Brad Silberling; 2005: Prime (Terapia do Amor), de Ben Younger; 2006: The Music of Regret, de Laurie Simmons (curta-metragem); 2006: The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada), de David Frankel; A Prairie Home Companion (A Praire Home Companion - Bastidores da Rádio) de Robert Altman; Ant Bully (O Rapaz Formiga) de John A. Davis (voz); Hurricane on the Bayou, de Greg McGillivray (narradora) (documentário); 2007: Lions for Lambs (Peões em Jogo) de Robert Redford; 2008: The Magic 7 de Roger Holzberg; Rendition (Detenção Secreta), de Gavin Hood; Evening (Ao Anoitecer) de Lajos Koltai; Dark Matter (Matéria Negra), de Shi-Zheng Chen; Mamma Mia! (Mamma Mia!), de Phyllida Lloyd; Doubt (Dúvida), de John Patrick Shanley; Ribbon of Sand, de John Grabowska (documentário); Theater of War, de John W. Walter (documentário); 2009: Julie & Julia (Julie & Julia), de Nora Ephron; It's Complicated (Amar... é Complicado!), de Nancy Meyers; Fantastic Mr. Fox (O Fantástico Senhor Raposo), de Wes Anderson: (voz); 2010: Web Therapy (TV);2010 – 2012: Web Therapy (TV); 2011: The Iron Lady (A Dama de Ferro), de Phyllida Lloyd; 2012: Hope Springs (Terapia a Dois), de David Frankel; 2013: August: Osage County (Um Quente Agosto), de John Wells; 2014: The Homesman (The Homesman - Uma Dívida de Honra), de Tommy Lee Jones; Into the Woods (Caminhos da Floresta), de Rob Marshall; The Giver (The Giver - O Dador de Memórias), de Phillip Noyce; 2015: Suffragette (As Sufragistas), de Sarah Gavron; Ricki and the Flash (Ricki e os Flash), de Jonathan Demme; 2016: Florence Foster Jenkins, de Stephen Frears;

SESSÃO 50: 27 DE FEVEREIRO DE 2017


 CARTEIRO TOCA SEMPRE DUAS VEZES(1981)

O romance de James M. Cain que está na base de “O Carteiro Toca sempre Duas Vezes” é uma das obras mais polémicas e controversas da rica e complexa literatura policial norte-americana. A sua primeira edição data de 1934, tornando-se logo um “best seller” em muitos Estados e uma obra proscrita noutros (em Boston, por exemplo, era julgada por obscenidade, enquanto no Canadá era proibida a sua venda). Apreciado desde logo pelo meio cinematográfico norte-americano (a MGM tentou quase de imediato a sua transposição para o cinema), este romance de amor e morte, de paixão e ódio esbarrava obviamente contra as ferozes prescrições do código de censura Haye, que impedia a sua adaptação. Foi, por isso que as primeiras versões desta obra surgiriam na Europa: em 1939, em França, Pierre Chenal roda “Le Dernier Tournant” (com Michel Simon no papel do marido assassinado) e, em 1942, em Itália, o então estreante Luchino Visconti abalançava-se no seu primeiro filme de fundo, pondo em imagens o mesmo romance de James M. Cain, agora sob a designação de “Ossessione” (com Massimo Giroti e Clara Calamar nos papéis dos “amantes diabólicos”, título da tradução francesa).  .
Só em 1945, depois de duas outras obras de Cain terem passado ao cinema (“Double Indemnity” e “Mildred Pierce”) é que “The Postman Always Rings Twice” conseguiu saltar para o ecrã, mesmo assim numa versão algo estilizada, que adultera uma parte das características essenciais do romance. Obedecendo, no entanto, ao espírito da época e aos ditames da censura, Tay Garnet dirige Lana Turner e John Garfield numa película que se revela extremamente interessante e enriquece o “filme negro”.
A partir de 1945, várias foram as tentativas empreendidas por Hollywood para reeditar esta obra. Caberia a Bob Rafelson a oportunidade. Bob Rafelson foi o “autor” de “Five Easy Pieces” (Destinos Opostos), um filme de 1970 que revelava de imediato um cineasta. Mas a sua sorte teve curta duração. A seguir a esta obra rodaria duas outras (“The King of Marvin Gardens” e “Stay Hungry”) que redundaram em completos “flops” comerciais, e fizeram esquecer a boa estrela de 70. Entre os produtores de Hollywood, Rafelson era nome que não garantia um bom empate de capital. Por isso se compreende que o cineasta tenha aceitado esta “encomenda”, sem acreditar muito nela de início.


Mas à medida que ia trabalhando no argumento, de colaboração com David Mamet, Rafelson foi-se dando conta da força do material que tinha entre mãos. Mantendo-se escrupulosamente fiel ao texto de James M. Cain (o que até 1981 nunca havia acontecido, mercê de diversas imposições), o cineasta deixa-se seduzir pelo ambiente social e moral de um período determinado (e determinante) da história da América (estamos nos últimos anos da Grande Depressão, com desemprego e miséria, inflação e racionamento) e pelas suas consequências no comportamento psicológico de três ou quatro personagens que irão ser apanhadas pelo vértice de uma história de desejo incontrolado que se transforma numa obsessão de trágicas repercussões. Frank Chambers (Jack Nicholson), que tudo nos diz ser um daqueles vagabundos de estrada que povoam a América, sobrevivendo à base de expedientes diversos, fica como empregado de estação de serviço, numa pequena estrada da Califórnia. Os seus patrões são Nick Papadakis (John Colicos) e Cora Papadakís (a surpreendente e fascinante Jessica Lang, a mesma que fora, anos antes, a presa de King Kong na versão Dino de Laurentiis). A paixão que envolve Frank e Cora é brutal e totalmente amoral, pecaminosa e perversa, sem que, no entanto, de vez em quando, não deixe de assomar aos seus rostos uma expressão de pureza, uma sensação de anjos caídos e perdidos no lamaçal. Nick é o empecilho grego que é necessário afastar. Para isso forjam-se os acidentes “fortuitos”: o primeiro, uma queda na banheira, depois um desastre de carro. Mas a polícia, desconfia, acaba por prender e julgar o casal, que consegue salvar-se da cadeia com base numa falcatrua que os transcende, e que inclui os interesses de companhias de seguros. Não entrando em pormenores de argumento, que não interessam por agora, diremos apenas que os primeiros encontros de Frank e Cora são uma explosão de desejo armazenado que se liberta de forma selvagem. Excelente é a cena de amor (será amor essa junção de corpos que parece apenas saciar a carne, sem nenhuma outra contrapartida) que une pela primeira vez Frank e Cora numa mesa de cozinha, por entre pães já cozidos e massa e farinha, imagens de um erotismo feroz, sem limites nem fronteiras, que nos restitui a face do desejo como raras vezes o cinema no-lo havia mostrado.
Com o andar dos tempos, a vida em conjunto, os crimes de que ambos são co-autores, as contrariedades por que têm de passar e conjuntamente enfrentar, fazem de Frank e Cora um casal unido já por sentimentos que transcendem o simples (?) desejo, mas aí, o destino irá demonstrar que “o carteiro toca sempre duas vezes” e que se da primeira vez se livraram da má sorte, da segunda não conseguem fugir. 
Notável é a fotografia do mestre sueco Sven Nykvist, bem servida pelos cenários de George Jenkins. Jack Nicholson é o actor versátil e nervoso que já nos habituou com interpretações brilhantes, mas Jessica Lang é a grande, a enorme revelação. Ela é o grande trunfo de Bob Rafelson que soube tirar todo o partido desse corpo sensual, desse rosto de uma “beleza maldita”, desses olhos de um apetite voraz. Acreditávamos na altura que Jessica Lang seria a grande vedeta americana da década de 80, e logo no ano seguinte nos daria um brilhante “Frances”. Depois de uma passagem mais ou menos inócua pelas mãos de King Kong, Jessica Lang desperta com o beijo do monstro sob a direcção de Bob Rafels. Inesquecível.

O CARTEIRO TOCA SEMPRE DUAS VEZES
Título original: The Postman Always Rings Twice
Realização: Bob Rafelson (EUA, RFA, 1981); Argumento: David Mamet, segundo romance de James M. Cain; Produção: Michael Barlow, Andrew Braunsberg, Charles Mulvehill, Bob Rafelson; Música: Michael Small; Fotografia (cor): Sven Nykvist; Montagem: Graeme Clifford; Casting: Terry Liebling; Design de produção: George Jenkins; Decoração: Robert Gould; Guarda-roupa: Dorothy Jeakins; Maquilhagem: Dorothy J. Pearl, Toni-Ann Walker; Direcção de Produção: Gerald R. Molen; Assistentes de realização: Nick Marck, Bill Scott; Departamento de arte: Donald Krafft, William Maldonado, Ray Mercer Jr., William Ladd Skinner; Som: Bub Asman, Robert G. Henderson, Brian L. McCarty, Alan Robert Murray, Art Rochester, Norman B. Schwartz, Richard Thornton, Bill Varney; Efeitos especiais: Jerry D. Williams, Jan Aaris, Bruno Van Zeebroeck; Companhias de produção: CIP Filmproduktion GmbH, Lorimar Film Entertainment, Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Northstar International; Intérpretes: Jack Nicholson (Frank Chambers), Jessica Lange (Cora Papadakis), John Colicos (Nick Papadakis), Michael Lerner (Mr. Katz), John P. Ryan (Kennedy), Anjelica Huston (Madge), William Traylor (Sackett), Thomas Hill (Barlow), Jon Van Ness, Brian Farrell, Raleigh Bond, William Newman, Albert Henderson, Ken Magee, Eugene Peterson, Don Calfa, Louis Turenne, Charles B. Jenkins, Dick Balduzzi, John Furlong, Sam Edwards, Betty Cole, Joni Palmer, Ron Flagge, Lionel Mark Smith, Brion James, Frank Arno, Virgil Frye, Kenneth Cervi, Chris Rellias, Theodoros A. Karavidas, Basil J. Fovos, Nick Hasir, Demetrios Liappas, James O'Connell, William H. McDonald, Elsa Raven, Kopi Sotiropulos, Tom Maier, Glenn Shadix, Tani Guthrie, Carolyn Coates, Jim S. Cash, Christopher Lloyd (caixeiro viajante), James P Axiotis, Morgan Blanchard, Luther Fear, Chuck Liddell, etc. Duração: 122 minutos; Distribuição em Portugal: Warner (DVD); Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Outubro de 1981.


JESSICA LANGE (1949 - )
Apareceu no cinema como protagonista. Era a Bela junto do Monstro, na versão de 1976, de “King Kong”. Foi um sucesso, mas muitos acreditaram que esse êxito se ficava a dever à sua beleza e formas exuberantes. Mas três anos depois impunha-se definitivamente como uma grande actriz em filmes como “All That Jazz”, de Bob Fosse, “The Postman Always Rings Twice”, de Bob Rafelson, “ Tootsie” de Sydney Pollack, “Frances”, de Graeme Clifford ou “Country”, de Richard Pearce. Foi assim que começou o triunfo. No mesmo ano de 1982, foi nomeada para Melhor Actriz (Frances), e Melhor Actriz Secundária (Tootsie), que ganharia. Em 1984, com “Country”, voltaria a ser nomeada, bem assim como com Sweet Dreams (1985) e Music Box (1989). Voltaria a ganhar com “Blue Sky”, em 1995. E ao lado dos Oscars, guarda uma considerável quantidade de prémios e recompensas. Ela é uma das actrizes mais premiadas entre 1980 e 2000, com uma carreira extremamente bem gerida e magnificamente interpretada. “Crimes of the Heart”, “Far North”, “Music Box”, “Cape Fear” ou “Night and the City” são apenas mais alguns exemplos. 
Jessica Phyllis Lange nasceu a 20 de Abril de 1949, em Cloquet, Minnesota, EUA, filha de Dorothy Florence e Albert John Lange, um professor e caixeiro-viajante. Estudou na Cloquet High School e recebeu uma bolsa para estudar arte e fotografia na Universidade de Minnesota, onde conheceu um fotógrafo espanhol. Foi casada com Francisco Paco Grande (1970 - 1981), casamento que acabou em divórcio. Mas, durante o casamento, usufruíram de uma vida boémia, viajaram pelos EUA, México e França, onde se separaram. Foi modelo em Nova Iorque, na Wilhelmina Models, onde foi descoberta por Dino De Laurentiis, que procurava a protagonista para colocar nas mãos de King Kong, Assim foi e o resto já sabem. Em 1992, estreia-se na Broadway, no papel de "Blanche" na célebre peça de Tennessee Williams, "A Streetcar Named Desire". Na televisão, em 2011, entrou para o elenco de “American Horror Story”, onde permaneceu durante quatro temporadas (Murder House, Asylum, Coven e Freak Show). Manteve uma longa relação com o actor e dramaturgo Sam Shepard (1982-2009). Classificada em 64º lugar no inquérito da revista “Empire” sobre as “ 100 Sexiest Stars in Film History”.


Filmografia

Como actriz: 1976: King Kong (King Kong), de John Guillermin; 1979: All That Jazz (All That Jazz: O Espectáculo Vai Começar), de Bob Fosse; 1980: How to Beat the High Co$t of Living (Não Há Nada Para Ninguém), de Robert Scheerer; 1981: The Postman Always Rings Twice (O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes), de Bob Rafelson; 1982: Tootsie (Tootsie - Quando Ele Era Ela), de Sydney Pollack; Frances (Frances), de Graeme Clifford; 1984: Country (Country - A minha terra), de Richard Pearce; 1985: Sweet Dreams (Depois da Meia-Noite), de Karel Reisz; Cat on a Hot Tin Roof (TV); 1986: Crimes of the Heart (Crimes do Coração), de Bruce Beresford; 1988: Everybody's All-American (Morrer de Amor), de Taylor Hackford; Far North (Ordem de Execução), de Sam Shepard; 1989: Music Box (O Enigma da Caixa de Música), de Costa-Gavras; 1990: Men Don't Leave (Homens de Verdade), de Paul Brickman; 1991: Cape Fear (O Cabo do Medo), de Martin Scorsese; 1992: Night and the City (Noite na Cidade), de Irwin Winkler; O Pioneers! (TV); 1994: Blue Sky (Céu Azul), de Tony Richardson; 1995: Rob Roy (Rob Roy), de Michael Caton-Jones; 1995: A Streetcar Named Desire (TV); 1995: Losing Isaiah (Todos Diferentes, Todos Iguais), de Stephen Gyllenhaal; 1997: A Thousand Acres (Amigas e Rivais), de Jocelyn Moorhouse; 1998: Hush (Relação Mortal), de Jonathan Darby; Cousin Bette, de Des McAnuff /  Stories from My Childhood (TV); 1999: Titus (Titus), de Julie Taymor; 2001: Prozac Nation (Prozac), de Erik Skjoldbjærg; 2003: Big Fish (O Grande Peixe), de Tim Burton; Normal (TV); Masked and Anonymous, de Larry Charles; 2005: Neverwas (Terra Mágica), de Joshua Michael Stern; 2005: Broken Flowers (Broken Flowers - Flores Partidas), de Jim Jarmusch; Don't Come Knocking (Estrela Solitária), de Wim Wenders; 2006: Bonneville (Bonneville), de Christopher N. Rowley; 2007: Sybil (TV); 2009: Grey Gardens (TV); 2011: Murder House, de Bradley Buecker / American Horror Story (TV); 2012: The Vow (Prometo Amar-te), de Michael Sucsy; 2014: Freakshow The Gambley, de Rupert Wyatt; 2015: Wild Oats, de Andy Tennant.

SESSÃO 49: 2 DE JANEIRO DE 2017


ATLANTIC CITY (1979)

Louis Malle, cineasta francês que aparece inscrito no movimento da “nouvelle vague”, em fins da década de 50, inícios da seguinte, com filmes como “Ascenseur pour l'Echafaud” (57), “Os Amantes” (58), “Zazie dans le Metro” (60) “Vida Privada” (61), “Le Feu Follet” (63), confirmando-se depois com uma produção um pouco mais “internacionalizada” com “Viva Maria” (65), “O Ladrão” (66), um episódio de “Histórias Extraordinárias” (67) e outras mais pessoais, como “Calcutta” (68), “Le Soufle au Coeur” (70) ou “Lacombe Lucien” (75), emigra para os Estados Unidos onde dirige “Black Moon” 'e “Pretty Baby”, este em 1977, prometendo adoptar Hollywood como segunda pátria. Isso mesmo parece ser confirmado com “Atlantic City”, rodado em 1979, e que alcançaria o “Leão de Ouro”, do Festival de Veneza de 1980. Digamos que enquanto “Pretty Baby” era um filme europeu rodado na América, este “Atlantic City” já se aproxima muito do que se pode considerar “um filme americano realizado por um europeu”, o que não é bem a mesma coisa.    
Na verdade, Atlantic City é um filme sobre uma realidade americana, mais precisamente uma cidade em transformação, com pessoas e situações americanas, filmadas de uma forma americana. O argumento é de John Guare, e este facto terá tido a sua importância, mas no essencial foi o cinema de Louís Malle, que se adaptou a um estilo directo e linear, ao ambiente de “filme negro” e a um certo tipo de personagens que trazem uma carga simbólica que só pode entender-se inteiramente quando referenciadas à América.


O filme chama-se “Atlantic City” e cremos que a cidade é a protagonista desta história de amor e morte. Atlantic City tem uma história curiosa, que é conveniente conhecer um pouco para se compreender melhor a película de Malle. Durante os anos 20-30, foi uma estância balnear florescente, réplica americana da Côte D'Azur francesa. Mas começou igualmente por ser uma cidade conhecida, em inícios do século XX, como uma das bases do “gangsterismo” e da Mafia na Costa-Este, progredindo em associação com a venda ilegal de bebidas alcoólicas, durante o período da sua proibição. A depressão de 1929 causou um profundo abalo na sua estrutura social e grande parte da sua celebridade apagou-se com o rolar dos tempos, até fazer dela uma cidade-fantasma. Nos anos 60, a desolação era total e tudo caminhava para a ruína irremediável. A cidade deixou a humidade do Atlântico corroer-lhe as fachadas dos prédios, minar-lhe os alicerces e as suas avenidas de madeira começaram a escorregar para o esquecimento, por troca com outras cidades, então mais na moda.
Em 1978, porém, o estado de New Jersey legalizou o jogo e estabeleceu-o em Atlantic City, que ficava assim a ocupar na Costa-Este o lugar de Las Vegas na Costa-Oeste. O progresso económico, ou “uma certa forma” de progresso económico, voltaria à cidade, que renascia das cinzas, abatendo impiedosamente os velhos edifícios, símbolos de um passado que se queria enterrado e esquecido, enquanto sobre os escombros, se erguiam novas construções, modernas e arrojadas, que iriam voltar-se essencialmente para “o pequeno e o grande”, o “vermelho e o preto”, “as dúzias” e “os plenos”. Da Europa chegam os mestres croupiers, que ensinam a “arte” aos neófitos (veja-se a figura interpretada por Michel Picolli), enquanto pelos decadentes apartamentos do passado, aguardando ordem de despejo, sobrevivem velhas personagens de uma época de ouro irreversivelmente ultrapassada. É o caso de Lou (Burt Lancaster), pobre diabo envelhecido e deixado à deriva numa cidade que lhe é cada vez mais estranha, onde vive de biscates, de jogo clandestino e dos pequenos favores de uma viúva entrevada, que lhe vai pagando como pode os passeios higiénicos do seu carrocha de estimação.
O jogo foi legalizado neste ponto de New Jersey, a duas centenas de quilómetros de Nova Iorque e, com a abertura de novos e sofisticados casinos, a cidade readquiriu o movimento perdido. As velhas estruturas de um passado requintado são ainda visíveis hoje em dia por quem percorrer as suas ruas e atentar na bela arquitectura “art nouveau” que, pouco a pouco, vai sendo demolida, dando lugar a enormes blocos com as insígnias do “Play Boy”, do “Caesar Palace” ou do “Resorts”. O filme de Louis Mallle capta de tal forma essa mutação nostálgica e dramática, que nos obrigou a um desvio de duas horas e meia, de Nova Iorque a Atlantic City, numa viagem num mítico “Greyhound” que nos deixou à porta do Resorts International, só para percorrer o caminho que diariamente Burt Lancaster fizera, levando pela trela o cão de Grace. A viagem justificava-se, em grande parte, pela empatia que as imagens do filme provocavam e que demonstram como se pode instigar o desejo de pertencer a algo, dele falando. Porque “Atlantic City”, para lá de ser um filme sobre a velhice e a morte de uma cidade e de um homem, é também um filme sobre a juventude que procura um rumo e o encontra entre esses dois universos. A uma mesa de jogo. Cenário de um desejo que se transforma já em obsessão, em risco, em aposta total.


Como não podia deixar de ser, atrás dos casinos regressou a Mafia e os seus interesses, segundo regras de um jogo mais sofisticado. O lucro agora chama-se droga e nas velhas veias rejuvenescidas desta cidade ela irá desempenhar um papel relevante. Um velho “gangster” falhado será apanhado pela teia cerzida pelo dinheiro fácil da droga e, no turbilhão de uma história de amor impossível, que o faz acreditar de novo em si, acabará por cumprir na realidade o sonho que de si fizera: como herói de saga antiga tombará para sempre, nostálgico de tempos que não soube viver e desadaptado de outros, onde se não soube integrar. Um painel turístico anuncia a realidade, que tem de passar pela morte dos velhos tempos: “Atlantic City is coming back to life again. Now” (Atlantic City volta de novo à vida. Agora). É evidente que um tal tema nas mãos de Altman ou Pollack, para só nomear dois americanos que por vezes se recordam enquanto se assiste à projecção desta obra, fariam deste argumento um filme um pouco mais sugestivo. Cremos que sim. Alguns aspectos são algo esquemáticos, como por exemplo o casal de traficantes de droga que surge na cidade. Mas Louis Malle aproxima-se bastante do tom exacto e da emoção precisa em muitas sequências, e conta mesmo com uma cena de antologia: a confissão do velho Lou (já lhe ouvimos chamar “O Leopardo” de Atlantic City, e há alguma verdade na comparação) que recorda a Sally (Susan Sarandon) a forma como a espreitava pela janela e a via lavando os braços, os ombros e os seios, com sumo de um limão cortado, espremido, ao som de uma área de ópera. Voyeurismo senil, podem acusar. Melhor será pensar num desejo adormecido que a presença de Sally desperta. Estas são as amargas lágrimas de uma paixão impossível, de um desejo apenas realizável à distancia. Burt Lancaster e Susan Sarandon são aqui admiráveis e Louis Malle acrescenta um ponto precioso à sua filmografia.
Cremos que esta dolorosa confissão de amor e impotência valeria a deslocação, se algo mais não existisse. Mas existe, apesar de tudo. “Atlantic City” é um belíssimo filme, uma bela meditação sobre o crepúsculo de uma vida (de várias vidas), sobre a transformação de uma sociedade, sobre o renascer de uma cidade que “volta a estar no mapa”, depois de um longo período de lenta decadência. O que nos parece mesmo mais logrado nesta obra é precisamente esse interligar das histórias individuais com o destino de uma cidade.

ATLANTIC CITY, U.S.A.
Título original: Atlantic City
Realização: Louis Malle (EUA, 1980); Argumento: John Guare; Produção: Joseph Beaubien, Gabriel Boustiani, Denis Héroux, Justine Héroux, John Kemeny, Larry Nesis, Jean-Serge Breton; Música: Michel Legrand; Fotografia (cor): Richard Ciupka; Montagem: Suzanne Baron; Design de produção: Anne Pritchard; Decoração: Gretchen Rau; Guarda-roupa: François Barbeau; Maquilhagem: Donna Gliddon, Rita Ogden; Casting: Venetia Rickerby; Direcção de Produção: Micheline Garant, Ken Golden, Justine Héroux, Carl Zucker; Assistentes de realização: John Board, Jim Chory, John Desormeaux, Robert McCart, Patrick Burns; Departamento de arte: Jacques Chamberland, Charles Cirigliano, Wendell Dennis, Marcel Desrochers, Csaba András Kertész, Edward L. McMillan, Joe Petruccio Jr., Gretchen Rau, Raymond M. Samitz, Marie-Claude Tetrault; SoM: Jean-Claude Laureux, Jacques Maumont, Gilles Ortion; Companhias de produção: International Cinema Corporation (ICC), Selta Films, Canadian Film Development Corporation (CFDC), Cine-Neighbor, Selta Films, Famous Players Limited; Intérpretes: Burt Lancaster (Lou), Susan Sarandon (Sally), Kate Reid (Grace), Michel Piccoli (Joseph), Hollis McLaren (Chrissie), Robert Joy (Dave), Al Waxman (Alfie), Robert Goulet (Cantor); Moses Znaimer (Felix), Angus (Vinnie), Sean Sullivan (Buddy), Wallace Shawn, Harvey Atkin, Norma Dell'Agnese, Louis Del Grande, John McCurry, Eleanor Beecroft, Cec Linder, Sean McCann, Vincent Glorioso, Adèle Chatfield- Taylor, Tony Angelo, Sis Clark, Gennaro Consalvo, Lawrence McGuire, Ann Burns, Marie Burns, Jean Burns, Connie Collins, John Allmond, John J. Burns, Elias Koteas, etc. Duração: 104 minutos; Distribuição em Portugal inexistente; Cópia DVD: Spectra Nova (Brasil); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Novembro de 1981.


SUSAN SARANDON (1946 - )
Susan Sarandon é uma das actrizes norte americanas mais premiadas em todo o mundo. Na verdade, numa filmografia com mais de uma centena e meia de títulos, dispersos entre cinema e televisão, Susan consegue manter um nível de qualidade assinalável, escolhendo com critério os projectos em que embarca, muitos dos quais assinados seguramente por amigos e pertencentes, todos eles, a um pequeno círculo de personalidades ligadas ao cinema mais independente. Não quer dizer que Susan Sarandon não tenha entrado em obras abertamente comerciais e mais industrializadas, mas o seu pendor é objectivamente trabalhar com cineastas menos ligados às estruturas dos grandes estúdios, ou se o estão, senhores de um perfil que lhes permita uma certa autonomia. Susan Abigail Tomalin é o seu nome de baptismo. Nasceu em Nova Iorque a 4 de Outubro de 1946, completando presentemente 68 anos. Casada com Chris Sarandon (1968–1979) e depois com Tim Robbins (1988-2010). Foi Oscar da Academia em 1996, com “Dead Man Walking”, e obteve mais quatro nomeações, por “Atlantic City” (1980), “Thelma & Louise” (1991), “Lorenzo's Oil” (1992) e “The Client“ (1994). Oito vezes nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Actriz e só o IMDB cobre 55 prémios e mais 49 nomeações. Susan é filha de Phillip Leslie Tomalin, de ascendência irlandesa, inglesa e galesa, e de Lenora Marie Criscione, italiana da Sicília. Cresceu no interior de família católica com nove filhos. Formou-se em 1964, na Edison High School e estudou na Universidade Católica da América, em Washington DC (Artes). Foi na faculdade que conheceu Chris Sarandon, com quem se casou em setembro de 1967. Divorciaram-se em 1979, mas Susan continuou a usar o apelido. Em meados dos anos 80, manteve uma relação com o realizador italiano Franco Amurri, com quem teve uma filha, a actriz Eva Amurri, e conhecem-se ainda histórias amorosas com o actor Sean Penn e o realizador Louis Malle (com quem trabalhou em “Pretty Baby” e “Atlantic City”), além do cantor David Bowie, com quem contracenou em “The Hunger”. Desde 1988, Sarandon vive com o actor Tim Robbins, que conheceu nas filmagens de “Bull Durham”. O casal teve dois filhos: Jack Henry e Miles Guthrie. Já separados, tanto ela quanto Robbins eram personalidades ligadas a movimentos sociais e políticos. No dia 23 de Dezembro de 2009, o casal anunciou sua separação, publicada pela revista “People”.

Filmografia
Como actriz / Cinema: 1970: Joe (Joe), de John G. Avildsen; 1971: La Mortadella (Mortadela), de Mario Monicelli; Fleur bleue ou The Apprentice de Larry Kent; 1974: Lovin' Molly (Os Amores de Molly), de Sidney Lumet; The Front Page (Primeira Página), de Billy Wilder; 1975: The Great Waldo Pepper (O Grande Circo), de George Roy Hill; The Rocky Horror Picture Show (Festival Rocky de Terror) de Jim Sharman; 1976: Dragonfly (Dragonfly), de Gilbert Cates; 1977: Chechered Flag or Crash (Loucos Sobre Rodas), de Alan Gibson; 1977: The Other Side of Midnight (O Outro Lado da Meia-Noite), de Charles Jarrott; The Last of the Cowboys, de John Leone; 1978: Pretty Baby (Menina Bonita), de Louis Malle; King of the Gypsies (O Herdeiro), de Frank Pierson; 1979: Something Short of Paradise (Uma Página de Amor), de David Helpern; 1980: Atlantic City (Atlantic City), de Louis Malle; Loving Couples (Amigos e Amantes), de Jack Smight; 1982: Tempest (Tempestade), de Paul Mazursky; 1983: The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott; 1984: The Buddy System, de Glenn Jordan; 1985: Compromising Positions, de Frank Perry; 1987: The Witches of Eastwick (As Bruxas de Eastwick), de George Miller; 1988: Bull Durham (Jogo a Três Mãos), de Ron Shelton; Sweet Hearts Dance (Corações em Jogo), de Robert Greenwald; 1989: A Dry White Season (Assassinato Sob Custódia), de Euzhan Palcy; January Man (Agarrem Este Detective), de Pat O'Connor; 1990: White Palace (Loucos de Paixão), de Luis Mandoki; 1991: Thelma & Louise (Thelma e Louise), de Ridley Scott; 1992: Bob Roberts (Bob Roberts - Candidato ao Poder), de Tim Robbins; The Player (O Jogador), de Robert Altman; Lorenzo's Oil (Acto de Amor) de George Miller; Light Sleeper (Perigo Incerto), de Paul Schrader; 1994: The Client (O Cliente) de Joel Schumacher; Little Women (As Mulherzinhas), de Gillian Armstrong; Safe Passage (Diário de uma Morte Anunciada), de Robert Allan Ackerman; 1995: Dead Man Walking (A Última Caminhada), de Tim Robbins; 1996: The Celluloid Closet de Robert Epstein; James and the Giant Peach (James e o Pêssego Gigante Spider), de Henry Selick (voz); 1998: Twilight (A Hora Mágica) de Robert Benton; Stepmom (Lado a Lado) de Chris Columbus; Illuminata (Illuminata), de John Turturro; 1999: Cradle Will Rock (América - Anos 30), de Tim Robbins; Anywhere But Here (A Minha Mãe, Eu e a Minha Mãe), de Wayne Wang; Our Friend, Martin (Video); 2000: Joe Gould's Secret, de Stanley Tucci; Rugrats in Paris: The Movie - Rugrats II, de Stig Bergqvist (voz); 2001: Cats & Dogs (Como Cães E Gatos), de Lawrence Guterman (voz); Last Party 2000, de Rebecca Chaiklin, Donovan Leitch Jr. (documentário); 2002: Moonlight Mile (Sonhos Desfeitos), de Brad Silberling; The Banger Sisters (As Manas Rock), de Bob Dolman; 2002: Igby Goes Down (A Estranha Vida de Igby), de Burr Steers; Little Miss Spider (Curta-metragem, Narradora); 2004: Jiminy Glick in Lalawood, de Vadim Jean; Noel (Um Milagre de Natal), de Chazz Palminteri; Alfie (Alfie), de Charles Shyer; Shall We Dance? (Vamos Dançar?), de Peter Chelsom; 2005: Elizabethtown (Elizabethtown), de Cameron Crowe; Sonnet 22 (Curta-metragem, Narradora); 2005: Romance & Cigarettes (Romance & Cigarros), de John Turturro; 2006: Irresistible (Irresistível), de Ann Turner; Bernard and Doris, de Bob Balaban; 2007: Mr. Woodcock (Um Padrasto para Esquecer!), de Craig Gillespie; Emotional Arithmetic (Aritmética Emocional), de Paolo Barzman; Enchanted (Uma História de Encantar), de Kevin Lima; In the Valley of Elah (No Vale de Elah), de Paul Haggis; 2008: Speed Racer, de Andy e Lana Wachowski; Middle of Nowhere (Um Amor de Verão), de John Stockwell; 2009: The Greatest (Sem Ti), de Shana Feste; Leaves of Grass, de Tim Blake Nelson; Solitary Man (Eterno Solteirão), de Brian Koppelman e David Levien; The Lovely Bones (Visto do Céu), de Peter Jackson; One Million Strong (Curta-metragem) (voz); 2010: Peacock, de Michael Lander; Wall Street: Money Never Sleeps (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme), de Oliver Stone; La Mama: An American Nun's Life in a Mexican Prison (Vídeo, curta-metragem, narradora); 2011: Jeff Who Lives at Home (Jeff - O Solteirão), de Jay Duplass e Mark Duplass; Fight for Your Right Revisited (Curta-metragem); 2012: Arbitrage (Arbitrage - A Fraude), de Nicholas Jarecki; That's My Boy (Pai Infernal), de Sean Anders; Robô & Frank, de Jake Schreier; Cloud Atlas (Cloud Atlas), de Tom Tykwer e Andy e Lana Wachowski; The Company You Keep (Regra de Silêncio), de Robert Redford; 2013: The Big Wedding (O Grande Dia), de Justin Zackham; Snitch (Snitch - Infiltrado), de Ric Roman Waugh; Irwin and Fran, de Jordan Stone; Ping Pong Summer, de Michael Tully; The Last of Robin Hood, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland; Hell and Back de Tom Gianas e Ross Shuman; (voz); 2014: Tammy, de Ben Falcone;2014: The Calling (Perseguição Perigosa), de Jason Stone; 2015 Kid Witness, de Kevin Kaufman; Hell & Back, de Tom Gianas, Ross Shuman; Three Generations, de Gaby Dellal; Slipping Away (Curta-metragem);2016: The Death and Life of John F. Donovan, de Xavier Dolan; Mothers Day, de Paul


Televisão: 1951: Search for Tomorrow; 1970: A World Apa; 1971 Owen Marshall, Counselor at Law; 1972: Search for Tomorrow;1972-1974 Great Performances; 1973-1974 The Wide World of Mystery; 1973 Calucci's Department; The Satan Murders; F. Scott Fitzgerald and 'The Last of the Belles'; June Moon; The Rimers of Eldritch; The Whirlwind; 1982: Who Am I This Time; American Playhous; Faerie Tale Theatre; 1984: Oxbridge Blues; 1985: A.D.: Livilla; 1985: Mussolini and I; 1986: Women of Valor (Mulheres de Coragem); 1994: School of the Americas Assassins (Curta-metragem) Narrador; All-Star 25th Birthday: Stars and Street Forever!; 1995: Os Simpsons; 1997: The Need to Know, Narrador; 1998: For Love of Julian, Narrador; 1999 Goodnight Moon & Other Sleepytime Tales; Earthly Possessions) de James Lapine; 2000: Friends; 2001: Malcolm (A Vida é Injusta); 2003: Ice Bound: A Woman's Survival at the South Pole; Freedom: A History of Us; Children of Dune; 2005: The Exonerated; 2006: Rescue Me; 2007: Bernard and Doris; 2009: Serviço de Urgência (ER); 2009-2011 Saturday Night Live; 2010: You Don't Know Jack, de Barry Levinson; 2011: 30 Rock; The Miraculous Year; 2012: The Big C; 2013: Mike and I; Doll & Em; 2015: The Secret Life of Marilyn Monroe; 2016: Graves. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SESSÃO ESPECIAL 25 DE DEZEMBRO DE 2016 / 17 HORAS

SESSÃO ESPECIAL DE NATAL
Dia 25 de Dezembro 17 horas

MARY POPPINS (1964)


“Mary Poppins” é um filme que se integra perfeitamente nas categorias do maravilhoso e da fantasia. Na verdade, Mary Poppins é uma fada e o filme um conto de fadas, onde uma delas desce à Terra, não a cavalo numa vassoura, como é tradicional das bruxas, mas a reboque de um guarda-chuva e trazendo na mão uma maleta mágica de onde, sempre que necessário, saem os mais desencontrados objetos.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS
A rodagem deste filme parece ter estado envolta num oceano de problemas, o que, curiosamente, foi recentemente contado (versão dos estúdios produtores, obviamente) num filme de John Lee Hancock (2013), “Ao Encontro de Mr. Banks” (Saving Mr. Banks). O filme estreou em Janeiro de 2014 em Portugal e, nessa altura, escrevi sobre o mesmo um texto que talvez ajude a recordar os conflitos surgidos durante os vinte anos que mediaram entre o interesse inicial de Walt Disney em adaptar as obras de Pamela Lyndon Travers, escritora que criou “Mary Poppins”, e a data da estreia do filme: “P.L. Travers assinava assim o seu trabalho literário para encobrir o facto de ser mulher. Na verdade, fora baptizada com o nome de Helen Lyndon Goff e nascera na Austrália, em Maryborough, Queensland, a 9 de Agosto de 1899, vindo a morrer em Londres, a 23 de Abril de 1996. Quando tinha sete anos, o pai faleceu, um acontecimento que para sempre marcaria a jovem. Desde muito nova que se dedicou à poesia, tornando-se escritora, jornalista e passando mesmo pelo teatro, como actriz. Andou pela Austrália e pela Nova Zelândia, em tournée, depois viajou até à Irlanda, onde conheceu vários poetas e escritores, passando a Londres, onde se instala. Publica, em 1934, “Mary Poppins”, que rapidamente se tornou um sucesso retumbante. 
Em Hollywood, as filhas de Walt Disney leem o livro e adoram. O pai promete-lhes que o vai adaptar ao cinema. Entra em contacto com a escritora, que nem quer ouvir falar em adaptações, detesta musicais e tem horror a “bonecos animados”. Durante vinte anos, trocam cartas e nem um nem outro desiste dos seus intentos. “Saving Mr. Banks” é, pois, a história de dois teimosos que se enfrentam para cumprir promessas. Ele quer adaptar a cinema o livro para cumprir o que jurara às filhas, ela não quer ceder para se manter fiel à promessa que fizera a si própria. 
A determinada altura da vida de P.L. Travers, as receitas literárias começam a diminuir e o seu agente convence-a a viajar até Los Angeles. Isso acontece em 1961. Como se calcula, a escritora começa por detestar a cidade e o encontro com Walt Disney é desastroso. A autora de “Mary Poppins” revela-se uma velhota ácida, fria, distante, agressiva, nada cooperante, mostra que está a fazer um frete insuportável. As reuniões com argumentistas, compositor, letristas, produtores, secretárias and so on, são lendárias. A má disposição e o negativismo de P.L. Travers julgar-se-iam inultrapassáveis. Se o tivessem sido, não haveria agora este filme, nem “Mary Poppins” com pinguins em desenho animado, a dançarem em redor de Dick Van Dyke. Mas, lentamente, vai cedendo aos encantos do lugar e das personagens e talvez também ao cansaço. O filme faz-se, estreia-se em 1964, é um triunfo, mas ela mantém as reservas e não permite a Walt Disney aproveitar nenhuma das quatro sequelas que, entretanto, escrevera e editara com a sua Mary Poppins como protagonista. Fim de história, que não contém nenhum suspense especial, pois é do conhecimento geral. Faz parte da História. Este é mais um filme que ficciona factos reais. 
John Lee Hancock, o realizador, é igualmente um argumentista de algum sucesso, tendo assinado, enquanto tal, algumas obras muito interessantes, como “Um Mundo Perfeito” e “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”, ambas rodadas por Clint Eastwood, tendo dirigido como realizador “The Rookie - O Treinador”, “Álamo” e “Um Sonho Possível”, antes de se entregar a este “Ao Encontro de Mr. Banks”. Nada de particularmente excitante, o mesmo acontecendo agora, ainda que neste último caso, a história tenha a sua graça, e os intérpretes sejam excelentes. Emma Thompson compõe um retrato inspirado desta insuportavelmente irritante P.L. Travers; Tom Hanks é um Walt Disney impecável, talvez demasiado “politicamente correcto” (mas que dizer, se a produção é dos seus estúdios e herdeiros?); Annie Rose Buckley é uma miudinha adorável, que as asperezas da vida transformaram na agreste escritora; Colin Farrell é o pai destemperado que morre cedo e deixa um rasto de tristeza na filha; Ruth Wilson é a sacrificada mãe; Paul Giamatti é admirável como motorista particular de Travers, e por aí fora. Só pelas interpretações merece a pena as duas horas de visionamento. Mas a produção é cuidada, os aspectos técnicos estão à altura da casa produtora e o resultado final é mais um daqueles filmes para “toda a família” a que estes estúdios nos habituaram há longas décadas. 
Para quem gosta de cinema e de espreitar os bastidores das produções de Hollywood, este é mais um aspecto a ter em conta. O que coloca algumas objecções ao produto será, por um lado, o ar muito bem-comportado de toda a gente, o que nos permite supor que os argumentistas (Kelly Marcel e Sue Smith) adocicaram muito a realidade e, por outro, uma estrutura narrativa, tipo sanduíche, com duas histórias entremeadas a decorrer em simultâneo, por um lado a juventude de P.L. Travers na Austrália, por outro lado o encontro desta com Disney em Hollywood. Obviamente que se percebe o porquê da opção: a história da juventude de P.L. Travers é a base para a compreensão do seu comportamento ao longo da vida. Mas o esquema acaba por ser um pouco enfadonho, por repetitivo. Globalmente, é um espectáculo que se vê com agrado, mas não muito mais do que isso. O que já não é pouco se lhe acrescentarmos o brilhantismo das representações.


MARY POPPINS
Resolvidos a bem ou a mal os problemas resultantes da adaptação, aí temos o filme. Walt Disney, ao contrário do que muita gente julga, só foi realizador dos filmes que surgiram com a sua chancela entre 1921 e 1935, sendo que dirigiu sobretudo curtas-metragens, aqueles “desenhos animados” que antecediam o filme principal, durante várias décadas nas sessões normais de cinema (antes da chegada das sessões contínuas que só deixam lugar ao filme principal e aos trailers das futuras estreias). À medida que a sua marca ganhou prestígio e sucesso comercial, Disney passou a ser sobretudo o produtor, mas um produtor com poder absoluto sobre os produtos saídos da sua fábrica. Foi na condição de produtor que ergueu o projecto “Mary Poppins”, estreado um ano depois da longa-metragem de animação “A Espada Era a Lei” (The Sword in the Stone). Os estúdios encontravam-se num dos seus períodos de ouro e Walt Disney entregou a realização deste filme em imagem real, mas com algumas sequências que misturam figuras humanas e desenho animado, a Robert Stevenson, um homem da casa, muito habituado aos chamados filmes para toda a família. Na Broadway, descobriu uma jovem que nunca tinha feito cinema e se encontrava nos palcos de Nova Iorque a interpretar “Camelot”. Antes tinha pensado em Bette Davis ou Angela Lansbury. Estava encontrada a fada que nos daria, em anos sucessivos, esta “Mary Poppins” e “Música no Coração”. Uma fada Midas com mãos de ouro que transformava em desmedido lucro tudo em que cantava.
“Mary Poppins” ambienta-se em Londres, 1910, centrando-se sobre uma família de classe média-alta, o pai banqueiro, a mãe sufragista, e os dois filhos deixados ao Deus dará pelos superiores interesses dos pais. As governantas não duravam uma semana nas mãos dessas crianças rebeles até ao dia em que entra uma nova ama pela porta dentro, com chapéu de chuva na mão e mala. E tudo se modifica como por magia, porque afinal de magia se trata. A ama-fada transforma rapidamente os insubordinados miúdos em ternurentos adolescentes, os pais interiorizam a suas falhas, não sem antes passarem por alguns apertos que mostraram bem como se comportam os banqueiros quando deixados a solo. Mas num filme “para toda a família” tudo tem de terminar bem, o que acaba por acontecer com a sua lição de moral bem estudada e aplicada a preceito, para o capital e para a rebeldia, para o pai banqueiro e para a mãe sufragista.
A história é importante, claro, mas o que parece sobretudo ficar depois da saída da sala escura (hoje em dia é mais depois de desligar o aparelho de tv), é o tom do filme, o que é dado sobretudo pelas canções e pelos números coreografados (1). Este é um filme que procura puxar para cima, mostrar o lado bom da vida, defender a família e abandonar os egoísmos pessoais e colectivos. Numa das canções do filme (hoje muito politicamente incorrecta, diga-se de passagem, mas que importa?), Mary Poppins explica que se tens de tomar um remédio azedo, uma colher de açúcar ajuda. Depois temos o lado tenebroso dos banqueiros, todos vestidos de negro, velhos e rançosos, enterrados numa avareza sem escrúpulos. O lado oposto à limpidez luminosa de Mary Poppins e do seu mundo. Moralismo fácil? Sim, é capaz de ser, mas com grande qualidade técnica e artística, o que o torna não só suportável, como bem-vindo.
De um ponto de vista musical, os irmãos Robert e Richard Sherman encontravam-se num momento de rara inspiração que galvanizou a restante equipa para transformar em momentos inesquecíveis alguns números: “Chim Chim Che-ree”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção do ano, abre para o fabuloso bailado nos telhados de Londres, por entre uma floresta de chaminés, onde os limpa-chaminés se apresentam como anjos da guarda dos outros frágeis humanos que lá por baixo labutam no seu dia a dia. O famoso “Supercalifragilisticexpialidocious”, que quase ninguém repete, mas que todos gostaríamos de cantar como o faz a deliciosa Julie Andrews, é outro momento magnífico, tal como “A Spoonful of Sugar”, cuja moralidade já foi referida, ou “Feed the Birds”, a nostálgica balada da velha que à porta do banco dá comida aos pombos. Claro que o filme não é só Julie Andrews e a presença, a seu lado, do multifacetado Dick Van Dyke é uma outra aposta ganha. Dick Van Dyke, na figura do limpa-chaminés Bert, canta, dança, faz de homem orquestra, pinta no chão do parque, além de, obviamente, limpar as chaminés da cidade e de praticar o bem. Ele é o chefe de bailado do espantoso número nos telhados da cidade, no tema musical “Step In Time”. Mas também será ele que vai dançar na sequência dos pinguins de animação. Memorável, apesar da rabugenta P.L. Travers não gostar de animação! Conhecerá outro grande sucesso, em 1968, como protagonista de um novo musical, “Chitty Chitty Bang Bang”, sob a direcção de Ken Hughes. Mas este “Mary Poppins” é o seu momento de suprema glória, senão atente-se no estupendo boneco extra que ele compõe como dono do banco. David Tomlinson e Glynis Johns formam o casal Banks, e os miúdos são Karen Dotrice e Matthew Garber.
A Londres de 1910 foi reconstruída em minúcia nos estúdios Disney da Califórnia, numa demonstração de virtuosismo cenográfico notável. Mas tecnicamente “Mary Poppins” é ainda hoje um prodígio que desafia o tempo e vai passando de geração em geração com o mesmo brilho. Fotografia, som, montagem, efeitos especiais tudo funciona na perfeição nesta obra que, quando Mary Poppins se eleva nos céus de Londres para partir para novo destino (novo filme não, porque a radical P.L. Travers não permitiu), não é só a família Banks que fica com saudades, mas sim (quase) todos os espectadores. Não direi todos porque há os que acham “Mary Poppins” uma aberração moralista. Pois sim, está bem, deixem-me um pouco de açúcar, apesar dos diabetes.

Principais canções e números musicais: de “Mary Poppins”: Spoonful Of Sugar, Chim Chim Cher-Ee, Perfect Nanny, Step In Time, Sister Suffragette, Supercalifragilisticexpialidocious, Fidelity Fiduciary Bank, Practically Perfect, Let's Go Fly A Kite, I Love To Laugh, Jolly Holiday, Feed The Birds, Pavement Artist, The Life I Lead, Cherry Tree Lane, The Day I Fall In Love


MARY POPPINS (1964)
Título original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson (EUA, 1964); Argumento: Bill Walsh, Don DaGradi, segundo P.L. Travers (“The "Mary Poppins"); Produção: Bill Walsh, Walt Disney; Música: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Edward Colman; Montagem: Cotton Warburton; Guarda-roupa: Gertrude Casey, Chuck Keehne, Bill Thomas, Tony Walton, Luster Bayless; Direcção artística: Carroll Clark, William H. Tuntke; Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri; Maquilhagem: La Rue Matheron, Pat McNalley; Coreografia: Marc Breaux, Dee Dee Wood;  Assistentes de realização: Paul Feiner, Joseph L. McEveety, Arthur J. Vitarelli, Tom Leetch; Departamento de arte: McLaren Stewart, Tony Walton, Will Ferrell, Al Gaynor; Som: Robert O. Cook, Dean Thomas; Efeitos especiais: Peter Ellenshaw, Eustace Lycett, Robert A. Mattey; Efeitos visuais: Bob Broughton, Art Cruickshank, Lee Dyer; Animação: Hal Ambro, Jack Boyd, Al Dempster, Don Griffith, Ollie Johnston, Milt Kahl, Ward Kimball, Eric Larson, Bill Layne, John Lounsbery, Hamilton Luske, Cliff Nordberg, Art Riley, Frank Thomas, Frank Armitage, Joe Hale, Fred Hellmich, Art Stevens, Julius Svendsen; Companhia de produção: Walt Disney Productions; Intérpretes: Julie Andrews (Mary Poppins), Dick Van Dyke (Bert / Mr. Dawes Senior, David Tomlinson (Mr. Banks), Glynis Johns (Mrs. Banks), Hermione Baddeley (empregado), Reta Shaw (empregada), Karen Dotrice (Jane Banks), Matthew Garber (Michael Banks), Elsa Lanchester (Katie Nanna), Arthur Treacher, Reginald Owen, Ed Wynn, Jane Darwell, Arthur Malet, James Logan, Don Barclay, Alma Lawton, Marjorie Eaton, Marjorie Bennett, Walter Bacon, Frank Baker, Robert Banas, Marc Breaux, Art Bucaro, Daws Butler, Cyril Delevanti, George DeNormand, Harvey Evans, Paul Frees, Betty Lou Gerson, Clive Halliday, Sam Harris, David Hillary Hughes, Bill Lee, Queenie Leonard, Doris Lloyd, Lester Matthews, Sean McClory, Mathew McCue, Dal McKennon, Hans Moebus, King Mojave, Alan Napier, Marni Nixon, J. Pat O'Malley, George Pelling, Thurl Ravenscroft, Richard M. Sherman, Bert Stevens, Hal Taggart, Larri Thomas, Ginny Tyler, etc. Duração: 139 minutos; Distribuição em Portugal (DVD e Blu-ray): Walt Disney; Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 15 de Dezembro de 1965.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS 
Título original: Saving Mr. Banks 

Realização: John Lee Hancock (EUA, Inglaterra, Austrália, 2013); Argumento: Kelly Marcel, Sue Smith; Produção: Ian Collie, Mark Cooper, K.C. Hodenfield, Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Alison Owen, Philip Steuer, Paul Trijbits; Música: Thomas Newman; Fotografia (cor): John Schwartzman; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Ronna Kress; Design de produção: Michael Corenblith; Direcção artística: Lauren E. Polizzi; Decoração: Susan Benjamin; Guarda-roupa: Daniel Orlandi, Catherine Childers, Deborah La Mia Denaver, Julie Hewett, Frances Mathias; Direcção de Produção: Andrew C. Keeter, Philip Steuer, Todd London; Assistentes de realização: Paula Case, Clark Credle, K.C. Hodenfield, Jeff Okabayashi, Stuart Renfrew; Departamento de arte: Lorrie Campbell, Martin Charles, Steve Christensen, Mike Piccirillo, Terry Scott, Sally Thornton; Som: Yann Delpuech, Jon Johnson, David M. Roberts; Efeitos especiais: J.D. Schwalm; Efeitos visuais: Vincent Cirelli, Justin Johnson, Lauren Miyake, Simon Mowbray, Luma Pictures; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, Ruby Films, Essential Media & Entertainment, BBC Films, Hopscotch Features; Intérpretes: Emma Thompson (P.L. Travers), Tom Hanks (Walt Disney), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travers Goff), Ruth Wilson (Margaret Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DaGradi), B.J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Lily Bigham (Biddy), Kathy Baker (Tommie), Melanie Paxson (Dolly), Andy McPhee (Mr. Belhatchett), Rachel Griffiths (Tia Ellie), Ronan Vibert (Diarmuid Russell), Jerry Hauck, Laura Waddell, Fuschia Sumner, David Ross Paterson, Michelle Arthur, Michael Swinehart, Bob Rusch, Paul Tassone, Luke Baines, Demetrius Grosse, Steven Cabral, Kimberly D'Armond, Mia Serafino, Claire Bocking, Dendrie Taylor, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Janeiro de 2014.