GINGER
E FRED (1986)
“Ginger e Fred” estava destinado inicialmente
a ser um episódio de uma série televisiva de que fariam parte, entre outros
realizadores, Michelangelo Antonioni e Franco Zeffirelli. O projecto televisivo
gorou-se, mas Fellini, mercê de contactos internacionais, conseguiu levar o seu
filme avante, e o resultado, na sua simplicidade e linearidade de processos,
parece-nos ser uma obra admirável, de grande sentido crítico e poético, retrato
impiedoso do nosso tempo, dominado pela televisão, pelo terrorismo
internacional, pela instabilidade (de que é exemplo, esse “monstruoso” programa
de televisão, onde se exploram - e se especula - velhas glórias do passado,
agora reduzidas a ruínas). Mas o olhar de Fellini transcende o grotesco, a sua
ternura invade tudo e todos, localizando-se preferencialmente nessa galeria de
vítimas da engrenagem televisiva, actores e convidados de um “show” onde os
“freaks” não se encontram afinal onde a uma primeira vista parecem estar, mas,
muito pelo contrário, por detrás das câmaras, movimentando os cordelinhos do
desencanto e da humilhação. Em 1986, Fellini intuía no que se poderia
transformar a televisão, mas não conseguia, apesar de tudo, ir tão longe na sua
premonição quanto a própria televisão o faria na realidade, anos mais tarde. Na
época da estreia, escrevi sobre o filme que, “muito embora algumas situações
excessivas (e que se sentem sobretudo na primeira parte)”, gostava muito da
obra. Inocente que eu era, quando referia os excessos dessa televisão medonha e
omnipresente. Afinal Fellini pecava, se pecava, por defeito, não por
excesso.
Amelia Bonetti (Giulietta
Masina) e Pippo Botticella (Marcello Mastroianni) constituíram uma parelha de
bailarinos italianos que tiveram alguma glória nos anos 40, na sua juventude,
apresentando-se a imitar Ginger Rogers e Fred Astaire, num número de certo
sucesso chamado precisamente "Ginger e Fred". Trinta anos depois de
se terem separado, regressam, por entre dúvidas e angústias, para recordarem
esses tempos frente aos telespectadores, depois de uma estação de televisão de
Roma os convidar para voltarem a apresentar o seu número num programa de fim de
ano. Entre as reminiscências do passado e os problemas das suas vidas
particulares, a dupla ainda tenta apresentar o seu número como nos velhos
tempos, mas vêem esta intenção frustrada ao confrontarem-se com o universo frio
e mecânico dos bastidores da TV. Tudo mudou, nada é como dantes. Isso percebe
Amélia logo que é recebida na estação de caminho-de-ferro por uma assistente de
produção que recolhe aqui e ali os corpos dos participantes do grande show de
Natal para os transportar para um hotel de terceira, onde irão esperar pelo dia
e a hora de prestarem provas, de tentarem recuperar o tempo perdido ou de
assegurar a raridade do seu projecto, quer sejam velhos bailarinos, músicos
anões, transexuais, gloriosos almirantes, imitadores de profissão. Para o
pessoal da televisão, bem assim como para todos os que fazem o programa, cada
um desses destroços da vida nada mais é do que uma nova concepção de carne para
canhão, palhaços baratos para ocuparem tempo e ganhar audiência com exotismos
de feira. Um novo circo dos horrores, uma nova parada de “freaks” se anuncia.
Cada um deles irá apresentar o seu número e regressar a suas casas mais
despojados de si do que nunca, depois dos seus 5 minutos de efémera glória num
estúdio de televisão. No caso de “Ginger e Fred”, a falta de luz durante a
exibição permite-lhes um momento de hesitação, com Pippo Botticella a propor
uma retirada estratégica e Amelia Bonetti a procurar levar o revivalismo até ao
fim. O que acontece. Será na estação de caminhos-de-ferro que ambos de
despedem, provavelmente para sempre. Definitivamente para sempre de “Ginger e
Fred”.
Dir-se-ia que Fellini afinal,
para criticar a televisão (sobretudo a televisão privada, que já por essa
altura enxameava a Itália, alargando depois a sua influência a toda a Europa e
todo o mundo), explora, ele também, o mesmo universo. Mas a verdade é que, para
explorados e ofendidos, só existe no olhar do cineasta um profundo calor, uma
enorme ternura, a compreensão, o amor, enquanto as câmaras de TV avançam para
as suas personagens como ameaçadoras silhuetas de tanques. Fellini reencontra
aqui o seu universo mais querido e mais pessoal: o mundo do espectáculo, com as
suas luzes e as suas sombras, a memória, as vítimas indefesas de uma sociedade
hostil e arrogante para com os mais fracos. Estas são as novas “Luci dei
Varietá”.
GINGER E FRED
Título original: Ginger & Fred
Realização: Federico Fellini
(Itália, França, RFA, 1986); Argumento: Federico Fellini, Tonino Guerra, Tullio
Pinelli; Música: José Padilla, Nicola Piovani, e ainda Irving Berlin (canção
"Let's Face the Music and Dance"); Fotografia (cor): Tonino Delli
Colli, Ennio Guarnieri; Montagem: Nino Baragli, Ugo De Rossi, Ruggero
Mastroianni; Casting: Gianni Arduini; Design de produção: Dante Ferretti;
Direcção artística: Nazzareno Piana; Decoração: Gianfranco Fumagalli, Angelo
Santucci; Guarda-roupa: Danilo Donati;
Maquilhagem: Adriano Carboni, Rino Carboni, Adonella De Rossi, Massimo De
Rossi, Renato Francola, Alfredo Tiberi; Direcção de produção: Franco Coduti,
Raymond Leplont, Tullio Lullo, Roberto Mannoni, Franco Marino, Walter Massi,
Fernando Rossi, Viero Spadoni; Assistentes de realização: Gianni Arduini,
Daniela Barbiani, Eugenio Cappuccio; Departamento de Arte: Giuliano Geleng,
Rinaldo Geleng, Luigi Sergianni, Italo Tomassi; Som: Fabio Ancillai, Fausto
Ancillai, Mark Headley, Sergio Marcotulli, Tommaso Quattrini; Efeitos
especiais: Adriano Pischiutta; Produção: Heinz Bibo, Alberto Grimaldi; Intérpretes: Giulietta Masina (Amelia
Bonetti - Ginger); Marcello Mastroianni (Pippo Botticella - Fred), Franco
Fabrizi (Apresentador de Show), Frederick Ledebur (Almirante Aulenti), Augusto
Poderosi (Travesti), Martin Maria Blau (Assistente de realizador), Jacques
Henri Lartigue (Padre Gerolamo), Totò Mignone (Totò), Ezio Marano
(Intelectual), Antoine Saint-John, Friedrich von Thun, Antonio Iuorio, Barbara Scoppa,
Elisabetta Flumeri, Salvatore Billa, Ginestra Spinola, Stefania Marini,
Francesco Casale, Gianfranco Alpestre, Filippo Ascione, Elena Cantarone, Cosima
Chiusoli, Claudio Ciocca, Sergio Ciulli, Roberto De Sandro, Vittorio De
Bisogno, Fabrizio Fontana, Laurentina Guidotti, Giorgio Iovine, Danika La
Loggia, Isabelle Therese La Porte, Luigi Leoni, Luciano Lombardo, Mariele
Loreley, Elena Magoia, Franco Marino, Mauro Misul, Jurgen Morhofer, Pippo
Negri, Antonietta Patriarca, Nando Pucci Negri, Luigi Rossi, Franco Trevisi,
Patti Vailati, Narciso Vicario, Hermann Weisskopf, Daniele Aldrovandi, Ennio
Antonelli, Claudio Botosso, Eolo Capritti, Mario Conocchia, Gabriella Di Luzio,
Barbara Montanari, Federica Paccosi, Alessandro Partexano, Leonardo Petrillo, Moana
Pozzi, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em
Portugal: Lusomundo Audiovisuais/VHS; Classificação etária: M/ 12 anos.
GIULIETTA MASINA (1920-1994)
Giulia
Anna Masina nasceu a 22 de Fevereiro de 1920, em San Giorgio di Piano, na
província de Bolonha, Itália, e viria a falecer em Roma, a 23 de Março de 1994,
com 74 anos. Filha de Gaetano Masina, violinista e professor de música, e de
Angela Flavia Pasqualin, professora, passou boa parte de sua adolescência em
Roma com uma tia viúva. Estudou Letras e Filosofia na Universidade de Roma, mas
durante os estudos a sua paixão era já o teatro e a arte de representar. Entre
1941 e 1942, participou em vários espetáculos de prosa, dança e música no
teatro universitário. Trabalha na rádio, onde encontra Fellini, que escreve os
textos. Em 30 de Outubro de 1943, casa-se com Federico Fellini, com quem
trabalha intensamente durante alguns anos. No cinema, estreia-se em 1946 com um
pequeno papel na obra de Roberto Rossellini “Paisà”. Dois anos mais tarde,
obtém o primeiro papel importante no filme “Senza pietà”, de Alberto Lattuada.
Mas alcança o sucesso internacional com a figura de Gelsomina, em “La Strada”
(1954), e depois com o de Cabiria, em “Le notti di Cabiria” (1957), este último
que lhe traria o prémio de Melhor Actriz no Festival de Cannes. Ambos dirigidos
por Fellini que considerava Giulietta Masina a sua “musa” e a sua “inspiração”.
Criou personagens entre o drama e a comédia, na linha do herói de Chaplin, que
a tornaram incomparável.
Fellini
morreu a 31 de Outubro de 1993, com 73anos, Giulietta Masina sobrevive-lhe
apenas alguns meses. Morre de cancro de pulmão, a 23 de Março de 1994, com 74
anos. No funeral, o trompetista Mauro Maur tocou, a seu pedido, o tema de “La
Strada”, de Nino Rota. Ela e Fellini tiveram momentos bons e maus, mas foi uma
história de amor imortal.
Filmografia:
Como actriz: 1946: Paisà (Libertação) de
Roberto Rossellini; 1948: Senza pietà (Sem Piedade) de Alberto Lattuada; 1950:
Luci del varietà, de Federico Fellini; 1951: Sette ore di guai (Sete Horas de
Sarilhos), de Vittorio Metz e Marcello Marchesia; Cameriera bella presenza
offresi... (Criada, Oferece-se...), de Giorgio Pàstina; Persiane chiuse
(Persianas Corridas), de Luigi Comencini; 1952: Wanda la peccatrice (Wanda, a Pecadora),
de Duilio Coletti; Il romanzo della mia vita, de Lionello De Felice; Lo sceicco
bianco (O Sheik Branco), de Federico Fellini; Europe ‘51 (Europa 51), de
Roberto Rossellini; 1953: Ai margini della metropoli (À Margem da Metrópole) de
Carlo Lizzani; Via Padova 46 (A Minha Aventura de Amor), de Giorgio Bianchi;
1954: Donne proibite (Vidas Proibidas), de Giuseppe Amato; Cento anni d'amore
(Cem Anos de Amor), filme em episódios de Lionello de Felice, episódio
“Purification”; La Strada (A Estrada), de Federico Fellini; 1955: Buonanotte...
avvocato! (Não Venhas Tarde), de Giorgio Bianchi; 1955: Il bidone (O Conto do
Vigário), de Federico Fellini; 1957: Le notti di Cabiria (As Noites de
Cabíria), de Federico Fellini; 1958: Fortunella, de Eduardo De Filippo; 1958:
Nella città dell'inferno (As Grades do Inferno) de Renato Castellani;1959: Jons
und Erdme, de Victor Vicas; 1960: Das Kunstseidene Mädchen, de Julien
Duvivier;1965: Giulietta degli spiriti (Julieta dos Espíritos), de Federico
Fellini; 1966: Scusi, lei è favorevole o contrario? (Como casar a nossa
filha?), de Alberto Sordi; 1967: Non stuzzicate la zanzara (Não Provoquem a
Rita), de Lina Wertmüller; 1969: The Madwoman of Chaillot (A louca de
Chaillot), de Bryan Forbes; 1973: Eleonora (TV); 1976: Camilla (TV); 1985:
Ginger e Fred (Ginger e Fred), de Federico Fellini; 1985: Sogni e bisogni, de
Sergio Citti (TV); Perinbaba, de Juraj Jakubisko; 1986: Frau Holle, de Juraj
Jakubisko; 1991: Aujourd'hui peut-être..., de Jean-Louis Bertuccelli.
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